Capítulo 5
O que é ser um druida?
Era uma pergunta que faziam a Elliot com bastante frequência. Talvez porque os druidas não fossem um grupo sobrenatural tão midiático, o que fazia muita gente não saber exatamente o que um druida fazia.
"Ah, vocês são tipo jardineiros mágicos?"
Ele já ouvira isso mais de uma vez.
E Elliot não podia culpá-los. Os assessores de imprensa e de imagem dos druidas pareciam não querer trabalhar — ou talvez nem existissem. Não havia muitos romances ou séries focados em druidas. E, quando apareciam, normalmente eram coadjuvantes. Nada de druidas se escondendo nas sombras, atacando vítimas ou as seduzindo com um jeito sombrio e enigmático. Nada de se transformarem em algum animal fantástico, com direito a tirar a roupa no processo.
Parecia que ninguém se interessava muito por pessoas que se comunicavam com plantas e animais, ou que faziam a grama crescer mais rápido. Não era algo muito fotogênico. Talvez no máximo em nível de princesa de conto de fadas — como Marcus sempre fazia questão de enfatizar.
Mas druidas eram muito mais do que isso!
Druidas, na verdade, estavam profundamente ligados aos ciclos da natureza. Não se resumiam apenas às plantas. A base de seu conhecimento vinha das árvores, dos astros, dos animais... Na verdade, existiam especialidades dentro do estudo druídico em todas essas áreas. No caso de Elliot e de sua família, eles haviam ficado na ala vegetal da coisa.
Mas, ali, os druidas tinham algo a mais.
A cidade de Verdelume, aliás, surgira tendo como base um vilarejo druida, rodeado por bosques sagrados e por um Conclave antigo destinado a preservar e ampliar o conhecimento do carvalho.
Mas a modernidade... Bem, muita coisa havia mudado.
Os bosques sagrados tinham sido reduzidos a alguns poucos parques administrados pelo Conclave, cercados pela urbanização crescente da cidade. Ainda assim, os druidas continuavam sendo considerados sábios e ocupavam uma posição privilegiada no conselho de Verdelume.
Mas muitos reclamavam.
Afinal, no passado, eram apenas os druidas que ditavam as regras, com toda a sua sabedoria ancestral e tal.
Hoje, apesar de ainda ocuparem uma posição importante no conselho da cidade — e de carregarem todo aquele passado histórico, sagrado e cheio de carvalhos simbólicos —, os druidas às vezes eram relegados a pequenas tarefas como...
— ...Acredita que fomos chamados para analisar um jardim? — dizia um rapaz a frente, gesticulando com uma indignação quase teatral. — O que eles pensam que nós somos? Jardineiros mágicos? O grande Hector requisitado para um serviço tão trivial...
Hector era um rapaz de cabelos loiros impecavelmente arrumados, daqueles que pareciam nunca ser afetados por vento, chuva ou humildade. Tinha o maxilar bem desenhado, olhos claros e uma postura rígida demais, como se estivesse o tempo todo posando para uma pintura oficial intitulada Jovem Druida Promissor Observando os Pobres Mortais. Usava um terno cinzento com detalhes em verde discreto, elegante o bastante para parecer caro e formal o bastante para lembrar a todos que ele era importante. Ou, pelo menos, que queria muito que todos pensassem isso.
Elliot quase comentou: "Ah, sim, o negócio de jardineiros mágicos de novo." Mas ele não era assim tão íntimo de Hector — ou do "grande Hector", como o próprio gostava de se chamar, o que era cringe em níveis que deveriam ser estudados pelo Conclave.
Em vez disso, lançou um olhar para Francine.
Ela estava ao seu lado, silenciosa como sempre. Era mais baixa que Elliot, com pele cor de ébano, cabelos negros presos em tranças finas que caíam sobre os ombros e olhos verdes impressionantes, intensos demais para alguém que raramente usava a voz. Havia algo calmo nela, quase imóvel, mas não frágil. Francine tinha aquele tipo de presença que fazia parecer que estava sempre observando tudo, julgando em silêncio e provavelmente escrevendo uma nota mental muito precisa sobre cada idiotice dita ao redor.
Também usava um terno cinzento, o uniforme exigido pelo Conclave em missões oficiais. O corte era simples, mas impecável, com detalhes que indicavam sua posição na hierarquia: Druí Liath, Druida Cinzento, nível três.
Elliot evitava olhar para o próprio terno. O dele era verde. Só verde. Afinal, ele era um Glas Drui, um druida verde. Nível um. Basal. Iniciante.
E sempre achara aquele tom específico de verde uma afronta estética. Não era um verde bonito, musgo, floresta ou folha nova depois da chuva. Não. Era um verde cheguei, quase radioativo. Um verde "saída de emergência". Um verde "caneta marca-texto possuída por um espírito da fotossíntese".
E olha que Elliot gostava de verde. Mas existiam verdes e verdes.
Francine retirou o celular do bolso do casaco e começou a digitar com rapidez. Alguns segundos depois, o aparelho de Elliot vibrou.
Francine:
Hector está reclamando tanto, mas não se trata de qualquer jardim. É o jardim da prefeita da cidade. Logo, é algo de grande importância.
Outra mensagem chegou em seguida.
Francine:
Mas, lá no Conclave, ele fez questão de descrever para todos a missão que a tia dele lhe incumbiu. Se achava algo tão ruim, por que aceitou? Por que não recusou? Mas não. Ele não só aceitou como fez questão de que todos soubessem quem deu a missão a ele.
Elliot leu as mensagens e reprimiu um suspiro.
— Me surpreende que ele não queira fazer a missão sozinho — sussurrou para a amiga. — Quero dizer... por que nos envolver nisso?
Francine não era muito de falar. Mas, quando se tratava de escrever, era habilidosa, rápida e mortalmente objetiva. Logo, Elliot recebeu outra mensagem, mesmo ela estando bem ao seu lado.
Francine:
Parece que foi exigência da tia dele. Da chefe. Tinha que haver um auxiliar e uma parceira do mesmo nível. Então fui chamada.
— Mas e eu? Poderia ser qualquer auxiliar... — murmurou Elliot.
— Ei, auxiliar — chamou Hector, subitamente, estalando os dedos sem sequer olhar para ele. — Minha garrafa de água, sim?
O jovem druida verde soltou um suspiro.
Pegou a tal garrafa dentro da bolsa transversal que carregava. A bolsa de Hector, aliás. Porque, em algum momento entre "missão oficial" e "humilhação pública com crachá", Hector decidira que Elliot também funcionaria como cabide, carregador e serviçal portátil.
Elliot entregou a garrafa. Hector a recebeu sem agradecer.
Claro. A gratidão, aparentemente, ficava para druidas de nível mais alto.
— Bem, já estamos chegando... — disse Hector, jogando a garrafa para Elliot.
Elliot teve que se curvar para a frente, quase caindo de cara no chão para conseguir pegá-la.
— Você não precisa tratá-lo assim — Francine falou.
Momento raro.
Tão raro que até Hector parou para encará-la, erguendo suas sobrancelhas impecavelmente estilizadas.
— O quê? Assim como? — perguntou ele, com um sorriso nos lábios. — Ele é um auxiliar. Veio aqui para servir de suporte e, supostamente, para aprender com os mais experientes. Essa é a lógica dos druidas verdes que, aliás, normalmente são crianças e pré-adolescentes. Devo enfatizar. Algo que nosso querido Elliot aqui não é...
Elliot sentiu o soco invisível atingir seu peito.
— Tecnicamente, concederam esse título verde a ele porque são as regras — continuou Hector. — Mas Elliot falhou tantas vezes nos testes do Conclave que não deveria ter título nenhum. Tampouco deveria participar de missões. Mas eu fui muito complacente, não? Dando a ele esta oportunidade?
— Muito — falou Elliot, cheio de sarcasmo. — Eu me sinto muito agradecido.
— Viu? — disse Hector, parecendo não detectar o sarcasmo. Ou apenas o ignorando por completo.
Na verdade, ele simplesmente se virou e continuou andando pela alameda cheia de casas — ou melhor, mansões — no bairro mais chique de Verdelume.
Francine fechou a cara. Parecia prestes a falar alguma coisa ou apenas trucidar Hector com as próprias mãos. As duas opções pareciam igualmente possíveis.
Mas Elliot colocou a mão sobre o ombro da amiga e negou com a cabeça.
— Em parte, ele está certo...
A garota o encarou. Agora parecia que ela iria trucidá-lo também, mas Elliot foi mais rápido.
— Quero dizer, sobre as missões. Quase nunca sou chamado para nenhuma delas... Por causa da instabilidade da minha magia e tal. Mas, mesmo que seja só para me azucrinar, talvez isso seja uma oportunidade.
Francine cruzou os braços diante do peito e ergueu as sobrancelhas, com uma expressão incrédula.
— É, uma oportunidade, Fran! — insistiu Elliot. — Digo, para mostrar que não vou causar um desastre. Talvez isso até possa me render alguns pontos positivos no Conclave, não acha?
Francine pareceu refletir por um instante. Franziu o cenho, depois soltou um suspiro e assentiu.
— E só Pã sabe o quanto eu preciso ganhar pontos positivos por tolerar o grande ego do grande Hector... — acrescentou Elliot, em um sussurro.
Francine riu.
— Ei, vocês estão muito lentos! Levem esse trabalho a sério! — falou Hector, mais à frente, já parado diante de um grande portão de ferro.
O portão dava acesso a uma mansão de estilo gótico, que se destacava imediatamente das outras propriedades da rua. As demais mansões do bairro mais chique de Verdelume apostavam em metal, vidro, tons escuros, ângulos retos e aquele visual moderno e minimalista de quem queria dizer "tenho dinheiro" sem precisar usar palavras.
Aquela, não.
A mansão diante deles parecia ter escapado de um romance antigo com assassinatos misteriosos, heranças malditas e parentes excêntricos demais. Tinha telhados pontiagudos, janelas altas e estreitas, paredes de pedra escura e gárgulas observando o jardim inexistente com expressões de julgamento eterno. Meio sinistra, Elliot pontuou mentalmente. E, considerando que sua vida já envolvia magia instável, demônios contratuais e vergonha pública, aquilo era dizer muito.
Francine e Elliot apressaram o passo para acompanhar Hector, que não apertou a campainha para anunciar a presença deles. Estava ocupado olhando o próprio rosto no celular, talvez checando o visual.
Elliot revirou os olhos, adiantou-se e apertou o botão.
Um toque de sinos melódicos soou, acompanhado pelo chiado de estática vindo de um porteiro eletrônico na lateral do portão.
— Identificação.
Desta vez, foi Hector — depois de dar um empurrão leve, ou não tão leve assim, em Elliot — quem se adiantou.
— Aqui é Hector O'Brennan, enviado pelo Conclave Druídico de Verdelume em resposta à solicitação da senhora Pedrosa — anunciou.
O celular de Elliot vibrou.
Francine:
Ele não falou nossos nomes. Não foi só ele o enviado.
Elliot olhou de relance para a amiga. Francine digitava furiosamente no celular, apesar da expressão impassível.
Ele soltou um longo suspiro. Sem dúvida, aquela missão seria do tipo longa, estressante e possivelmente capaz de reduzir sua expectativa de vida em alguns anos.
— Oh, sim... A prefeita Pedrosa está esperando.
Com isso, o portão se abriu, e Hector liderou a pequena comitiva.
Havia um curto caminho de pedra até a mansão propriamente dita, mas nenhum jardim à vista. Apenas alguns vasos grandes com árvores ornamentais, arbustos podados de maneira rígida demais e esculturas modernas que Elliot não sabia muito bem o que representavam. Uma delas parecia uma garça. Ou uma faca. Ou uma garça sendo ameaçada por uma faca. Arte contemporânea era difícil.
As esculturas contrastavam com a aparência antiga da mansão, como se alguém tivesse tentado modernizar o lugar sem pedir permissão ao fantasma residente. Onde estaria o jardim? Talvez nos fundos. Talvez no interior. Talvez em outra dimensão botânica, o que, sinceramente, não seria a coisa mais estranha do dia.
Ainda assim, aquela falta de verde incomodou Elliot. Uma casa daquele tamanho sem um jardim visível parecia errada. Como uma xícara sem chá. Ou Hector sem ego.
Eles subiram alguns degraus até a porta principal, que se abriu antes mesmo que alguém batesse.
Quem os recebeu foi uma mulher rechonchuda, de cabelos tingidos de vermelho vivo, olhos castanhos atentos e um sorriso pronto nos lábios. A prefeita Pedrosa vestia um blazer colorido sobre uma camisa simples e calça jeans, combinação que parecia formal o bastante para uma reunião e confortável o bastante para fugir de uma crise municipal, caso necessário. Suas unhas, cada uma pintada de uma cor diferente, brilhavam quando ela gesticulava — e ela gesticulava muito.
Era uma mulher excêntrica. Elliot se lembrava disso. Todo mundo em Verdelume se lembrava disso. Era difícil esquecer uma prefeita que já havia inaugurado uma ciclovia usando um capacete em formato de joaninha.
— Que bom que responderam rápido! Fico feliz que os dois grupos tenham atendido à minha solicitação com tanta rapidez... — disse ela, animada.
Hector ergueu um pouco o queixo, esperando talvez algum reconhecimento especial. Uma exclamação de admiração. Um "oh, você deve ser o grande Hector". Talvez fogos de artifício.
Nada veio.
Elliot percebeu.
Hector também.
— Entrem, entrem... — instruiu a prefeita.
— A senhora disse dois grupos? — Elliot teve que perguntar, já que Hector parecia ocupado demais ficando frustrado por não ser paparicado.
— Oh, sim. Especializados nessa questão — respondeu ela, conduzindo-os pelo amplo hall de entrada.
O interior da mansão era ainda mais impressionante. O teto alto sustentava um candelabro antigo, cheio de cristais levemente escurecidos pelo tempo. As paredes eram revestidas de madeira escura, com detalhes entalhados em formas de folhas, galhos e pequenas criaturas que talvez fossem pássaros — ou demônios pequenos demais para serem respeitados. Um tapete vermelho profundo seguia pelo corredor central, abafando os passos. Havia retratos antigos nas paredes, todos sérios demais, como se os ancestrais da casa desaprovassem qualquer um que respirasse sem autorização.
O lugar cheirava a madeira encerada, poeira elegante e alguma coisa floral que Elliot não conseguiu identificar de imediato. Isso o incomodou mais do que deveria.
— Especializados? — repetiu Elliot, parecendo ofendido. — Se a questão envolve plantas, natureza e coisas afins, os druidas são os mais especializados.
Hector continuou antes que ele pudesse acrescentar algo mais.
— A chefe do Conclave, Dáire O'Brennan, minha tia, vale salientar, foi quem nos entregou esta missão. E creio que o que meu auxiliar quis dizer é que deve-se dispensar o outro grupo, pois os druidas podem cuidar dessa questão sem nenhum problema.
Ele exibiu um sorriso orgulhoso.
Elliot sentiu uma vontade quase física de desaparecer dentro de um vaso ornamental.
— Sério? — A prefeita pareceu genuinamente curiosa. — Eu não pensei que vocês fossem versados em maldições e essas coisas. Digo, eu não tinha certeza... Por isso...
Eles chegaram à sala de estar.
Era uma sala opulenta, mas bagunçada o bastante para revelar que alguém de fato vivia ali. Sofás antigos de veludo vermelho ocupavam o centro do cômodo, ladeados por poltronas pesadas, mesas laterais com luminárias douradas e uma lareira de pedra que parecia grande o bastante para assar um javali medieval. Ao mesmo tempo, havia fotografias modernas da prefeita com os filhos, pilhas de papéis, um notebook aberto, canetas espalhadas e uma caneca com os dizeres "Prefeita, mas cansada".
Francine puxou a manga do terno de Elliot.
Talvez para chamar sua atenção para a questão da maldição. Esse tipo de coisa não era exatamente o departamento dos druidas. Natureza, ciclos, plantas, rituais antigos? Sim. Maldições? Nem tanto.
E Elliot poderia concordar com isso. Poderia. Se sua mente não tivesse travado ao notar as outras pessoas na sala.
Um homem, em particular.
Alto. Elegante. Perigosamente familiar.
Malrik estava sentado em uma das poltronas como se o móvel tivesse sido colocado ali com o único propósito de servi-lo como trono. Usava um terno preto de corte impecável, moldado ao corpo musculoso com uma precisão ofensiva. A camisa vermelha por baixo tinha alguns botões abertos, revelando parte do peitoral firme e pálido de um jeito que parecia ilegal em ambiente de trabalho.
As mangas estavam dobradas até os antebraços, exibindo tatuagens elaboradas que subiam pela pele como marcas vivas: linhas escuras, símbolos arcanos, selos mágicos e contratos que Elliot reconhecia bem demais. Bem demais mesmo. Cabelos negros penteados para trás deixavam em evidência as feições marcantes, os traços asiáticos afiados e a expressão serena de quem sabia exatamente o efeito que causava.
Então os olhos dele se ergueram. Íris vermelhas, luminosas, focaram diretamente nos olhos verdes de Elliot.
A mente de Elliot computou o que via. A resposta imediata foi um gritinho agudo.
O som escapou antes que ele pudesse impedir, fazendo todos na sala se calarem e virarem para encará-lo.
Elliot levou a mão à boca. Francine engoliu em seco ao seu lado.
Malrik, sentado elegantemente na poltrona como se aquela situação inteira fosse um entretenimento particular oferecido pelo universo, sorriu ainda mais.
Predador.
Ridiculamente sedutor.
E completamente inconveniente.
O corpo de Elliot, sem dúvida, estava se rebelando e agindo de forma patética. Por que seu coração acelerava? Por que seu rosto esquentava? Por que suas pernas pareciam ter recebido uma notificação urgente para abandonar o serviço?
Mas o mais importante não era a reação fisiológica. Não. Corpo e mente deveriam se concentrar em tentar responder a uma pergunta muito mais urgente:
O que a Nox Arcana estava fazendo ali?
~~Palavras da autora~~~
Espero que estejam gostando da história! Aí temos o reencontro de Elliot com Malrik, vamos ver como esses dois vão interagir ...
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