Capítulo 6
Elliot não estava entrando em pânico. Não estava. Ok. Talvez um pouquinho.
Ele realmente não planejara reencontrar Malrik tão cedo — fisicamente, convinha enfatizar. Uma coisa era trocar mensagens, discutir séries ou comentar trivialidades do dia a dia. Outra, completamente diferente, era encontrá-lo assim, no meio de uma missão oficial como druida.
"Oh, merda... E eu estou usando este horrível terno verde!", pensou Elliot, em desespero.
E, sim, aquilo significava que o pânico tinha aumentado um pouco.
Mas por que estava se importando com a própria aparência? Ele não tinha combinado consigo mesmo que Malrik era apenas um amigo? Sim. Exatamente. Ele iria cultivar uma amizade. Uma amizade madura, saudável e perfeitamente normal.
Mesmo que tal amizade tivesse começado com uma noite muito carnal.
Ainda assim, eles seguiriam com uma amizade de classificação livre para todos os públicos. Dessa forma, sua aparência não deveria importar.
Não é?
NÃO É?
— Eu concordo com o meu auxiliar — disse Hector.
Elliot olhou para ele, surpreso.
Não apenas pelo fato de Hector ter concordado com ele — algo que, por si só, já deveria ser raro o bastante para merecer registro em pedra no Conclave —, mas porque a verdadeira pergunta era: concordado com o quê?
Com o fato de o terno verde ser ridículo?
Com o fato de Malrik dever ser colocado na categoria "amigo", mesmo que o corpo de Elliot reagisse à presença dele como se tivesse recebido uma descarga elétrica?
Ou com o fato de Elliot estar entrando em pânico? Não que ele estivesse realmente entrando em pânico.
— Compartilho com ele a minha surpresa... — continuou Hector, ignorando o olhar confuso e talvez meio desesperado de Elliot. — ...ao encontrar gente dessa laia aqui.
Ok.
Não era exatamente a "opinião" de Elliot sobre a situação.
Talvez em parte. Quer dizer, era interessante saber por que a Nox Arcana estava ali. Mas "gente dessa laia" parecia uma forma muito eficiente de provocar uma morte precoce. E Elliot, pessoalmente, preferia que sua morte precoce não acontecesse enquanto ele usava um terno verde marca-texto.
— Laia? — perguntou uma voz grave.
Um homem extremamente alto e largo, de cabeça raspada, vestindo um terno preto muito mais recatado e profissional do que o de Malrik, deu um passo à frente. Enquanto falava, estalou os dedos grandes de uma das mãos.
Elliot nunca pensou que o simples ato de estalar dedos pudesse soar tão ameaçador.
"Oh. Aquele era o Senhor Choi."
Ele o reconheceu de imediato. Choi estava em pé logo atrás de Malrik, e o jovem druida sequer tinha reparado nele. O que era absurdo. Como alguém não notava o gigantesco guarda-costas do feiticeiro? Era como não notar uma geladeira de terno em uma sala de estar.
Mas, logicamente, a mente e os próprios órgãos sensoriais de Elliot estavam focados em outra coisa.
Ou melhor. Em outra pessoa.
— S-sim... A laia de vocês! — respondeu Hector, tentando parecer não afetado por Choi.
Tentando.
Porque, estranhamente, ele se posicionou um pouco atrás de Elliot e Francine. Francine revirou os olhos.
— Essa é a nossa missão! — completou Hector, como se aquilo explicasse alguma coisa.
— Não vejo por que não deveríamos trabalhar juntos nesse serviço — disse Malrik, em tom apaziguador.
A voz dele era baixa, controlada e irritantemente agradável. O tipo de voz que não deveria existir em alguém envolvido com contratos demoníacos e organizações criminosas mágicas. Era injusto. Uma falha grave no equilíbrio do universo.
— De fato — continuou Malrik, os olhos vermelhos pousando diretamente em Elliot —, eu adoraria que trabalhássemos juntos.
O "juntos", Elliot notou, foi dito olhando para ele. Diretamente para ele. Com aquela voz. Com aquele sorriso.
Elliot engoliu em seco e mordeu o lábio para não soltar outro gritinho. Porque um gritinho já era acidente. Dois gritinhos seriam um padrão. E ele se recusava a estabelecer o padrão oficial de "Elliot Silvarum, druida verde, emite sons agudos diante do líder da Nox Arcana".
— Juntos... — repetiu Elliot, tentando não parecer que sua voz tinha subido algumas oitavas. Falhou um pouco, mas não de forma catastrófica. — Juntos em quê, precisamente? Senhora Pedrosa... pensei que tivéssemos sido chamados para tratar de um jardim.
Sim.
Parabéns, Elliot. Você conseguiu falar tudo isso sem gaguejar. Um verdadeiro marco na história dos Silvarum.
— Oh, sim. Foi precisamente por isso que chamei os dois grupos: por causa do jardim. Ele não está... ou talvez ele não seja... normal — disse a prefeita, gesticulando com as mãos.
Elliot recordava que a prefeita Pedrosa era realmente muito expressiva com as mãos. Ela falava como se estivesse constantemente tentando reger uma orquestra invisível composta por cidadãos preocupados, problemas municipais e uma quantidade absurda de burocracia.
— Vocês precisam entender que esta mansão toda...
E lá veio mais um grande gesto com as mãos, amplo o bastante para quase derrubar uma pilha de papéis sobre a mesa de centro.
— ...não foi ideia minha. Eu tenho a minha própria casa, sabem? É simples, não tem tantos cômodos e definitivamente não é tão chique... nem tão cheia de mofo e velharias. Sem querer ofender a mansão, claro. Mas o conselho disse que é tradição os prefeitos de Verdelume morarem aqui. A Mansão Verde, eles dizem que é o nome. Bem, de verde ela não tem nada... Talvez tenha desbotado com o tempo, não sei.
Elliot assentiu de leve. De fato, não sabia muita coisa sobre as tradições ligadas aos prefeitos de Verdelume. Ainda mais porque o último prefeito...
— Essa tradição foi meio que descontinuada por um curto período, devido ao sumiço do último prefeito de Verdelume — continuou ela, trazendo à tona um dos maiores mistérios recentes da cidade.
Elliot se lembrava do escândalo. Bartolomeu Pontius, prefeito por dois mandatos, desaparecera sem deixar vestígios dentro da própria casa. Ninguém conseguiu entender o que havia acontecido. A polícia não encontrou sinais de sequestro, muito menos de morte. Bruxos, lobisomens e outros investigadores sobrenaturais também não localizaram rastros mágicos, cheiro ou qualquer vestígio da presença dele.
Era como se o prefeito Pontius simplesmente tivesse deixado de existir.
"Espera... se ele sumiu em casa, então esta era a casa dele. Esta mansão."
A conclusão fez um arrepio subir pela nuca de Elliot.
Maravilha. Uma missão oficial, Hector, um jardim possivelmente amaldiçoado, Malrik sentado a poucos metros dele e, de brinde, uma mansão onde um prefeito talvez tivesse sido engolido pela decoração gótica. Excelente tarde. Dez de dez. Recomendaria a ninguém.
— Vocês devem se lembrar da época — prosseguiu a prefeita. — O prefeito Pontius sumiu, o conselho de Verdelume assumiu o comando para ajudar nas investigações e tal... até que tivemos uma eleição, um ano depois. Desde então, a mansão ficou fechada. Eu tentei enrolar, adiar minha mudança para cá, mas o conselho disse: tradição é tradição. E agora chegou a minha vez...
A prefeita não parecia muito feliz com aquilo. Talvez não tivesse lido as letras miúdas referentes às obrigações de comandar aquela cidade. Quiçá já estivesse se arrependendo. Elliot não a julgava. Se ele descobrisse que o cargo vinha com uma mansão mal-assombrada em potencial, também pediria revisão contratual.
— Mas o que tem de errado nela? — Hector interrompeu. — Sem dúvida, parece gloriosa.
De fato, a mansão parecia fazer muito o estilo de Hector: móveis caros, antiquados, quadros de antigos líderes da cidade e um ar geral de "aqui pessoas importantes tomavam decisões importantes enquanto desprezavam gente comum".
— Aí chegamos à parte do jardim... — disse a prefeita, respirando fundo. — E... bem, acho que esta mansão, ou pelo menos o jardim dela, está amaldiçoado.
Elliot, Francine e Hector olharam imediatamente para Malrik.
O feiticeiro ouvia a história com o rosto apoiado no punho, meio distraído, como se aquela fosse uma reunião moderadamente interessante e não uma acusação implícita envolvendo maldições, desaparecimentos e possível crime mágico.
— Você tem alguma coisa a ver com isso? — perguntou Hector, direto.
— O que quer dizer com "ter alguma coisa a ver com isso"? — Malrik questionou, erguendo uma sobrancelha.
— Você sabe... — Hector fez um gesto rápido com a mão. — Contratos, maldições... essas coisas ilegais.
— Ilegais? — Malrik repetiu, com um sorriso lento. — Acho que você tem uma visão bastante limitada sobre a linha de trabalho da Nox Arcana. Trabalhamos dentro da legalidade, druida. Nada que fazemos está além dos contratos comerciais que firmamos com nossos clientes.
Contratos comerciais. Foi isso que ele enfatizou. Não contratos demoníacos.
Elliot entendeu a ênfase. Também entendeu que aquela escolha de palavras havia sido deliberada, elegante e irritantemente bem calculada. O que, infelizmente, era muito Malrik.
— Se fôssemos uma organização de fato criminosa, a prefeita não teria nos contatado, não é mesmo? — continuou Malrik, apontando com suavidade para a nervosa prefeita.
De fato, na superfície, a Nox Arcana parecia apenas mais uma organização de feiticeiros que vendia habilidades mágicas para resolver problemas cotidianos: limpar casas, encontrar cachorros desaparecidos, remover pragas arcanas, desfazer pequenas azaradas domésticas ou até realizar harmonizações faciais com resultados questionavelmente naturais.
Mas havia muito mais por baixo daquela fachada.
Trocas de favores. Objetos mágicos. Artefatos amaldiçoados. Serviços que muita gente não teria coragem de solicitar em público. E, claro, havia a questão dos demônios.
Ninguém confiava muito naqueles seres infernais, fedendo a enxofre, cujas parcerias com feiticeiros normalmente vinham associadas a condições obscuras, cláusulas perversas e propósitos sombrios.
Bem, era o que diziam por aí.
Nas trocas de mensagens, Malrik nunca falara sobre trabalho, demônios ou qualquer coisa do tipo. Em vez disso, comentara sobre séries, livros, comida e reality shows culinários com uma seriedade quase ofensiva. O que talvez fosse ainda mais suspeito.
— E, respondendo à sua pergunta, senhor druida — disse Malrik, voltando os olhos vermelhos para Hector —, pergunta essa que acredito que você tentou fazer: não, eu não tive negócios com o antigo prefeito. E a Nox Arcana não está associada a nenhuma maldição nesta mansão. Não é mesmo, Choi?
— Não está na lista dos nossos clientes — respondeu Choi, com absoluta segurança.
O que, para Elliot, não era exatamente a resposta mais tranquilizadora do mundo. Havia algo muito específico em "lista dos nossos clientes". Dava a entender que existia, de fato, uma lista. E que estar ou não nela mudava muita coisa. Provavelmente coisas envolvendo assinaturas, sangue, letras miúdas e arrependimentos eternos.
— Aliás, a prefeita aqui — continuou Malrik — nos chamou para quebrar uma suposta maldição, não para criar uma. O que está perfeitamente dentro dos negócios da Nox Arcana. Criar maldições? Oh, não... Isso seria ilegal, senhor druida.
Ilegal. De fato. Mas também era exatamente o tipo de coisa que a Nox Arcana era conhecida por fazer. Ou, pelo menos, o tipo de coisa que todos juravam que ela fazia.
Elliot preferia não pensar no quanto aquela diferença entre "conhecida por fazer" e "provada culpada por fazer" parecia depender de advogados muito caros, contratos muito bem escritos e pessoas muito assustadas para testemunhar.
— Meu nome é Hector O'Brennan, não "senhor druida" — enfatizou Hector.
A essa altura, suas bochechas já estavam coradas. Elliot julgou que fosse de raiva. E o fato de o rubor conseguir aparecer por baixo da camada de maquiagem — que todos sabiam que Hector usava, embora ninguém comentasse em voz alta por instinto de sobrevivência social — demonstrava bem o grau de irritação do druida.
— Sou sobrinho de Dáire O'Brennan. Minha tia é a líder dos druidas de Verdelume, como você deve muito bem saber.
— Oh, eu sei muito bem quem é a sua tia, senhor druida — respondeu Malrik.
Ele não parecia nem um pouco impressionado. Pior: permaneceu chamando Hector de "senhor druida", o que tornou o outro ainda mais vermelho de pura fúria.
Para evitar uma possível erupção vulcânica do jovem O'Brennan — uma erupção cara, perfumada e provavelmente acompanhada de um discurso sobre linhagem familiar —, Elliot interveio.
— Acho que, antes de concluirmos quem pode ajudar com o quê... ou se, de fato, vamos trabalhar juntos, o certo seria ver o tal jardim.
Hector voltou o olhar irritado para Elliot. Obviamente, ele não gostou da possibilidade de trabalharem "juntos".
— Elliot está certo — disse Malrik, levantando-se da poltrona onde estava sentado. — Senhora Pedrosa, seria interessante vermos o referido jardim.
Ele disse aquilo com tanta elegância que até parecia uma sugestão diplomática, e não uma forma sutil de vencer a discussão sem esforço. A prefeita rapidamente assentiu, gesticulando para que todos a acompanhassem.
O grupo começou a caminhar.
Mas uma mão forte se fechou ao redor do pulso de Elliot. Hector o encarava.
— Lembre-se de quem é o líder desta missão. E lembre-se também do seu status. Não é o fato de você ser um Silvarum que o torna especial ou lhe dá o direito de dizer o que devemos ou não fazer. Você é apenas um auxiliar. E talvez sempre será um. Entendeu?
Francine, ao lado, pareceu prestes a intervir. Havia algo em sua postura que sugeria uma agressão verbal muito bem construída — ou uma agressão física silenciosa, rápida e eficiente. As duas possibilidades tinham mérito.
Mas Elliot fez um sinal negativo com a cabeça. Ele lidaria com Hector sozinho.
— Entendi — respondeu.
Mas a mão de Hector não soltou seu pulso.
— E por que ele te chamou de Elliot? — perguntou Hector, estreitando os olhos. — Ele sabe o seu nome? O tal Malrik? Que nome ridículo, aliás...
Se Elliot estava um pouco em pânico antes, agora atingiu o ápice.
Será que Hector faria a conexão? Será que perceberia que Malrik e Elliot já se conheciam? Aquilo seria um desastre. Como explicar?
"Ah, sim, nos conhecemos em circunstâncias acadêmicas. A academia, no caso, era uma cama. E eu estava nu. Mas veja bem, foi uma noite de networking."
Não. Péssimo. Horrível. Abortem a missão.
— Ele sabe o seu nome, mas não faz questão de lembrar o meu — continuou Hector, felizmente focado demais em si mesmo para enxergar qualquer coisa além do próprio ego ferido. — "Senhor druida". Que título genérico! O grande Hector sendo relegado a um pseudônimo. Que mal-educado. Mas não devemos esperar muito de um feiticeiro que tem parte do próprio poder vinda de pactos com demônios, não é mesmo?
Hector finalmente soltou sua mão.
— Enfim, vamos. Não devemos deixar a Nox Arcana ficar com a glória.
Elliot quase suspirou de alívio.
Quase.
Hector parecia mais preocupado com a própria importância do que com Elliot. Ótimo. Maravilhoso. Bendita fosse a vaidade dos homens insuportáveis. Mas o deslize de Malrik não podia ser ignorado.
O celular de Elliot vibrou.
Ele o pegou rapidamente. Havia uma mensagem de Francine, que o encarava com apreensão.
Francine:
Como está a relação entre você e o feiticeiro, de verdade?
Outra mensagem chegou antes que Elliot pudesse respirar.
Francine:
Ele parecia estar te comendo com os olhos. E não estou falando do ponto de vista antropofágico.
Mais uma.
Francine:
Fiquei até com vergonha de olhar. Hector não notou, óbvio, porque Hector só enxerga Hector. Mas outras pessoas podem notar, Elliot. Outras pessoas que têm olhos.
Elliot sentiu o pânico retornar com força total.
Certo. Ele precisava encontrar uma forma de falar com Malrik. Talvez estabelecer algumas regras, caso fossem mesmo trabalhar juntos.
Regras simples.
Regras básicas.
Regras de sobrevivência social.
Eles deveriam agir como amigos. Porque eram amigos. Apenas amigos. E amigos não comiam os outros com o olhar no meio de uma missão oficial. Era falta de etiqueta. Definitivamente.
E Elliot também não deveria lançar olhares gastronômicos em direção a Malrik. Amigos não faziam isso. Certo?
Mais um item para sua lista de coisas a fazer antes que tudo se transformasse em um grande desastre.
Uma lista que, a essa altura, já precisava de índice, sumário e talvez encadernação.
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