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Uma mulher jovem dormia de barriga para baixo em um sofá de cor âmbar, usando um dos braços como travesseiro e colando um tablet na lateral do corpo com o outro.

Estava quase na hora do raiar do sol e as luzes do apartamento ainda estavam acesas quando Jessy desabou do mundo dos sonhos; o que a trouxe de volta foi o som de uma porta fechando, cometido por alguém que falhara em conter o barulho ao entrar na sala.

Jessy se sentou de imediato, apresentando a cara amassada para a policial de cabelos castanho-claros que perturbara seu sono.

— E aí, como foi o primeiríssimo turno noturno? — indagou ela, as palavras saindo de forma automática antes que o cérebro processasse a postura cabisbaixa de Sara, mas abaixou as sobrancelhas e o tom de voz ao notar. — Ainda pensando na missão?

Com um aceno rígido da cabeça para a esquerda, na direção do corredor para os quartos, Sara considerou ir direto para a cama sem dizer uma palavra — uma súplica do inconsciente —, mas como Jessy não merecia ser ignorada, ela relaxou os ombros, expirou o ar tentando expulsar a angústia, forçou as pernas a caminharem até o sofá e se sentou ao lado dela. Havia tantos pensamentos conflituosos em mente que os olhos se perderam da realidade. Somente se deu conta de que se desligara do mundo quando sentiu o toque de Jessy no ombro.

— Eu devia ter ido — disse Sara. — Pra ter certeza de que vai dar tudo certo. Eu pensei muito em ir escondida atrás deles.

Jessy franziu a testa; conhecendo a audácia de Sara, se ela de fato cogitara essa ideia, então foi por um milagre que ela não voltou para casa com a notícia de que seria transferida para outra unidade ou talvez até expulsa da ECNR.

— Mas eu prometi pra Mori — complementou a policial, dobrando os joelhos para cima do sofá, onde podia usá-los para esconder a cabeça.

Jessy analisou Sara enquanto considerava as próximas palavras. Existiam certos assuntos que evitavam, mesmo que se fizessem presentes camuflados nos cantos de cada conversa. Lembrou-se de quando se conheceram, quando Sara ainda fazia terapia com uma psicóloga contratada pela família ao invés de se consultar com o profissional da escola. Era uma garota que levantava um sorriso falso ao menor sinal de aproximação de pessoas; um disfarce para escapar de qualquer um que tentasse dissuadi-la a partilhar as aflições. Levaram anos até que Jessy transpusesse aquela barreira, e mesmo conquistando a confiança de Sara e alguns de seus segredos, nunca descobriu os detalhes ou a profundidade dos transtornos.

— Se... — Jessy pausou por três segundos, quase desistindo de repetir de novo a mesma pergunta com uma vestimenta diferente, mas já que havia começado... — os harmínions são tão importantes, por que quis entrar para a polícia ao invés de trabalhar com a Mori?

Sara deixou escapar um gemido em um sopro, como se aquela razão ardesse.

— Eu nunca conseguiria encarar os harmínions depois do que eu fiz. — A voz saiu mais alta e emotiva, quase chorosa, quando virou a cabeça o suficiente para que um dos olhos enxergasse Jessy. — Confio na Mori. Ela vai fazer o que é certo. — Tossiu para ajustar o tom com um timbre sério. — E estando nessa equipe da ECNR posso dar cobertura. Enquanto ela ajuda os harmínions de um lado, eu cuido do outro.

Jessy já ouvira diversas vezes o discurso de "cuidar do outro lado" e, apesar de suspeitar do significado real daquela escolha, sempre apoiaria as convicções de Sara. Notou que ainda segurava o tablet contra o peito, então o recostou no braço arredondado do sofá. Ajeitou a postura para que as pernas ficassem esticadas e os pés tocassem o chão protegidos pelas meias de dormir. Por fim, deu dois tapinhas na coxa esquerda enquanto observava Sara com expectativa.

A policial retribuiu com um olhar de canto abandonado, a maior parte da face ainda escondida atrás das pernas. Ela desfez a muralha devagar e deitou no sofá com os pés descalços erguidos por cima do braço do móvel enquanto tirava o elástico que prendia o cabelo. Pousou a cabeça no colo de Jessy e admirou as mechas laranja vibrantes que preenchiam a metade inferior da cabeça dela; era como descobrir o interior brilhante de uma pedra preciosa oculta pelo exterior natural.

Relaxou ao sentir a leve pressão de uma massagem nas têmporas e prosseguiu no desabafo com a voz mansa e magoada:

— Não me deixaram ir porque sou nova na equipe. Mas algum deles tem experiência com harmínions? — Iniciou com um sussurro que seguiu encorpando-se de revolta. — O Daniel conviveu com o Elliot, beleza, mas eles estão lá pra proteger com armas. Ele não conseguiu atirar antes, duvido que conseguiria agora. — Adicionou uma velocidade aflorada por algumas pequenas lágrimas fugitivas e tom contorcido pela emoção. — E algum deles pode dizer que já matou um harmínion...? Porque eu posso! — O pronome foi vociferado com a raiva que lhe cabia.

Sara começou a soluçar enquanto um azedume subia pela garganta, passava pela mandíbula e cercava os olhos, de onde estourou em gotas ácidas. Ainda que tivesse em foco o semblante compreensível de alguém que lhe trazia paz, ela insistia em afundar naquelas águas sujas. Era um veneno que precisava expulsar do corpo, mas que nunca chegava a um fim; sempre produzia mais e mais daquele amargor infinito e assim continuaria até que esgotasse as próprias forças e se afogasse nele.

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