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Duas viaturas policiais rodavam velozes por uma estrada à uma da madrugada. Os faróis brilhavam solitários em meio aos mesmos vultos de árvores iluminados horas mais cedo pelos carros de uma bióloga e um cientista.

Megan e Daniel estavam no veículo da frente. O holograma de um mapa, pairando a alguns centímetros acima do balcão, nublava um possível cruzamento de olhares. Mas ao chegarem no ponto marcado, Megan desativou o holograma e pôde ver com clareza a parte traseira de um ônibus branco parado no acostamento enquanto estacionavam atrás dele.

A comandante e seu segundo em comando saíram cada um de uma viatura e sincronizaram o barulho de portas fechando. Eles contornaram o ônibus e encontraram a Dra. Lírie descendo a rampa que ligava a porta do veículo ao solo.

— Que bom que chegaram. — A doutora irradiava bom humor, desatando um pouco a primeira impressão antipática que causara na reunião.

— Os harmínions já estão lá dentro? — questionou Megan.

— Prontos para a viagem. — Mori pressionou com a palma da mão a lateral metálica do ônibus. No fim daquela entonação gentil, o nervosismo se camuflou em um suspiro.

— Registramos as coordenadas recebidas e sincronizaremos rota e velocidade com todos os veículos — explicou Derrick; ao contrário da comandante, ele encarava a Dra. Lírie através dos óculos escuros do capacete. — As viaturas ficarão nas pontas da fileira e os ônibus irão atrás do seu carro. Quando precisar parar, nos informe antes.

— Leva um dia para chegarmos à borda, então serão necessárias algumas paradas — complementou Megan. — Preciso saber como isso funcionará para eles... — meneou a cabeça na direção do ônibus, mantendo as pupilas focadas na bióloga —... e se isso pode virar um problema para nós. Eles vão usar o banheiro do ônibus? Aliás, sabem usar um banheiro? — Franziu a testa ao arregalar os olhos, preparando o drama e a seriedade da próxima pergunta. — Eles vão sair em algum momento?

— Não — respondeu a doutora, cheia de convicção. — Eles não vão precisar sair.

A comandante insistiu na expressão intimidadora, a desconfiança impressa no olhar depois do tom audacioso daquela resposta.

— E se acontecer um imprevisto?

— Aí vocês resolvem. Não é pra isso que estão aqui? — A face da Dra. Lírie abandonou a suavidade simpática para refletir a mesma intensidade da comandante com o adendo da petulância. Essa era a ousadia que florescera no decorrer dos últimos anos, desabrochada entre pragas e ervas daninhas, e que adormecia quando o assunto não envolvia harmínions ou os ideais dela. — Eles não vão sair em hipótese alguma até chegarmos à fronteira.

Megan consumiu devagar aquelas palavras, ocultando a curiosidade atrás de uma expressão ranzinza. Estavam deslocando uma população inteira, que devia incluir filhotes e idosos, em uma viagem considerada longa pelos civis, e a pessoa responsável desconsiderava a hipótese de algum daqueles seres precisar sair — fosse ou não emergência — a ponto de delegar à ECNR a resolução de qualquer imprevisto. Ou aquela mulher era ingênua, ou...

— Se assim você diz, doutora. — Interrompeu o embate visual, girando o corpo para o lado contrário. Tempo era um requisito primordial nas ordens da transferência e um confronto direto era desnecessário no momento quando tinha todas as outras horas de um percurso longo para instigar a colaboração da doutora.

Os policiais marcharam de volta para as viaturas enquanto Mori retornava ao interior do ônibus.

Ao se aproximar dos veículos, Megan diminuiu o ritmo dos passos e disse com a voz controlada em um tom pouco abaixo do normal:

— Figue de olho na doutora.

Derrick mirou a comandante com o olhar de vidro espelhado.

— Ela está escondendo alguma coisa... além de todas as informações omitidas na reunião — justificou Megan. — Vamos ficar atentos caso ela resolva aprontar.

Derrick assentiu com a cabeça, ponderando sobre a suspeita da comandante enquanto adentrava o último veículo da fila. Sentou-se no banco do canto oposto ao de Cris, que não tinha capacidade para segurar a ansiedade e esticava o pescoço para tentar enxergar, através do para-brisa, o máximo possível do ônibus por cima do carro da frente.

— A gente vai poder ver os harmínions? — questionou Cris.

— Não.

A resposta seca e direta de Derrick matou o ânimo do outro policial.

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