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Por quase uma hora os passageiros ficaram letárgicos em seus assentos. A contenção dos movimentos exalava um incômodo superior ao efeito que causaria entre desconhecidos. Porém, seja qual fosse o elemento que os tivesse contaminado, dissipou-se aos poucos, e os últimos resquícios evaporaram quando Li esticou o braço para comandar a parada do carro no painel.
Estranhando o tempo que a viagem levara, Mori confirmou no mapa holográfico acima do balcão que ainda estavam longe do destino planejado.
— Por quê...? — Iniciou a pergunta, mas a resposta brotou na mente dela enquanto observava o homem saindo do veículo.
Apertou os lábios e saiu pela porta oposta à que Li usou.
O veículo estacionara na terra à beira da estrada. Um outro carro, que também estava sob o comando deles, parou logo atrás. Mori passou na frente do segundo carro mostrando a palma da mão aberta e iluminada pela luz intensa dos faróis, como que indicando para esperá-los.
A doutora se apressou para alcançar o cientista em frente à cerca baixa que guardava uma floresta de pinheiros. A madeira da cerca mal podia ser vista por baixo da fileira de cartazes que a encobria, e Mori comprimiu o canto da boca contra a bochecha, nauseada, ao passarem por cima de um em vermelho que dizia: "Queimem os monstros!".
Quando ambos se afastaram da área coberta pelas luzes dos automóveis, Li usou a lanterna do celular para enxergar o caminho oculto pela lua nova. Afundaram-se na floresta guiados pelo GPS e acompanhados pelos sons de galhos secos quebrando e folhagens de arbustos raspando. Tantas vezes passeara naqueles arredores, que Mori já comparava a situação com atravessar o corredor de casa à noite em busca de um copo d'água; apesar de um leve sentimento apreensivo, havia a certeza de um ambiente seguro.
Ao contrário das outras pessoas, eles não temiam a presença dos harmínions — únicas criaturas consideradas perigosas naquela região —, além de saberem que não haveria nenhum por perto, pois estariam aguardando-os no ponto combinado onde encontrariam os ônibus.
Aos poucos, o barulho de folhas foi substituído por terra e cascalhos. Mori parou de acompanhar o ponto de localização no celular quando se depararam com uma área de breu liso, sem as silhuetas de plantas ou ondulações no solo. Acendeu a lanterna do aparelho e a luz se juntou à de Li para refletir sobre uma superfície líquida.
O cientista seguiu a borda do lago, sumindo pelo lado esquerdo de Mori, que se demorou por alguns segundos para respirar fundo o ar úmido antes de segui-lo. Quando ela o alcançou, encontrou-o agachado a poucos metros da água.
— Você sempre vem nesse lugar... — a voz de Mori ressoou solitária no silêncio límpido da madrugada — mesmo que tenham enterrado ele na aldeia.
Percebeu que, diferente do que ela esperava, Li apontava a luz para a própria mão esquerda em vez do chão onde sangue fora derramado anos atrás. Estava focado em uma cicatriz, um risco que cortava da base do indicador até a lateral oposta passando pelo centro da palma.
— Certeza que o Dr. Crow não tinha uma cicatriz aí? — indagou a bióloga.
Li fechou a mão, levantou-se e começou a voltar pelo mesmo caminho, atraindo o andar dela.
— Não tinha. — Iluminou o chão, direcionando as pupilas para os cascalhos enquanto andava. — E aquela adaga... Eu revisei as memórias daquele dia, e nunca consegui entender de onde ela veio. Surgiu na minha mão... do nada.
— Revisou as memórias?
Mesmo com os rostos ocultos na penumbra, com a lanterna do celular apontada para baixo destacando somente a silhueta das faces pela luz débil que propagava em volta, a doutora não precisava enxergar para saber que ele a observava, aborrecido, pelo canto dos olhos — uma expressão não muito diferente da reprovação que ela exibia.
— Acho que você estava muito abalado pra perceber... — Mori pulou aquela questão problemática que sempre os arrastava ao desentendimento. — Também fiquei perdida, acho que em choque. Foi tudo tão rápido e aterrorizante... mas os harmínions levaram ela.
— Eles a entregariam se eu pedisse?
Ela apertou os braços, contendo o arrepio causado pelo nervosismo; precisava se manter inflexível.
— Não sei. Tem um significado pra eles. — A voz saiu ríspida quando a planejara macia. — Você sabe a quem perguntar. — Corrigiu o tom, mas deixou de piscar de forma natural. — Só não entendi por que precisava parar aqui pra falar disso. — Ela o conhecia o suficiente para entender que as perguntas ocultavam segredos que as ações revelavam.
Li ergueu a cabeça, girando em poucos graus a parte superior do corpo, e observou um ponto alto no breu acima do lago.
— Eu só... queria ver uma coisa... — Algo que pensara existir somente na imaginação, até reviver a cena nas memórias e se deparar com a bizarrice por uma vez mais. Mas o que quer que fosse, não ocorreu naquela noite, assim como não ocorrera nas outras. Talvez tivesse que voltar durante o dia, repetir o experimento com as mesmas variáveis. — Podemos ir agora. — Voltou a atenção para o caminho de forma abrupta, sinalizando a intenção de confinar os devaneios.
Mori concordou com um balançar da cabeça e ambos saíram da floresta em passos rápidos. Atravessaram as cercas e pararam na beira da estrada ao lado dos carros, cujos faróis ainda revelavam os arredores.
— Como está a sua expressão de surpresa? — indagou Li.
A bióloga arregalou os olhos e franziu a testa aos poucos, executando as alterações conforme ia lembrando.
— Eu diria para erguer mais as sobrancelhas, de repente. — Li as empurrou de leve para cima usando dois dedos. — Mas está bom, vai convencê-los; durante o pânico, detalhes passam despercebidos.
Depois de repetir a expressão de surpresa aplicando a dica, Mori o observou se afastar e entrar no segundo carro sem conceder explicações — já esperava por isso após ele ter ressuscitado a questão da adaga. Expirou pela boca para regular a calma. Fez o que devia e agora restava confiar que a versão dela da história seria mantida.
Esfregou os braços uma última vez naquela noite quente antes de seguir viagem sozinha no primeiro carro.
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