(1/5)
Naquele ponto do anoitecer, os adultos se sentavam em cadeiras de balanço na varanda das casas para compartilhar petiscos e conversar enquanto as crianças brincavam de esconde-esconde na vizinhança.
Dentro do carro, que atravessava o subúrbio da cidade, o foco de Mori na missão a blindaria contra qualquer sentimento familiar que a afrontasse do lado de fora da janela.
— Vão ser as doze horas mais longas da minha vida — bufou, as palavras arrastadas incorporando a essência da frase.
O veículo corria na velocidade máxima sem a necessidade de um motorista. Os bancos, posicionados nas partes dianteira e traseira, eram voltados para o centro, onde havia um balcão com um guarda-volumes na estrutura e uma camada de vidro no tampo, usada para acessar o computador do automóvel.
No banco ao lado direito de Mori, Li tamborilava com os dedos de uma mão no apoio de braço, seguindo o ritmo quase inaudível de uma música clássica que tocava no dispositivo de som do veículo.
— A sua paciência é invejável — disse ele em tom sério.
— Só estou nervosa pelo que pode acontecer até tudo terminar. — Ela o repreendeu com uma careta.
Li suspirou e estreitou os olhos de maneira imperceptível por um instante, pensando em um dos pontos em que a visão de mundo deles divergia. Era compreensível a aflição de Mori perante o papel delicado que exerceria na transferência, porém o temor pelas consequências de um deslize estava desbalanceado. Se ela almejava tanto se afundar em ansiedade, não deveria ser por medo do que aconteceria aos harmínions, que tinham as opções de fugir e se esconder, mas sim por ela mesma, que não podia usufruir dos mesmos recursos.
— O que foi? — questionou a doutora, acentuando as linhas de expressão da testa ao perceber que ele parara de acompanhar a música.
— Pensou sobre a minha proposta? — Quanto antes Mori concordasse com ele, menor seria a chance de um novo "acidente" mortal envolvendo segredos do governo.
— Qual delas?
— Atualmente, só existe uma.
A bióloga prensou um sorriso fechado no semblante carregado.
— Quer tanto assim que eu volte pra lá? Por que essa obsessão? — perguntou em um tom de brincadeira abatido.
— Por causa da sua obsessão com os harmínions. Estava segura enquanto chamava a atenção da população em defesa deles. Mas agora vai desaparecer da mídia. Parece a oportunidade ideal para "desaparecer" de vez.
— Acha que fariam alguma coisa contra mim?
O cientista apoiou o cotovelo onde antes estivera batucando e levantou o antebraço para firmar a mandíbula na palma da mão. Deixou o olhar divagar pela vista da janela à direita, onde as luzes urbanas eram trocadas aos poucos pelas sombras das árvores intercaladas com o brilho solitário dos postes.
— Minha última reunião não foi com a Alina. — Virou a cabeça devagar para a esquerda, voltando a focar no rosto da mulher. — Conheci outro alquimista... de uma família importante. Alex Phoe.
— Pelo sobrenome, é descendente dos primeiros alquimistas?
— Sim... ou... mais ou menos. — Desconfortável com a nova posição, Li cruzou os braços e recostou a cabeça no banco. — Ele disse que não precisa da minha ajuda com o climatizador, que pode consertar qualquer defeito sozinho.
— Não foi um blefe? Eles gostam de parecer maiores do que são. — Exceto por Raymond, a bióloga nunca conheceu outro alquimista pessoalmente, sobrando apenas os relatos de Li como exemplos, mas todos lhe pareciam idênticos no quesito arrogância. — Ou será que é um caso específico? De todas as tecnologias criadas com elixir, justo a mais complexa ele consegue consertar? Estranho, né? É ele que você disse que parecia interessado em ganhar a sua confiança?
— Eu acho que talvez ele seja... — o cientista entortou um canto dos lábios para baixo e encarou o chão —... um caso especial, na verdade. Como eu.
Os olhos cinza buscaram a reação de Mori, que não foi diferente do esperado. Ela paralisou enquanto digeria a informação. Se aquele fosse o caso... uma experiência realizada por gerações de alquimistas que nunca obtiveram êxito... até chegar em Elias Crow.
— Quantos anos ele tem?
— Parecia mais novo que eu — respondeu Li; em seguida, acrescentou uma dose mista de repulsa e irritação vinda do fundo da garganta: —, e deslumbrado como uma criança. — A mera lembrança da conversa o provocava como uma ofensa pessoal à capacidade cognitiva. — Talvez acredite ser descendente de Nicholas Phoe, ou realmente seja um descendente, mas desconheça a verdadeira origem. De qualquer forma, ter que responder a um alquimista dessa família a partir de agora...
— Low. — A urgência mesclada ao pavor na voz da doutora resultaram em um tom cauteloso que beirava o sussurro. — Existe alguma chance de saberem sobre a pesquisa do Dr. Crow?
— A pesquisa inteira foi documentada em papel. Onde estão ou se foram destruídos, apenas Raymond poderia dizer... ou eles também, se tiveram acesso.
Mori apertou as bordas estofadas do assento que segurava com as mãos próximas aos joelhos. Se os alquimistas tinham aquelas informações, então estavam cientes dos experimentos realizados em Li. Seria ingenuidade pressupor que não soubessem do real paradeiro do Dr. Crow? Apesar de pensar no referido biólogo, foi a imagem de Raymond que lhe veio à mente. Raymond era o único além deles que sabia o que aconteceu e, levando em conta o desaparecimento do alquimista, quem garantiria que não passara por um depoimento verídico?
— Será que... — a aflição espremeu o coração dela — foi com segundas intenções que mandaram justamente esse alquimista te receber? Por algum motivo que não sabemos ou pode ser uma piada pra eles ou sei lá. — A agonia impulsionou velocidade nas palavras. Os olhos fixos no balcão do carro, como se os pensamentos se reunissem ali, voltaram-se junto com a cabeça na direção do cientista e, ao constatarem o semblante pleno dele, arregalaram-se, indignados. — Como você tá calmo desse jeito?
— É só mais um dia como qualquer outro. — Ele deu de ombros. — O desespero é uma ameaça a quem precisa simular normalidade; a reação mais segura é aceitar as condições o quanto antes e tomar providências. Você sabe que é imprescindível manter a postura se pretende se infiltrar entre pessoas ou instituições fanáticas.
— É... eu sei. — Ela engoliu em seco uma parte da agitação. — É que, de repente, parece que tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, que eu preciso repensar tudo, e me perco...
— Você escolheu essa batalha, desista ou aprenda a resistir.
A doutora meneou a cabeça em concordância e respirou fundo. Assim que se tranquilizou, repassou a conversa na mente e percebeu um ponto controverso.
— Mesmo com essa nova pessoa da família Phoe por perto, você quis arriscar a mudança do plano?
As pupilas de Li passearam pelo topo das órbitas procurando falhas na ideia, mas não encontraram nada além das que já tinham sido mapeadas.
— Não acha conveniente? O risco de descobrirem a localização dos harmínions diminui, enquanto o custo é um aumento irrisório das possíveis justificativas para eu perder a "credencial" de membro interino dos alquimistas; como se eles devessem uma explicação à uma cobaia sobre a decisão de quebrar um acordo. — Ele exibiu um sorriso de canto que desdenhava da própria sorte. — Só resolvi aproveitar a imaturidade dessa "nova pessoa". Se depois desconfiarem de algo, será tarde demais para encontrarem os harmínions. Não vi desvantagem nessa decisão.
Na perspectiva de Mori, no entanto, havia sim desvantagens. Por mais que Li menosprezasse as condições impostas a ele, Mori sentia o nó de uma corda esticando em volta do pescoço a cada vez que o cientista fazia uma solicitação impertinente aos alquimistas.
— E como fica a sua procura pelo Raymond se você perder essa "credencial"? — questionou a doutora, na esperança de que ele reconsiderasse tratar o próprio futuro com tanta leviandade.
— Eu me viro. Quem sabe ele mesmo não vem me ver se souber que estou contido em uma gaiola menor? — Nenhum sorriso de canto apareceu para reforçar o sarcasmo.
Sentindo a boca seca, Mori recapitulou as entrelinhas daquela conversa e anteriores.
— Tá pensando em perder os seus privilégios propositalmente só pra tentar atrair o Raymond? — Ela perguntou em disparada, incrédula.
— É uma possibilidade — admitiu Li —, mas ainda distante da execução. Tenho outros assuntos a tratar antes.
— Então por isso aumentou a insistência para eu continuar na Amazônia... mas se eu rejeitar a sua proposta...
— Não vai mudar nada — completou ele. — Não vou mudar as minhas decisões por causa das suas. Estou oferecendo uma oportunidade para que fique segura. — E captou a oportunidade de convencê-la pela comoção, portanto suspirou para reunir o drama necessário para o ato. — Ignorar o meu irmão foi a forma que encontrei para não ser afetado por ele, enquanto manter o Maurício afastado... — Suspirou de novo; não havia tanto de atuação quanto planejara. — Sem mencionar em como falhei com o Elliot. Não descarto a possibilidade de, em algum momento, usarem você contra mim. — Deixou as palavras circundarem a mente da bióloga antes de apelar para um argumento mais incisivo: — E reforço de novo que não duvido que você possa se tornar um alvo se continuar se "aventurando" em assuntos do governo. Na Amazônia, mesmo quando eu não estiver por lá, Catrin intercederá por você.
Ao invés de se ater à mensagem e pensar sobre a própria segurança, Mori se prendeu ao uso daquele "quando". Indagou-se, agora com o nó esmagando o peito, se ele se referiu às reuniões que o levavam para longe, à possível quebra de contrato com os alquimistas ou a um evento futuro permanente e inevitável.
Disfarçou o sufoco retomando a conversa, embora esboçasse na voz uma suavidade melancólica:
— Pode ser uma boa ideia eu ficar por lá. — E dissuadi-lo de ideias radicais, acrescentou em pensamento. Virou o corpo de lado, repousando a parte direita da face no encosto do banco para ficar de frente ao cientista. — Assim você fica de olho em mim e eu ajudo a Cati a ficar de olho em você. — Encerrou com um sorriso simpático e tom sugestivo, tentando aliviar a tensão.
Li a encarou em silêncio por alguns segundos. Não demonstrou alterações aparentes nas feições que revelassem a via dos pensamentos, contudo, para quem estava familiarizado com aquele olhar, era nítida a desconfiança e o azedume que contagiavam as pupilas contraídas quase a ponto de dilatá-las.
— Já aviso que podem ficar as duas em cima de mim, isso não vai me impedir de cumprir os meus objetivos. Eu disse que não vou mudar as minhas decisões por causa das suas — declarou ele, marcando o final da conversa com a voz resoluta antes de se voltar para a escuridão na janela.
Mori desfez o sorriso. Considerou esclarecer o equívoco de uma brincadeira confundida com uma advertência, mas tinha certeza que Li já esperava pelas intenções "ocultas" dela mesmo antes de iniciarem a conversa, e o gosto desagradável provocado pelo mal-entendido não desapareceria. Além de que aquele assunto se parecia com vários outros que escalavam em discussões à menor menção e, porque ela não mudara de opinião, haveria um embate entre os mesmos argumentos que gerariam os mesmos resultados. Aquele não era o melhor momento para clamar por uma tempestade.
Depois de um último vislumbre no cientista — uma tentativa falha de contato indireto que apostava no reflexo da janela —, a bióloga virou para o outro lado soltando pela boca o ar e a frustração que aprisionara sem notar.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top