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Cris despertou devagar, sendo recebido por uma luz natural mitigada pela janela escurecida do veículo. Pensamentos de reconhecimento do ambiente como: "estou trabalhando" e "passei a noite na viatura" ligaram o cérebro aos poucos, mas foi "estamos transferindo os harmínions" que ativou nele o estímulo rompante de mudar a inclinação do banco de uma vez para se sentar.
Em meio à avalanche de animação, atentou-se a uma voz nos autofalantes do carro que antes tratara apenas como um zumbido.
—... Fica a uns cinco quilômetros. — Reconheceu o tom tranquilo da Dra. Lírie.
— Entendido. — Derrick o encarava, a atenção provavelmente atraída pelos movimentos bruscos que ele realizara ao acordar. — Vou atualizar a rota.
— Ok, então. Obrigada. — A doutora encerrou a ligação.
Enquanto sustentava o olhar rígido do subcomandante, Cris engoliu em seco imaginando o que teria feito de errado — a permissão para dormir viera de um sonho ou da vida real? Aquelas pupilas afiadas pareciam mascarar uma vontade de arrancar o couro dele esfregando no asfalto; até a lente escura do capacete era mil vezes mais amigável. Para alívio de Cris, esses momentos cessavam rápido e podia contar nos dedos de uma única mão quantas vezes haviam ocorrido.
Mesmo livre do "olhar da perdição", o efeito colateral o desencorajou a perguntar sobre o motivo da ligação da Dra. Lírie, sujeitando-o a esperar os cinco quilômetros citados mantendo a falsa compostura de quem sabe o que acontecerá em breve — embora não fosse difícil adivinhar.
Quando os veículos pararam, Derrick abriu um dos compartimentos do balcão e pegou duas pistolas. Guardou uma no coldre que utilizava e depositou a outra no tampo, próxima a Cris.
— Vamos. — O subcomandante vestiu o capacete que estava em um dos bancos e saiu da viatura.
Cris pegou a arma e o seguiu. No lado de fora, sentiu o impacto do mormaço daquela manhã na pele refrescada pelo ar-condicionado. Deu alguns passos no terreno de pedregulhos até se juntar aos outros policiais e à doutora, que estavam ao lado de um dos ônibus. A uns 400 metros, havia uma lanchonete que dispunha de um estacionamento com poucos veículos presentes. A doutora com certeza levou em consideração a discrição ao sugerir parar naquele pequeno lugar perdido na estrada.
— Daniel, acompanhe a Dra. Lírie enquanto ficamos de guarda — ordenou Megan.
— Eu não concordei com isso. — De braços cruzados, a bióloga dobrou o pulso para erguer uma das mãos como se barrasse a ideia. — Algum de vocês traz aqui, porque não vou sair de perto dos harmínions. — As pupilas fitaram a arma presa na cintura de Derrick antes de se erguerem para encarar o capacete do policial.
Derrick se voltou para a comandante, que soltou um ar irritado pelas narinas e comprimiu os lábios.
— Que seja, então — disse ela. — Cris vai buscar o café da manhã e depois nos revezamos com as necessidades. Como pretende resolver essa parte, doutora?
— Tenho o ônibus, não precisa se preocupar comigo.
Cris se arrepiou ao imaginá-la dentro de um veículo cheio de harmínions. Era perigoso, aterrorizante para qualquer um e... maneiro. Gostaria de ficar ali para testemunhar a façanha, mas Megan não aceitaria mudar uma decisão por uma desculpa dessas — seria outra tentativa negada para adicionar à coleção —, então aceitou o destino que o direcionava à lanchonete.
Quinze minutos foi o tempo que Cris levou para comprar algumas barras de cereais, café em copos térmicos biodegradáveis e retornar para os veículos. Também foi tempo o suficiente para alguma coisa dar muito errado e ele encontrar o grupo incompleto.
Megan e Daniel tinham sumido. Perto do final da fileira de veículos, Derrick estava em alerta, de costas para a Dra. Lírie e com uma mão de prontidão cobrindo o coldre. A doutora, por sua vez, gritava desesperada com alguém no celular:
—... Não sei! Podem ter ido pra qualquer lugar! Tem uma floresta em volta!
Ao ouvi-la, Cris segurou firme a sacola que tinha em uma das mãos e o suporte de papelão que separava os copos na outra. Aproximou-se com passos corridos até vislumbrar a porta aberta do primeiro ônibus. Esticou o pescoço sobre o ombro para aferir um pouco mais ao longe que, no segundo ônibus, a porta também estava aberta.
Em contradição ao alerta enviado pelas batidas precipitadas do coração, ele se alinhou à entrada do primeiro ônibus. Congelou por três segundos de apreensão encobrindo-lhe os ouvidos enquanto observava o vazio da cabine frontal que separava o painel de controle da área dos passageiros. Sem medir o medo, e movido por um misto de curiosidade e adrenalina, avançou pela rampa e subiu no ônibus correndo; não fosse pelas tampas, não teria sobrado nada do café.
Passou pela porta aberta da cabine e parou diante dos primeiros bancos. Não fazia ideia do que esperar. Harmínions eram como humanos? Tinham uma forma humana com olhos sempre vermelhos e dentes afiados, segundo as histórias que contavam às crianças. Mas não tinha ninguém ali... ou poderiam estar escondidos atrás dos bancos. Deu um passo à frente e...
— Lá! Tem um lá!
Assaltado pelo grito da Dra. Lírie, Cris lançou um último olhar no interior vazio do veículo e correu de volta para a beira da estrada, onde quase trombou com Derrick, que, embora apontasse a arma para a floresta procurando um alvo entre as árvores, chegara até a porta para chamar o subordinado inconsequente que resolvera se enfiar no ônibus.
— Larga isso e vem pra cá! — vociferou o subcomandante.
A calamidade desalinhou a capacidade de priorização de Cris. Não sabia o que fazer com as compras e, não querendo empilhá-las sobre as pedras ao lado do asfalto e nem perder tempo guardando-as dentro da viatura, colocou-as no topo da rampa do ônibus.
Sacou a arma e se postou ao lado de Derrick, mas, antes que mirasse em algum lugar, viu Megan entre as árvores, voltando da floresta em uma marcha larga e furiosa. Abaixou a arma, seguindo a comandante com o olhar. Atrás dela, Daniel corria para alcançá-la.
— Abaixe a arma — Megan ordenou, gastando um segundo para encarar Derrick antes de se voltar para a bióloga. — Não tem nada lá! — Acelerou na direção dela. — Olha, doutora, não sei o que pretende com essa farsa, mas se pensa que somos idiotas...
— É claro que tem! — A doutora se exaltou em resposta ao tom alto da policial. — Eu acabei de ver alguma coisa!
— Não deveria estar vendo várias dessas coisas, então? Como que todos os passageiros sumiram de uma vez?
— Talvez, durante a viagem...
— As portas se abririam sozinhas para uncodeds?
A Dra. Lírie interrompeu o fluxo de réplicas, mas os olhos envoltos em lágrimas raivosas e contidas se recusaram a ceder.
— Se tivessem saído no meio do caminho, teríamos percebido — prosseguiu Megan. — Se é que tinha alguém lá dentro desde o início.
Os outros policiais guardaram as armas, embora Derrick ainda vasculhasse a orla da floresta, o capacete virando em várias direções.
— Isso não devia acontecer assim... — A doutora, enfim, permitiu que as lágrimas escapassem. — O Dr. Crow... ele... Os harmínions...
Daniel se voltou atento para ela à menção daquele nome, enquanto Megan respondeu com o levantar de uma sobrancelha cética.
— Não devia mesmo — reforçou a comandante em tom severo. — Seja o que for que esteja tramando, vai ter que se explicar quando chegarmos a uma delegacia. E é melhor que esses ônibus tenham vindo vazios mesmo, porque se alguém se machucar por causa desses harmínions... — Apontou um dedo acusador para a fronte da doutora.
— Eles não vão fazer nada! — A Dra. Lírie ergueu os antebraços até que as palmas das mãos estivessem abertas pouco abaixo e à frente do rosto em uma posição que suplicava calma; a testa franzida e os olhos exasperados complementaram a pintura de devastação na face dela. — Mas eu preciso seguir as instruções do doutor Crow.
Ainda desnorteado pelo caos da situação que confrontara pela metade, Cris entendeu que, pelas ordens e reações da comandante, não havia mais um estado de alerta. Imaginou que a falta do café da manhã também influenciasse aquele humor irritadiço que os demais compartilhavam.
Decidiu buscar a comida enquanto os outros resolviam o que fazer — não achou uma boa ideia se intrometer naquele momento, perguntaria sobre os detalhes perdidos depois. Voltou para perto do ônibus em que deixara as compras, mas não precisou chegar até a porta. Os ruídos da discussão entre os policiais e a bióloga não faziam mais diferença nos ouvidos perante a estranheza que o confrontou. A confusão pela qual passaram devia ter mexido com a memória dele porque, pelo que lembrava, tinha rejeitado a ideia de largar as coisas nos pedregulhos na beira da estrada, mas, então...
Foi a urgência do momento; foi o que concluiu antes de se abaixar para recolher a sacola e as bebidas do chão ao lado do pneu.
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