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Sozinho na recepção e sentado atrás da mesa principal, Cris relia uma mensagem no computador. Eram instruções de um superior sobre um serviço de última hora e ele, como recruta mais novo da organização — corrigindo: ex-recruta mais novo desde a chegada de Sara —, pretendia decorar todos os detalhes para não correr o risco de falhar em sua primeira missão envolvendo harmínions.

Ao notar a porta da delegacia abrindo, ele Ievantou a cabeça. O ambiente foi inundado pelo sol da manhã, acompanhando a visitante que adentrava o local.

— Oi! Estou procurando a comandante Lyckant.

— Dra. Lírie? — Cris desligou a tela do computador.

A bióloga meneou a cabeça e retirou a blusa comprida que vestia por cima da camiseta social, dobrando-a sobre um dos braços. Com tantas viagens e planos na cabeça, esqueceu do clima quente que encontraria no norte do continente e nem percebeu quando saiu do carro ainda com a roupa de frio.

— Posso guardar pra você? — O policial se levantou e ofereceu um sorriso além da gentileza.

— Por favor — aceitou a doutora, entregando a peça a ele.

Depois de colocar a blusa dentro de um dos compartimentos do guarda-volumes disposto na parede da sala, Cris abriu um sorriso largo e se voltou para a mulher.

— Vem comigo! — O tom alegre entregava a incapacidade de conter a animação provocada pela missão especial. — Estamos preparando tudo e só faltava você... — Deu alguns passos de costas enquanto a conduzia para um corredor. — Quero dizer, porque você precisa contar os detalhes, né?

Mori o seguiu com um olhar confuso destacado por uma face neutra, surpreendida por essa situação em que parecia ser a convidada de uma festa na delegacia.

Entraram em uma das primeiras salas, onde havia algumas bancadas de metal encostadas em uma parede e armários do outro lado. Sobre as bancadas estavam três bolsas de viagem estampadas com o símbolo de um escudo minimalista cujos traços azuis formavam a cabeça de um lobo no fundo branco.

— Pessoal, a Dra. Lírie chegou! — anunciou Cris.

Os ombros da doutora tensionaram ao vislumbrar uma pistola sendo colocada dentro de uma das bolsas. A mulher corpulenta que estivera em posse da arma ergueu a cabeça para encará-la.

— Dra. Lírie, sou a chefe de polícia Megan Lyckant e comandante da ECNR. — Diminuiu a curta distância que a separava da doutora. — Se precisar de alguma coisa, pode ver comigo ou com meu segundo em comando.

Megan inclinou a cabeça para o lado e um homem surgiu de maneira tão repentina que pareceu atraído pela força magnética do aceno.

— Derrick Lyckant. — O policial se apresentou mantendo uma postura perfeitamente alinhada. Não ofereceu um cumprimento de mãos e o semblante rígido lembrava uma estátua. — Subcomandante da equipe de contenção de não-registrados.

— Mori! — Uma voz fina e entusiasmada cortou o clima profissional do ambiente.

Mesmo se voltando de imediato para a origem do chamado, a doutora não teve tempo de reagir antes que alguém se atirasse na direção dela pronta para agarrá-la com um abraço.

— Mudou o cabelo de novo — comentou Sara enquanto deitava a cabeça de lado abaixo do queixo da doutora.

— Olha quem fala. — Mori retribuiu o abraço e o sorriso. Ao se afastarem, segurou uma mecha do rabo-de-cavalo da jovem antes de deixar os fios escorregarem de seus dedos. — O seu já tá quase maior que você. Me pegou de surpresa quando disse que seria uma policial, mas olha só você aqui mesmo.

— É... — As pupilas de Sara correram para um canto. — Eu... decidi que era o que eu queria fazer.

Considerando certos eventos traumatizantes que ocorreram há alguns anos, a bióloga estranhou a decisão dela e nunca se convenceu da explicação rasa que recebeu junto com a novidade, apenas aceitou que estava longe de compreender o processo pelo qual ela passou para se salvar dos pesadelos.

Recuperada do "ataque", direcionou a atenção para outra pessoa que aguardava, ao lado de Sara, o momento de também cumprimentá-la.

— Como você tá? — questionou ela, a hesitação ressoando na voz.

Daniel percebia a preocupação da amiga em todas as vezes em que se encontravam, e apenas especulava qual era a fonte daquela apreensão. Talvez ela esperasse que, de repente, ele caísse no chão e começasse a verter sangue — imaginou que poderia ainda estar fresca na memória dela a cena que presenciara há anos.

— Ahn... Bem. E você?

— Um pouco nervosa, mas acho que vou melhorar depois que tudo isso acabar.

Na mente de ambos os amigos de infância, parecia haver um sentimento incômodo que demandava o fechamento de um assunto, sem, contudo, encontrarem o momento propício para tal. Frases automáticas competiam com estratégias de perguntas com teor implícito e acabavam por entupir o fluxo de pensamentos, permitindo que o silêncio se esgueirasse entre eles.

— Já terminaram o reencontro? Podemos falar sobre a missão?

Mori se virou ao ouvir a demanda de Megan e retomou o ar de profissionalismo naquele estalo.

— Sim.

— Por aqui, doutora. — Megan levou a Dra. Lírie de volta ao corredor, guiando-a para mais fundo no prédio.

Cris e Daniel também seguiram a comandante, mas, quando Sara se alinhou atrás deles, foi barrada por Derrick.

— Deve esperar na recepção, oficial Aidler — informou o subcomandante a ela.

— O quê? — A surpresa moldou o semblante da jovem com uma testa franzida pela confusão.

Ouvindo a conversa, Daniel parou e virou discretamente para trás, a fim de enxergar Sara pelo canto do olho.

— Deve esperar na recepção. — Derrick repetiu a entonação além das palavras.

— Por quê?

— Somente os envolvidos na missão devem comparecer à reunião.

— Eu... não vou participar? Mas por quê?

— Ainda não tem a experiência necessária.

— Como assim...?

— Sara — interrompeu Daniel, virando-se por completo na direção dela e destacando a severidade com a voz —, essa decisão já foi tomada. Você acabou de chegar e ainda não finalizou o treinamento. — Com a convivência, Daniel descobriu que, apesar de Derrick ser rigoroso com as regras, não era difícil desnorteá-lo alegando ter provas ou uma justificativa lógica, como um vídeo de treinamento destacando certas habilidades. E mesmo ciente de que Megan era o completo oposto e não mudaria os planos só porque um subordinado solicitou, ainda assim ele se arrepiou com a ideia de a primeira missão de Sara ser justo uma que a afetava emocionalmente. — Se discorda da ordem, abra um processo oficial, não atrapalhe o andamento da missão.

Desacostumada a ser tratada com aquela dureza pelo amigo, a novata congelou a boca mantendo uma pequena fenda entre os lábios. As pupilas se fixaram nas de Daniel, primeiro inseguras, depois evoluindo para um olhar áspero. Não podia se dar ao luxo de acumular punições e acabar transferida ou expulsa da equipe — não quando ainda considerava a utilidade daquele cargo —, mas talvez essa missão... talvez essa fosse a razão de estar ali... e perderia a oportunidade.

Se não tivesse desperdiçado anos enrolada em conflitos psicológicos, teria chegado mais cedo aonde precisava.

Fechou as mãos em punhos firmes e marchou na direção oposta a da equipe, acatando o comando de seu superior e amaldiçoando as próprias fraquezas além da falta de apoio do amigo.

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