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Mori ergueu a cabeça em um ímpeto, desviando o olhar do celular em mãos quando ouviu o deslizar suave das portas automáticas se abrindo. Os olhos castanhos carregados de expectativa acompanharam a longa jornada de Li até sentar no banco ao lado dela.
Esperava por ele em um dos observatórios da floresta tropical, sentada em frente à parede de vidro. A vista apaziguadora da natureza era o que precisava para combater os cenários pessimistas dentro da cabeça.
— Já almoçou? — questionou a doutora, preocupada com o semblante cansado de Li. — Se recuperou do fuso horário? — Repetiu as questões que não foram respondidas nas mensagens do celular.
O cientista esfregou o rosto com movimentos demorados, desalinhando os óculos para alcançar os olhos e reajeitando o acessório no final. Ainda com o ânimo de uma preguiça, encheu e esvaziou os pulmões com um suspiro profundo, o olhar aguçado após o ritual.
— Consegui o transporte. É só informar o dia, que estarão disponíveis. E... teremos total controle da rota — informou ele, ignorando as perguntas outra vez.
— Podemos usá-los amanhã? — Antes sério, o rosto da bióloga se iluminou com um sorriso para em seguida apagar com as novas considerações que lhe chegavam na corrida de pensamentos. — Quero dizer... muito precipitado, né? Mas é só isso mesmo? Controle total da rota... não significa que não terão acesso ao trajeto. Contou pra eles pra onde vamos levar os harmínions?
— Eu disse que ainda pensaria nos detalhes, e impuseram a condição de que a equipe de contenção de uncodeds acompanhe a transferência.
— Acho que veremos o Daniel, então. Ele entrou na equipe responsável por Elephant Stone.
Li revirou os olhos e envergou um canto da boca para baixo.
— Conveniente — disse, esgotado em demasia para manifestar o sarcasmo na voz.
— Você não sabia?
— Eu pareço ser alguém que se importa em acompanhar a carreira dos outros?
— Parece. Quando guarda rancor de alguém e fica obsessivo com a ideia de vingança.
— Que razão eu teria para me vingar dele?
Mori estava com uma réplica na ponta da língua, mas fechou a boca quando foi recebida por um questionamento ao invés de uma justificativa esdrúxula.
— Nenhuma. — Não seria ela a apontar as minúcias dos fatos e marcar um alvo em um amigo, embora... talvez fosse tarde para pensar assim depois de ter levantado a hipótese sem querer. Nem imaginou que Li estivesse tão concentrado na presa atual a ponto de ignorar os pormenores que encadearam os acontecimentos de um certo dia fatídico.
O cansaço impediu o surgimento de um sorriso de canto irônico no semblante do cientista. Era inútil a doutora dissimular agora, quando, em uma resposta anterior, as palavras usadas denunciaram a certeza de um julgamento; então devia haver motivos, e encontrá-los não levou mais do que segundos relembrando os poucos feitos do réu.
— Tem razão. Foi ele quem levou a arma que matou o Elliot e eu deveria ter considerado isso. A verdade é que ele é tão ingênuo e incompetente que nem o considerei como culpado, mas prometo adicioná-lo à minha agenda.
A Dra. Lírie franziu o cenho. Não daria corda à gracinha.
— Então... vamos revelar mesmo a nova localização dos harmínions? — Ela retomou o tom sério, como se nunca tivessem desviado do assunto principal.
— No início, pensei que seria necessário porque não teríamos uma base sólida para mentir e, se descobrissem a verdade, desgastaria a minha relação com o governo. — Li Ievantou as sobrancelhas, quase como se quisesse demonstrar animação. — Porém, quando falaram sobre a equipe de contenção, tive uma ideia. — Esticou os lábios nos dois lados da face usando o mínimo de esforço necessário. — Eles servirão de testemunhas.
— Que é exatamente o que não queremos. — Mori tentou acompanhá-lo no sorriso, mas a dúvida quanto ao significado real daquela ideia impediu que a emoção alcançasse a expressão.
— Eles serão testemunhas do que não aconteceu, enquanto estiver acontecendo.
A curiosidade removeu alguns traços de preocupação do semblante da bióloga. Lá vinha mais um plano mirabolante de Li, que talvez parecesse incrível na descrição, mas possivelmente traria de volta a ansiedade ao ritmo cardíaco — e ela jamais afirmaria que a adrenalina não era de todo desagradável.
— Eu notei um certo interesse da pessoa que autorizou nossa "excursão" em ganhar a minha confiança. Usarei isso a favor do plano também — prosseguiu o cientista.
A inquietude de outrora, que afetara Mori durante a ausência de Li, retornou com aquela nova informação. Mesmo ciente de que ele tinha experiência em lidar com pessoas influentes, não podia evitar de ficar apreensiva cada vez que um novo personagem era introduzido à história — considerando o que esperava dos alquimistas, receava o surgimento de um novo "Raymond".
— Falando nisso, como foi a reunião?
Mais rápida do que imaginei, foi a primeira resposta a brotar na mente de Li, mas antes que a vocalizasse, um movimento captado pelo canto do olho atraiu a cabeça para o lado. Cinco minutos foi a contagem enviesada dele entre o tempo de chegar de viagem e ser caçado pela diretora do complexo laboratorial. Devia ser um novo recorde.
Cateryn avançou em passadas ligeiras, vinda da mesma entrada usada por Li. Ela parou ao lado do banco e cruzou os braços, transbordando o mesmo incômodo e cansaço de uma mãe desconfiada da próxima travessura dos filhos.
— O que estão tramando?
Mori mordeu a parte interna do lábio inferior.
— Decidindo para onde levaremos os harmínions de Elephant Stone — revelou Li, jogando por água abaixo as justificativas em processo de elaboração na mente da Dr. Lírie.
A surpresa afugentou o mau humor da face de Cateryn em um piscar de olhos.
— Como pretendem fazer isso? Conseguiram uma autorização?
— Sim.
— Como? Nunca aceitaram um pedido de realocação dos harmínions de nenhum biólogo no mundo.
— Porque nenhum deles era Elias Crow. — Li até pretendia exibir um sorriso de canto, mas o cansaço e impaciência permitiram, no máximo, um tom soberbo.
A diretora revirou os olhos e engoliu uma resposta automática junto do orgulho para evitar um conflito desnecessário em meio a uma questão importante.
— Quais são as opções? — indagou ela.
Li ergueu uma sobrancelha, cético.
—... De lugares para levá-los — explicou Cat. — Estão pensando em trazê-los para cá?
Mori lançou um olhar temeroso para Li. Reconheceu a tensão que antecedia um embate, como em quase todas as conversas entre os dois Crow. Restava a ela intermediar já no início da situação, evitando que esta escalasse.
— É uma possibilidade — interviu a Dra. Lírie.
— Quero ajudar — anunciou Cateryn. — Parece que vocês esquecem que eu também sou uma bióloga. — As pupilas severas apontaram para Elias. — Aliás, têm vários outros biólogos competentes por aqui. Com um assunto importante desse, você não tem a intenção de perguntar o que eles acham?
Antes que uma resposta desrespeitosa e provocativa passasse dos lábios do cientista, Mori se apressou a esclarecer:
— Esse caso é diferente. Não estamos falando de animais. Harmínions são pessoas. Eles também expressam opiniões e impõe condições. Não gostam de ser vistos e nem confiam em humanos. — A doutora movimentou a cabeça devagar para os lados, salientando aquela aversão. — Não se trata do que achamos melhor para eles, mas de um acordo entre representantes não oficiais de dois povos para descobrir o que podemos fazer para ajudá-los.
Cat soltou o ar que havia emprestado para um contra-argumento. Inclinou a cabeça para baixo, de forma sutil, e as pupilas vagaram nas bordas inferiores dos olhos enquanto ela media as palavras da amiga.
— Ainda assim... devem me informar caso decidam trazer os harmínions para cá. A não ser que pretendam escondê-los aqui? — questionou a diretora, despida do fervor de segundos atrás.
— Em respeito aos harmínions, para priorizar a segurança e privacidade deles, é melhor que isso fique em segredo. A Amazônia é uma possibilidade, mas não a única. — Apesar da resposta firme, o tom seguinte foi condolente: — Desculpa, Cat, mas isso é por eles.
Cateryn manteve os olhos cinza-esverdeados fixados em Mori como último recurso em convencê-la, porém, ao aceitar a muralha impenetrável que era aquela mulher defendendo seus ideais, virou a cabeça para o lado, compensando a desistência com a vista da floresta, depois suspirou e abriu um sorriso complacente.
— Entendo. — Voltou-se para a jovem doutora. — Não tenho dúvida de que está pensando no melhor para eles. — Soltou o ar outra vez, impregnado de conformidade. — Vou deixá-los em paz, mas se decidirem trazê-los aqui, me avisem, de maneira formal... ou mesmo informal, se quiserem manter segredo.
Escondeu as mãos nos bolsos da calça e caminhou para a mesma direção de onde veio. Usando uma camiseta simples, que indicava o horário de folga, os tentáculos da tatuagem de polvo estavam à mostra enrolados no braço direito, enquanto o corpo esguio de uma moreia laçava o esquerdo.
— Até que ela aceitou fácil — comentou Li, assim que Cat passou pelas portas transparentes em direção ao elevador.
— Às vezes, gentileza e honestidade funcionam, sabe? — Mori arqueou as sobrancelhas e o encarou.
Ele se voltou para a janela de vidro à frente, mas observou a doutora pelo canto dos olhos.
— Eu sei. Já usei diversas vezes para conseguir o que eu queria.
— Então por que não usou agora?
— Se já é insuportável uma, imagine duas pessoas fingindo ser Elias Crow em um mesmo ambiente. — Virou a cabeça de novo na direção de Cateryn e observou as portas do elevador se fecharem, esquivando o olhar antes que uma conexão desagradável ocorresse. — E logo começariam os assuntos de lembranças de infância e futilidades de família. Mudar a minha tática foi uma escolha de sobrevivência, não mero capricho.
Ainda que houvesse um fundo de verdade na explicação, Mori conhecia Li o bastante para saber que ele fugiria de exercer aquele papel que tanto detestava na primeira desculpa que surgisse escondida atrás de uma solução questionável. Era compreensível e, ao mesmo tempo, desalentador quando pensava em como devia ser viver a vida inteira sustentando-se em mentiras e atuações. Se pudesse... Desejava fazer mais do que ser a pessoa com quem ele poderia contar por trás do palco.
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