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Mori estranhou a ausência de Sara na sala de reunião — decerto ela seria a mais interessada em qualquer plano que envolvesse harmínions —, no entanto, não estava em posição de fazer esse questionamento.
Depois que todos se sentaram à mesa redonda, Megan tocou o tampo de vidro escuro do móvel, que cobria do centro até uma faixa de madeira de 20 centímetros nas bordas. Com outros dois toques nas opções que apareceram na interface agora iluminada, um mapa se desenhou por toda a superfície.
— Sabemos que a missão se resume a escoltar um veículo — informou a comandante. — Mas não temos detalhes sobre o percurso ou o tipo de veículo.
— Vão ser dois ônibus — disse a Dra. Lírie.
— Harmínions usando veículos para civis? — Megan cruzou os braços.
Com as mãos apoiadas no colo para prevenir tremores, Mori observou o mapa. Os olhos perambularam pelas linhas das estradas até chegarem a um ponto vermelho no leste da parte norte do continente: a floresta de Elephant Stone, atual moradia dos harmínions.
— Sim. — A bióloga ergueu a cabeça, direcionando a expressão séria à comandante.
— Para onde serão levados?
— Aqui. — Com o indicador, ela apontou o fim de uma linha que encostava na divisória no extremo oeste onde, ao norte, as cores verde e cinza que ilustravam as cidades e áreas de floresta davam lugar ao branco, enquanto do outro lado da divisória o marrom predominava até chegar ao mar.
— Território dos uncoded. — A chefe de polícia franziu o cenho. — Se essa área não estivesse inóspita, teríamos um problema, mas se esses harmínions decidirem ir para o sul, definitivamente teremos um problema.
— Isso não vai acontecer. Eles vão ficar próximos do litoral. Eles nunca saíram da floresta antes, e continuariam lá se as pessoas não estivessem incomodadas com isso. Eu posso garantir que não irão iniciar nenhum conflito.
A policial perdurou um olhar descrente no destino apontado antes de voltar a encarar a doutora.
— E eles vão sobreviver lá? É bem diferente de uma floresta.
— Sim. — A bióloga imputou toda a seriedade possível no tom para convencê-la.
— Tudo bem, então. — A comandante suspirou em uma aparente concordância, porém retesou a voz e os músculos do rosto ao continuar: — Mas quero saber o que aconteceu na floresta de Elephant Stone oito anos atrás. Agiremos em menor número porque não nos permitiram chamar reforços. Estou trabalhando com uma equipe nova porque a maioria dos meus policiais pediu transferência depois que viram o que aconteceu com esse aqui. — Estendeu o antebraço, com a palma da mão voltada para cima, na direção de Daniel ao lado esquerdo dela e direito da doutora, depois jogou os braços cruzados sobre a mesa. — Oito anos com poucos recrutas e muitas desistências. E mesmo que seja uma missão de escolta, lidaremos com criaturas perigosas. Seria gentil da sua parte, como especialista, nos orientar sobre qualquer situação desagradável que possamos enfrentar.
— Não vai ter nenhuma situação desagradável — assegurou a Dra. Lírie. — Os harmínions não vão chegar perto de vocês; aliás, vocês nem irão vê-los. Os ônibus estarão prontos às duas da manhã para a escolta.
— Tem certeza? — Megan arqueou as sobrancelhas e inquiriu a doutora com um olhar penetrante. — Devemos nos preparar até para a menor das possibilidades.
— Eu garanto. O que aconteceu com o Daniel e com aquela família não vai se repetir. Foram casos específicos com um fator em comum... e esse fator não existe mais.
A comandante soltou um suspiro cético outra vez e selou os lábios.
— A minha carreira depende disso — insistiu a doutora. — Não tenho o apoio da população e, se alguma coisa der errado, vou perder qualquer mínima credibilidade que eu ainda possa ter. Se eu falhar agora, os harmínions não terão outra chance e eu nunca arriscaria isso. Eu garanto que eles não são uma ameaça.
Megan continuou desafiando as íris castanhas e esperançosas da bióloga — que resistiu com a mesma intensidade — até expulsar o ar dos pulmões e esfregar a fronte, fechando as pálpebras.
— Daniel — ela chamou a atenção dele enquanto cobria os olhos com a mão —, o que acha disso? O que aconteceu quando foi atacado?
O policial rangeu os dentes e enrugou a testa enquanto focava no ponto de Elephant Stone no mapa, como se um pop-up fosse saltar sobre a área verde da floresta para revelar algum segredo daquele dia.
— Ahn... Não lembro direito. Acho que eu desmaiei na hora... e depois acordei no hospital.
— Foi isso mesmo — confirmou Mori.
— E como os outros saíram ilesos? Como você saiu vivo de tudo isso? — Megan encarou o subordinado, as pupilas inquisidoras coagindo-o a confessar algo além. — Como a criatura morreu?
Anos atrás, ao passar por um interrogatório idêntico e conduzido pela mesma pessoa, Daniel se viu incapaz de responder a maioria daquelas perguntas — apesar de que, ainda que soubesse o que ocorreu depois que foi atacado, a desconfiança o impedira de revelar os detalhes a Megan naquela época. Virou a cabeça na direção de Mori com expectativa e levou de companhia o olhar da comandante.
A Dra. Lírie travou a mandíbula. Não imaginou que precisaria lidar com aquelas inquisições; e não importava o que quisessem saber, havia uma linha que ela se recusava a ultrapassar e, pelo visto, teria que desenhá-la para os policiais.
— Não vou compartilhar essas informações — disse, resoluta. — Se precisa tanto delas, sugiro que solicite a algum superior seu.
As pupilas de Megan estremeceram pela incredulidade naquela audácia. Se, até aquele momento, a severidade da comandante tinha origem no profissionalismo de alguém responsável pela segurança de subordinados e civis, a partir de agora teria também como fonte a animosidade que a doutora invocava.
— O Daniel foi chamado para fabricar um tranquilizante que funcionasse nos harmínions. — A chefe de polícia não deixou um pingo sequer de descontentamento afetar a entonação. — E depois de entregar essa "munição especial", ele sumiu para mais tarde ser atacado na floresta. Não posso afirmar que algum de vocês carregava uma arma naquele dia, mas se aquilo era mesmo um simples tranquilizante, o que aconteceu com o harmínion descontrolado? Como ele sumiu? — A impaciência mal permitiu tempo para uma resposta. — Eu esperava um pouco mais de cooperação. Fique ciente de que tomarei as decisões necessárias para a segurança da minha equipe.
— Tudo bem. — Mori estreitou os olhos de leve, falhando em disfarçar o desagrado recíproco e o sarcasmo da voz. — Vocês só precisam ficar longe da floresta, igual aquela vez, e seguirem as coordenadas dos ônibus.
As duas pareciam incapazes de desgrudar aqueles olhares intensos até Derrick se pronunciar alheio à tensão:
— Quando estiverem prontos para partir... — digitando na tela da mesa, ele acessou o perfil da doutora Lírie na rede social, cujo bloqueio de privacidade definido por ela não barrava a conta de um oficial — compartilhe a localização dos veículos por aqui. — Enviou uma mensagem privada a Mori.
— Ótimo. — A cadeira de Megan arranhou o chão quando ela se levantou. — Ainda temos tempo até a noite. A viagem não será longa, mas quero todos atentos para a missão. Retirem-se para o dormitório e descansem.
Enquanto os outros se levantavam, a comandante mirou a bióloga de novo.
— Doutora Lírie. — Ela deixou os próximos cinco segundos esmaecerem no silêncio junto das palavras que cogitara dizer inicialmente. — Aguardaremos o seu contato. — Finalizou com um tom neutro.
Mori assentiu com a cabeça, porém o sinal não foi captado por Megan, que já havia lhe dado as costas em vista de abandonar o recinto o quanto antes. A bióloga seguiu pelo mesmo caminho, descendo as escadas até o corredor, mas parou na primeira porta e se voltou para trás enquanto a comandante e Derrick continuaram em frente. Levantou olhares aflitos a Daniel, que vinha ao lado de Cris.
— Vai indo; eu já vou — disse Daniel, empurrando de leve o ombro do outro policial para incentivá-lo a deixá-los a sós no fim da fila.
Assim que se viram sozinhos, houve outro momento daquele silêncio familiar incompreensível entre os dois amigos de infância. O cérebro de Daniel formigou com a ausência da intimidade de outrora, que evitaria essa sensação de serem desconhecidos tentando se reconhecer em um encontro aleatório na rua.
Como que declarando que ainda não estava satisfeita com aquele lugar para conversarem, Mori retomou o caminho do corredor em silêncio. Eles atravessaram a porta da recepção para se depararem com uma jovem irritada sentada atrás da mesa de atendimento.
Daniel reparou no sorriso forçado que figurou estranho na face de Mori quando ela se aproximou da mesa e cogitou que, talvez, o problema não estivesse na relação deles, mas sim na própria Mori.
— Tchau, Sara! Foi bom te ver — despediu-se a doutora.
— Te mando mensagem depois. — De braços cruzados e expressão emburrada, Sara não poupou a amiga do olhar furioso.
A bióloga não ofereceu nada além de um aceno hesitante da cabeça enquanto andava para fora da delegacia, mas deixou o nervosismo escapar com um suspiro ao ouvir Daniel fechar a porta do prédio atrás deles.
O entardecer derramava um arroxeado pelo céu e as luzes nos postes estavam acesas. Havia poucas pessoas na praça do outro lado da rua, e nenhuma na calçada onde eles estavam — a doutora averiguara pelos cantos dos olhos.
— Vão usar mesmo aquela munição que você criou? — Ela se voltou para o amigo quase sussurrando, embora soubesse que não tinha ninguém ali para ouvi-los.
— Eu... não voltei a fabricá-las, mas eles ainda têm várias guardadas.
Mori segurou os braços, como se estivesse no bioma polar sem as roupas adequadas.
— Então eles não testaram de alguma outra forma só para descobrir se funcionam?
— Não aconteceu mais nenhum incidente com harmínions que eu saiba, e acho que isso não faz muita diferença agora; vão usar o que acharem necessário. — Daniel abaixou a cabeça por um instante, trocando a expressão séria por uma melancólica ao erguê-la. — Mas... é... funcionou? O Elliot morreu mesmo por causa disso? Vocês nunca... me explicaram direito o que aconteceu. — O tom sentido reforçou o semblante. — Eu não contei sobre a arma.
Aquele era um tópico delicado. Ao mesmo tempo que Mori não achava justo omitir a informação do amigo, também não era algo fácil de explicar quando envolvia escolhas complicadas e segredos de outras pessoas. Restou a ela encará-lo com uma expressão desconcertada que beirava o remorso.
— Ah, é... percebi isso quando ela falou. Você mentiu? E para a sua comandante? — A doutora forçou um sorriso incrédulo, ansiosa por se distanciar das últimas questões. — Nem parece você.
— Primeiro que ela não era minha comandante ainda; e segundo: eu só omiti.
Mori balançou a cabeça e soltou um riso frágil, mas ao menos natural.
— E o que foi aquilo na reunião? Encarando a Megan daquele jeito — continuou Daniel após pousar as mãos na cintura. — Você é que nem parecia você.
— Estou aqui para defender os harmínions — declarou ela em tom austero.
Um som despontou do bolso da calça de Mori, que hesitou em atender o celular depois de pegá-lo e descobrir quem estava ligando.
— Um momento — pediu ao amigo.
Inspirou antes de apertar o ícone verde para aceitar a chamada e colocou o aparelho próximo à orelha.
O policial observou as alterações no rosto dela: a preocupação que deu lugar ao nervosismo com os lábios comprimidos e o queixo franzido, os olhos arregalados que rapidamente marejaram e a respiração acelerada.
Um movimento brusco e, sem ter dito nada, Mori afastou e desligou o celular, permitindo que, por um segundo, vozes zangadas e incompreensíveis poluíssem o renascimento do clima nostálgico e agradável que os dois amigos quase haviam recuperado depois de anos.
— Seus pais? — questionou Daniel.
Cabisbaixa, a bióloga guardou o aparelho em silêncio. Ao encarar o policial de novo, trouxe de volta o sorriso fraco na tentativa de amenizar o olhar abatido. Permaneceu calada, mas aceitou um abraço oferecido por Daniel e pousou o rosto no ombro dele. Uma vez tranquilizada pelo acolhimento, encontrou disposição para falar:
— Eles acham um absurdo todas as campanhas que eu fiz em defesa dos harmínions. Insistem que estou defendendo monstros.
Na infância, Daniel conheceu a cobrança exagerada dos pais de Mori e se acostumou a confortá-la todas as vezes em que ela se refugiava no restaurante da família dele. Não foi uma surpresa presenciar aquele novo julgamento, ainda mais sobre um assunto cujo senso comum já fora estabelecido há séculos na sociedade. Mas talvez houvesse algo que ele ainda pudesse fazer pela amiga.
— Já sei! — despontou ele. — Depois que a missão terminar, que tal jantar na minha casa?
A expressão tristonha de Mori adquiriu um olhar confuso pela animação súbita do policial.
— Podemos chamar a Sara também e lembrar dos velhos tempos. E pode ser uma oferta de paz também — prosseguiu ele —, porque ela deve estar uma fera comigo agora — acrescentou rápido e no tom baixo de um pensamento escapado.
— A Anabela não vai se incomodar?
— Nem um pouco — Daniel abaixou um pouco a cabeça e encarou a amiga com as pupilas no topo dos olhos estreitados, como se a oferta não fosse atraente o bastante e demandasse o reforço de uma expressão que ironizava a sedução —, ainda mais se você me ajudar na cozinha.
A doutora divagou por um momento, soltando o ar junto de um riso fechado ao final.
— Um convite para trabalhar na cozinha. — O sorriso dela se expandiu, embora tênue como um arco-íris em meio à garoa. — Parece divertido.
Talvez não fosse necessário mais do que a convivência para recuperar relações antigas. Mas, Daniel, apesar de mais maduro do que naquela época e cético pelas experiências que passou, ainda cultivava uma certa ingenuidade na confiança que depositava nos amigos.
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