Capítulo 9
Prestar atenção na aula de Redação era a última coisa que eu conseguiria fazer naquela manhã, principalmente depois de chamar Sammy para sair.
Foi um encontro na base da pressão? Foi, mas eu realmente queria fazer isso, só precisei de um "empurrãozinho" — que estava mais para um tapa na cara dado pela própria Sam.
Mas o importante é que teríamos um encontro e que isso estava tirando todo o meu foco na aula.
O professor William já estava com o quadro branco cheio de setas e palavras-chaves feitas com pincéis coloridos, mas eu não conseguia entender nada daquilo. Olhei de canto para os outros alunos e vi como eles anotavam o conteúdo freneticamente enquanto eu ainda estava com a primeira folha em branco.
Eu precisava tirar aquela garota da cabeça e estudar.
Quando o ponteiro do relógio chegou ao horário do intervalo, o professor se despediu e também nos preparamos para sair, pois a aula seguinte seria no Laboratório de Fotografia – a disciplina que eu mais estava ansioso para estudar. Peguei minha mochila e passei pelas carteiras junto com os outros, mas quando estava próximo da porta senti um baque no lado direito do corpo.
— Ai, me desculpa, amiga! — O garoto alto, ruivo e esguio me encarou atônito. — Eu sou uma anta mesmo!
— Tudo bem! — Soltei uma risada tímida e ajeitei a mochila nos ombros. Seu cabelo encaracolado caía pela testa e ele retirou os cachos desajeitadamente em um gesto quase teatral.
— Te machuquei não, né? Desculpa mesmo!
— Homem é um bicho atrapalhado, né! — Alice protestou e pegou meu braço para passar ao redor do dela. — Vamos sentar com as outras meninas.
— Num entendi seu comentário não! — O ruivo cruzou os braços e ergueu uma das sobrancelhas, porém a garota apenas deu de ombros.
— Piada interna de garotas, você é homem então nunca entenderia.
— Na verdade, eu não vou ao refeitório agora. — Consegui me soltar do braço de Alice, que pareceu murchar diante do meu gesto. — Eu... Vou... Na biblioteca.
— Tchê, eu também! Mas ainda não sei aonde é, cê me ajuda a chegar lá? — Concordei com a cabeça, ainda um pouco sem graça, e o ruivo mandou um beijo para a minha colega. Ele começou a andar apressado e, como supostamente estávamos indo ao mesmo lugar, eu o segui após dar um aceno tímido para Alice.
Quando ficamos há alguns metros de distância de todos os alunos, o meu provável novo colega abaixou o tom de voz para falar.
— Eu tenho um sexto sentido muito bom e vi que tu queria dar um chá de sumiço naquela garota.
— É, acho que é isso mesmo. — falei aliviado, feliz por finalmente ter tirado aquilo das costas. Era só o segundo dia de aula e eu me cansara de interagir apenas com as garotas.
— Meu nome é João Vitor, e tu é a Charlie né? — Ele pronunciou meu nome com a primeira sílaba um pouco mais puxada como um sibilar de cobra. — Que veio lá dos Estates?
— É, acho que todo mundo já sabe um pouco de mim. — Soltei um riso sem graça, com a cabeça baixa.
— Ai, desculpa, é chato né, tu deve se sentir meio deslocada. Eu sei como é isso.
— Sabe? — Eu estava tentando ignorar os pronomes femininos, sem saber quando seria o momento perfeito para explicar que eu era um garoto.
— É, eu sou bi, mas todo mundo me vê como um cara gay. — João mexeu nos cachos caindo na testa novamente. — Porque eu sou um pouco afeminado, saca? Mas eu nem ligo. Já tô acostumado a ser sozinho.
"Esse é o momento perfeito, Charlie! Conta pra ele que você é trans!"
Mas nós já havíamos chegado na porta da biblioteca, e João não iria entrar comigo. Ele apenas distraiu Alice.
— Pronto, vai ficar segura aqui, longe daquelas obcecadas por grupinhos fofoqueiros de garotas.
João se despediu antes que eu pudesse dizer alguma coisa. Parte de mim estava feliz por conhecer um garoto que poderia ser meu amigo, mas a outra parte continuava se martirizando por não conseguir contar sobre o meu gênero.
Ainda faltavam alguns minutos para a próxima aula, então deixei minha mochila em um dos armários da biblioteca, peguei o chaveiro de número correspondente ao armário e me acomodei em uma das poltronas que ficavam no centro do salão. Tal foi minha alegria ao ver que havia uma mensagem não-lida de Sammy.
— Bom dia! Pensei em ir naquela cafeteria perto da faculdade, o que tu acha?
Sua mensagem foi enviada há uma hora, mas o símbolo de online estava ali então poderíamos conversar um pouco.
— Ei, Sam! Desculpa a demora, era aula de Redação. Acho que vai ser a matéria mais difícil desse período. — Mandei um emoji triste. — E eu acho a ideia boa, moro perto da faculdade e você pode ir de lá para a aula.
— Isso! E como tu acha Redação difícil? Não é possível.
Fiz uma careta ao ler sua mensagem e desconfiei de que ela estava rindo de mim atrás da tela.
— Olha só, eu tenho dificuldade! Se quiser, pode me ajudar...Vou ser um bom aluno.
Desliguei a tela do celular e projetei uma imagem de mim mesmo socando a minha própria cara. Que flerte foi esse?! E por que eu estava flertando?
Eu era péssimo.
— Está insinuando alguma coisa, senhor..?
— Stewart, senhorita. E não, foi apenas um comentário qualquer. Eu diria que a maldade está nos seus olhos!
— Você é péssimo, guri! — Ela digitou usando o recurso negrito do celular e enviou vários emojis dando risada.
Por um momento, pensei que meu gênero seria irrelevante ao encontrá-la. Nós estávamos nos dando bem e a má impressão que Sam teve de mim pareceu ter acabado. Ela estava confiando em mim e teríamos um encontro.
Talvez as coisas pudessem dar certo.
— Eu tenho que ir agora, vou ajudar minha mãe com algumas coisas. A gente se fala depois.
— Claro, e mais tarde a gente se vê.
Enviei um símbolo de coração e torci para que Sammy não me achasse um garoto estilo "fofo" demais.
A primeira impressão virtualmente parecia ter dado certo, agora eu precisava causar uma boa impressão na vida real.

Cheguei rápido em casa e encontrei Paul saindo para trabalhar e minha mãe pintando o cabelo na área de serviço. Suas mãos estavam manchadas de tinta preta quando ela acenou para mim e disse para esquentar a comida das panelas no microondas.
Comi o mais rápido que pude e usei o tempo economizado na corrida pra casa e no almoço de cinco minutos para tomar um banho demorado: precisava relaxar e passar a máquina no meu cabelo para consertar os fios que estavam crescendo. Com o passar dos anos mantendo o corte curto, investi em aprender a cortar sozinho — o que já rendeu vários cortes atrás da orelha e na nuca, pois eram as regiões mais difíceis de ver, mas eu geralmente me saía bem.
E hoje era um dia especial, então eu precisava me arrumar e isso também incluía usar uma faixa.
Eu já havia desistido de usar durante as manhãs da faculdade, mas para aquele encontro eu queria estar com a aparência mais próxima do que eu desejava ter; era essa a aparência que eu queria que Sammy visualizasse.
Não se tratava de como eu era no momento, mas de como eu seria no futuro. Eu queria fazê-la entender isso hoje.
Eu estava pronto para contar.

Eu não sabia se minha respiração descompassada era fruto da faixa em meus seios ou da expectativa de encontrar Sammy em alguns minutos.
A cafeteria ao lado da faculdade estava movimentada pelos alunos do turno vespertino. As mesas de madeira dispostas ao redor do salão estavam quase todas preenchidas e não fiz o meu pedido para esperar por Sam e pedir junto com ela.
Minhas mãos suavam frio e eu estava com medo da reação da garota. Era como um filme se passando em minha cabeça e comecei a questionar se foi uma boa ideia deixar para que ela descobrisse a verdade pessoalmente. Parte de mim dizia que não, pois ela teria a impressão de que eu menti durante todo esse tempo. Contudo, parte de mim dizia que sim, pois pessoalmente ela não poderia me bloquear e eu teria tempo para me explicar.
Ou não.
Minhas roupas eram as mais largas possíveis para esconder o meu corpo ao máximo: calça jeans de um número maior que o meu, tênis e casaco, além da faixa que dava o aspecto de peitoral reto.
Eu até estava me sentindo um pouco bonito.
O barulho do sino da porta me fez olhar para a entrada, mas novamente não era Sammy chegando. Ela estava três minutos atrasada, eu não podia mandar uma mensagem ou ela pensaria que eu era obcecado por pontualidade.
Notei os músculos de meu corpo tensionados e tentei relaxar.
Eu dava batidas leves com o tênis contra o piso de madeira da cafeteria, uma reação à ansiedade. Minhas mãos suavam frio – típico de mim – e eu já estava teorizando de que Sammy havia me dispensado.
Então meu celular vibrou no bolso do casaco.
Quase sem respirar, peguei o aparelho com rapidez e vi a notificação da mensagem de Sammy.
— Desculpa a demora, já tô na rua do café, um minuto!
"É agora."
Era impressionante como o nosso corpo possuía um instinto de sobrevivência diante do perigo. "Lute ou corra!", era como meu antigo professor de ciências gostava de resumir. A carga de adrenalina que chegava em você poderia te fazer enfrentar um leão ou correr dele.
Eu devia ser corajoso e enfrentar, era por isso que eu estava naquela cafeteria me encontrando com Sam.
"Vou conseguir."
Em questão de segundos, a garota entraria pela porta e veria quem era, realmente, Charlie.
"Vou conseguir."
— Moça, não vai pedir nada mesmo?
"Não vou conseguir."
Sem dar tempo à garçonete que surgiu ao meu lado, eu coloquei o celular no bolso e me levantei da mesa.
Eu era um covarde mesmo.
Calculei de qualquer jeito o tempo que levaria para sair da rua sem a chance de cruzar com Sam. Depois eu daria alguma desculpa, poderia fingir que estava doente ou falar que surgiu algum imprevisto.
Puxei a porta da cafeteria e saí, até ver Sammy se aproximando.
Ela não poderia me reconhecer. Passou por mim sem notar minha presença, estava mexendo no celular e depois olhou a fachada da cafeteria. Virei para observá-la de costas.
Ela era baixa como eu. Infinitamente mais bonita do que eu. Seu cabelo estava totalmente preso em um coque. Meu coração se acelerou.
"PARA DE FUGIR, CHARLIE!" – minha consciência gritava tão alto que era capaz de alguém ouvir.
Os ombros de Sammy se mexeram, como se estivesse com a respiração rápida. Ela estava ansiosa assim como eu? Então ela estava realmente com boas expectativas para me ver?
— Sam? – Falei com a voz mais firme que pude ter no momento, mas minhas pernas estavam trêmulas. Era difícil me manter calmo, principalmente quando ela se virou e arregalou os olhos ao me ver.
Era a menina que conheci no dia da matrícula, com outro corte de cabelo, mas era ela.
Seu primeiro olhar sobre mim foi de dúvida. Eu não sabia se isso era um bom sinal. Ela piscou várias vezes, revelando um traço fino de delineador. Ela até se maquiara para se encontrar comigo.
Seus lábios se abriram, mas ela não disse nada de imediato. Eu também não conseguia dizer algo.
Sammy deu um passo para a frente. Engoli em seco.
— Charlie?

Eu sou muito mau véi kkkkkk
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