Capítulo 10
Sammy continuava imóvel diante de mim. Sua única pergunta foi o meu nome, e só consegui balançar a cabeça.
— É. — Eu deveria dar uma resposta melhor, talvez uma explicação rápida, mas me faltaram palavras.
— Eu... Ahn. — Os seus braços ficaram em volta de seu corpo, da mesma forma que eu ficava quando sentia frio. Notei os seus dedos apertando a própria pele. — Me desculpa, eu achei que você fosse um...
— Mas eu sou, é. —Respondi com a voz a ponto de falhar completamente. Forcei uma tosse para limpar a garganta e olhei para baixo, sentindo meu rosto queimar.
— Ah! Isso explica um bocado. — Sammy soltou um pequeno riso nervoso e vi seus pés se aproximando de mim. Ergui meus olhos para ela novamente.
— Eu não sabia como te contar, tá legal? — Falei de uma só vez, sentia meu peito ainda mais apertado. — Se quiser parar de falar comigo tudo bem, eu falei a verdade pra você, sou um garoto, só que... — Minha voz falhou. Aqueles dez segundos de coragem que usei para me explicar acabaram e eu não consegui falar uma simples palavra: trans.
Sammy ficou há poucos centímetros de mim, o que me deu a chance de reparar o seu queixo trêmulo e as bochechas coradas. Eu queria falar mais coisas, nas não conseguia.
— Tudo bem... Então. — Seu olhar estava fixo em mim.
— Você... Quer entrar? — Inclinei a cabeça para a cafeteria e mordi meu lábio, apreensivo. Engoli em seco novamente, já me preparando caso eu recebesse um grande "não" como resposta.
— Claro. — O sorriso de Sammy foi quase imperceptível, mas ele ainda estava ali. Tentei disfarçar o meu também.
Entramos no local e, felizmente, a mesa em que eu sentei antes ainda estava vazia. Sentamos de frente para o outro e a mesma garçonete que me atendeu minutos atrás apareceu.
— E então, meninas, o que vão querer?
Foi como se meu sangue estivesse saindo do meu corpo e me deixasse branco feito papel. A vergonha por ouvir aquela mulher me tratando no feminino na frente de Sammy era tudo o que eu não queria, principalmente no início.
Mas Sam me surpreendeu.
— Eu vou querer um capuccino, e acho que o Charlie também. — Ela disse rapidamente e um pouco tímida, logo depois olhou para mim. — Não é, amigo?
Levei alguns segundos para entender que Sam estava falando de mim para a garçonete, que era eu o amigo dela.
— É, é, isso! — Gaguejei sem querer e olhei para a mulher, com sua caderneta de comanda na mão. — É, eu, sabe como é, sou amigo dela! — Forcei uma risada grossa que claramente saiu falsa e passei a mão pelo cabelo, desconsertado. A garçonete murmurou um "ok" com a expressão confusa e se afastou de nós dois.
— O que foi isso?! "Sou amigo dela?" — Sammy soltou uma gargalhada e me senti aliviado. A cena cômica nos deixou leves instantaneamente e acabei rindo junto com ela, sem deixar de admirar o seu sorriso largo e o furo no queixo que se destacou em seu rosto.
— Me desculpa, eu fiquei... Nossa, eu não sei explicar... Tudo bem pra você?
— Eu acho que sim, mas e você? Fiz besteira? - Os olhos de Sam aumentaram de repente, ela realmente estava preocupada. Contudo, sua reação me fez rir, o que aliviou a tensão do momento. — Tipo, você... É um garoto, então... Né? — Ela cobriu o rosto com as duas mãos e soltou um gritinho engraçado, parecia envergonhada e confusa. Eu adorei aquilo. — Isso é muito doido pra mim, você é o primeiro que conheço!
— Tá tudo bem, não se preocupa, sério!
Falei com a maior convicção possível na voz e Samantha retirou as mãos do rosto, com os olhos brilhantes e animados para mim. Sua fala saiu com uma admiração que nunca recebi antes.
— Você é um garoto trans, então.
A sensação em meu corpo era de conforto em descrença.
— É, sim, eu sou um garoto.
Aquele era, de longe, o dia mais feliz da minha vida.

Apesar da ideia de nos encontrarmos na cafeteria ter sido por causa da proximidade com a faculdade, passear pelo bairro pareceu mais interessante e descontraído.
Sammy caminhava devagar e despreocupada. Nossas mãos estavam escondidas por baixo dos casacos — o vento estava um pouco gelado — e ela falava sobre um episódio engraçado em uma lanchonete que foi com a família. Sam estava simples e casual, sua calça de corte reto e blusa branca só eram complementadas por um cordão com um pingente em forma de círculo colorido e pela bolsa em seu ombro. Quase não era possível ver seu cabelo, que estava com uma faixa, cobrindo-o.
Nossa primeira hora de conversa foi incrível: ela não fez perguntas ou comentários estranhos, eu simplesmente havia dito que era um garoto e então começamos a falar mais sobre nós mesmos.
— E meu pai disse que, depois daquilo, nunca mais comeria um hambúrguer! — Ela finalizou sua história com uma risada.
— E você?
— Eu? Se pudesse, eu comeria todo dia! — Nós dois rimos alto com sua frase, até que encontramos um banco de concreto na calçada e decidimos nos sentar.
A caminhada provocara um pouco de calor, então tirei o meu casaco e o deixei em meu colo. Automaticamente meus ombros se inclinaram para a frente como forma de esconder meu tronco não tão reto, pois minha faixa não era muito boa.
— Tudo bem? Por que ficou curvado? — Sammy tinha um olhar apurado até demais.
— Ah, nada. — Endireitei minha postura e tentei não pensar no meu corpo. — Mas então... Você se dá bem com a sua família pelo jeito.
— É, acho que sim... Minha mãe é um pouco tradicional às vezes, mas é uma pessoa legal. E a sua família?
— Bom, pra início de conversa, eles me vêem como uma garota. Acho que isso já diz tudo. — falei com um certo tom de brincadeira para deixar a conversa mais leve e Sammy correspondeu.
— Ei! Que horrível! — Ela disse sorridente, mas logo voltou à postura anterior. — Falando sério, como eles são?
— Eles... São tradicionais também. Existem as coisas de menina e de menino. Não pode misturar. Ser gay é pecado, ser trans é pecado, tudo é pecado. — Dei de ombros, já conformado com aquele discurso. Sammy suspirou.
— Bom, o maior problema da minha família é querer se parecer com gente rica.
— Rica?
— É, você não iria entender.
Franzi as sobrancelhas um pouco confuso, mas não achei apropriado pedir explicações naquele momento. Não queria que Sammy me achasse um idiota.
Alguns segundos se passaram em silêncio e ficamos olhando o baixo movimento de carros na rua. A mão de Sammy estava apoiada no banco e pensei, por um pequeno segundo, que poderia pegá-la, mas depois a ideia me pareceu ridícula.
— É legal conversar com você. — Soltei de repente, sem me dar conta do sorriso estampado no meu rosto. Sam me fitou e sorriu de volta.
— Eu também acho, e me desculpa se falei besteira em algum momento.
— Você foi ótima, eu fiquei com medo de que não me aceitasse... — confessei.
— Bah, não deveria criar esses julgamentos na sua cabeça. — Sam ralhou, mas de uma forma carinhosa. — É claro que eu tenho um monte de dúvidas, não vou mentir... — Notei um rubor nas suas bochechas. — Mas é nosso primeiro encontro, isso não importa.
— É, não importa. — Repeti sua frase, eu estava em êxtase. Aquilo era um sonho.
Infelizmente, sonhos acabam em algum momento. Nesse caso, foi por culpa do alarme no celular de Sam. A garota soltou uma exclamação ao conferir a hora no aparelho, faltavam apenas cinco minutos para o início da sua aula.
— Me desculpa, eu preciso ir mesmo! — Ela se levantou apressada, ajeitando a bolsa que estava em seu ombro e guardando o celular de volta. — Mas podemos nos ver de novo, se quiser.
— Só se eu te chamar pra sair dessa vez! — Falei empolgado e vi que seu casaco ainda estava no banco, peguei a peça e entreguei para ela, que estava sorrindo para mim. — Ah, e obrigado.
— Pelo o quê? — Suas mãos pararam na roupa e ela me observou, esperando pela minha resposta. Seus olhos pretos piscavam rapidamente e descobri como era a sensação de ter borboletas no estômago.
— Por isso tudo.
Se Sammy enrubescia as bochechas com sua pele negra, eu virava um banhista que passou o dia inteiro na praia sem protetor solar. Apesar disso, Sam foi discreta e não fez um comentário sobre meu rosto vermelho, mesmo eu sentindo-o queimar intensamente.
— Não precisa agradecer, eu gostei de você.
Mantive o sorriso no rosto enquanto processava a sua frase, ainda meio incrédulo.
Nos despedimos ali na calçada e Sam seguiu o rumo contrário ao meu, em direção à Marie Curie. Fiquei observando-a se afastar de mim, ainda inebriado pelas últimas horas incríveis que passei com ela, e me sentia bem mais leve e confiante depois de ter sido honesto.
Por isso, quando cheguei em casa, eu ainda me sentia um ser completamente feliz e satisfeito e nada seria capaz de me atrapalhar.
Até me deparar com uma estranha aglomeração em casa.
Já era possível ouvir os barulhos de vozes do lado de dentro, mas quando abri a porta o espanto foi bem maior: um grupo de aproximadamente vinte pessoas estava espalhado pela sala de estar e jantar. Notei algumas bíblias nas mãos das pessoas e deduzi facilmente que eram os membros da nova congregação de minha mãe.
— Minha filha! Que demora! — Madison falou com um enorme sorriso, em seguida soltou uma risada forçada e olhou para as novas colegas. — Essa é a Charlie, acabou de entrar na faculdade!
— Que coisa boa, tchê! Deus te abençoe, minha querida! — Uma senhora se aproximou e estendeu a mão para mim. Fiquei extremamente sem graça, mas tive que fingir estar tudo bem para não receber a atenção daquelas pessoas. — Sua mãe é uma mulher incrível, meu bem!
— É, eu sei. — Forcei um sorriso. — Mãe, eu preciso ir pro quarto. — Falei com o olhar virado para a mulher. — Não sabia que ia ter uma reunião aqui.
— Foi de última hora, o Maximiliano precisou cancelar o encontro da célula na casa dele, e como eu queria conhecer melhor todo mundo, sugeri de virem para cá! — Minha mãe falou como se fosse a ideia mais maravilhosa do mundo e eu a encarava de olhos arregalados, sem saber como reagir.
— É... Que legal, né? — Falei sem jeito. — Bom, eu tenho muita coisa pra estudar, então preciso ir mesmo pro meu quarto... Muito prazer.
Meu sorriso deveria ser o mais falso e constrangedor do mundo, pois a animação fingida daquelas mulheres perto da minha mãe nem parecia mais tão falsa assim, já deviam estar com pena de mim. Felizmente ela entendeu e andei direto para o quarto, aliviado por ter chegado ao meu refúgio. A primeira coisa que fiz foi pegar o celular e mandar uma mensagem para a responsável por ter melhorado a minha tarde.
Meu dia estava feliz e terminaria assim, isso era o mais importante.
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