Capítulo 8
Eu acho que é bom esclarecer uma coisa aqui rapidão, pq na primeira versão eu falava mais sobre isso nos momentos Off, aí eu parei de falar mas chegou muito leitor novo:
Tirando a parte do Charlie ser gringo, essa história aqui é sobre mim, blz? Isso quer dizer duas coisas: sim essas coisas acontecem com pessoas trans e eu tô sendo até bonzinho e minimizando os fatos, mas também não isso não acontece com todas as pessoas trans, cada um tem uma história, eu tô contando uma sob o ponto de vista de uma pessoa branca, rica, que apesar de ser trans continua sendo um homem, e homem já viu, né. O Charlie tem um modo de ver o mundo que é igual ao meu, e misericórdia às vezes eu sou muito tóxico (eu não vou entrar no assunto de masculinidade tóxica nesse livro pq quem leu a primeira versão já conhece o Jaaaaasoooon e sabe o q vai rolar, ai q saudade desse homem, droga wattpad pq vc deletou meus livros?).
Enfim, eu não ligo se vocês quiserem dar uns tapas no Charlie de vez em quando, pq ele é burro às vezes e precisa aprender. Não tô fazendo um mocinho fofinho (na verdade eu ODEIO quando me tratam como fofinho só pq eu hihi sou transboy iti q fofo cuticuti, aff).
Agora sim vamos ao cap, prometo não atrapalhar mais vossas senhorias.

A água fria da pia do mesmo banheiro que eu fui minutos atrás foi o bastante para que eu me acalmasse um pouco. Estava perto de ter uma crise de choro quando Alice falou tantos pronomes femininos comigo, mas ela não tinha culpa.
Ninguém tinha culpa de nada, além de mim.
Eu deveria voltar para a aula, mas estava envergonhado. Tateei o bolso da calça à procura do meu celular e o encontrei. Enquanto saía do local em direção a um dos bancos de concreto espalhados, eu abri minha rede social e procurei mensagens não-lidas ou notificações, mas não havia nada. Eu até havia mandado uma mensagem para Sammy dando bom dia quando acordei, mas ela apenas visualizou e eu não queria mandar outra coisa enquanto ela não me respondesse.
Talvez ela só estivesse ocupada.
Respirei fundo e me reclinei no banco.
Deveria voltar para a aula como um aluno normal e me lembrei de que minha mochila ainda estava no lugar e respirei fundo, angustiado. Não tinha jeito: eu precisava voltar.
Minhas pernas pareciam dois blocos de chumbo quando me levantei e andei devagar até a minha sala de aula. Alguns fios do meu cabelo que caíam na testa ainda estavam molhados pela água que joguei em meu rosto.
Evitei contato visual com Alice e me concentrei em pontos aleatórios do quadro branco enquanto o professor fazia alguns desenhos rápidos, sem prestar atenção no que ele estava falando. Quando seu horário encerrou, ao invés de sairmos da sala para ir à outra aula, descobri que eram os professores quem se moviam pelas salas e logo a professora de Introdução ao Marketing, Diana, havia chegado.
Até o fim das aulas daquela manhã, eu já estava com conteúdo suficiente para me trancar no quarto pelo resto da tarde e estudar sem interrupções. Já se fora o tempo em que o primeiro dia de aula era feito por gincanas, e estudar podia não ser a coisa mais empolgante do mundo, mas era isso ou interagir com minha família, e eu não queria a segunda opção.
Quando todas as aulas acabaram, eu já estava com a mochila nas costas e saindo da sala até ouvir a voz de Alice atrás de mim.
— Charlie! Espera! — Ela disse algo e correu até mim, com uma garota vindo junto com ela. — Vai fazer o que essa noite?
— À noite? Ah... Por quê? — Perguntei um pouco confuso. Ambas se aproximaram e a outra garota deu um sorriso tímido para mim; seus cabelos eram pintados de violeta e ela usava óculos de mesma cor.
— A gente podia reunir todas as gurias da turma e comer uma pizza, algo assim... Ah é, essa é a Jennifer, acabei de convidar e ela topou! Vai ser tri!
— E aí! — Jennifer ergueu a mão para fazer um high five e retribui. — Cê' num é daqui não, né? Tem um sotaque baita do diferente.
— É, eu sou da Carolina do Norte.
— Tchê!!! Que top!!! — Pisquei várias vezes, confuso com a fala de Jennifer, mas não tive coragem de perguntar o que significava.
— Mas aí, eu vou tentar chamar todas as calouras pra sair hoje à noite, o que acha? — Alice falou animada. — Devem ser umas dez ou doze, a gente pode pedir pra juntar várias mesas!
— Então, Alice, eu não tenho como, sinto muito. — Dei de ombros e fiz uma expressão de tristeza. A empolgação da loira diminuiu.
— Bah, tudo bem... A gente pode marcar alguma coisa em outro horário.
— Não, não! — Respondi rápido e notei que Alice e Jennifer arregalaram os olhos. — Não precisa, você já convidou algumas meninas, podem sair hoje e depois nós vemos mais encontros... O semestre vai ser longo.
— Charlie tem razão. Bom, a gente se vê amanhã! — Jennifer encerrou o assunto e passou o braço pelo de Alice, que entendeu que não adiantava tentar me convencer a sair para aquela "Noite de Garotas".
Eu nem era uma garota.
Me despedi das duas colegas e pude, enfim, sair da sala. O caminho até a entrada foi lento e eu aproveitei o trajeto para reparar aquelas pessoas e rostos. Cada um possuía uma história e eu queria saber se alguém poderia ter uma parecida com a minha.
Observei um grupo de garotos perto de uma máquina de cafés e notei que alguns alunos da minha turma estavam lá. Vários grupos se formavam pelo campus, cada um com uma característica própria.
Foi quando eu vi o garoto da praça.
Ele conversava animado sobre alguma coisa que fazia os outros garotos rirem, e a energia do meu olhar sobre ele deveria ser tão grande que em determinado momento ele olhou na mesma direção que eu estava e ergueu as sobrancelhas ao me ver.
Ele acenou para mim, um gesto rápido e discreto apenas para me cumprimentar. Retribuí da forma mais tímida possível e pensei se eu deveria me aproximar, mas ele estava cercado de outros garotos e seria uma cena estranha. Eu não tinha nada em comum com o "mundo dos rapazes" para chegar desse jeito numa roda de conversa.
Tudo seria mais fácil se eu fosse apenas um garoto normal que poderia me aproximar daquele grupo e participar do assunto. Eles iriam me cumprimentar e falar coisas como "e aí, cara!". Todos me tratariam pelos pronomes certos e ninguém teria dúvidas de que eu era um garoto.
"Eu precisava falar a verdade."

Era loucura o que eu estava prestes a fazer, principalmente considerando que havia dado errado aos meus treze anos, mas eu precisava fazer isso.
Deixei a porta do quarto trancada e me sentei na cadeira da escrivaninha. Abri a gaveta fixada no móvel e retirei um pequeno caderno de lá. Meu celular já estava na playlist de vídeos que eu havia separado e o fone de ouvido estava conectado.
Abri o caderno em branco e peguei uma caneta azul. Na primeira linha, escrevi:
Como explicar que eu sou trans.
Explicar era um verbo estranho. Eu não queria explicar que eu existia, pois eu simplesmente... Existia. Eu apenas queria contar isso aos outros.
Fiz um risco na palavra "explicar" e escrevi embaixo "contar". Fiquei mais satisfeito.
Comecei a ver o compilado de vídeos de histórias sobre como pessoas trans explicaram aos seus amigos e parentes sobre seu gênero. Alguns diziam que a família já desconfiava; outros, que aceitaram tranquilamente; mas a maioria demorou para ser aceita.
Anotei algumas frases que achei importantes para explicar meu gênero e pretendia usar isso para me defender caso alguém falasse besteira. Ouvi os argumentos que pessoas usavam para dizer que a transexualidade era errada e também vi o que deveria falar para mostrar que isso era preconceituoso e equivocado.
Contudo, após cinco páginas de anotações, eu ainda me sentia inseguro. Precisava de outro plano.
Esfreguei os olhos com as pontas dos dedos e comecei a pensar em uma saída. Eu não queria viver essa mentira por muito mais tempo, precisava me abrir.
Então resolvi procurar alguém como eu na Internet.

— Oi! Desculpa invadir o seu privado assim, é que acabei de ver o seu vídeo sobre a sua experiência contando pra família que você é trans, e queria saber se pode me dar algum conselho sobre isso, ainda não me assumi pra ninguém.
Não sabia quantas vezes eu havia mandado aquela mensagem, a ponto dela estar em meu bloco de notas. E então eu recebi minha primeira resposta e a ansiedade se apossou de mim na mesma hora. Era um Youtuber não muito famoso que havia me respondido.
— Ei, Charlie! Tudo bem? Puxa, que legal você ter assistido ao vídeo, mas infelizmente não tem receita pra isso não. Só seja você mesmo! Quem gostar de você, vai continuar do seu lado. Pode começar falando para um amigo primeiro, é mais tranquilo do que contar para os pais. Não tem problema demorar a se assumir, siga no seu tempo.
Mandei um "obrigado" e uma carinha feliz para ele, seu nome era Jake e, pelas informações de seu perfil, já se hormonizava há um ano. Senti uma leve inveja.
Resolvi aderir ao seu conselho de contar para um amigo, mas para quem eu contaria?
E então meu subconsciente respondeu no mesmo momento: Sammy.
Ela não me respondera o dia todo e eu já estava preocupado. Talvez aquela tarde fosse o divisor de águas para a nossa amizade.
Estava decidido, eu iria contar a ela.
Antes de enviar uma mensagem, rabisquei algumas coisas que iria dizer à ela. A caneta na minha mão tremia pela minha ansiedade em contar a verdade, mas eu tinha que me recompor para conseguir conversar.
Respirei fundo, abri sua conversa e comecei a digitar.
— Oi, Sam. Tudo bem? Você não apareceu durante o dia, ficou ocupada?
Enviei e deixei o celular na minha frente, ainda sentado na escrivaninha. Para a minha surpresa, a mensagem veio rapidamente.
— Não tô ocupada, só sou esperta o bastante pra reconhecer um fora.
Não era assim que eu imaginava o nosso início de conversa.
— Como assim? Eu não te dei um fora! Me desculpa se pareceu.
— Calma, não tô reclamando! Você quer ficar na sua e eu vou ficar na minha, tudo bem.
— É sério, Sam, eu não queria ter recusado sair com você, mas eu preciso te contar uma coisa antes, posso?
— Você não precisa me explicar nada, tá tudo bem.
O seu ícone de online saiu e entrei em pânico, precisava explicar a ela que não era nada do que ela estava pensando.
Não poderia culpá-la: um garoto que puxava assunto várias vezes mas desconversava na hora de sair era um pouco estranho. Tentei pensar em como a Sammy estava se sentindo e concluí que eu parecia fugir dela, mas mesmo assim queria sua presença por perto para passar o tempo.
Um péssimo pensamento sobre mim, mas não era a realidade. Eu precisava de uma chance para me explicar.
Mandei mais uma mensagem, depois mais outra e mais outra. Vi quando ela apareceu e visualizou, mas não me respondeu.
"Droga, isso não vai ser como eu imaginei."
— Sam, eu quero sair com você! Eu falo sério!
Ela começou a digitar e meu coração parecia saltar pela boca.
— Não precisa fazer isso se não quiser.
— Sammy, é sério. Ok? Me escuta, quer dizer, leia.
Respirei fundo. Ela enviou apenas um "ok". Contudo, eu ainda não queria contar isso por mensagem.
— Olha, desde que começamos a conversar eu quero muito te ver pessoalmente, mas eu tenho medo de você mudar o que pensa sobre mim depois de me ver, porque a minha aparência não tem nada a ver com o que você tá pensando.
Era o máximo que eu poderia falar virtualmente e a resposta de Sammy veio segundos depois.
— Você se acha tão feio assim? Credo, Charlie! Eu me acho feia, mas não a esse ponto!
Ela enviou diversos emojis de risada e senti um peso saindo das minhas costas. Aquilo era apenas o começo, mas poderia resultar em algo bom.
— Só você pra me fazer rir em um momento desses! E como assim você se acha feia? Pelas suas fotos, você é linda.
— Ah... Obrigada, eu acho. Então você quer sair?
— Eu quero, me desculpa por não ter aceitado antes, mas eu quero, sim. — Eu não fazia ideia do que planejar sobre isso, mas eu precisava arriscar. Poderia dar certo ou eu poderia perder uma amiga.
— Então, eu entro às cinco na aula... — Sam enviou, como uma indireta sobre o horário que nos veríamos. Pensei rápido e marquei às três da tarde: duas horas poderiam ser o bastante para aquele momento.
Nos despedimos em um clima agradável e Sammy parecia feliz. Eu também estava, mas com o coração apertado. Havia me arriscado a contar a verdade quando ela me visse no dia seguinte, mas logo depois percebi que eu não precisaria dizer nada na hora, a minha aparência diria por si só.
Minhas costas se chocaram contra a cadeira e peguei minhas anotações. Em um salto, me levantei e peguei o caderno, rasgando cada folha anotada e jogando todas na pequena lata de lixo que ficava embaixo do móvel.
Eu precisava planejar — e sozinho — o que dizer para Sammy amanhã.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top