Capítulo 27
Quando cheguei em casa, senti o cheiro de frango assado que deveria estar no forno, mas minha mãe não se encontrava na cozinha no momento. Caminhei até a sala a passos lentos e ouvi um pequeno barulho de plástico e páginas sendo viradas.
Madison estava sentada no tapete da sala. No seu colo, percebi alguns álbuns de fotografia. Seu cabelo estava molhado e preso na toalha de banho, e ela usava o roupão que sempre vestia quando não estava com o seu melhor humor.
— Mãe? Tudo bem? — Me aproximei dela e deixei a mochila jogada no sofá. Ela se virou para mim e sorriu, logo depois voltou a olhar para as fotos.
— Oi, meu amor. Estou sim, passei um pano dentro das gavetas da estante e acabei revendo esses álbuns. Olha como você estava na primeira noite do pijama da escola. — Ela ergueu uma foto minha, com um pijama amarelo e desenhos de gatinhos, chorando para a câmera. Comecei a rir quando vi meu rosto redondo vermelho de tanto desespero. — Você não queria dormir fora de jeito nenhum e me fez prometer um milhão de vezes que iria te buscar pela manhã!
— Acho que não é de hoje que eu prefiro muito mais ficar sozinho.
— Você deve ter achado que eu estava te abandonando. — Ela disse com um pouco de emoção na voz enquanto olhava de novo para a foto. — Eu deveria ter sido mais presente, pra não te dar essa sensação.
— Ei, mãe, não fica assim, sério. — Me abaixei e sentei ao seu lado no tapete.
Madison se emocionava com facilidade, e relembrar o passado sempre causava uma sensação agridoce. Cresci com a sua ausência constante por ela trabalhar demais, e meu pai foi embora quando eu tinha oito anos. Passei a maior parte da infância na companhia de babás, e minha mãe deveria se culpar até hoje por isso.
— Acho que toda mãe e filha deveria ter um laço de união, uma conexão inseparável, mas eu impedi que isso acontecesse. — Sua voz ficou ainda mais pesada.
— Não é sua culpa, meu pai não quis te ajudar. — Minha frase saiu com um pouco de raiva, me lembrando de todas as vezes em que Madison ligou para ele pedindo ajuda para pagar as contas ou comprar coisas para mim, e ele se negava e alegava que eram desculpas para que ela gastasse o dinheiro dele com futilidades.
Desde o casamento com Paul, nossa vida mudou radicalmente. Minha mãe nunca mais precisou trabalhar. Morávamos em um bairro de classe média alta e tínhamos uma vida confortável, coisa que minha mãe nunca deve ter imaginando viver.
— Mãe, você e Paul estão bem? — perguntei de repente. Ela franziu as sobrancelhas e se virou para mim.
— Claro, Charlie. Por que a pergunta?
— Por nada. — Desviei o olhar e peguei um dos álbuns. — Só queria saber.
— Tem alguma coisa te incomodando?
"Bom, tem várias coisas me incomodando."
Aquele era um bom momento para conversar com ela. Mas como eu iria começar a falar? Qual seria o primeiro tópico? Eu não poderia falar algo como "Paul acha que eu gosto de garotas", porque, bem, ele estaria certo. Falar sobre meu gênero era mais difícil ainda.
Minha mãe continuava a me observar, o que me deixou sem graça. Ela esperava pela minha resposta. Eu tinha tantas coisas pra dizer a ela que não sabia o que falar primeiro.
Então, ela se pronunciou.
— Você quer me contar algo sobre aquela sua amiga?
A expressão de minha mãe estava ansiosa, esperando por uma resposta sincera. Eu sabia que ela desconfiava de mim e Sammy. Mas, diferente das outras vezes, ela estava me obversando e aguardando a resposta.
— Eu gosto dela, de verdade. A gente... Namora.
Eu sabia os riscos de contar aquilo. Aquela era uma carta verde para Madison me ver como lésbica. E por que, de tantas coisas, aquele havia sido o assunto principal? Eu poderia ter falado sobre Paul, sobre eu não me sentir mais confortável perto dele, ou sobre minha transexualidade, até sobre o concurso de redação, mas eu quis falar sobre a garota que eu gosto.
Minha mãe respirou fundo e olhou para frente. Eu não fazia ideia do que ela iria dizer, mas estava com medo. Seus músculos estavam tensos. Quando ela falou, tentou soar firme.
— Eu já imaginava isso.
Eu não sabia se ficava com alívio ou medo.
— Como assim? — Me ajeitei no chão, tenso. Se ela sabia, talvez soubesse de mais alguma coisa. Inesperadamente, Madison soltou um riso baixo e voltou a olhar para mim.
— Charlie, eu sou sua mãe! Você acha que eu não percebo as coisas? Eu posso não entender, muito menos falar que aceito, mas... — Ela tentou manter a respiração controlada em um suspiro profundo. — É óbvio que você... Sente alguma coisa por ela.
Os seus olhos começaram a brilhar. Ela estava prestes a chorar, e minha garganta se fechou.
— Essa não foi a vida que eu planejei pra você... Eu sempre pedi a Deus que você conhecesse um bom rapaz, cristão, que te fizesse feliz... — Notei seus lábios tremerem. — Mas você já parece tão feliz quando te vejo conversar com ela no celular, quando você liga pra ela, que eu não entendo... Eu não sei, Charlie, não sei como vou aceitar isso, eu quero que você seja feliz ao lado de um homem, mas você já é feliz com ela... Me perdoa por não entender isso, eu estou tentando tanto.
Não percebi que eu estava chorando até minha mãe largar os álbuns do colo e erguer as mãos para limpar o meu rosto. Me controlei para não soluçar.
— Eu não sei o que Deus planejou pra mim, mas ele não faz nada em vão, e ele me deu você por algum motivo. Eu não sei se posso lidar com isso como você quer... — Ela tentou dar um sorriso, mas seus lábios tremeram. Eu sabia que ela estava se esforçando ao máximo, e eu não tive coragem de contar nada além daquilo no momento. Minha mãe estava chegando ao limite das suas crenças para conseguir me aceitar. — Mas eu juro que vou pedir a orientação de Deus, eu prometo, Charlie, eu quero entender tudo isso.
Eu sabia que era difícil conseguir uma aprovação além daquela. Contar que eu era realmente um garoto ainda estava longe de acontecer, minha mãe precisava de uma informação de cada vez. Mas saber que Sammy poderia, quem sabe, em um futuro bem distante, ser bem vinda à minha casa como a minha namorada, foi o bastante para que eu desse um sorriso sincero à minha mãe.
Ela me puxou para um abraço desajeitado e parecia chorar mais do que eu. Acho que ela estava se dando conta de que a "filha" que criou não esperava por um príncipe, mas uma princesa. Apertei o seu corpo e notei como eu não a abraçava daquela forma há tanto tempo. Estávamos tão distantes que éramos como dois desconhecidos na própria casa diariamente, e eu não sabia quando passou a ser assim, mas não era certo continuar como estávamos.
Madison acariciava as minhas costas enquanto repetia várias vezes que me amava, sussurrando no meu ouvido. Senti um pouco de orgulho da minha mãe por ela ter conseguido abandonar um pouco do que acreditava para tentar aceitar minha relação com Sammy – mesmo que, para ela, ainda fôssemos duas garotas se amando.
Seu abraço era quente, talvez por causa do roupão felpudo que a cobria. Me senti com dez anos, quando ela chegava tarde do trabalho e eu corria para abraçá-la.
"Você também vai me abraçar desse jeito quando descobrir quem eu sou de verdade, mãe?"

A TV estava ligada e meus pais estavam concentrados assistindo à notícia que deixou boa parte das pessoas concentrada na tela da mesma forma. Maximiliano Albuquerque havia sido nomeado secretário do Prefeito, o senhor Sérgio Dias, um homem que sempre aparecia nos jornais para falar sobre corrupção e violência e que, vez ou outra, discursava a favor de um político chamado Jair Bolsonaro. 2018 era ano de eleições no Brasil e ele era candidato à Presidência, então Sérgio se aproveitava da imagem popular daquele homem para se beneficiar.
Eu não tinha conhecimento de política brasileira, mas pelo pouco que eu conhecia dos dois, os achava dois idiotas. Madison e Paul, por outro lado, os achavam ótimos. Eu sabia que estava no caminho certo por ter uma opinião diferente dos dois.
O senhor Max falou brevemente sobre a honra de poder trabalhar ao lado do Prefeito e que seria o seu porta-voz na comunidade, para intermediar um diálogo acolhedor entre a população e todas essas coisas. Eu não caía nessa história. Max era um preconceituoso moralista e isso poderia até prejudicar alguma política pública para minorias.
Desviei os olhos da tela e saí do sofá, cansado de assistir àquilo. Me sentei na banqueta da cozinha para comer alguns biscoitos e procurei a rede social de Jason. Eu ainda não tinha o seu número, também não pretendia ter, mas queria falar com ele sobre tudo aquilo, só para saber o que estava achando.
— Oi Jason, é o Charlie aqui. Você tá vendo o seu pai na TV?
Ele não estava online, mas o imaginei em casa assistindo ao homem com algum fundo de raiva dentro de si. Talvez fumando um cigarro também.
Para minha surpresa, havia uma mensagem dele. O esperto retirou o status online.
— Não.
Fiquei estático lendo a mensagem de palavra única, sem saber como prosseguir. Jason destruiu a tentativa de conversa.
Ele era inconstante demais e isso me deixava confuso – às vezes, queria ficar perto de mim e me perturbar tal como fez naquela chamada de vídeo, mas às vezes queria ficar invisível. Eu me irritava fácil com ele por causa disso.
Resolvi insistir, apenas porque ele faria o mesmo comigo.
— Tá tudo bem?
Bati as pontas dos dedos levemente na mesa após comer mais um biscoito.
— Sim.
Que vontade de xingar aquele garoto.
— Você vai ficar respondendo só sim ou não? Tô tentando ser legal, queria só ver como você tá.
Eu ainda não sabia se podia me considerar amigo de verdade de Jason, mesmo ele sabendo tanto sobre mim. Mas eu achava que merecia, pelo menos, uma resposta melhor do que sim ou não.
— Eu tô no UPA, Charlie, mas que porra. Não tô nem aí pro meu pai.
Ok... Mas o que era UPA?
Pesquisei a palavra no Google e encontrei a localização. "Unidade de Pronto Atendimento." Entendi como uma espécie de hospital especializado em emergências.
Abri a conversa de novo.
— O que você tá fazendo no UPA???
Algo bom, eu sabia que não era. Eu não entendia absolutamente nada do sistema de saúde brasileiro, mas eu sabia que ninguém o utilizava sem um motivo importante.
Era angustiante não ver o status de online de Jason para saber se ele não havia visualizado a mensagem ou se estava me ignorando. E eu não devia me preocupar tanto assim, afinal. Se ele precisasse de alguma coisa, iria falar.
Ou não.
Tentei tirar aqueles pensamentos da cabeça. Lavei as mãos após comer e subi as escadas em direção ao quarto. Liguei o notebook e me sentei na escrivaninha para tentar continuar minha redação.
Mas, sem querer, eu continuava a abrir a conversa com Jason a cada dez minutos. Ainda não havia resposta.
Provavelmente ele estava passando mal. Seria muito arriscado perguntar à minha mãe se ela sabia de alguma coisa? Max deveria ter comentado algo, do jeito que alguns crentes eram, gostavam de pedir corrente de oração para ajudar alguém. Eu até podia imaginar Max mandando um áudio no grupo da igreja: "meu filho não está passando muito bem, peço a todos que orem por ele, pois Deus é o médico dos médicos."
Aproveitei que minha mãe estava subindo as escadas, eu podia distinguir seus passos com os de Paul.
— Charlie, tá com fome? — Ela apareceu na porta do quarto para falar comigo.
— Comi uns biscoitos agora. Ahn, mãe, o senhor Max falou alguma coisa sobre o filho dele estar doente?
— Não que eu saiba, por quê? Aconteceu alguma coisa?
— Ah... — Eu não sabia como explicar minha dúvida. — Acho que me confundi com outra pessoa, então.
— Entendi... Então não quer comer nada mesmo?
— Se você fizer aquela torta de limão, eu aceito. — Dei de ombros e esbocei um sorriso, com o corpo virado para ela.
— Eu já até imaginava! Vou fazer. — Ela piscou e se afastou, descendo as escadas novamente.
Duas coisas eram novidade naquele momento: o fato de minha mãe estar sendo legal comigo depois da nossa conversa, e Maximiliano não ter comentado nada sobre o filho ter ido ao hospital.
Tinha alguma coisa muito, muito fora do lugar.
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