Capítulo 28

Quando alguém tão popular como Jason, conhecido por todos os professores, alunos e até os funcionários mais introvertidos da faculdade, passava por algo incomum, era como se toda a atmosfera do local se alterasse.

Marie Curie não possuía grupos de alunos populares e influentes de forma tão visível quanto na Universidade Estadual da Carolina do Norte, nem havia uma divisão clichê entre nerds e populares. Contudo, existiam algumas máximas populares:

Alunos de Engenharia, Medicina e Direito se consideravam os mais importantes, pois estavam nos cursos mais difíceis de entrar. Cursos parecidos, como arquitetura e odonto, eram considerados a segunda opção daqueles que não conseguiram entrar no curso que queriam. E haviam os alunos de humanas, que eram sempre tachados como os "maconheiros que vendiam arte na praia", esse era um meme famoso por ali. 

Eu estava no terceiro grupo, mesmo sem nunca ter usado maconha – exceto por aquela única vez com Jason, e nunca mais usaria. Eu achava aquele estereótipo puro preconceito.

Mas, infelizmente, todos nos viam dessa forma e cada aluno era colocado em uma caixinha padronizada diferente e ele deveria se relacionar com os seus iguais e manter o estereótipo. Contudo, no meio de todos eles, estava Jason: um aluno de Engenharia que trabalhava em uma empresa júnior de Publicidade, também fazia parte de um projeto social com os alunos de Psicologia – essa informação me deixou simplesmente em choque – e era até o goleiro do time amador de futebol da Marie Curie, quando haviam campeonatos entre as faculdades do Rio Grande do Sul. Ele estava presente em todos os lugares e conhecia todas as pessoas.

Por isso, foi estranho não vê-lo por quase uma semana.

Ninguém falava em voz alta, mas as paredes tinham ouvidos. Uma garota aqui e outra ali comentava o seu nome. Os garotos se reuniam para conversar e um espaço vago ficava no meio deles, como se fosse obrigatório ter um lugar reservado ao Jason mesmo se ele não estivesse presente. Até quando passei pelo bebedouro, ouvi duas funcionárias da limpeza falando sobre ele.

— O gurizin do seu Max deu uma sumideira, num foi?

— Nem fala, mulher! Minha menina tá no segundo período de Engenharia Civil, né, com muito custo consegui pagar, é um orgulho meu que nossa senhora, mas reprovou em cálculo e ta lá na turma dele. Disse que as guria' tão morta de saudade!

As duas senhoras engataram a rir e eu me controlei para não revirar os olhos ao ouvir sobre a reação que Jason provocava nas outras alunas.

"Deveria era parar de reparar demais nos caras e se concentrar em não reprovar de novo, né filha da senhora da limpeza."

Continuei a caminhar pelos corredores, estava fazendo hora antes de voltar para casa após o fim das aulas. Resolvi conhecer um pouco mais do campus, pois o único prédio que eu conhecia era o de Comunicação.

Entre cada prédio, havia uma passarela que os interligava, assim eu não precisava necessariamente ir ao térreo de um prédio para conseguir entrar em outro. Caminhei de forma despreocupada, com as mãos no bolso do casaco e a mochila nas costas. O lugar não estava tão movimentado por ser a hora do almoço.

Passei por duas passarelas até descobrir que eu estava no prédio que se dividia em Serviço Social, Terapia Ocupacional e Psicologia, o curso que ocupava a maior quantidade de andares. Alguns alunos de jaleco passaram por mim e comentaram alguma coisa sobre uma aula prática. Todos eram desconhecidos para mim, eu mal conhecia os alunos da minha própria turma.

Mas havia uma voz que eu conhecia muito bem. Eu não podia acreditar que era mesmo aquela voz, mas eu não estava louco.

Ela vinha do corredor mais próximo, quase no final. Virei para entrar e encontrei uma porta aberta com a placa "Coordenação de Psicologia". Não me aproximei para não ser descoberto bisbilhotando, já era a segunda vez no mês que eu fazia aquele tipo de coisa na faculdade.

— Tu é meu melhor voluntário, tem certeza de que quer fazer isso? Todo mundo vai sentir saudade de ti!

— Tenho.

Jason estava lá dentro. Como ele conseguiu chegar até ali sem ninguém perceber?

— Tu pode me falar pelo menos o que tá acontecendo? É por causa do teu pai?

Eu queria que ele respondesse alguma coisa, precisava saber o que havia acontecido.

— Tu tem que ser sincero comigo, guri. Foi ele que fez isso em ti? Ele não pode fazer isso, isso dá cadeia, tu sabe, né?

Nenhuma resposta. Cobri a boca e o nariz com as mãos porque até minha respiração poderia me incriminar ali.

"Pelo amor de Deus, Jason, fala alguma coisa."

— Tu sabe que é só falar que a gente faz alguma coisa, eu tenho equipe pra isso. Mas tu precisa me falar a verdade.

Ouvi o som de algo se mexendo, o peso de um pé sendo levado a outro. Ele estava em pé, se mexendo. Eu podia visualizá-lo.

— Olha, Jason, eu te conheço desde quando tu tinha esse "tamaninho". — Imaginei a mulher indicando uma altura baixa com a mão, para mostrar que o conhecia desde pequeno. — Não é porque eu virei coordenadora que não sou mais tua amiga. Fala comigo, guri.

Eu estava tão angustiado com aquela conversa que minha vontade era de entrar naquela sala e sacudir aquele garoto até fazê-lo falar. Dois alunos passaram perto de mim e fingi olhar o celular para passar despercebido. Esperei pela resposta de Jason para a mulher, mas diferente do que eu imaginava, ouvi outra coisa.

Ele estava chorando.

O cara que me deixava com inveja, piscava de forma irritante e tinha um sorriso maldoso estava chorando. Ele não disse nenhuma palavra e o seu choro era muito mais contido em relação ao meu, como se ele não pudesse fazer isso. Ouvi os passos de um sapato com salto pela sala e sons como se a mulher o estivesse abraçando e afagando as suas costas.

— Tu pode falar no teu tempo, mas não tem que ter vergonha de pedir ajuda se precisar, tu tem que ficar seguro. Quer pelo menos uma carona pra casa? Eu tô no intervalo do almoço, posso te levar.

— Não. — Sua voz saiu rouca por conta da garganta arranhada. Percebi que era hora de me afastar dali, então andei rapidamente para fora do corredor a fim de que ele não me visse.

Eu era um grande idiota. Acreditava que a vida de Jason era perfeita por ele ter tudo o que eu queria em mim. Olhar para ele era como imaginar o meu sonho de garoto trans sendo realizado, e assim eu nunca pensei em como ele deveria ser por dentro.

Quando me afastei em uma distância considerável, olhei para trás e o vi sair pelo lado oposto. O capuz do casaco jeans cobria sua cabeça e ele andava rápido.

Respirei fundo e saí do prédio.

Eu queria uma oportunidade para falar com ele, pois não estávamos em situações muito diferentes. Eu tinha Paul, ele tinha Maximiliano. Dois homens insuportáveis que deviam se achar nossos donos por serem uma figura paterna.

Tentei segui-lo com o olhar até vê-lo entrar no banheiro. Eu evitava fazer isso, pois não tinha coragem de entrar no banheiro masculino, mas também não me sentia bem entrando no feminino. Minha saída era usar o banheiro escondido dos funcionários, no subsolo, ou segurar até chegar em casa.

Desisti de esperá-lo sair de lá e fui para o refeitório. Alguns alunos da minha turma ainda estavam lá, comendo no restaurante self-service que abria durante o almoço.

— Charlie! — Marcos falou de boca cheia e acenou para mim. João e Calebe estavam de costas e se viraram para me ver.

— Achei que tu tinha ido embora já!

Me aproximei dos três garotos e me sentei, deixando a mochila no chão. Apoiei os cotovelos na mesa metálica e cobri o rosto.

— Ah, cara, eu tô exausto.

— Viver é exaustivo demais, eu sei. — João deu mais uma garfada no macarrão de molho de tomate e cortou um pedaço de frango. — Vai comer não?

— Tô sem fome.

— Mas bah, tchê, quem é tu e o que que tu fez com o Charlie? Tá com um ânimo que só Jesus na causa.

— Só tô preocupado com algumas coisas... — Joguei meu corpo para trás e cruzei meus braços. João terminou de mastigar e olhou para mim.

— Relaxa, podia ser pior. Tu podia ser o Marcos, que só come frango e batata doce.

— Faz parte da minha dieta, cara! — O grandalhão protestou. — O André Filipe fazia a mesma coisa no Ensino Médio quando ele entrou na academia e tu nem reclamava!

— Mas porque o André era um gatinho lindo na escola, hoje que ele tá só a misericórdia dos anjos de Deus.

Era impossível ter mau humor perto do João. Não aguentei e ri alto com sua expressão.

— Você é o melhor, véi!

— Tá aprendendo a usar gíria agora, é? Quem te ensinou essa aí? — João falou com uma desconfiança engraçada.

— O Jason, mas você não gosta quando falo dele, então vai ficar sem saber. — Dei de ombros e ele revirou os olhos.

— Tu te orienta com esse guri, viu? — Ele apontou o garfo para mim. — Ele ainda vai se meter com coisa errada, tô te falando. 

— Que coisa errada? — Era incrível como João conseguia saber tudo sobre todo mundo.

— Tu sabe que o pai dele entrou na política, né? — Concordei com a cabeça. — Aí o filho dele tá lá, lindo e pleno, na empresa júnior. Quer apostar quanto que daqui a pouco vão levar mais fundos pra lá? Se antes a Alice achava ruim que ele tava trabalhando lá, agora que não vai sair mesmo, ele pode fazer qualquer coisa porque o papai é secretário do prefeito. Eu nem me surpreenderia se desviassem dinheiro da empresa agora.

Fiquei sem fala diante do comentário. Eu não conseguia imaginar esse tipo de coisa acontecendo, mas toda vez que João falava algo sobre política ele contava alguma história corrupta sobre a cidade. Os políticos brasileiros eram tão terríveis assim?!

— Ele voltou, olha. — Um fenômeno raro aconteceu, que foi Calebe tirar os olhos do celular e falar algumas palavras. O garoto albino era tão fechado que eu quase me esquecia de que ele sabia falar.

Nós quatro olhamos para trás e um Jason totalmente diferente do que eu vi há dez minutos estava cumprimentando seus amigos e falando tantas palavras estranhas que eu não consegui entender. Entre apertos de mão e hi-five's, os garotos trocavam palavras como "o pai voltou!" e "tu nem brotou mais com nois, moleque!". Eu tinha um limite para gírias. 

O mais curioso era que Jason estava de óculos escuros dentro do salão do refeitório. Isso deveria significar alguma coisa.

— Por que será que ele tá de óculos? — Pensei alto para ver se alguém na minha mesa poderia teorizar alguma coisa.

— É como diz a música, né. — João comentou, já havia terminado de comer. — Quem não tem colírio, usa óculos escuro.

— O que isso quer dizer?

Os três garotos começaram a rir e João se levantou para retirar seu prato da mesa, assim como Marcos. O ruivo balançou a cabeça e a ergueu para cima.

— Deus, por que me destes um melhor amigo gringo que não entende a cultura brasileira? 

Soltei uma risada fraca com sua piada e acompanhei meus colegas para ir embora, mas não sem antes olhar para trás uma última vez e ver como Jason estava agindo como se nada tivesse acontecendo.

E ele conseguiu fingir muito bem. 

Ceis tão ligado que a história já passou da metade né

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