Capítulo 26

Era uma manhã estranha, em todos os sentidos possíveis.

Sammy estava doente. Avisou por mensagem que estava indo ao médico com seu pai, e talvez não fosse para a aula naquele dia.

Os professores estavam mais lentos. Soube que houve uma formatura de uma das turmas de Publicidade do último semestre e a maioria dos meus professores esteve lá. O professor Antônio parecia particularmente cansado, talvez de ressaca.

Alice não foi para a aula. Fiquei aliviado só em parte, não pude deixar de me preocupar se isso tinha a ver com a briga no estádio.

Marcos não estava usando o seu moletom de colegial, o que significava que ele estava triste. Talvez a conversa com Jennifer não tenha fluido.

Paul tentou falar comigo antes de sair para trabalhar, mas eu saí mais cedo de casa para tentar evitá-lo.

Tudo estava estranho demais, e os garotos tentaram puxar assunto e eu deveria estar com uma cara tão ruim que desistiram na mesma hora. Até as meninas perguntaram se eu estava bem.

Apenas balancei a cabeça e voltei a escrever o que a professora Silvana escrevia no quadro.

Eu estava começando a me irritar com tudo o que acontecia comigo: minha mãe paranoica, meu padrasto estranho, minha namorada doente, uma colega de turma transfobica e eu ainda estava na metade do meu texto para o concurso.

Não bastava ser só trans? A vida já seria difícil por si só. Por que eu precisava de um combo completo de problemas?

Eu não prestava atenção no que a professora falava, meus olhos estavam fixos em um ponto sujo de caneta da parede. Queria me desconectar do meu corpo e descansar, nem que fosse por alguns segundos.

Se minha história fosse contada em um livro, eu queria que o autor chegasse logo ao final, na parte em que tudo dá certo e eu termino feliz para sempre.

Até o tempo estava desagradável na cidade, com uma chuva constante que me fazia desejar estar em casa, tomando chocolate quente e ouvindo Taylor Swift enrolado em um cobertor.

A aula terminou com meu caderno cheio de anotações do quadro que eu nem sabia do que se tratavam, pois copiei no automático. Quando saí da sala e me encaminhei para o refeitório, senti uma mão grande em meu ombro e me virei, encontrando João com o olhar tão animado quanto o meu.

— Eu posso falar contigo antes de ir? Em particular?

— Claro. — falei com as sobrancelhas franzidas, surpreso pela formalidade do João ao falar "em particular". Não era só eu que estava em um dia estranho, pelo visto.

Caminhamos em silêncio até uma das lanchonetes e comprei dois cafés. João Vitor já ia tirar a carteira do bolso quando falei que era por minha conta. Ele parecia tão desnorteado que nem questionou, e murmurou um "obrigado" após pegar o café de minhas mãos.

Me sentei à sua frente e fiquei sem reação, não sabia como fazê-lo começar a falar. Ele também parecia perdido com o que dizer.

— E então... O café vai esfriar, tá. — Apontei para o copo de plástico, e ele se lembrou da bebida e tomou um gole rápido.

— Ok, lá vai. Bah, falar dessas coisas me deixa tenso às vezes. — Ele mexeu os ombros em uma forma de se alongar. — Eu queria um conselho.

— O quê?! — Quase soltei um grito de tanta surpresa. Quem era EU para dar conselhos a alguém?!

— Os outros garotos não vão entender, mas tu vai! Qualquer coisa que tu me disser vai ser melhor do que nada!

— Tá, eu posso tentar. — Apoiei os cotovelos na mesa de granito e João relaxou os ombros.

— Aquele cara que eu conheci no estádio, eu realmente me interessei por ele, mas eu sou muito fechado pra relacionamentos e ele ainda não sabe que eu sou bi, tenho medo de estragar tudo. — falou com pesar. — Ele vai achar que posso trocá-lo por uma garota, ou que não vai ser bom o suficiente como se tivesse algo faltando, essas coisas!

João começou a contar sobre seus relacionamentos passados, os quais foram há um bom tempo. Eu tentei assimilar tudo, o que era difícil porque ele falava com pressa e chegava a atropelar as palavras.

Foi quando percebi que, não importasse a minha situação, a vida continuava. O mundo não parava. E meus amigos poderiam precisar de mim.

Ignorei da minha mente todos os meus problemas e me foquei em João.

— A gente tá conversando bastante, trovamos o tempo todo e tal, e eu quero muito contar pra ele, porque se a gente ficar de verdade e eu não contar vou sentir que tô escondendo a parte mais importante de mim. — Os olhos do garoto brilharam naquela hora, ele parecia prestes a chorar.

— Ei, você é o cara mais legal que eu conheço. Eu tenho certeza de que isso não vai afastá-lo, e se isso acontecer, então é porque ele não te merecia e você se livrou de um babaca. — falei firme, para que ele visse a sinceridade em minhas palavras. João voltou a tomar o café e me olhava atento. — Você se lembra de quando falou sobre sua sexualidade no trabalho? Tenta se lembrar desse dia e de como você se orgulhou, pode ser que te ajude.

— Esse dia foi muito louco. — Ele relaxou a postura e abriu um sorriso. Eu também sorri, mas por ter me lembrado da minha própria apresentação. Tudo havia mudado naquele dia.

— A gente precisa fazer umas loucuras de vez em quando pra conseguir ser feliz, né? — Dei de ombros. — Sabe, ser doido.

— Ser doido. — João Vitor repetiu. — É, eu preciso fazer isso.

— Eu sou péssimo com conselhos, principalmente sobre relacionamentos! — Joguei o corpo na cadeira e mexi no cabelo. João franziu as sobrancelhas. — O que foi?

— O jeito que tu mexe nesse teu cabelo, tu faz pose igual aquele garoto da Engenharia.

— Tá falando do Jason?

— Esse aí mesmo. Tu não tá tentando copiar ele não, né?

— Não, que isso, de onde tirou essa ideia? — Automaticamente endireitei a postura, pois quando percebi até meu modo de sentar era igual ao de Jason, com as pernas abertas e braços cruzados. Endireitei a coluna e deixei as pernas eretas.

— Tu não precisa imitar alguém pra ficar mais bonito, tu já é. Juro que não tô falando isso com segundas intenções, mas as garotas devem ficar de olho em ti e nem percebe.

Foi a minha vez de ficar confuso. Estreitei os olhos para ele e bufei.

— Para de graça, João.

— Isso é verdade! Você é como a versão trans de um protagonista de fanfic, com esse teu all-star, sorrisin e esses olhos azuis, só faltou ter conhecido a Sammy em uma cafeteria.

Minhas bochechas esquentaram quando ele disse isso, pois me lembrei do nosso primeiro encontro.

— Bom, você não está totalmente errado... — Dei um último gole no café, que já estava beirando do morno para o frio, mas que eu obviamente não desperdiçaria. — Você me lembrou de ligar para ela, deve ter saído do hospital a essa hora.

— O que ela tem?! — João arregalou os olhos, preocupado.

— Eu não sei, ela teve febre mais cedo, talvez seja uma gripe. — Peguei o celular do bolso da calça e conferi o horário. — Eu preciso ir, minha mãe quer que eu almoce em casa mais vezes, estou tentando agradar para evitar mais brigas. — Comecei a arrumar minhas coisas, já desanimado. A companhia de João Vitor me fez esquecer meus problemas temporariamente, e voltar para eles era exaustivo.

— Espero que dê tudo certo, se precisar de ajuda pode falar comigo. Beleza?

— Beleza. — falei com um pequeno sorriso e coloquei a mochila nas costas. — E não se esquece de conversar com o seu... Não sei como chamar.

— Pode chamar de Fred, o nome dele é Frederico. — João falou com uma pitada de alegria na voz. Ele realmente estava interessado naquele cara.

Alguém precisava se dar bem nessa história, afinal.

Saí pelo pátio central da faculdade e notei o meu reflexo pelas janelas de vidro da secretaria. Me lembrei do que meu amigo comentou sobre minha aparência. Eu nunca havia parado para pensar no meu estilo e no tipo de roupa que usava, me preocupava mais em esconder meu corpo.

Passei a mão pelos cabelos, deixando os fios claros rebeldes e um pouco espetados. Tentei ver o Charlie que João disse que estava ali. A falta do casaco naquele dia era estranho, eu estava apenas com uma blusa de manga comprida azul, mas o binder compensou deixando minha blusa reta. Passei minhas mãos pelo peitoral e dei um sorriso, sem me importar se eu parecia um aluno louco sorrindo para o próprio reflexo.

Por alguns segundos, encontrei a beleza que João viu. E me achei o cara mais lindo do mundo nesses segundos.

Espero que eu tenha aquecido os corações de ustedes nos últimos capítulos, porque a partir de agora é só ladeira abaixo, nem quem leu a primeira versão da história vai tá preparado.

E queria avisar que em breve vou mudar a capa pq preciso representar um Charlie loiro, todo mundo vê ele de cabelo preto e eu achei isso um absurdo, mas tbm a culpa foi minha k

Ceis tão gostando da história? Deixa não respondam, tenho medo

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