Capítulo 19
Sim eu tô postando cap de manhã de tarde de noite me valorizem

Quando eu pensava em pessoas que viviam à beira do medo, imaginava-as se escondendo pelos cantos, temendo ser encontradas por alguém que poderia causar algum mal a elas. Eu me lembrava de situações que via no noticiário, mulheres que fugiam dos seus ex-maridos psicopatas ou de pessoas que moravam em zonas perigosas.
O meu maior medo era o de que minha família descobrisse que eu era trans. O segundo maior, o de sofrer alguma violência por outras pessoas.
Por isso, quando saí de casa no dia seguinte tudo parecia estranho. Era como se estivesse escrito na minha testa "Eu sou trans." Qualquer olhar direcionado a mim por um breve segundo já era o suficiente para me fazer pensar "Droga, ele sabe que eu sou trans e vai querer me xingar!"
Mas ninguém me xingou durante o trajeto até a faculdade, muito menos durante toda a manhã.
João e os outros garotos se sentaram perto de mim como de costume. Na verdade, pareciam até mais próximos. Não fizeram perguntas a respeito e falaram de assuntos banais, e eu participei como sempre fazia. As meninas já foram um pouco mais complicadas de lidar, e a maioria me evitou. Alice parecia ter decretado que eu era um fantasma.
Tentei ignorar isso.
A cada troca de aula que ocorreu pela manhã, os professores pessoalmente me cumprimentavam e perguntavam se eu estava bem. Imaginei que todos já deviam estar sabendo disso, e minha teoria se confirmou quando a professora Silvana fez uma pergunta e eu respondi corretamente.
— Como o Charlie disse, são esses problemas do Efeito Filtro-Bolha que o tornam tão delicado quando pensamos no consumidor recebendo determinados tipos de anúncios na internet.
Não consegui prestar atenção no que ela falou em seguida, estava feliz demais por ter ouvido o pronome masculino.
Sammy estava curiosa para saber como corria o meu primeiro dia assumidamente como o Charlie, por isso já haviam várias mensagens quando peguei o celular na hora do intervalo.
— Se eu soubesse que a maioria do pessoal ia ser tão tranquilo, teria contado mais cedo! — mandei para ela, que respondeu logo em seguida por estar online.
— Tudo no seu tempo, e por que a maioria do pessoal? Alguém falou besteira?
— As meninas estão me tratando um pouco estranho, me evitando. Mas não falaram nada, vai ver é só a minha cabeça.
— Se alguém for preconceituoso, me avisa pra gente bater nele na saída!
Sammy mandou várias carinhas de risada, mas eu sabia que parte dela realmente falava sério. Eu esperava não precisar disso.
Quando olhei para a minha grade — pois tinha uma enorme dificuldade de memorizar os professores de cada horário — bufei ao ler a palavra "Redação" como próxima aula. Por mais divertido e simpático que o Sr. William fosse, eu não conseguia me acostumar a sentar em uma cadeira e escrever sem parar.
Fui com as pisadas arrastadas até o segundo andar, a mochila pendurada em apenas um dos ombros. Quando subi as escadas, o professor ainda estava do lado de fora, perto da porta e com um copo de café na mão. Ele acenou para mim e eu retribui, um pouco sem graça.
— Charlie! Queria falar com você!
Quando um professor falava assim, nunca era coisa boa. Senti um ar gélido passar pela minha nuca que era puro nervosismo, pois o clima no dia estava quente.
— Oi, senhor William! Aconteceu alguma coisa?
— Eu soube do que aconteceu na aula do Antônio, fiquei impressionado com a sua coragem, meus parabéns. — Ele falou com um sorriso. Não soube como reagir, então acabei soltando uma risadinha baixa.
— Obrigado, eu acho.
— Desculpe, não queria te deixar constrangida, constrangido. — Ele se corrigiu automaticamente. Meu coração paralisou por um segundo. — Mas o motivo de querer falar com você é em relação ao seu desenvolvimento na minha disciplina.
Arregalei os olhos para o homem; eu temia por aquele dia.
— Professor, eu não sou muito bom em escrever, eu quero ser fotógrafo, não sirvo pra isso. — Comecei a me justificar como forma de amenizar a situação, mas ele ergueu as duas mãos como que pedindo para que eu parasse de encontrar desculpas.
— Eu sei disso, Charlie, não precisa me falar. Na verdade, eu conversei com meus colegas e eles falaram que você tira excelentes notas, e na minha matéria também não está tão ruim, mas eu sinto que tu poderia se sair muito melhor se acreditasse que tem, sim, talento pra escrita.
— Eu não sei se isso é verdade, professor. — Troquei o peso do meu corpo de um pé para o outro, envergonhado por estar tendo aquele assunto. Não queria receber um sermão do professor sendo um aluno universitário, esse era o tipo de coisa que acontecia durante a High School.
— Olha, tem um concurso que eu gostaria de que participasse. A recompensa é em dinheiro, se te interessar.
De repente, fiquei interessado.
— E sobre o que é?
— Esse é o ponto que me fez querer falar com você, depois de tudo o que aconteceu. — Ele estava se referindo ao fato de eu me assumir trans durante a aula. Engoli em seco, ansioso. — A Secretaria de Cultura quer falar mais sobre minorias e representatividade este ano, então o Concurso Literário vai ser sobre a diversidade no mercado de trabalho e Marie Curie vai ser a sede do evento pela primeira vez esse ano. Poderia fazer uma crônica ou conto sobre isso, acredito que possa entrar para a lista dos finalistas.
— Finalistas? — Quase engasguei com a última fala do professor.
— Veja como um desafio, Charlie. Só o fato de participar já vai te ajudar no seu currículo.
O professor William deu dois tapinhas no meu ombro e piscou para mim. Em seguida, abriu a porta da sala e me chamou para entrar. Caminhei devagar até a carteira que estava ao lado de João, que notou na mesma hora meu semblante diferente.
— Que cara avoada é essa, Charlie? — Ele se inclinou e falou o mais baixo possível para que ninguém ouvisse.
— O professor acabou de me chamar pra participar de um Concurso Literário.
— Que maneiro! Você vai, né?
— Eu não escrevo bem!
— Teu cu!
— Meninos, gostariam de compartilhar pra turma o que estão conversando? — A voz do professor nos fez ajeitar a postura na carteira e olhar para frente. Alguns alunos deram risada da bronca.
— Não, senhor. — João falou, a face ficando vermelha. Escondi meu rosto o máximo possível com as mãos e tentei me concentrar na aula.

Sam tomava um milk-shake de baunilha com tanta velocidade que me deixou assustado. Quando ela parava para respirar, eu conseguia pegar o copo de suas mãos para tomar junto com ela. Nos sentamos no gramado da faculdade enquanto a sua aula ainda não começava.
— Esse calor tá me matando! — Ela passou a mão na testa para afastar o suor. Seu cabelo, diferente de todas as outras vezes, estava solto e revelava seus cachos.
Ela nunca esteve tão linda.
— Sulista não é acostumado com calor, não é?
— Nem pensar, isso nem devia existir aqui, deve ser uma falha no clima de hoje.
— As praias aqui são muito geladas? A gente poderia ir algum dia desses. — falei após devolver o milk-shake para ela. A praia mais próxima da cidade ficava há muitos quilômetros, e mesmo se fosse perto eu não iria para lá por não me sentir confortável com meu corpo. Contudo, com Sammy poderia ser diferente.
— Achei que você não gostasse, já que, sabe... Sempre te vejo de calça e blusão.
— Eu faria um esforço se você fosse comigo. — respondi timidamente, fitando minhas próprias mãos. Sam sorriu, e eu sabia disso pois seu sorriso irradiava tanta energia que nem era preciso vê-la para sentir.
Ela pegou em minha mão e olhei para ela.
— Você é linda. — sussurrei com os nossos rostos próximos e me inclinei para beijá-la. Sammy deixou o milk-shake quase vazio de lado e pegou no meu rosto, intensificando o beijo a ponto de esquecermos que ainda estávamos na faculdade.
— Que coisa feia, senhor Charlie! — A voz de João rindo ao longe me fez parar e olhar para trás, assustado. Marcos, um dos nossos colegas, estava ao seu lado e também ria com ele. — Faculdade é pra estudar!
Não resisti e mostrei o dedo do meio para os dois, também achando graça da situação. Sammy deu um tapa no meu ombro.
— Não se faz esse gesto para os outros, seu doido!
— Eles são meus amigos, só estão surpresos, eu acho.
— Ah, é? Pelo o quê?
— Bom, tem uma garota incrivelmente linda junto comigo, isso chama a atenção mesmo.
— Bah, mas tu é muito bobo!
Sammy deu uma risada fraca e abaixou a cabeça, sem graça. Trouxe seu corpo para mais perto e beijei sua testa.
— Sou apaixonado por você, é diferente.

Eu estava em casa, sentado no chão do meu quarto, encarando todas as gavetas do meu guarda-roupa aberto. Meu celular estava desligado, mas há alguns minutos eu acabara de ter uma conversa com Sammy sobre os motivos de eu estar fazendo aquilo. Para ela, me desfazer das minhas roupas apenas por serem "femininas" era puro estereótipo, mas para mim era mais do que isso.
Eu queria me desgarrar de tudo o que haviam me ensinado a ser. Antigamente aprendi que deveria usar a maioria daquelas roupas por ter o corpo de uma garota. Não queria deixar de usá-las para me reafirmar como garoto, e sim para mostrar que eu era bem mais do que aquilo.
Eu era mais do que um amontoado de vestidos e blusas cor-de-rosa.
Também queria abandonar tudo aquilo que criava uma imagem do meu corpo que eu não gostava. Minha mãe me comprou roupas para "valorizar as curvas", além de outros motivos superficiais que ela acreditava serem importantes. "Ninguém vai te querer se você andar desse jeito!", era o clássico.
Em um ponto, ela tinha razão: eu não ia me querer andando de um jeito que não gosto.
Abri a primeira gaveta com o coração já ansioso, havia uma sacola grande e preta no canto do quarto. Eu não seria louco de jogar aquelas roupas fora, então decidi levar para a doação.
Comecei pelas roupas de baixo. Joguei fora tudo o que pude, em outra sacola que iria para o lixo, pois eu não usaria mais aquilo, nunca mais. Deixei apenas alguns toppers de ginástica, pois eram confortáveis e eu não poderia viver de binder para sempre — infelizmente.
Encontrei o meu primeiro sutiã escondido no fundo da gaveta, impressionado em como ainda cabia em mim. Meu corpo nunca se desenvolveu tanto quanto os das outras garotas, mas também não se desenvolveu a ponto de se aproximar do corpo dos garotos. Eu era como um ser não-catalogado.
Aos poucos, fui me desfazendo de cada peça de roupa comprada pela minha mãe que foi usada, em algum momento, para mostrar à sociedade a garota que eu não era. Acessórios para cabelo, sandálias, saias, tudo o que me lembrava uma Charlie que não existia estava indo para a sacola.
Uma batida suave na porta fez o meu coração sair de "aliviado e tranquilo" para "palpitante e desesperado" em menos de um segundo.
— Charlie? Posso entrar? — A voz de minha mãe me fez olhar para toda a bagunça que estava no meu quarto, com diversas roupas jogadas pelo chão, sem saber o que fazer.
— Por quê? — perguntei apreensivo, pensando em um plano.
— E preciso de motivo? O que está fazendo aí?
— Nada! Pode entrar! — Resolvi encarar a situação e deixei minha mãe entrar no quarto. Sem surpresas, a sua expressão foi de horror.
— Passou um furacão aqui, minha filha?! — Ela tentou andar por entre as peças jogadas e se sentou na minha cama.
— Eu só quis separar umas roupas pra doar, a senhora pode levar pra igreja quando for?
— Ah, claro! Sempre tem gente precisando, vai ser muito bom. — Madison se aproximou da sacola e, contra a minha vontade, a abriu. — Mas por que vai doar essas coisas todas? Tem roupa muito boa aqui!
Pensei em uma resposta rápida que deixasse minha mãe calada, então aproveitei a sua própria fala.
— Exatamente, seria errado doar só o que é ruim... As pessoas merecem coisas boas também!
— Hum... — Minha mãe estreitou os olhos para mim e largou a sacola. Em seguida, ajeitou o vestido rosa em seu corpo e se levantou. — Podemos ir comprar roupas juntas um dia desses então.
— Não! — respondi alto demais, assustando a mulher. Se eu queria esconder um segredo dela, estava fazendo tudo ao contrário. — Eu não preciso, depois a gente vê isso.
— Bom... Vou voltar a arrumar a casa então. — respondeu meio desnorteada. — Já jogou o lixo fora?
— Já sim. — Respondi com um meio sorriso e ela pareceu estar satisfeita, por enquanto. Algo em seu olhar dizia que ela sabia que eu estava escondendo alguma coisa.
A voz de Jason surgiu em minha cabeça. Eu precisava seguir com seu conselho. "Tu não pode ser você mesmo em casa."
Assim que ela saiu, voltei a me concentrar nas roupas. O tempo passou depressa e, quando dei por mim, já era pôr-do-sol. Amarrei as duas sacolas de roupa que consegui juntar para a doação e deixei no canto do quarto para entregá-las à minha mãe depois.
Me joguei na cama e liguei o celular, animado para conversar com Sam. Quando ativei a internet, a primeira notificação que abri foi o de sua mensagem.
— Ei, queria pedir desculpas por ter te criticado mais cedo. Acho que isso deve ser importante pra ti, então eu te apoio. Espero que tenha dado certo!
O cansaço, tanto físico quanto mental, se dissipou ao ler aquilo. Com um grande sorriso, respondi a garota mesmo sabendo que ela demoraria a ler por estar em aula.
— Você é incrível, sabia?
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