Capítulo 18
Eu não conseguia sentir muito bem o meu corpo, da ponta dos pés até o pescoço, uma sensação que terminava ali e parecia se concentrar e querer fechar a minha garganta.
Minhas mãos formigavam e me sentei na cadeira, alheio às palmas entusiasmadas dos meus colegas. Eu mal conseguia me lembrar do que havia falado em toda a apresentação, tudo o que eu disse foi apenas algo que estava guardado há semanas e saiu como cascata de uma só vez.
Pisquei algumas vezes quando senti alguém cutucar meu ombro, e João Vitor aparecer atrás de mim com um grande sorriso.
— Você é demais, Charlie! Parabéns!
Eu não sabia se ele estava falando sobre a minha coragem de me assumir ou pela apresentação do trabalho. De repente, o professor pediu silêncio e se levantou da mesa, todos nós olhamos para ele.
— É, pessoal, eu acho que podemos deixar as últimas apresentações para a próxima aula, já tivemos grandes surpresas hoje! — O professor Antônio olhou para mim. — E Charlie, se precisar de alguma coisa pode contar comigo e com os outros professores, vamos sempre te respeitar.
— Obrigado. — falei um pouco baixo, esboçando um leve sorriso. Pude falar usando o pronome masculino sem ter medo de parecer estranho, pois agora já estava tudo claro.
Olhei para o ponto onde Sammy havia sentado e notei que ela não estava mais lá. Meu coração se acelerou, me perguntei aonde ela poderia ter ido. O professor nos liberou e quis sair da sala na mesma hora para procurá-la, mas meus colegas queriam todos falar comigo.
— Cara, que coragem tu teve! Trilegal compartilhar isso com a gente!
— Então tu é um guri, né?
— Eu não faço ideia de como deve ser isso, tem que ter muita coragem, parabéns!
— Que orgulho, tchê!
Eu não conseguia identificar os donos de cada uma das vozes, apenas sorria e agradecia enquanto fingia prestar atenção e caminhava para fora da sala. Consegui apenas notar que a maioria dos garotos era quem falava essas coisas, poucas meninas ficaram por perto, mas eu poderia refletir sobre isso depois.
Meu foco era Sammy.
Quando saí pelo corredor, a encontrei sentada em um dos bancos, me esperando. De longe, eu já podia perceber os seus olhos um pouco inchados e me preocupei.
Sammy se levantou e correu até mim, com um abraço forte e quente que fez um pouco da minha ansiedade se aquietar. Não falamos nada por alguns segundos, concentrados naquele abraço que já dizia muita coisa.
O que havia feito hoje iria mudar todo o rumo da minha vida, e ela sabia disso.
— Eu tenho tanto orgulho. — ouvi suas palavras como um sussurro perto do meu rosto, e apertei o meu abraço ao redor dela.
— Como você está?
Sammy riu e olhou para mim, suas duas mãos saíram da minha cintura e foram para o meu rosto.
— Tu acabou de te assumir trans pra uma sala inteira e pergunta como que EU tô?
— É que você tava... — Os lábios de Sammy se colaram aos meus antes que eu pudesse terminar a frase. Ouvi um assobio ao fundo, João gritando alguma coisa que eu não conseguia distinguir, estava paralisado com aquele beijo.
As mãos de Samantha foram para a minha nuca e passei meus braços por sua cintura, correspondendo. Seu corpo estava ainda mais quente do que antes e o meu também parecia estar — depois de tanto ter imaginando como seria nosso primeiro beijo, eu estava em êxtase.
Sam deu uma mordida leve no meu lábio e sorri, apertando ainda mais seu corpo contra o meu e beijando-a novamente. Parte de mim havia esquecido o que eu fiz na sala de aula e só queria prolongar aquele momento.
— Todo mundo deve tá olhando pra gente. — Ela afastou os lábios dos meus para conseguir falar.
— Isso é ruim?
— Pra mim, não. — Sammy mordeu o próprio lábio e me deu um selinho. — Nossa, eu queria fazer isso há tanto tempo que até sonhei com isso uma vez.
— Ai, merda. — Abaixei a cabeça e comecei a rir quando percebi que meu rosto queimava. — Olha como você me deixou.
— Desculpa! — Ela afundou o rosto entre meu pescoço e a linha do meu ombro, um gesto que iria se tornar um dos meus favoritos. Seu coração batia tão forte que eu era capaz de sentir, e ela respirava forte contra a minha roupa. — Eu tenho tanto orgulho, Charlie, tanto.
Sammy respirou fundo e percebi que estávamos no meio do corredor, vários alunos nos encaravam e tentavam disfarçar. Eu sabia o que se passava pela cabeça deles, de pessoas que não me conheciam de verdade: um casal de garotas se expondo na faculdade. Mas não dava para voltar atrás no que eu havia feito, e mesmo se eu pudesse, eu não voltaria de qualquer jeito.
A luta estava só começando.

O pátio da faculdade era cercado por mesas e árvores, o que dava um ar agradável de natureza no meio daqueles prédios. Era nisso que eu tentava me concentrar enquanto Sam se aproximava com um copo de café e outro de suco natural. Franzi as sobrancelhas ao vê-la aproximar o copo de suco para mim.
— Por que não café?
— Tu tá te tremendo todo ainda, Charlie! Não percebeu?
E eu realmente não tinha percebido. Na verdade, estava tentando ignorar o enjôo que queria crescer em mim, como se eu tivesse corrido uma maratona sem ter me exercitado e agora meu corpo estava à beira da exaustão.
Tomei o suco de laranja sem reclamar enquanto observava Sammy, que estava inquieta. Ela trocava de posição no banco de madeira a cada minuto.
— Então, você vai falar com os seus pais?
Sua pergunta me fez remexer no banco também. O desconforto era óbvio.
— Agora não, um passo de cada vez. E como você tá?
— É a segunda vez que me pergunta isso.
— Tem alguma coisa, não é? — Tive medo de soar invasivo, mas precisava perguntar. Eu queria ser aberto com Sam e que ela fosse aberta comigo também.
A garota ajeitou alguns fios que se soltaram do coque e se recompôs no banco, sua voz saiu séria e firme.
— Nós somos muito diferentes, eu sei totalmente disso. Eu nunca vou saber como é ser você e tu nunca vai saber como é ser eu. Mas eu acho que a gente pode aprender um com o outro, e te ver falando hoje me fez... Eu não sei explicar. Todo mundo se valoriza de alguma forma, sabe? E eu não sou assim.
Os ombros de Sammy se encolheram e eu me aproximei dela no banco. Estiquei minha mão e ela entrelaçou nossos dedos, seus olhos estavam fixos no gesto, a cabeça baixa.
O fato de Sammy ser negra não havia me feito pensar que ela sofria com isso no cotidiano, mas ela estava em uma situação tão complicada quanto a minha, talvez até mais. Independente do gênero, eu era uma pessoa branca e o peso disso era enorme. Assim como eu não era representado na sociedade, Sam também não tinha tantas referências no Rio Grande do Sul.
— Eu sempre me achei feia, mas você olha pra mim de um jeito tão... Não sei, me faz achar que eu sou bonita na verdade.
— E quem te disse que você é feia? A pessoa não enxergava bem?
— Ridículo, isso é sério! — Sammy deu um tapinha na minha mão, controlando o riso. — Minha mãe sempre reclamava quando eu queria usar algumas roupas ou quando meu cabelo ficava solto. Eu me pareço com ela, só que ela é bonita, vai no salão de beleza toda semana, tem um guarda-roupa de outro nível, ela alisa o cabelo, ela é mais... Eu não sei, sinto que nunca vou ser como ela.
— Mas você já é linda assim. — Trouxe sua mão para o meu rosto e depositei um beijo em seus dedos. — Você fica linda com o cabelo natural e qualquer roupa fica bem em você. Eu sei que não sou a melhor pessoa pra falar de aparências, porque eu mesmo odeio a minha, mas... — Dei de ombros. Eu queria mostrar como Sammy era incrível, mas faltavam palavras.
— A gente vai melhorar isso. Os dois juntos. — Sammy olhou para mim e deu um pequeno sorriso.
Eu não fazia ideia de como iria melhorar minha autoestima, nem se um dia iria gostar do meu corpo, mas ver aquela garota sorrindo para mim me fez acreditar que valia a pena tentar.

Quando cheguei em casa, ouvi o barulho da televisão ligada. Como já havia mandado mensagem para a minha mãe avisando que eu não almoçaria em casa, não encontrei nada na cozinha — e também não queria comer nada. Mesmo o tempo que passei com Sammy mais cedo ainda não foi totalmente capaz de fazer eu me sentir leve e feliz com minha atitude hoje.
— Ei meu amor, almoçou na faculdade? — Ouvi minha mãe gritar pela sala.
— Ah, sim. — falei com desânimo. A mochila pesava em meus ombros e eu queria subir logo até o meu quarto.
— Você sabe que filme é esse aqui? Dá uma olhada, comecei a ver no meio do caminho.
Arrastei meus pés para chegar até à tv e reconheci o que minha mãe estava assistindo.
— É P.S Eu Te Amo, nunca assistiu?
— Eu não, muito estranho isso aí de enviar cartas depois de morrer, tem que falar enquanto tá vivo! — Madison reclamou enquanto lia alguma revista para mulheres.
Pensei no que minha mãe falou e em como queria explicar tudo a ela, "enquanto eu estou vivo". Talvez ela fosse entender, me abraçar e respeitar os meus pronomes. Poderia até ir comigo ao médico, acompanhar minha transição. Seria tudo mais fácil.
Que pensamento rápido e ridículo, quase impossível de acontecer.
— Mãe, eu... — comecei a falar, mas minha voz falhou. Ela parou a leitura e olhou para mim.
— O que foi, filha?
O que eu ia dizer, ficou suspenso no ar. Eu não conseguiria.
— Eu... Vou sair com uma amiga amanhã. — Falei rápido para que eu não pudesse gaguejar.
— E quem é? — Minha mãe deixou a revista no colo e inclinou o corpo para mim, sentada no sofá.
— Ahn, é da faculdade e os pais dela são da igreja. — Dei de ombros. "Que ridículo". — É a mesma daquela noite em que eu dormi fora.
— Daquela noite em que você surtou, quer dizer.
— Por favor, mãe, não quero falar disso.
— Não estou dizendo para falarmos, só conte as coisas direito. — Minha mãe respondeu, mas eu já estava nas escadas a essa altura. Eu não conseguia me expressar perto dela e isso acabava comigo.
Joguei a mochila na cama e me segurei no guarda-roupa, o estômago revirando. O mal-estar ainda não havia cessado e meu corpo parecia querer jogar algo para fora, mas eu sequer tinha comido algo o dia todo. Eu deveria estar quase desmaiando de fome, e não com enjôo.
Tirei o tênis e me deitei lentamente, fazendo o mínimo de movimentos possível. Pensar na provável reação que minha mãe teria ao saber o que fiz me fez voltar a tremer. E se alguém da faculdade falasse com ela? E ela tiver alguém conhecido por lá?
"Merda, por que eu fiz isso?!"
Eu queria chorar, mas nem isso era capaz de fazer. Minha garganta ameaçava se fechar completamente e me levantei tão rápido que senti uma tontura forte e corri até o banheiro; me abaixei em direção à privada, mas não havia nada para pôr pra fora.
"Eu não devia ter feito isso, eu não podia, que droga!"
Toda a adrenalina presa em mim durante aquele dia queria extravasar, eu queria vomitar aqueles sentimentos, mas eles estavam grudados, me fazendo lembrar da loucura que eu havia feito e que eu não podia mais voltar atrás. Eu pensava que a sensação seria de liberdade, mas agora eu estava com medo.
Medo pra caralho.
"Meu Deus, o que eu fiz?"
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