Capítulo 17
O dia de apresentar o trabalho havia chegado.
João estava sentado do meu lado como a pessoa mais preocupada do mundo. Ele relia incontáveis vezes o papel com todas as suas anotações para a apresentação do trabalho.
Além dele, quase todos os outros alunos também liam suas próprias anotações enquanto o professor Antônio ainda não estava em sala para iniciar os trabalhos sobre "diversidade na mídia".
— Caramba, Charlie? — João chamou a minha atenção. — Tu não tem nenhum papel de segurança, tchê? Já decorou tudo o que vai falar?
— Sei lá, acho que sim. Eu improviso. — Soltei uma risadinha, o que só deixou João Vitor ainda mais ansioso. Ele murmurou algo como "Deus me livre" e voltou a reler seu próprio papel.
Minha apresentação estava toda em cores da bandeira trans e eu iria falar sobre a série recém-lançada Pose e o filme Meu nome é Ray, e como a comunidade trans era representada na mídia a partir desses dois exemplos.
Contudo, o maior desafio seria falar o que eu estava planejando antes de começar a minha apresentação.
Peguei meu celular e procurei a conversa com Sammy. Trocamos poucas palavras desde a nossa "pequena discussão" há dois dias, mas eu estava ansioso para contar a ela sobre o que iria acontecer hoje. Arrisquei uma mensagem:
— Ei Sam, daqui a pouco eu vou apresentar aquele trabalho que comentei. Não sei se você está na faculdade agora, mas se quiser acompanhar eu vou estar no prédio 2, sala 305.
Antes de enviar, mantive o dedo acima da tela pensando se não seria exagero falar aonde eu estava, como se ela pudesse aparecer naquele momento. Pensei em apagar a segunda frase.
"Bom, não custa tentar". Apertei e enviei.
Infelizmente a porta se abriu e o Sr. Antônio apareceu, o que me dava pouco tempo para começar a apresentar.
Como um milagre, meu celular vibrou e era Sammy na notificação.
— Se eu sair de casa agora, acha que dá tempo?
— Vou tentar ser o último a apresentação! — Respondi tão rápido sua mensagem que nem notei a conjugação.
— Beleza.
Foi tudo o que ela disse e logo depois ficou offline. Se eu já estava ansioso antes, meu coração queria saltar pela boca naquele momento.
— E aí, pessoal! Todo mundo animado hoje? Quem quer começar a apresentar? — O professor tirou seu notebook da mochila e o abriu em cima da mesa.
— Eu, pelo amor de Deus! — João quase gritou com a mão erguida na carteira, fazendo os outros garotos rirem pelo seu desespero. — Quero tirar logo esse peso enorme das costas! Já enviei meu trabalho pro seu e-mail!
— Perfeito, vou colocar aqui. — O homem se sentou e começou a digitar no notebook, enquanto João já estava em pé com o quadro branco atrás dele e o papel de anotações trêmulo em suas mãos.
Mandei um sinal positivo para ele de onde eu estava para incentivá-lo, e ele sorriu para mim e retribuiu o gesto. Quando a sua apresentação apareceu na tela, uma grande bandeira LGBT cobriu a parede.
— Bom, eu não iria deixar de falar de um tema que eu amo, que é a comunidade LGBTQIA+, já todo mundo sabe que eu sou bi, não é segredo nenhum. — João falou rapidamente e suspirou em seguida. — Desculpa, professor, fico nervoso quando apresento!
— Sem problemas, guri! Manda a ver!
O garoto respirou fundo mais uma vez e leu alguma coisa no papel em suas mãos. Em seguida, pediu para o professor passar o próximo slide e, a partir dali, todos ficaram boquiabertos.
Quando João Vitor entrou em sua zona de conforto com a temática, o rapaz tímido nos trabalhos desapareceu e era nítida a paixão em sua voz ao falar do movimento. Descobri sobre passeatas, organizações e eventos LGBT que conhecia pouco ou sequer conhecia. Ele também havia feito uma pesquisa profunda sobre o impacto que aqueles eventos possuíam nas redes sociais, os principais influenciadores do país e um apanhado geral dos direitos conquistados graças ao engajamento da comunidade.
Em uma das fotos que colocou nos slides, identifiquei uma dele próprio em uma caminhada, a bandeira bissexual em suas costas e o rosto pintado com as mesmas cores. Seu sorriso era enorme e não percebi que também estava sorrindo, até João olhar para mim por um segundo e piscar de forma rápida, apenas para que eu percebesse. Senti um orgulho enorme do meu amigo e uma vontade de falar com a mesma paixão que ele.
De repente, eu estava ansioso para ser logo o próximo a apresentar. Queria compartilhar o que estava sentindo igual a João, mas Sammy estava a caminho. Se ela estivesse a pé, chegaria em vinte minutos e eu precisava dar um jeito de não apresentar meu trabalho até lá.
João terminou sua apresentação sendo aplaudido pela turma e com vários elogios do professor, que comentou sobre a importância de nós trazermos esse tipo de conteúdo para a sala de aula e de falar mais sobre nossas próprias vivências.
"É o que eu vou tentar fazer."
Alguns alunos fizeram o trabalho em dupla, o que me deixou preocupado com o tempo, pois até o fim da aula eu iria apresentar e eu não sabia aonde estava Sammy. Quando percebi, fiquei pensando tanto sobre a sua demora que não notei que precisava repassar o que iria falar também. Mal conseguia prestar atenção nas outras apresentações, tamanho o nervosismo — exceto quando Alice se levantou para falar sobre o seu trabalho.
Ela disse sobre feminismo, em um contexto geral. Seus dados eram importantes, como as pesquisas sobre violência doméstica, a diferença salarial entre homens e mulheres e até comentou sobre o feminismo negro. O professor elogiou sua pesquisa e defesa e todos também aplaudiram, mas suas palavras daquele dia não me deixaram bater palmas também. Alice percebeu e me encarou enquanto voltava a se sentar, mas meu olhar se desviou para a porta ao ver quem eu mais queria aparecer.
Sammy aproveitou o momento de palmas para entrar sem ser vista pelos outros. Ela estava sentada no fundo da sala e olhava para mim. Abri um sorriso ao vê-la e percebi como seu rosto estava em tom mais avermelhado e ela ofegava um pouco, concluí que ela se apressou para ver minha apresentação. Me senti ainda mais confiante depois disso.
— Falta mais quem apresentar?
— Posso ir, professor? — Levantei a mão e ele balançou a cabeça em concordância.
— Arrasa, Charlie. — João sussurrou quando eu passei por sua carteira e dei um meio sorriso discreto para ele.
Era a hora de deixar claro para todo mundo quem eu era de verdade.
O professor abriu o primeiro slide, que possuía apenas um título: Cultura que transforma. Estava todo em tons de cinza.
— É... Bom dia! — falei um pouco nervoso e responderam vários "bom dia" às risadas, e o professor teve que pedir para se controlarem.
Olhei para Sammy, que me observava atentamente. Seu queixo estava apoiado nas mãos e saber que ela estava ali comigo me ajudou a falar o que eu tanto queria desde que havia entrado na faculdade.
— Bem, eu escolhi falar sobre a cultura trans no meu trabalho, mas eu não podia fazer esse trabalho sem falar quem eu realmente sou. Pode passar o slide, por favor?
O Sr. Antônio apertou uma tecla e os tons de cinza deram lugar à bandeira trans. Embaixo, estava escrito: Charlie (ele/dele). Alguns olhares se arregalaram, vi a boca de John se abrir e Sammy sorrir ao ver a tela.
— Eu não posso falar sobre pessoas trans sem contar pra vocês que eu... Sou um garoto trans. Eu descobri isso aos 13 anos, mas por causa da minha família escondi até hoje. — Apertei minhas mãos e tentei ignorar minhas pernas tremendo. Todos me encararam atônitos. — Eu sou um garoto e uso os pronomes masculinos, mas continuo me chamando Charlie porque não quero mudar o meu nome. Eu sempre me senti um garoto e é o que eu sou.
Pensei ter visto Sammy com os olhos marejados no fundo da sala. Era difícil dizer, pois os meus também estavam.
O professor passou o slide.
— Eu escolhi duas referências para falar sobre a visão das pessoas trans na mídia. — eu falava tentando ofuscar meu nervosismo. Todos me olhavam com muita atenção, e Alice claramente estava assustada com seus olhos mais arregalados do que todos. — O filme Meu nome é Ray fala sobre um garoto que... Bom, é como eu, mas ele é menor de idade e precisa da autorização dos pais para começar a hormonização.
Eu não sabia se estava falando demais, se alguém estava entendendo, mas eu queria falar. Me esforcei ao máximo para meu sotaque não me atrapalhar.
Eu queria falar tudo o que eu pudesse, tudo o que eu estava aprendendo sobre mim nas últimas semanas.
— Nem todas as pessoas trans querem se hormonizar e o que a gente chama de transição vai de cada um... Depende da... Disforia. — A palavra saiu pesada em minha boca. — A disforia de gênero é quando uma pessoa não se sente bem com o seu corpo por causa dos... Atributos que lembram o gênero do seu nascimento, mas que não fazem parte do gênero dele. Isso acontece com muitas pessoas, mas com várias não acontece, é particular. Só que muitas vezes, os veículos de mídia colocam pessoas trans em situações de disforia, em que elas odeiam o próprio corpo, como se tivessem nascido errado... Como se o corpo certo fosse o cis. — Notei algumas sobrancelhas franzidas ao falar a última palavra. — Cis é o contrário de trans, tá?
Prendi a respiração e tentei soltá-la devagar enquanto todos ainda me observavam. Sammy sorria para mim, me apeguei ao seu olhar para continuar. Minha voz saiu mais decidida.
— É importante desconstruir essa ideia de que pessoas trans se odeiam e querem se parecer com pessoas cis. Quando personagens como... Eu, — apontei para mim mesmo, com uma mistura de orgulho e ansiedade. — Aparecem na TV, nunca são considerados como pessoas normais, pra ser bem sincero. Somos sempre pessoas buscando nos consertar, como... Se tivesse algo errado com a gente!
Minha voz ameaçou falhar naquela hora, mas me segurei. Minhas pernas queriam cair.
— Por isso eu também trouxe outra referência, uma série em que as personagens são pessoas trans na vida real, e a maioria são mulheres negras.
Fiz sinal para o professor passar mais um slide, ele também parecia impressionado e atento ao que eu falava. Apresentei Pose e mostrei algumas fotos de cenas, tentando explicar rapidamente o contexto da história.
— Eu acho que o mais importante nisso tudo é não nos colocar como pessoas estranhas, sabe? Só por sermos trans. Eu sou igual a vocês, igual aos outros garotos, só nasci com um corpo diferente. Cada um tem um corpo diferente, e se a mídia quiser mostrar isso, deve mostrar com mais amor, não como se a gente fosse... Aberrações tentando nos consertar, sabe? O mundo trans não gira em torno disso. É sobre aceitação.
Eu não sabia se o que eu estava falando fazia sentido para alguém ali. O meu cérebro não estava processando as coisas direito, eu simplesmente falava o que sentia que precisava falar. Apenas tive consciência de conseguir olhar para Sammy e notar seu rosto molhado pelo choro e um sorriso se iluminando.

Colocar em palavras o que eu vivi é mais difícil do que inventar uma cena, viu. Lembro de quando eu apresentei esse trabalho, mas diferente do Charlie eu coloquei no slide cinza o nome morto e quando a bandeira trans apareceu tava lá o meu nome, lindo, que me mata de orgulho.
Dar o primeiro passo é difícil, é terrível (vou falar mais disso no próximo capítulo, Charlie ainda vai passar uns perrengue), mas depois que você consegue... Você vê que é capaz de mudar o mundo todo se quiser, meu irmãozin!
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