Capítulo 20
Eu tô faltando isso aqui 👌 pra parar de ver as notificações porque eu tô muito cansado de todo dia colocarem meu livro em lista de romance lésbico. Vocês não têm NOÇÃO de como isso me deixa mal. Quem faz isso deveria sentir VERGONHA. Não tem motivo NENHUM pra acharem que minha história é lésbica, NÃO TEM COMO SE CONFUNDIR caralho, eu deixei claro de todas as formas. Puta que pariu.
Quando eu tô fofo eu sou igual o Charlie, mas quando eu tô pistola eu sou pior que o Jason. E com a beleza dos dois ainda, porque eu também sou bonito.
Foi mal o desabafo, agora bora pro cap.

O turno das aulas já havia acabado, mas eu estava enrolando para sair da faculdade. Perto da biblioteca, ficava uma das lanchonetes e um conjunto de mesas e cadeiras de concreto, sombreadas pelas árvores. Uma brisa razoavelmente fria fez com que a maioria dos alunos usasse grandes casacos para se cobrir, mas eu já estava me acostumando ao clima, então usava apenas uma blusa de manga longa azul, satisfeito por estar de binder naquele dia.
Meu cabelo estava começando a formar uma franja e, se eu não cortasse em breve, viraria um Justin Bieber. Eu o jogava para trás o tempo todo, o que deixava o visual mais bagunçado.
Abri meu pacote de chicletes e coloquei dois na boca, enquanto analisava a mensagem que havia planejado enviar ao meu pai no bloco de notas.
"Oi, pai. Eu só queria dizer que estou com saudades, e pedir desculpas pela forma que fui embora tão rápido. Eu espero que nós possamos voltar a nos falar em breve, existem várias coisas acontecendo na minha vida e eu queria compartilhar com você."
Não eram literalmente todas as coisas que eu queria compartilhar, pois eu ainda não tinha ideia de como seria sua reação ao descobrir sobre meu gênero, mas mesmo assim eu queria poder contar sobre a vida no Brasil e a faculdade.
Nós brigamos feio na última semana morando juntos. Era difícil morar com ele, todo e qualquer defeito por menor que fosse era motivo de discussão. Ele acreditava que eu era o único responsável por cuidar da casa por ser "mulher" – com diversas aspas nessa palavra – e que ele poderia mandar em mim, já que era quem me sustentava. Parte do meu péssimo desempenho na Engenharia foi graças ao estresse em casa.
Mas apesar de tudo, ele era o meu pai. Eu não queria sair como o ingrato da história que quis cortar o contato. A minha parte, eu iria fazer.
Enviei a mensagem para ele e não esperei por uma resposta tão cedo.
Era estranho pensar que todos os meus parentes estavam do outro lado do continente. Nunca fui tão chegado aos meus primos, tios e avós, mas morar tão longe me fez sentir falta deles.
Procurei o contato de Katherine, uma das primas que possuía a idade mais próxima da minha. Ela estava no segundo período de Psicologia e interagia nas minhas postagens de vez em quando.
Tive sorte dela estar online e arrisquei uma chamada de vídeo. Demorou algum tempo para receber a conexão, mas de repente uma garota de cabelos castanhos e olhos verdes apareceu sorridente na tela.
— Charliiiieeeee!!!! Essa é a melhor surpresa do mundo!
— Espera aí! Vou pegar os fones! — Mexi na minha mochila e conectei o fone de ouvido para escutar melhor minha prima.
— Que horas são aí?
— Uma da tarde, e aí?
— Meio-dia, achei que a diferença seria maior.
— Estou no Brasil, não na China, né.
— E como estão as coisas aí? A tia Mads está bem? Paul continua sendo um velho chato?
— É, acho que nada mudou... — meu sorriso na tela começou a sumir. — Na verdade, teve uma coisa que mudou, sim.
Eu agradeci por estar falando em inglês, era uma espécie de barreira para que ninguém bisbilhotasse minha conversa. Apesar de receber um olhar aqui e ali de algum aluno que passava, nossa fala era tão rápida que alguém mais experiente precisaria entender a conversa com clareza.
— O que mudou? Aconteceu alguma coisa com você? — Kate estava mexendo em algo na mesa quando parou o que fazia e se concentrou na tela. Ela colocou o celular parado em cima do móvel e apoiou o corpo.
— Eu... Descobri que sou transgênero.
Seus olhos se arregalaram, e para o meu alívio ela abriu um sorriso grandioso.
— Que demais, Charlie! Uau! Ai, que incrível, eu tenho um primo traaaaans!!! — Ela remexeu os braços em uma dancinha desengonçada. Minha risada saiu alta e fiquei feliz por ter compartilhado isso a ela. — E você vai começar a transição? Aí é fácil de fazer?
— Eu não sei muito bem, estou pesquisando, minha mãe não sabe ainda.
— Sabe que eu te adoro, Charlie. Evita contar pra ela por enquanto, não sei como seria sua reação.
Eu sabia. Ninguém além de mim tinha conhecimento do episódio que ocorreu aos meus treze anos, quando minha mãe encontrou aquele caderno.
— Eu vou tomar cuidado, não se preocupe. Eu estou tão feliz por ter compartilhado isso com você, eu estou... Ah! Maluco com tudo isso! — Fiz uma careta e minha prima riu alto no meu fone, quase me assustando.
— Vá com calma, garoto. Eu tenho muito orgulho de você, ok? E você pretende contar isso para mais alguém da família?
— Eu não sei... Você poderia me ajudar nisso, o que acha?
— Vou ver o que posso fazer. — Katherine piscou. — Viva a sua liberdade, Charlie. Você é incrível.
Meus olhos ameaçaram lacrimejar ao ouvir minha prima. Desejei profundamente que ela estivesse ali ao meu lado, e não atrás de uma tela. Meu coração se apertou de saudade.
De repente, uma movimentação ao meu lado me fez quase pular do banco, e um estalo em meu ouvido me fez gritar de susto.
Jason não sabia entrar sem cerimônia em algum lugar. Ele havia estalado os dedos ao lado da minha orelha para chamar a minha atenção, e estava rindo.
— Tu tá falando sozinho?
— Ahn, é a minha... — Antes de explicar quem era, Jason se sentou ao meu lado e apareceu na câmera. Ele acenou e eu o empurrei. — Eu estou falando com a minha prima!
— Charlie? Quem é esse aí? — Katherine ficou curiosa, por sorte Jason não podia ouvir o que ela estava falando. — Nossa, que bonito, é o seu namorado?
Engasguei com o próprio ar da minha respiração e comecei a tossir. Jason me encarou atônito, até entender que eu estava realmente engasgando e começou a dar tapas em minhas costas para me ajudar. Tirei a tela do alcance de visão e tentei me recompôr.
— Que que aconteceu, mano?
— Nada, Jason, nada. — Enxuguei as lágrimas dos olhos que saíram sem querer e ergui a tela novamente para falar com minha prima. — Eu preciso ir, Kate.
— Hummm, não respondeu minha pergunta, tem alguma coisa rolando aí!
Eu queria avisar a ela que Jason – pelo amor de Deus, Kate! – não era meu namorado, mas ele entendia inglês e saberia sobre o que estávamos falando. Eu precisava fingir que nada havia acontecido.
— Outra hora conversamos mais, tudo bem?
— Você ficou vermelhinho! Ai, meu Deus! Tá bom, vai lá. Me dê mais notícias!
Katherine ficou offline e minha dignidade foi embora junto com a chamada.
— Sobreviveu? — Jason estava encostado na mesa, com o braço apoiado no concreto e a mão no queixo, me olhando com diversão.
— Eu achava que os caras legais da Engenharia não conversavam com os meros mortais da Publicidade em público.
— Isso foi antes de tu virar a atração mais famosa daqui, todo mundo já sabe que tu ti assumiu trans. Que loucura foi essa?
A postura de Jason passou de engraçado e descontraído para assustadoramente sério.
— O que você quer dizer com isso?
— Tu não parou pra pensar que teus pais podem descobrir?
— Você mesmo disse que eles já desconfiam!
— Desconfiar é diferente de ter certeza, velho!
— E por que você me chama de velho? Você que é mais velho!
— Ah, pronto, vou ter que ficar ensinando gíria pra ti agora.
— Não precisa me ensinar nada, Jason, eu não preciso de você.
Peguei minha mochila com raiva e me levantei, eu não queria saber das lições de moral de um garoto que não fazia ideia do que era ser como eu.
— Eu só tô tentando te ajudar, cara. — Ele se levantou e começou a andar atrás de mim.
— Você não tem que ir fazer alguma outra coisa não? Não tem seu trabalho na empresa júnior? Não quer pegar as meninas lá não? Vai se ocupar com isso e me deixa.
Péssima hora para falar isso, péssima hora.
Alice havia acabado de sair da biblioteca. Ao lado dela, estava uma garota mais alta e muito parecida com minha colega de turma.
Uma aura silenciosa e angustiante se formou entre nós quatro. A garota mais alta olhou para Jason.
— Oi, Jason.
— Oi, Soraia.
Havia uma tensão grande no ar. A forma com que ela olhava para o garoto era como se quisesse colocar as mãos em seu pescoço e estrangulá-lo até a morte.
Eles ficaram. Alice tinha razão.
— Tu vai agora pro escritório? — Jason guardou as mãos dentro da jaqueta preta e ergueu uma sobrancelha.
— Vou, mas não precisa me acompanhar. — Soraia fuzilou o garoto com os olhos e se virou para Alice. — Eu já vou, se cuida.
A loira de cabelos longos deu um sorriso rápido e se afastou de nós três. Já a de cabelo channel e cara irritante, respirou fundo.
— Tudo bem, Alice? — Perguntei de forma desconfiada. Desde a apresentação do trabalho, ela me evitava a todo custo.
Como eu previra, fui ignorado completamente.
— Você é ridículo. — Alice olhou para Jason. Tudo o que ele fez foi dar de ombros.
— Eu não iludi tua prima, só trabalho com verdades. — Seu sorriso foi o debochado de sempre, me perguntei o que havia acontecido entre ele e Soraia.
— Você não vai mais falar comigo não? — Não resisti e falei com Alice mais uma vez. Ela controlou uma careta e continuou olhando para Jason.
— Agora que já conseguiu o que tu queria podia sair logo da empresa, dar vaga pra quem merece.
— Na verdade, a galera gostou do meu trabalho e acho que vou ficar por um longo tempo... — Ele piscou para a loira e eu podia jurar que ela queria vomitar. Alice ergueu as mãos e se afastou.
— Eu não sou obrigada a ficar perto de ti não!
A gargalhada do futuro engenheiro foi ainda mais sarcástica.
— Essa garota é uma comédia, pra não falar outra coisa. — ele mexeu nos bolsos e retirou o celular. — Eu realmente preciso ir na empresa, mas nossa conversa ainda não acabou.
— Acabou sim. — Me afastei dele e caminhei para longe da entrada da biblioteca.
— Qual é, Charlie! Larga de ser chato!
Mas eu não estava a fim de ouvir os discursos de um cara que só se preocupava em pegar as garotas da faculdade e me perturbar.

Deus tá vendo quem tá shippando o Charlie com o Jason sabendo que o Charlie é boiola pela Sammy, seus destruidores de lares
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