Capítulo 14

Whaaaat? 4 capítulos em um dia? Tá de brinks with me meu parceiro? Celoko

Mesmo com todos os problemas na maioria das aulas — como não ser bom no Photoshop, não ter dom artístico, odiar escrever e não entender aonde eu me encaixava em uma agência tradicional de Publicidade —, eu gostava de duas coisas na faculdade: as aulas de fotografia e os assuntos contemporâneos. Eu adorava ver os professores e alunos debatendo sobre questões atuais, mesmo sem participar ativamente. Nas aulas de Redação Publicitária, eu terminava por falar mais vezes pois isso diminuia o tempo disponível para escrever.

Infelizmente, a redação fazia parte de todas as disciplinas por conta dos trabalhos escritos. Infinitos trabalhos, sobre tudo o que fosse possível.

O Sr. William estava entregando mais um deles naquele exato momento: não contavam nota oficialmente, mas ele ainda considerava como se fosse para acompanhar nosso rendimento.

— Charlie Stewart! — A voz grossa do professor tirou minha atenção do celular e olhei para cima ao vê-lo se aproximar com meu trabalho em mãos. — Fez um excelente texto, meus parabéns.

— O quê? Não, não... — Minha voz foi sumindo à medida que eu reparava no grande 10 azul feito na capa.

— É sério! Mandou bem. — Ele inclinou o dedo indicador na minha direção e forçou uma risada como se quisesse parecer descolado; impossível, com aquela blusa de gola polo e calça social sob medida.

Peguei meu trabalho corrigido com um sorriso tímido e o coloquei direto na bolsa, sem olhar para as observações. Notei o olhar de Alice sobre mim e fingi não ter percebido, até ela inclinar o corpo para mim.

— Você não disse que não gostava de escrever? — sua expressão era de surpresa.

— E não gosto. — tentei falar aquilo em voz baixa para não chegar ao alcance dos ouvidos do professor.

— É, pra quem não gosta, você foi muito bem. — Ela ergueu as sobrancelhas e eu não sabia se aquilo era um elogio genuíno ou traços de inveja. Fingi ser a primeira opção, pois ela também havia recebido um 10. — E aí, já sabe sobre o que vai falar no trabalho do professor Antônio

— Não, e você? — Nosso professor havia passado há uma semana a elaboração de slides para falarmos sobre algum movimento atual no Brasil, mas eu ainda não começara a pesquisar.

— Vou falar sobre feminismo. — Alice piscou e começou a arrumar seu material.

— Hum... Alguma pauta específica? — Fingi interesse enquanto também arrumava minha mochila para me preparar para a próxima aula, mas mesmo com os meus olhos focados nas minhas canetas e no caderno eu consegui perceber Alice virando a cabeça rapidamente para mim.

— Como assim pauta específica?

— Ah, sei lá! — Dei de ombros, esboçando um sorriso meio torto. — Existem vários tipos de mulheres, as negras, as mães, as trans, as com defici...

— Mulher trans? — Ela me interrompeu com seu tom de surpresa e olhei para ela. — O que você quer dizer?

— Ora... Mulher... Trans!

— Mas elas não fazem parte do movimento, pra que que eu vou falar disso?!

Não consegui evitar a expressão assustada e confusa diante da garota.

— E por que exatamente elas não fazem parte?

— Bah, elas não são mulheres de verdade, biológicas, isso é muito óbvio, tchê!

— Se não são mulheres, são o que então, guria?! Fadas místicas?! — Ergui uma das sobrancelhas para ela, sem perceber que eu até havia usado a gíria gaúcha. Alice enrugou a testa, o olhar fixo em mim. Parecia que ela estava prestes a voar no meu pescoço.

Pensei que ela fosse falar alguma idiotice naquele momento, e achei que ela realmente queria ter me respondido, mas uma das nossas colegas segurou em seu ombro e disse para irem logo ao refeitório. Talvez, por falta de tempo para discutir comigo, ela apenas me encarou por uma última vez antes de sair da sala.

Por fora eu parecia indiferente àquilo, mas por dentro eu estava trovejando frases sem vírgulas.

"Garota ridícula ora essa onde já se viu querer insinuar que trans não existe quem não vai existir é ela na próxima vez que falar uma coisa dessas ficou maluca que vontade de discutir ela não tem nenhum direito de falar que pessoas trans não são de verdade se mulher trans não é mulher é o que então infeliz ela vai ver só eu não vou me esquecer disso vou fazer ela calar a boca na próxima vez".

O monólogo irritado de dois minutos dito em pensamento foi até suficiente para me acalmar na saída da sala, mas eu não iria me esquecer disso. Não mesmo.

Durante o intervalo, tentei conversar com Sammy por mensagens, mas ela estava tirando fotos de um casal que a contratou depois de ver seu trabalho na internet. Queriam um ensaio romântico no parque e, pelo teor das últimas mensagens que me mandou, a garota estava vibrando de alegria por conseguir esse trabalho.

Não falei sobre minha conversa com Alice, pois não queria um assunto desagradável entre nós. Eu poderia falar disso outra hora.

A próxima aula seguiu sem muitas surpresas — exceto por uma história engraçada que a professora contou sobre quando começou a trabalhar, e um momento em que Alice tentou tirar a tinta da caneta sacundindo-a pelo ar e eu desejei que a tampa batesse em sua testa — e o relógio acima do quadro branco pontuou o fim da aula. Virei o olhar para a loira channel e ela estava entretida em um assunto com as garotas. Tentei tirar aquela cena da cabeça e me concentrar no meu próprio trabalho de Humanidades, então me dirigi à biblioteca. Eu não me lembrava muito bem das regras, mas deveríamos falar sobre um grupo social e como os seus conteúdos são propagados na mídia.

O espaço ficava exatamente no andar abaixo do corredor em que eu estava, então desci pelas escadas ao invés de pegar o elevador. Cada degrau era decorado com um livro, como se vários estivessem empilhados. A Cidade do Sol, A Culpa é das Estrelas, O Vendedor de Sonhos, Querido John e outras obras foram passadas por mim. Seria um bom espaço para Sammy fotografar.

As portas de vidro deslizaram automaticamente e entrei na biblioteca para mais uma das coisas desagradáveis que aconteciam no dia a dia: o contato com a bibliotecária.

O que eu precisava fazer era bastante simples: passar a minha matrícula para que a mulher me desse uma chave, e assim eu teria um armário para guardar minha mochila. Era proibido entrar com elas na biblioteca.

Mas coisas simples nem sempre são fáceis para pessoas trans.

A bibliotecária não era uma pessoa ruim; pelo contrário, sempre falava com os alunos dando um grande sorriso e estava disposta a nos ajudar. O único problema era a sua mania de querer sempre reforçar pronomes, não conseguia falar uma frase sem marcas de gênero. Eu já havia passado por ela quatro ou cinco vezes, assim como também ouvia o que ela falava para os outros alunos. Por isso, essa conclusão.

Comecei a me aproximar e já pensava em como seria chato ouvir o pronome feminino mais uma vez. Então pensei em Sammy e em como ela lidou bem com isso, quem sabe eu poderia tentar de novo.

"Mas essa mulher já me conhece, eu não falei que sou um garoto antes, então não adianta mais."

"Claro que adianta, se eu não falar ela nunca vai saber."

"E se ela for preconceituosa? E se me deixar constrangido? Meu Deus, tantos casos de pessoas que passam por isso..."

"Ela não tem bola de cristal, eu preciso corrigir quando ela errar!"

— Oi, querida? Tudo bem?!

Notei que estava conversando comigo mesmo em pensamento de forma tão intensa e profunda que não vi que já estava em frente ao balcão da biblioteca, com aquela mulher olhando para mim em seu coque bem arrumado e batom desbotando.

— Desculpa, é... Minha carteirinha. — Pisquei várias vezes enquanto tateava o bolso da calça jeans à procura do documento. Quando o estendi no balcão de granito, respirei fundo. — E é querido, eu sou um garoto. É. — Tentei dar um sorriso, as mãos suavam frio por dentro e as enfiei no casaco.

— Ah, ok, querido! Aqui, sua chave. — Ela estendeu o objeto metálico para mim e manteve o mesmo sorriso. Como se aquilo fosse só um detalhe.

Peguei a chave me controlando para não ficar boquiaberto e segui a passos lentos para os armários. Coloquei minha mochila com cuidado e tranquei devagar, como se eu precisasse ser cauteloso ou acordaria de algum sonho.

Talvez nem tudo fosse tão difícil. Talvez — só talvez — as coisas precisassem de um empurrãozinho.

Talvez...

Eu já sabia sobre o que falar no trabalho do professor Antônio.

Acho que vou postar mais 1 cap ainda

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