Capítulo 13

Desde o primeiro encontro da nova igreja de minha mãe aqui em casa, as coisas passaram a ficar um pouco mais agitadas para ela. Maximiliano, o diretor da associação de moradores, viu potencial em Madison para ajudar nos programas e rapidamente ela se viu engajada com qualquer atividade beneficente.

Para mim, aquela realidade era ótima. Com Paul no trabalho e minha mãe fora de casa, eu possuía a minha própria liberdade. Não que eu gostasse de ser uma pessoa rebelde e de sair para todos os lugares, na realidade, a melhor coisa do mundo na minha visão era ficar deitado na cama o dia inteiro, sem prestar satisfações.

Infelizmente eu não podia me dar ao luxo de ser tão preguiçoso, pois havia uma tonelada de conteúdo para estudar, além de uma redação para ser entregue até às seis horas pela plataforma virtual da Marie Curie.

Escrever era a parte mais complicada, pois o meu português era muito melhor falado do que escrito. Eu estava perto – muito perto – de desistir e acabar redigindo a redação toda em inglês e depois passar para o tradutor em português. Seria uma ideia tão ruim assim?

"Sim, seria." – meu subconsciente alertou e tentei novamente escrever aquele texto, cujo tema era "A importância das redes sociais na Publicidade no século XXI".

Após quase duas horas, consegui montar alguma coisa e enviei o arquivo para que Sammy corrigisse. Após alguns minutos, ela perguntou se eu tivera aulas de escrita em português antes de vir ao Brasil e como eu havia conseguido uma vaga na Marie Curie.

Eu não sabia que estava tão ruim assim.

— Charlie, tu tá errando coisa básica de conjugação de verbo. Tu é melhor do que isso na conversação, é só passar pro papel!

— Mas falar é uma coisa, escrever é outra! — digitei em resposta.

— Tu te orienta, guri! Faz o seguinte: grava o teu próprio áudio falando o que tu quer escrever, e depois só transcreve o que tu disse no papel. Vai ficar uns 50% melhor, te garanto.

— Tá bom, obrigado.

— Tu disse "tá bom"??? Que evolução! Daqui a pouco vai tá dançando funk e sofrendo com sertanejo! — Sammy mandou vários emojis com corações nos olhos, obviamente eram irônicos.

— Você ouve essas coisas?

— Te falei que minha família é tradicional, eu não escuto tanto, mas conheço um pouco. E outra coisa, tu pode falar "tu" ao invés de "você" também.

— E qual a diferença?

— Bah, tchê, tu mora no melhor Estado do Brasil, tem que falar como se fosse daqui!

— Tu é engraçada, hein! Sei! — Aproveitei a oportunidade para mostrar que eu sabia usar o "tu" como a Sam.

— Que lindo, cresceu tão rápido! — Recebi um emoji chorando. — Agora vai fazer teu texto, guri. Te mando mensagem mais tarde.

Essa garota era boa demais para ser verdade.

Ainda faltava meia hora para Paul chegar do trabalho quando a campainha tocou. Eu odiava atender e não me importava de ser considerado antissocial por isso, mas se dependesse de mim eu não teria campainhas na minha própria casa pois não gostaria de receber pessoas.

Contudo, só eu estava presente e a pessoa do lado de fora chamou mais uma vez. Sem escolha, saí da cama e fui da forma que estava, com um short de tecido lilás e uma regata simples, pois eu não me preocupava com a roupa que eu usava em casa.

Mas quando abri a porta, desejei tê-la fechado no mesmo instante e ir colocar uma calça e um moletom na velocidade da luz.

Era Jason.

Era a droga do garoto da praça, filho do senhor Max, que não sabia se eu era um garoto ou uma garota.

Quis morrer ali mesmo e acordar só na próxima vida. Eu deveria estar pálido, pois as sobrancelhas do garoto se ergueram.

— Cê' tá bem? Parece que viu uma assombração.

"É, cara, considerando que só por respirar você já eleva minha disforia a níveis astronômicos, foi isso o que eu vi mesmo."

Jason também estava de regata, mas diferente da minha, a sua era de um modelo masculino, com corte reto, dando uma amostra do seu peitoral reto e até um pouco musculoso. Havia uma tatuagem em cada lado dos seus braços, mas eu não tinha tempo para ver o que eram.

— Então, o que você quer? — Cruzei os braços em uma tentativa de esconder meu corpo, mas depois pensei que isso iria destacar meus intrusos e os descruzei logo depois. Eu estava no auge do desconforto.

Jason se abaixou, percebi que havia uma caixa de papelão fechada, e a julgar pela forma com que ele carregou deveria estar pesada.

— Meu pai não vai para o culto de hoje, mas ele prometeu pra sua mãe que ia deixar uns livros com ela, aí pediu pra passar aqui. Eu posso deixar com você? Quer que coloco em algum lugar? Tá um pouco pesado.

Claro que ele iria se oferecer para carregar pra mim. E claro que eu nunca iria aceitar.

— Não precisa não, valeu.

— Tem certeza?

— Pode me dar a caixa. — Ergui os braços, um pouco irritado, e quase o forcei a soltar a caixa e deixá-la comigo.

"Meu Deus, que pesada."

— Tá tranquilo? — Ele me deu uma última olhada, desconfiado, enquanto dava alguns passos para trás.

— Está, sim! — "Que se danem as dicas do João, só quero que ele saia pra eu colocar isso no chão."

— Ah, e a minha casa fica na rua L, número 8! Se sua mãe precisar de alguma ajuda.

— Vou passar o recado, obrigado! — Eu já sentia a veia saltando do meu pescoço pela força que eu estava fazendo.

Assim que Jason voltou para a calçada, fechei a porta com os pés e praticamente joguei a caixa no chão. Por sorte, ela estava muito bem embalada com fita adesiva e seu conteúdo permaneceu intacto.

Me sentei no chão, ao lado da caixa. Meu corpo estava agitado, além da dose de esforço para segurar aqueles livros eu me sentia péssimo por ter aparecido para aquele garoto com essas roupas. Ele nunca mais teria dúvidas sobre meu gênero, já era óbvio para ele que eu era uma garota.

Senti uma vergonha tão grande que comecei a chorar, as unhas apertaram meus braços e as apertei para atingir minha pele. Eu sentia tanta raiva do meu corpo que, por um segundo, eu queria machucá-lo.

Por que eu tive que entender sobre o que é ser trans? A pessoa que criou a frase "a ignorância é uma benção" tinha razão. Eu não queria ser assim, se eu pudesse eu não seria.

Mas diferente do que tanta gente pensava, eu não tinha nenhuma escolha sobre isso.

Me levantei com um pouco de dificuldade e arrastei a caixa até o canto da sala. Conferi o relógio analógico na parede e lembrei que meu padrasto chegaria em breve. Fui ao banheiro lavar o rosto para ter um aspecto um pouco melhor quando ele chegasse, assim não desconfiaria de que eu estava chorando.

Preparei uma torrada com manteiga de amendoim – foi difícil encontrar isso em um mercado por aqui – e ouvi o barulho do carro entrando na garagem. Alguns minutos se passaram até o homem aparecer pela porta da cozinha, com sua blusa social desabotoada na parte de cima e as mangas dobradas na altura do cotovelo.

— Ei, querida. — Ele contornou a bancada de granito da cozinha e beijou minha testa, respondi com um sorriso. — Pode esquentar uma torrada para mim também? Mais tarde pedimos pizza.

— Pode ser. — falei distraído e tirei mais uma torrada do pacote.

— O que é essa caixa no chão? — Ele devia estar se referindo aos livros.

— O filho do senhor Max veio aqui e deixou, são para a mãe.

— O filho do Max? Que estuda com você?

— Não comigo, só no mesmo lugar.

— Hum... — Me virei com as torradas dispostas em um prato raso e Paul estava desabotoando a blusa e tirando os sapatos com o próprio pé. — Qual o nome dele mesmo?

— Jason. — Passei a manteiga de amendoim em uma torrada, distraído.

— Eu achava que esse nome era mais comum nos Estados Unidos, estranho, não é?

— O pai dele se chama Maximiliano, então deve ser coisa de família. — Dei de ombros, torcendo para que o assunto encerrasse logo.

— E ele é legal?

— Não falo muito com ele.

A bancada da cozinha possuía um par de banquetas altas e vermelhas, então me acomodei em uma delas para me sentar enquanto comia. Paul ainda estava de frente para mim, mas agora com o olhar pensativo.

— E o que você está achando dos rapazes de Esplendor?

Demorei alguns segundos para entender aonde Paul queria chegar com aquela conversa. Quando me dei conta, neguei com a cabeça rapidamente e falei em tom um pouco acusatório, estava com medo de revelar alguma coisa.

— Eu não quero saber dessas coisas agora! Estou na faculdade, tenho muito o que fazer!

— Ei, garotinha, está tudo bem! Foi só uma pergunta. — O homem com a barba levemente por fazer e cabelos que começavam a ficar grisalhos ergueu as mãos pro alto, como se estivesse em rendição. — Mas você tem razão, na sua a idade a mulher tem que estudar primeiro.

Me controlei para não revirar os olhos. Eu gostava de Paul, mas ele soltava alguns comentários tão antiquados que eu precisava morder a língua para não dar uma resposta à altura.

Eu nunca havia apresentado um namorado a ele. Talvez isso estivesse sendo um pouco chato na parte de educar uma garota.

"Lamento, Paul, mas para início de conversa, nem garota eu sou."

Não consegui evitar de pensar em Jason mais uma vez. Provavelmente o seu pai deve ter feito piadas sobre beijar várias garotas, perder a virgindade, namorar mais de uma ao mesmo tempo. "Vai ter muitas namoradinhas", eu apostava minha vida que ele já ouviu isso pelo menos uma vez.

E por mais machista que isso fosse, era esse o tipo de comentário que eu preferia ouvir ao invés das falas de Paul – porque isso iria significar que eu era visto como um garoto.

Eu queria ser igual ao Jason.


Curiosidade: eu sei que o Charlie é o protagonista e até me representa, mas na vida real eu amo os Jason da vida badboy de jaqueta preta de couro cabelo preto arrepiado musculoso tatuado de voz grave riso rouco que pega todas nunca se apaixona mas q no fundo tem um passado conturbado I'M SORRY

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