Capítulo 12

Dois caps em um dia pq sou top

[Aviso de gatilho: racismo e gordofobia]

Havia uma movimentação estranha no refeitório.

Eu estava na companhia de João e Calebe, um dos seus colegas que fez amizade comigo e que também parecia fazer parte dos pré-julgados pelos outros por ser gay. Era como um grupinho particular de três pessoas da comunidade que não se encaixavam com os outros.

Calebe falava pouco, em alguns momentos eu até me esquecia de que ele estava ali, mas não era por mal, ele só era muito calado e indiferente.

Ao redor de uma das mesas metálicas do pátio, alguns alunos estavam discutindo. Tal foi a minha surpresa ao descobrir que um desses alunos era Alice, com Jennifer poucos centímetros atrás dela.

E o susto foi ainda maior quando percebi com quem ela estava discutindo: o garoto da praça.

Eu não sabia o seu nome, só conseguia me lembrar de sua namorada loira que disse a ele que eu era uma garota, mesmo ele me perguntando o meu gênero. Minha vontade era de agradecê-lo pessoalmente por ter plantado essa dúvida em minha mente e, consequentemente, me feito questionar sobre quem eu era de verdade.

Mas obviamente eu não faria isso, muito menos naquele momento.

— O que que alguém de Publicidade tá arrumando com um maluco da Engenharia? — João Vitor falou curioso e nos aproximou um pouco da cena, o suficiente para ouvir sobre o que estavam falando. Alice estava furiosa e o garoto, de braços cruzados. Jennifer tentava afastar a colega, que se recusava, e quando olhou para os lados em busca de alguma coisa nos encontrou e correu até nós.

— A Alice é impossível às vezes. — Ela falou em tom baixo e vergonhoso.

— Que treta que aconteceu, guria? — Apesar da pergunta ter partido de João, nós três estávamos curiosos.

— Aquele garoto ali é o Jason, ele entrou na empresa júnior de Publicidade e a Alice tem certeza de que ele tomou a vaga de alguém do curso só pra tentar pegar a prima dela que trabalha lá, a Soraia.

— A Alice tem uma prima veterana? Por isso que ela se acha tanto!

Me controlei para não rir com o comentário de João. De acordo com ele, o seu "santo não batia" com o de Alice, mesmo ambos sendo da comunidade LGBTQ. Alice era tão orgulhosamente lésbica assim como João Vitor era orgulhosamente bi.

E eu ainda não era orgulhosamente trans, mas queria ser.

A voz de Jennifer foi abafada pela da própria Alice, que aumentou o tom devido à raiva.

— Tu só conseguiu a droga dessa vaga porque teu pai mexeu os pauzinhos pra você! Tu nem devia entrar lá!

— Não tem nada nas diretrizes que me impede de entrar, e você não tem nada a ver com isso!

— Eu não tenho?! — Alice estava tão próxima do garoto que parecia prestes a comê-lo, no sentido mais assombroso possível. — Se tu te foder com o coração da minha prima, eu vou acabar com tu!

— Mas ele não tem namorada? — Perguntei para os meus colegas, que saíram do transe da discussão para me encarar.

— Jason nunca tem namorada. — A expressão de Jennifer foi de repulsa. — E você conhece ele?

— Ahn, é, o pai dele... É uma longa história.

João comprimiu uma risada que saiu em forma de tosse. Ele colocou a mão na boca para reprimi-la, mas foi impossível.

— Se a Alice souber que tu tem papo com ele... E taca-lhe pau em tu!

— O quê?

— Bah, esqueço que tu é dos Estates. — João revirou os olhos e mexeu no cabelo. — Já cansei de ver essa garota pistolando, no final ele vai pegar a prima dela, vai sair da empresa e Alice vai procurar outro motivo pra falar mal de homem.

— Ei! Ela é a minha amiga! — Jennifer protestou, mas João já havia passado os braços ao redor do meu e do de Calebe e estava nos empurrando para longe.

— Que pena pra tu!

Jennifer falou mais algumas coisas, mas eu já não conseguia ouvir. João pediu para paramos na lanchonete perto da biblioteca para comprar um salgado, e esperamos em um dos bancos de concreto.

Calebe mexia no celular concentrado em um jogo, enquanto eu abria e fechava a tela para saber se havia uma mensagem nova, preferencialmente de Sam. Talvez ela estivesse estudando em casa ou fazendo algum trabalho.

Revivi os últimos minutos conturbados na minha cabeça e tentei entender o que aconteceu.

Alice detestava homens. Qualquer oportunidade para reclamar da existência masculina, ela agarrava. No segundo dia de aula, criou um grupo de conversas com todas as meninas do grupo intitulado "PowerGirls da Publicidade", e eu infelizmente estava lá, porém eu nunca interagia por motivos óbvios.

Eu não conseguia me sentir essa garota que Alice via em mim. Ela me via como uma igual – mesmo que eu nunca tivesse dito a ela que era lésbica, quando na verdade deveria me ver como garotos iguais ao Jason.

Eu queria ser como ele. Era durão, atleta, as pessoas o achavam bonito e garotas como Alice o detestavam. Ele nunca entraria em um grupo de "PowerGirls da Engenharia".

— Foi abduzida, foi, tchê? — João piscou com a mão livre, pois a outra segurava um hambúrguer assado. — Tá aí planejando a terceira guerra mundial.

— Foi mal, estou só pensativo. — Dei de ombros, então Calebe e eu chegamos para o lado a fim de que João Vitor se sentasse.

— Ó, Charlie, vou te ensinar umas regrinha' básica de português. — João cruzou as pernas. — Tu não precisa falar o verbo "estar" todo, é formal demais. Tira o "es", fala uma sílaba só, como se fosse tônica.

— Como assim? Mas eu falo normal.

— Não, meu amor, tu fala como se tu tivesse em 1950. — Calebe desviou a atenção do celular para rir da situação e também foi ouvir atentamente os conselhos de João. — Tu não diz "estou", tu diz "tô". Não é "está", é "tá". Tipo assim: tu tá bem? E aí responde: tô bem.

— Entendi... Mas por que fazer isso?

— Porque é mais fácil, mais legal e tu não fica parecendo um tapado, opa, uma tapada.

Houve um segundo dramático de silêncio. Meus lábios se entreabriram e João soltou um "ahn..." que se perdeu no ar.

Ele naturalmente me chamou pelo pronome masculino.

— Eu acho que vou mais cedo pra sala. — Falei rápido e tímido, pois não queria falar sobre aquilo. A minha cara já estava óbvia, havia algo a mais no fato de João ter falado daquele jeito e eu não queria falar sobre isso, não daquele jeito, nem naquele momento.

— É, eu, vou dar umas banda por aí antes de entrar. — João se levantou, o salgado já pela metade e com a mochila nos ombros.

Olhei para ele rapidamente antes de desviar o olhar por uma última vez e caminhar a passos ansiosos para longe dali.

A minha vergonha era tanta que eu não sabia como iria contar sobre isso para outra pessoa além de Sammy. Para mim, a reação que ela teve comigo foi alto tão raro e uma exceção à regra que eu não conseguia imaginar outra pessoa sendo legal comigo ao descobrir.

Subi as escadas do prédio de Publicidade para chegar até a sala, com os pensamentos tão distraídos que acabei esbarrando em outros alunos e respondi com um "desculpe" tão automático e rápido que nem percebi ter falado em inglês. Contudo, antes de virar o corredor, ouvi a voz de Alice e outras garotas e parei de caminhar.

— Guria tu tem que te ligar com esse celular!

— Falta olhar esse bolso aqui, pera! — A outra menina respondeu ao comentário de Alice e ouvi o barulho da bolsa sendo revirada. — Ai, achei! Amém!

— Pelamor', hein! Aí, e tu vai querer ir no rolê da Carla? Tenho que dar a resposta pra ela hoje ainda pra saber quanto que vai ficar pra cada um.

— Não sei não, eu nem conheço taaaanto ela. Eu até soube que a Patrícia vai também, com aquele namorado chato dela.

— Que Patrícia?

— A guria do André Filipe, tchê!

— Aquela neguinha do cabelo bombril que estudava com a gente?

— Não fala assim do cabelo dela, guria, isso aí foi na época da escola! — Uma terceira voz feminina falou com uma risada. — Ela tá fazendo progressiva já!

— Bah, desculpa, foi a única coisa que eu lembro dela, aí ficou como referência no cérebro, sabe? Mas tanto faz, não falo com ela há tanto tempo, ela emagreceu pelo menos?

— Eu sei lá, tchê! Vamo' descobrir no rolê! Agora larguei, senão vou perder minha aula!

— Eu te mando mensagem mais tarde!

Vi quando as duas garotas saíram do corredor em direção ao outro lado do prédio. Deveriam ser alunas de outro curso e ex-colegas de escola da Alice.

Decidi aguardar alguns segundos, encostado na parede e fingindo mexer no celular, para não dar a entender que eu estava bisbilhotando a conversa. Alice já deveria ter entrado na sala e eu podia esperar um pouco.

Não entendi a maioria das coisas que o grupo falou, mas do jeito que uma das meninas repreendeu minha colega de curso, pareceu ter saído alguma frase ofensiva. Me lembrei dos comentários de João a respeito de Alice. Desde o primeiro dia de aula, ela se mostrou uma garota engajada, que sempre falava sobre feminismo em qualquer debate e parecia obcecada em fazer amizade com todas as garotas e criar um círculo feminino empoderado.

Mas ela também estava falando mal de outra garota pelas costas.

Eu deveria tomar alguma atitude e sair daquele grupo ridículo. Contudo, ela me questionaria e a situação poderia se complicar. Eu ainda estava em dúvida sobre o que fazer.

Quando entrei na sala, seus lábios rosados por um batom fraco se abriram em um sorriso e ela indicou a carteira ao lado da dela, na segunda fileira.

— Senta aqui, tá vago!

Não tive coragem de dizer não com todos os outros alunos ao redor. João Vitor ainda não tinha voltado e Calebe estava no fundo da sala, mexendo no celular. Eu estava sem outra opção disponível.

— Hey... — Meu sorriso fraco pareceu ser o suficiente para sustentar a expressão animada dela, e então cedi e me sentei ao seu lado.

— E aí, tu tá gostando de morar aqui?

— Bom, tirando algumas coisas que eu não entendo, está ficando tudo bem. Tá ficando tudo bem. — Me lembrei da dica de João sobre o português.

— Se quiser posar lá em casa dia desses e aí dar umas banda pela cidade pra conhecer mais daqui, tá mais que convidada. — Era quase possível ver uma aura inocente ao redor de Alice, como se ela realmente quisesse desenvolver uma amizade sincera comigo. Contudo, eu não conseguia acreditar nisso.

— Quem sabe, um dia desses. Valeu. — Desde que aprendi que eu poderia usar a palavra "valeu" para agradecer sem usar marcas de gênero, passei a usá-la com mais frequência.

Minha resposta vaga fez Alice dar um leve sorriso de lado, um pouco amarelo, e então desistiu de puxar assunto e pegou o seu caderno. O professor Antônio chegou à sala com um "bom dia" animado e algumas pastas de papel pardo ao redor dos braços. Provavelmente teríamos algum trabalho para fazer durante o horário da aula.

Eu precisava me concentrar mais nos conteúdos, pois as provas chegariam em breve e alguns professores já estavam comentando sobre trabalhos que valiam pontuação. Entretanto, a ansiedade provocada pelas situações que eu estava vivendo pareciam tão mais preocupantes do que estudar, que eu não era capaz de incluir a faculdade na lista de coisas importantes.

Como eu ia terminar um curso se eu não conseguia sequer explicar os meus pronomes para alguém?

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