Capítulo 11
Foi usando um moletom velho e uma calça de bolinhas azuis que eu saí correndo pela escada ao ouvir o entregador chamar meu nome.
Eu estava esperando por aquela encomenda há alguns dias e, mesmo com a entrega rápida, eu não aguentava mais esperar.
Paul estava na sala assistindo ao jornal quando me viu correr por detrás dele, mas não prestei atenção no que ele havia dito. Corri até a porta de entrada e encontrei o rapaz de bicicleta com um pequeno pacote em mãos.
— Encomenda para Charlie Stewart, é você?
— Eu!!! — Não consegui conter minha empolgação, deixando até o entregador de olhos arregalados. Ele me entregou a pequena caixa de papelão e me pediu para assinar em um papel.
Peguei a encomenda como se estivesse segurando um troféu. Talvez um Prêmio Nobel ou Óscar.
— Muito obrigado, tenha um bom dia! — O entregador pegou o papel e o guardou no bolso. Em seguida, subiu em sua bicicleta e continuou suas entregas, enquanto eu já estava correndo de volta para o quarto. Novamente não prestei atenção no que Paul havia dito ao me ver correr de novo, eu estava eufórico demais para abrir meu pacote.
Assim que entrei no quarto, tranquei a porta e me sentei na cama. Meus dedos estavam trêmulos pela ansiedade por abrir aquilo. Sem pensar duas vezes, rasguei o plástico em volta do papelão e abri a caixa rapidamente.
Se eu pudesse ver o meu reflexo naquele momento, diria que meus olhos estavam brilhando.
O binder em minhas mãos era preto e possuía vários feiches na ponta. Seu tecido era resistente, porém macio. Sorrindo, passei meus dedos pelo tecido e notei um papel dobrado dentro da caixa. Abri-o para ver o que estava escrito.
"Olá! Obrigado por adquirir um produto na minha loja!
O binder é um tecido elástico que vai apertar os seus intrusos* para criar um aspecto reto ao seu peitoral. É recomendado não usar por mais de 8 horas e nem praticar exercícios pesados durante o uso.
Espero que ele ajude a diminuir a sua disforia e que atenda as suas expectativas. Nunca deixe de ser quem é e invista sempre em você!"
Abaixo da cartinha escrita à mão, estavam as redes sociais do vendedor: um homem trans dono de uma loja com artigos para a comunidade LGBT.
Meus olhos estavam lacrimejando quando terminei de ler o texto e não demorei para retirar meu casaco e experimentar o novo produto. Depois de semanas economizando e pedindo dinheiro aos meus pais, eu havia conseguido comprar aquilo.
Inspirei profundamente e segurei a respiração para colocar o binder. Sua função era a mesma da faixa, mas era mais seguro e confortável.
Quando encaixei todos os pequenos fechos em seus devidos lugares, expirei e fiquei de perfil para o espelho.
Aquilo foi infinitamente melhor do que eu imaginei.
Meu sorriso se alargou ao ver o resultado: não haviam seios, apenas um abdômen reto. Abri meu guarda-roupa e peguei uma camiseta justa para tirar à prova, e o resultado continuava o mesmo. Eu queria rir e chorar de felicidade, mas não podia fazer alarde ou Paul bateria na porta perguntando o que estava acontecendo.
Tirei novas fotos, que ficaram melhores do que as anteriores com a faixa improvisada. Eu me sentia bonito e queria registrar isso. Aproveitei o momento para mandar uma mensagem para Sam - nosso tempo sem se falar e o tempo de resposta haviam encurtado consideravelmente desde o primeiro encontro.
— Ei!!!!!! Tudo bem?
— Por que tantos pontos de exclamação? Ficou doido? — Ela respondeu na mesma hora, seguido de vários emojis de riso.
— Lembra quando eu falei que estava esperando uma encomenda?
— Claro, por quê? Ela chegou?
— Sim e é melhor do que eu pensava!
Durante alguns minutos, expliquei à Sammy o que era um binder e como eu me sentia em relação a querer usá-lo. Ela entendeu da forma que pôde, mas nunca havia me visto sem esconder meus seios, então na sua cabeça eu realmente não os tinha. Pensei, por um momento, como seria bom se isso fosse verdade.
— Acho que tu devia comemorar! - Ela digitou.
— Tem razão, quer sair?
— Sair? Tipo, agora?!
— Por que não? Eu já almocei, você provavelmente também, sua aula começa às 17 horas, temos tempo!
— Tá bom, me encontra na cafeteria. Tu é doido!

O Sol da tarde não estava forte, mas era o bastante para que os olhos de Sammy ficassem estreitos. Quando ela ria, praticamente fechavam. Secretamente, eu achava isso lindo.
— Tem certeza de que posso fazer isso? — Sam enrugou as sobrancelhas ao falar aquilo, com o tom de voz desconfiado.
— Você quer que eu implore? — Revirei os olhos e a garota riu.
— Não seria má ideia, mas vou te poupar. — Ela respondeu com deboche e se aproximou de mim.
Estávamos em pé, no meio da praça, depois de uma caminhada. Minha respiração não estava totalmente regular por conta do binder, pois eu precisava me acostumar.
E certamente não ficaria regular naquela hora, com Sam tão perto de mim.
Minha calça larga, tênis, casaco jeans e o uso do binder haviam sido suficientes para que as pessoas não estranhassem quando a garota encostou as mãos em meu peito.
Eu sentia meu corpo elétrico, ansioso. Sammy estava com o olhar abaixado na direção do meu abdômen.
— Não acredito que têm dois seios aqui...
— Intrusos. — corrigi sua fala com um sorriso.
— Desculpa, isso. Intrusos. — Ela olhou para mim e sorriu. Eu amava a sua naturalidade, era como se minha transexualidade fosse irrelevante.
De fato, era mesmo.
— Sei lá, eu só consigo te ver como um garoto. Isso é estranho?
— Não faço ideia, você é a única que sabe. — Sorri de volta. — E o que achou do meu abdômen sexy? — Pisquei de forma exagerada e a garota revirou os olhos.
— Deixa de ser bobo, guri! — Sam me empurrou aos risos e se virou para continuar a andar. — Vem, quero te mostrar uma coisa! — Ela estendeu a mão para que eu a acompanhasse e entrelaçou os nossos dedos.
Aquele era o tipo de coisa que eu não sabia que queria sentir, até... Sentir de verdade.
Faziam poucos dias que havíamos nos visto pela primeira vez e nosso tempo conversando só aumentou desde então. Contudo, meu cérebro evitava nutrir esperanças de ter algo a mais com Sam. Já era uma sorte grande ser amigo dela, virar um namorado seria utópico demais.
Ainda pensando nessa utopia, deixei de lado minha imaginação e apenas curti a sensação de ter nossos dedos entrelaçados.
Chegamos a um dos extremos da praça, que possuía um pequeno gramado com alguns arbustos aparados. Sammy estava de short jeans e se deitou no meio da grama sem nenhum incômodo, enquanto eu agradeci internamente por estar de calça. Ela se sentou com as pernas em forma de flor de lótus e me sentei ao lado. Sua bolsa foi jogada ao lado e ela tocou no coque para se certificar de que estava bem preso.
— Adoro ficar aqui, parece um pedaço da natureza que não quis sair quando a cidade veio.
— Mas é só grama e arbustos. — Olhei ao redor, confuso.
— Tu já teve a primeira aula de fotografia, Charlie?
—Já tive duas, por quê?
— O que o professor falou?
— Não me lembro. — Dei de ombros e ouvi um resmungo da garota ao meu lado.
— E quer ser um fotógrafo? É por isso que tu só vê grama e arbustos! — Sam exclamou e se deitou no chão. Envergonhado, me deitei ao lado dela, ignorando a sensação incômoda da grama na roupa.
O Sol já estava baixo no horizonte, mas sua luz ainda batia em nosso rosto. A garota respirava profundamente. Me virei para ela e observei seu rosto pensativo.
— O que foi? — falei e ela se virou para mim com os olhos abertos.
— Há quanto tempo a gente se fala?
— Eu não sei, umas duas semanas? Por quê?
Ela não respondeu a minha pergunta, apenas sorriu. Em seguida, aproximou o seu rosto do meu até encostar a ponta dos nossos narizes. O toque me causou um arrepio agradável.
— Sabe por que eu só consigo te ver como um garoto?
Pensei em várias respostas para aquela pergunta. Talvez porque ela fosse inclusiva e compreensiva. Talvez porque me conheceu como um garoto na internet e não conseguia tirar aquela imagem da cabeça. Talvez. Talvez. Talvez.
— Por quê?
Sammy deu um sorriso fraco e encostou sua testa na minha. De repente, a grama e o Sol não me incomodavam mais. Eu só queria sentir aquela garota perto de mim.
— Porque você é um garoto, ué.
Minha respiração parou ao ouvir aquilo e me lembrei da frase que nos uniu há duas semanas.
"Tudo tem a sua beleza, mas nem todo mundo consegue ver."
Finalmente, eu havia entendido.

Nunca mais eu quero ver alguém falando "aiiii nada dá certo nessa história, nunca melhora, aiiiin"
Eu hein doido tá me tirando eu sou um autor mó fofin e romântico
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