Capítulo 15
Quando voltei para casa, minha mãe arrumava alguma coisa no armário da cozinha e Paul já devia estar no trabalho a aquela hora. Quando Madison me viu entrar, não demorou para reclamar.
— Você devia avisar quando fica até tarde na biblioteca! Achei que ia almoçar em casa!
— Eu tinha muita coisa para estudar e comi alguma coisa por lá. — falei com receio e fechei a porta atrás de mim.
— Você não me fala nada, quer deixar sua mãe doida? E se alguma coisa acontece com você?
— Notícia ruim espalha rápido. — murmurei mais para mim do que para ela. — Desculpa, na próxima vez eu te aviso!
— Espero. — Ela resmungou e voltou sua atenção ao armário. Subi às escadas e tomei um banho rápido para me deitar e tentar falar com Sammy, que provavelmente já havia terminado a sessão de fotos.
Um dos hábitos que passei a ter desde que começara a usar o binder todos os dias era o de passar um hidratante e massagear na região depois do banho. Assim que entrei no quarto apenas de toalha, coloquei uma bermuda de pijama e um pouco de creme nas mãos, e tateei meus intrusos sentado na cama para conferir se estava tudo bem, afinal, todo cuidado era pouco e eu não queria ter alguma complicação no futuro.
Limpei minhas mãos com a toalha e a joguei na cadeira da escrivaninha, com preguiça de ir até o varal para estender. Vesti a blusa do meu pijama e voltei para a cama, queria logo mandar uma mensagem para Sammy e perguntar como havia sido a sessão.
Entrei no seu perfil e vi uma nova foto com a hashtag TBT e um visual novo para mim: os cabelos da garota estavam naturais, cacheados e sem nenhum acessório os segurando. Na legenda, a frase:
"É tão fácil se esquecer de mim às vezes. Foto antiga pra me ajudar a lembrar."
O post havia sido publicado há 3 horas e havia um comentário, o que achei curioso por nunca ter visto alguém interagindo antes.
Cliquei na aba de comentários e não reconheci a dona do perfil, mas sua frase não me agradou nem um pouco.
"Você arrasa garota, só falta consertar esse cabelo! Saudade sua, prima!"
Qual era o problema com o cabelo dela?!
O comentário havia sido feito há 2 minutos e não resisti, precisava responder aquilo. Comecei a digitar:
"A Sam é linda e não precisa consertar nada!"
Na hora de enviar, o comentário falhou. Tentei novamente e o erro continuou. Resolvi fechar a página e abrir de novo, talvez fosse algum erro do aplicativo.
Quando voltei para o perfil de Sammy, a foto havia sido deletada. Por isso eu não podia mais comentar.
Cliquei rapidamente na caixa de mensagens e mandei para ela:
— Ei Sam, a última foto do seu perfil sumiu, eu acabei de ver. Foi você ou algum erro do app?
Esperei alguns segundos com a tela aberta, mas nenhum sinal dela. Quis acreditar que Sammy sequer estava online e que aquilo havia sido um erro e a foto foi apagada sem querer, e com esse pensamento me levantei da cama para pegar minha mochila e me concentrar no trabalho do professor Antônio. Deixei o celular vibrando para ser notificado de alguma mensagem nova dela e tateei embaixo da minha cama à procura do meu notebook.
O aparelho estava tão velho que eu precisava digitar com um pouco mais de força algumas teclas, mas era isso ou escrever pelo celular, e eu era mais ágil no teclado. Eu já sabia sobre o que falar e quem representar, apenas precisava de uma pesquisa consistente.
Fiquei aproximadamente uma hora apenas digitando e criando a apresentação de slides quando duas coisas aconteceram ao mesmo tempo: o portão da garagem abriu e meu celular vibrou. Desbloqueei a tela rapidamente e encontrei uma mensagem de Sam:
— Oi, esquece aquela foto, postei sem querer.
Era óbvio que ela se incomodou com alguma coisa e eu estava preocupado.
— Impossível esquecer, você fica linda de qualquer jeito. Desculpa se isso soou meloso, mas é verdade!
— Tu precisa de óculos! — Revirei os olhos com sua resposta.
— Olha, isso não é da minha conta, mas eu vi o que aquela garota comentou na foto e é mentira o que ela disse. Você não acredita naquilo, né? O seu cabelo é lindo!
— Não é nada, tu que não entende dessas coisas, Charlie. Enfim, não quero ficar falando sobre isso.
— Por que fica se escondendo desse jeito?
— E por que tu fica? Não vem me dar lição de moral se faz a mesma coisa! Já falei que não quero conversar!
— Charlie? — A voz de minha mãe soou atrás da porta do meu quarto, quase me matando de susto. Tive que tirar a atenção do celular.
— O que foi?
— Posso entrar? Quero falar com você!
— Só um minuto!
Olhei de novo para o celular, vendo que Sammy estava offline. Eu queria insistir, tentar conversar de outra forma, mas não poderia fazer isso com minha mãe por perto. Mais tarde eu tentaria mais uma vez.
Fechei o notebook, guardei de volta embaixo da cama e coloquei a mochila no chão junto com o caderno com minhas anotações de aula.
— Pode entrar! — Minha mãe abriu a porta, o cabelo amarrado na toalha e com um roupão de banho, então se aproximou da cadeira.
— Já te disse para não deixar a toalha molhada aqui, Charlie!
— Foi mal, eu ia levar na hora de descer!
— Sei. — Ela bufou e pegou a toalha, colocando em seu próprio colo na hora de se sentar. — Eu estava pensando sobre isso há uns dias e acho que seria bom nós termos essa conversa... Sei que você não tá bem.
Meu corpo gelou no mesmo instante em que minha mãe terminou de falar aquilo. Eu sabia que eu andava estranho dentro de casa, mas não esperava que a gente chegaria a conversar sobre.
Minha única atitude foi continuar encarando-a, sem saber o que falar ainda. Queria esperar um pouco mais para saber aonde ela queria chegar.
— Bom, acho que você precisa de mais amigos, sair um pouco, sabe?
— Eu vou pra faculdade. — Dei de ombros, ainda confuso com aquele assunto.
— Mas lá é um ambiente acadêmico, você precisa aumentar seu círculo social! Não pode ficar concentrado só naquilo! As garotas da igreja estão planejando uma festinha e eu pensei que você poderia ir e... — Me levantei quando ouvi a palavra "igreja". — O que foi?
— Já entendi o que você quer dizer, que eu preciso ir à igreja e ficar perto de gente da igreja. — falei sem olhar para ela, indo em direção à porta do meu quarto.
— Não é sobre isso! É sobre fazer amizades!
— Então eu posso ir na festa que o João Vitor vai dar no sábado? — me virei para ela ao rebater sua frase e seus olhos se arregalaram de irritação. Ela já tinha visto meu colega em um dos dias em que veio me buscar de carro e chegamos a discutir quando ela usou um termo razoavelmente ofensivo para falar o que achou do seu jeito, já que ele não escondia a sua sexualidade.
— Você quer arrumar briga, não é? Só porque eu disse para fazer amigos que significa que você pode fazer amizade com qualquer pessoa!
— E precisa ser amigo só com quem você gosta? Precisa ser da igreja?
— E precisa arrumar um amigo bicha como ele?
— Respeita o João! — alterei minha voz e apertei a maçaneta da porta com força. Minha mãe se levantou da cadeira. — E ele não é gay, ele é bi, mas nem isso você entende!
— Que diferença isso faz?! Você é essa droga de bi também?! Por isso defende tanto ele?! Igual todo adolescente que não teve pai nem mãe agora?
— Você não sabe de nada! — gritei com a voz arranhada e larguei a maçaneta, descendo as escadas com pressa.
— Volta aqui, Charlie!!!
Eu estava apenas de pijamas e chinelo e nem meu celular estava comigo, mas isso não me impediu de sair pela porta e correr para qualquer lugar que me fizesse respirar e ficar longe de casa.
Longe de qualquer coisa.
O vento gelado parecia chicotear o meu rosto e eu deveria estar com algum casaco de frio, mas eu definitivamente não voltaria para lá a fim de pegar um. Se eu pudesse, sequer voltaria.
Corri até certo ponto e depois precisei caminhar, pois meu fôlego havia se esgotado. As ruas do meu bairro, Morada de Pinheiros, eram todas feitas em paralelo, retas. Se eu continuasse em frente, chegaria até a avenida e a área comercial.
Mas o que eu faria? Eu não estava com o meu celular, carteira, nada. De repente, a ideia de sair correndo pareceu a coisa mais estúpida do mundo.
Pensei em Sammy e que ela com certeza me ajudaria nessa situação, mas eu não sabia seu endereço. Na verdade, eu não tinha conhecimento de nada fora do meu bairro.
Continuei caminhando sem rumo até chegar à praça. Eram sete horas da noite, o Sol estava fraco e o movimento baixo. O carrinho de hot-dog que encontrei no primeiro dia já estava montado. Dessa vez, não havia jogo de futebol acontecendo.
Eu sabia que uma hora deveria voltar para casa, mas eu não queria que fosse tão cedo. Minha ideia era dar à minha mãe o benefício da dúvida, e se eu voltasse agora teríamos mais outra discussão.
Me sentei em um dos bancos de concreto e cruzei os braços e as pernas. Estava me sentindo ridículo com aquele pijama cinza e de chinelos. Afinal, o que eu tinha na cabeça? Eu ficaria sentado na praça até que horas?
Havia um relógio digital em um poste modernizado da praça que indicava que não haviam passado nem dez minutos desde que eu chegara lá. Me levantei irritado e voltei a caminhar, ainda sem um plano definido. A calça do pijama possuía bolsos nas laterais, o que foi suficiente para esquentar minhas mãos. Um cachecol também ajudaria nessas horas, pois eu sentia frio na região do pescoço.
Estava tudo uma completa droga.
Me sentei no meio-fio de uma calçada e cobri meu pescoço com as mãos em uma tentativa de esquentar minha pele. Comecei a chorar, e apesar de odiar fazer isso em público, as lágrimas saíram quentes e isso aqueceu o meu rosto.
Minha mãe nunca iria me aceitar, a forma que ela falou do meu amigo me fez ver que esse tipo de coisa era inaceitável – e se ela não respeitava uma pessoa que também gostava do mesmo gênero, imagine uma pessoa que nem se identificava com o gênero que nasceu. Se era uma confusão mental para mim, era infinitamente maior para Madison.
O vento frio me incomodava tanto naquele momento que não me preocupei em continuar chorando. Contudo, quando ouvi o som de pneus de bicicleta, meu corpo se alertou.
Não haviam outras pessoas por perto e o Sol estava quase se pondo. Vi alguém encapuzado ao longe e comecei a sentir medo.
Me levantei do meio-fio, esfreguei a calça e comecei a andar com passos largos e rápidos. O som das rodas se intensificou e torci para que fosse apenas uma má impressão, poderia ser uma pessoa comum e eu estava com pré-julgamento, eu nem possuía nada de valor, será que eu era capaz de correr mais rápido do que uma bicicleta? Óbvio que não, Charlie.
Eu estava praticamente correndo quando a voz em cima da bicicleta se revelou.
— Tu vai me fazer rodar isso aqui tudo pra falar com você?!
Parei instantaneamente ao reconhecer aquela voz. Era impossível confundir com o de outro garoto, Deus havia reservado aquele tom de voz exclusivamente para ele: um som bonito, debochado e malvado, que parecia estar sempre zombando de alguém.
Me virei lentamente até encontrar Jason parando a bicicleta atrás de mim. Ele usou o próprio pé como suporte para não cair e retirou o capuz da cabeça. Me controlei para não cruzar os braços novamente, pois dessa vez nem top eu estava usando.
— Te vi andando sem rumo há umas duas quadras e imaginei que tinha esquecido o caminho de casa, pô.
— Eu estou bem, não se preocupe.
— Eu estou bem, não se preocupe. — De novo, ele estava me imitando com uma voz caricata. — Tem certeza? Não tá com frio não? — Jason revelou um meio sorriso e vasculhou o casaco de frio até retirar um maço de cigarros e um isqueiro colorido.
— Você fuma? — falei com desgosto e ele riu, enquanto acendia um cigarro.
— E você tem noção de que tá de pijama na rua? Sobe aqui, te dou carona pra casa.
— Não vou pra casa, não agora.
Jason continuou me encarando, seus olhos eram completamente pretos, a iris se misturava à pupila. Ele tragou o cigarro e virou o rosto para soltar a fumaça longe de mim.
— Tu vai fazer o que então, ô turista? Ficar zanzando até dois cara' numa moto te roubar? Não aguentou nem me ver chegando de bike! Bora lá pra casa, então.
Dei um passo para trás instantaneamente, meu cérebro nem processou o gesto, foi automático. O garoto franziu as sobrancelhas para mim. Cruzei os braços sem me importar com os intrusos e falei com a voz mais autoritária possível.
— Olha aqui, eu não sou nada do que você tá pensando e não é porque um monte de garota aceita ficar perto de você que eu sou igual a elas!
Eu achei que estava soando como alguém decidido e firme, mas Jason apenas riu com meu comentário e puxou a fumaça do cigarro mais uma vez.
— Deixa de ser teimoso, guri. Aceita logo minha carona.
Eu não sabia o que me deixou mais paralisado: o frio ou Jason me tratar no masculino. Minha boca ficou aberta, em choque, e ele apenas balançou a cabeça e soltou outro riso baixo, já se preparando para voltar a pedalar comigo atrás dele, no suporte de trás que, se eu me lembrava bem, se chamava garupa.
Estava tudo uma loucura e não haviam outras opções, eu realmente iria subir naquela bicicleta e ir até a casa daquele estudante de Engenharia que não era meu amigo, não sabia nada sobre mim, não fazia parte do meu círculo social e ainda era filho de um religioso que era amigo da minha mãe, mas apesar de tudo isso, ele já tinha o mais importante – que era me ver como um garoto.
E isso deveria bastar, por enquanto.

Eu só queria um Jason aparecendo de bike e me chamando pra dormir com ele quer dizer na casa dele, pq ele não faz o tipo do Charlie mas faz o meu k k k k k k k k
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