Capítulo 9

Primeiro veio a pulsação.

No início, Stiles achou que nada aconteceria, e isso, honestamente, teria sido um alívio. Mas a tranquilidade durou apenas um instante—o suficiente para que ele se virasse na direção da voz.

Ali, parado ao seu lado como se tivesse surgido do nada, estava um rapaz alto e musculoso, os olhos verdes brilhando na penumbra do laboratório. A única luz vinha do dispositivo sobre a bancada, lançando sombras vacilantes sobre estantes abarrotadas de livros e engrenagens soltas.

O coração de Stiles disparou contra sua vontade. Ele reconhecia aquele sujeito.

— Você é Derek, não é? — perguntou, rapidamente encaixando as peças do quebra-cabeça.

Já estava pronto para bombardeá-lo com perguntas—Como diabos você entrou aqui? O que quer? E por que, pelo amor dos deuses, está sem camisa? Era noite, e estava ficando frio.

Não que Stiles estivesse reparando muito no peitoral definido ou no abdômen esculpido do Hale.

Obviamente que não.

Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Derek apontou para a bancada e questionou, num tom seco:

— Era para isso acontecer?

Stiles voltou-se rapidamente para seu experimento e sentiu um arrepio subir pela espinha. O cristal desconhecido vibrava intensamente, emitindo pulsos de energia que faziam o ar tremular como calor sobre pedra quente. Kit, a pequena raposa, soltou um guincho de alerta e se afastou, enquanto Stiles e Derek deram um passo instintivo para trás. Foi o único aviso que tiveram antes do caos começar.

O cristal atraiu o Oricalco como um ímã, fazendo com que ambos grudassem um no outro. No instante seguinte, o cristal começou a reagir. Stiles sequer teve tempo de reagir quando sentiu os pés saírem do chão.

E então, tudo começou a flutuar.

Os livros, as ferramentas, as engrenagens. O saco de cristais, o tinteiro que explodiu em borrões de tinta pelo ar. A própria bancada.

E, claro, os dois rapazes e a pequena raposa.

Kit girava descontroladamente, as patinhas se debatendo como se tentasse nadar no ar. Stiles soltou um grito surpreso quando bateu contra o teto, girando desajeitadamente antes de agarrar uma das vigas de madeira para se estabilizar. Derek, por outro lado, parecia mais irritado do que impressionado, os braços cruzados enquanto flutuava alguns centímetros ao lado de Stiles.

— Isso é incrível! — exclamou Stiles, ignorando completamente a gravidade da situação. — O cristal está amplificando o efeito do Oricalco! Normalmente, a levitação só acontece quando há contato direto, mas aqui... o alcance se expandiu! Isso é um fenômeno completamente novo, Derek! Você tem noção do que estamos presenciando?

O Hale, por outro lado, definitivamente não parecia compartilhar da empolgação científica de Stiles.

— Como faz isso parar? — rosnou ele, a mandíbula tensa, claramente pouco entusiasmado com a experiência de estar flutuando como um balão solto dentro do laboratório.

— Parar? — Stiles franziu o cenho, como se tal ideia sequer tivesse lhe ocorrido.

— Sim, parar! — Derek respondeu, no exato momento em que interceptava o martelo que girava perigosamente pelo ar, quase acertando o rosto de Stiles.

— Obrigado... — murmurou o jovem Stilinski, aceitando que talvez fosse uma boa ideia, de fato, resolver o problema antes que se tornasse um desastre ainda maior.

Derek olhou ao redor, claramente descontente com a situação. — Esse teto não vai aguentar todas as coisas que estão voando... — gesticulou, indicando o acúmulo de livros, engrenagens e objetos soltos que começavam a se empilhar contra as tábuas de madeira acima deles.

E, bem, Stiles teve que admitir que, apesar de chamar aquele espaço de laboratório, na prática, ainda era só um barraco improvisado, sustentado por pregos que provavelmente não estavam muito bem fixados.

Se o teto cedesse... o que aconteceria com eles?

A lógica dizia que continuariam flutuando até que o efeito do cristal desconhecido se dissipasse. Mas e se o alcance dessa influência fosse limitado? Será que eles simplesmente despencariam como pedras assim que saíssem da zona gravitacional alterada? A ideia de se ver lançado ao céu, sem controle, para depois despencar no chão sem aviso prévio... definitivamente não parecia agradável.

— Certo... como parar isso? — murmurou Stiles para si mesmo, sua mente já trabalhando a mil.

Derek, flutuando ao lado dele e claramente ainda mais irritado, rosnou.

— Olha, rosnar não vai adiantar muito! — retrucou Stiles, observando Kit colidir com um livro e, no instante seguinte, ser lançado para longe, em um efeito inesperado da falta de gravidade.

— Você mexe com essas coisas e não sabe como desligá-las? — Derek resmungou, desviando habilmente de uma chave inglesa que rodopiava pelo ar. — E ainda dizem que Peter ficou interessado nesses cristais... Isso não passa de uma grande loucura—

— Inércia! — Stiles exclamou de repente, interrompendo o Hale.

— O quê?

— Um objeto em repouso tende a permanecer em repouso, e um objeto em movimento tende a permanecer em movimento, a menos que uma força externa atue sobre ele.

Derek o encarou como se ele tivesse acabado de perder completamente o juízo.

Stiles bufou e tentou se aproximar do Hale, segurando sua mão para chamar sua atenção.

— Se um objeto está se movendo em um ambiente sem gravidade, ele continuará se movendo a menos que uma força externa atue sobre ele. Isso acontece porque não há atrito ou gravidade para desacelerá-lo ou alterar sua trajetória.****— Ele apontou para o cristal no centro do caos, ainda pulsando levemente acima do chão. — Para chegar lá, eu preciso de uma propulsão!

Derek finalmente pareceu entender. Um leve sorriso puxou o canto de seus lábios.

— Se você queria um empurrão, era só pedir.

Antes que Stiles pudesse protestar, Derek o puxou para perto, forte o suficiente para fazê-lo corar levemente, antes de lançá-lo para baixo com toda a sua força.

A aceleração foi tão brusca que Stiles não conseguiu sequer gritar. A única coisa que conseguiu pensar foi: "Santo Deus, os Hales são fortes!"

Em um instante, o laboratório se tornou um borrão ao redor dele, e então—BAM!

— Te peguei! — exclamou triunfante ao aterrissar no chão, bem no centro da confusão.

Agora, com os pés firmemente plantados no solo—já que o efeito no centro do laboratório parecia ter diminuído (algo que Stiles definitivamente anotaria para estudo posterior)—ele estava exatamente onde precisava estar. Diante dele, o cristal desconhecido continuava grudado ao Oricalco, vibrando com uma energia pulsante, quase como um coração batendo.

Uma das formas conhecidas de desativar cristais arcanomecânicos era simplesmente esperar que sua energia se dissipasse naturalmente. De fato, esses cristais tinham um tempo limitado de atividade antes de se tornarem simples minerais sem efeito, embora houvesse teorias sobre a possibilidade de alguns serem recarregáveis.

Mas eles não tinham tempo para esperar que o poder se extinguisse por si só!

A outra forma seria provocar um novo impacto no cristal, gerando atrito, ou então usar Arkanis diretamente sobre ele. A última opção estava fora de questão para Stiles, claro.

— Mas se eu conseguir... — murmurou, enquanto tentava separar o cristal desconhecido do Oricalco.

Tentou. E falhou. Seus braços tremiam com o esforço, o que não era exatamente um bom sinal. Mas o pior era que não era só ele que tremia.

As paredes do barraco começaram a vibrar perigosamente. Pequenas fendas surgiam entre as madeiras, o telhado rangia alto como um aviso claro de que não aguentaria por muito mais tempo.

— Stiles! — exclamou Derek do alto, ainda flutuando perto do teto.

— Quase lá! — respondeu Stiles, aflito, puxando o cristal com toda a força que tinha.

Um último puxão... E então, com um estalo surdo, os cristais finalmente se separaram!

O efeito da ausência de gravidade se desfez de imediato. Como se uma mola invisível tivesse sido liberada, tudo despencou ao chão com um estrondo ensurdecedor.

Livros, engrenagens, ferramentas e peças de metal caíram do teto como uma chuva de caos. Stiles mal teve tempo de se desviar de uma chave inglesa que passou zunindo por sua cabeça. Ele tropeçou em uma cadeira no processo, mas, milagrosamente, conseguiu evitar uma queda completa.

Derek, por outro lado, pousou com a destreza de um predador, firme como se aquilo fosse um mero incômodo em sua noite. E, para completar, conseguira até pegar Kit no ar, segurando a raposinha em seus braços. O animal choramingava, claramente confuso e indignado com tudo que acabara de acontecer.

Stiles, ainda ofegante, apoiou as mãos nos joelhos, tentando recuperar o fôlego.

— Nossa... isso foi... divertido! — exclamou, sorrindo, apesar de tudo.

Derek virou-se lentamente para ele, o olhar carregado de descrença absoluta.

— Divertido? — repetiu, a voz grave e repleta de irritação. Ele olhou em volta, observando o laboratório completamente devastado, com engrenagens e peças espalhadas pelo chão. — Acho que minha definição de diversão é bem diferente da sua.

— Essa sua arcanomecânica parece mais perigosa do que útil. — acrescentou Derek, cruzando os braços, seu tom carregado de crítica.

Stiles ergueu a cabeça com indignação instantânea.

— Ora, pois! — começou, já sentindo a fúria acadêmica subir pelo peito. — Você só viu uma demonstração superficial do poder e da aplicação da arcanomecânica! E, se quer saber, fizemos uma grande descoberta aqui!

— Quase morremos.

— "Quase" é a palavra-chave, Hale! — Stiles rebateu de imediato, apontando um dedo acusador para ele. — Mas não morremos! Você está sendo dramático.

Ele pegou o cristal desconhecido, que ainda pulsava levemente, e o guardou dentro de uma caixa de ferramentas, longe de qualquer outro cristal. Se havia uma coisa que aprendera naquele experimento, era que aquele mineral definitivamente precisava ser estudado com mais cautela.

Só então, voltou-se para Derek, estreitando os olhos.

— E, afinal, o que você veio fazer aqui? — inquiriu, cruzando os braços de modo acusador. — Nunca ouviu falar em bater na porta?

Kit soltou um latido fino nos braços de Derek, como se apoiasse a acusação, antes de saltar para o chão e correr direto para os pés de Stiles, como se buscasse proteção contra o intruso.

— Fui mandado para saber sua resposta. — disse Derek, cruzando os braços e mirando Stiles com aquele olhar superior que começava a irritá-lo profundamente.

— Para os Hales, é normal entrar furtivamente no território alheio? — começou Stiles, estreitando os olhos.

— Engraçado ouvir isso de um Stilinski. — Derek cortou com um meio sorriso. — Afinal, são vocês que são conhecidos por serem espiões e mestres da furtividade.

Stiles abriu a boca para rebater, mas travou quando percebeu que o Hale tinha um ponto válido.

— De fato, entrei no seu território sem dificuldade alguma. — continuou Derek, como se analisasse a segurança da propriedade. — O que é preocupante. Se eu consegui, qualquer um pode conseguir. Inclusive, nobres menos... amigáveis.

— Certo! Já entendi! — cortou Stiles, impaciente, sentindo um incômodo crescente com a óbvia realidade. Se Derek conseguiu chegar tão longe sem ser notado, as defesas da casa Stilinski estavam abaixo do aceitável.

"Tenho que falar com meu tio e minha avó sobre reforçar as patrulhas..." anotou mentalmente, já formulando um plano.

— Então? — Derek insistiu.

— Sim, tenho uma resposta. — Stiles suspirou. — Aliás, avise ao seu tio que seu mensageiro não tem lá muita educação.

Derek rosnou baixinho, o que fez Stiles esboçar um sorriso satisfeito.

— Então, a resposta é sim. — continuou, cruzando os braços. — Quero saber mais sobre essa suposta aliança, sobre o meu pai... Aceito ir até o território Hale.

Derek apenas assentiu com um breve aceno de cabeça.

— Perfeito. Então, vamos.

— Espera... Agora?! — Stiles piscou uma, duas vezes, tentando processar a informação.

— A menos que você prefira ficar aqui e causar mais uma catástrofe com seus experimentos... — Derek ergueu uma sobrancelha de forma quase cínica.

Stiles bufou, irritado.

— Não é isso! Eu preciso me preparar! Preciso avisar minha avó, Scott... E, ah, sei lá, planejar! Não posso simplesmente sair no meio da noite e me enfiar na floresta sozinho!

A verdade era que não tinha planejado nada disso. Quando conversara com Scott, imaginava que a incursão no território Hale aconteceria ao amanhecer, com a luz gloriosa do sol iluminando o caminho. Agora, tudo parecia muito repentino.

Derek, no entanto, sorriu de verdade dessa vez. Um sorriso arrogante e cheio de provocação.

— Está com medo?

Stiles estreitou os olhos.

— Sou um Stilinski. Não temos medo.

— Ah, é mesmo? — Derek inclinou ligeiramente a cabeça, claramente se divertindo com aquilo.

— Pois bem, senhor Hale. — Stiles ergueu o queixo. — Vamos logo até sua mansão e resolvemos isso de uma vez. Só espero que sua família seja mais cordial e anfitriã do que o mensageiro que me mandaram.

Derek deu de ombros, impassível.

— Não seja dramático, Stiles. — retrucou enquanto se virava para sair. — Não somos lobos malvados prontos para devorar qualquer porcaria que aparece.

Stiles franziu o cenho.

— Espero que essa "porcaria" não seja uma referência a mim! — protestou Stiles, resmungando irritado enquanto pegava sua bolsa de couro em meio aos destroços. Não iria até a mansão dos Hales sem alguma arcanomecânica, então, sem hesitar, colocou a caixa de ferramentas dentro da bolsa — a mesma que continha o cristal desconhecido.

— Porque eu posso garantir que sou bem delicioso!

Assim que as palavras saíram, ele congelou.

Derek parou.

Stiles sentiu o rosto inteiro esquentar.

— Digo... — balbuciou, tentando corrigir-se. — Não que eu tenha provado a mim mesmo. Isso seria... meio canibalismo. Quer dizer, existe autocanibalismo? Acho que sim, mas não no sentido que... Enfim! Esquece o que eu disse!

Houve um silêncio.

Derek o encarou de relance, avaliando-o, e então, com um meio sorriso perigosamente divertido, murmurou:

— Depois vejo se o que você diz é verdade.

E, com isso, saiu, deixando para trás um Stiles boquiaberto, completamente corado e sem saber se queria gritar ou cavar um buraco e desaparecer.


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