Capítulo 10


— Espere! Espere! — Stiles exclamou, afastando os caules de trigo à sua frente. Ele estava andando pelo campo, seguindo Derek em direção aos limites do território. Andando! Ele podia vê-lo apenas como uma silhueta à frente, desaparecendo rapidamente entre os pendões dourados do trigo. Quando Derek mencionou que iriam para a floresta, Stiles presumiu que passariam pelos estábulos, pegariam cavalos ou, no mínimo, avisariam Scott — o que resultaria em um amigo confuso e, logo depois, furioso. Mas não. Derek simplesmente o guiara para o campo, movendo-se com uma tranquilidade absurda.

Não que Stiles desgostasse de andar, mas achava a escolha... incomum. Derek viera a pé de seu território? Talvez isso explicasse como ele passara despercebido pela patrulha dos Stilinski.

— Ei! — Stiles chamou de novo, mas agora já não via mais o rapaz à sua frente. Um arrepio subiu por sua espinha. Já estava escuro e eles estavam sozinhos no meio do campo.

— Já estamos perto.

A voz veio do lado. Perto demais.

Stiles deu um salto, o coração quase saindo pela boca. — Céus! Como você consegue isso? Você é grandalhão, cheio de músculos! Devia fazer barulho quando se move!

Derek lançou-lhe um olhar divertido, mas não respondeu. Apenas seguiu adiante, e Stiles, relutante, foi atrás.

— E perto do quê, exatamente? — Stiles questionou, franzindo o cenho. Ainda estavam no meio do campo. A floresta estava a quilômetros de distância. Se tivessem vindo a cavalo, já estariam lá.

— Perto do local. Longe dos outros.

A resposta de Derek não ajudou em nada a acalmar os nervos de Stiles, que riu nervoso. Agora estavam realmente longe das estradas, das casas dos servos e, principalmente, da mansão Stilinski. Só restavam os dois ali — ele e o misterioso Derek Hale.

Derek o observou de relance antes de continuar andando. Stiles notou, então, um detalhe que, por algum motivo, lhe escapara até aquele momento. Derek estava sem camisa, vestindo apenas calças folgadas de tecido leve. E descalço.

Como diabos ele não notara isso antes?

Ou melhor, ele notara — só não de forma consciente. Mas agora que o pensamento lhe ocorrera, não conseguia mais desviar os olhos. A pele quente do rapaz contrastava com o frescor da noite, seus músculos esculpidos moviam-se com precisão a cada passo, e...

Ok, foco, Stiles.

— Você sabe qual é a habilidade da família Hale, presumo.

A voz grave de Derek o trouxe de volta à realidade. Stiles engoliu em seco.

— Oh... Bem, sim. O negócio de se transformar em lobo, certo?

— Exato. — Derek continuou, sua voz soando quase didática. — É um tipo diferente de Arkanis.

Stiles franziu o cenho.

— Diferente como?

— Outros poderes normalmente envolvem manipular elementos ao redor ou dentro do próprio corpo. As ilusões dos Stilinski. O fogo dos Whittemore. O vento dos Argent. — Derek explicou, mantendo o olhar fixo no horizonte. — Mas a nossa Arkanis atua de outra forma.

Stiles assentiu, ainda incerto. Na verdade, ele nunca entendera completamente o poder dos Hale. Como eram reclusos, sua única referência eram relatos de batalhas — e as pinturas épicas que retratavam lobos colossais despedaçando exércitos inteiros. Mas a mecânica de um homem se transformar em um monstro... isso era algo que ele nunca presenciara.

Enquanto falava, Derek desatou o cinto da calça, claramente prestes a retirá-la.

Stiles arregalou os olhos, sentindo seu coração disparar.

— O... O que você está fazendo?

Sua voz saiu esganiçada, sua mente alternando entre "está acontecendo alguma coisa proibida?" e "eu deveria olhar para outro lado?"

Ou talvez não.

Sua boca secou, depois salivou. Ele precisava urgentemente reorganizar seus pensamentos.

— Vou me transformar.

Derek disse isso com naturalidade, já soltando o cinto e começando a abaixar as calças. Assim, sem nenhum pudor.

Stiles piscou. Depois piscou de novo. Seus olhos, por mais que sua consciência protestasse, pareciam teimosamente fixados na virilha que começava a ser exposta. Foi só quando seu cérebro gritou "desvie o olhar, desvie o olhar AGORA" que ele virou o rosto bruscamente para o lado — tão rápido que quase deslocou o próprio pescoço no processo.

— T-transformar. Certo. Ótimo. Transformações são ótimas! — começou a tagarelar, tentando desesperadamente focar em qualquer coisa que não fosse o fato de que Derek Hale estava ali, na sua frente, completamente pelado.

— A lagarta vira borboleta, o girino vira sapo... — ele gesticulava aleatoriamente, como se isso fosse ajudá-lo a escapar da situação. — A vida é cheia de mudanças, não é mesmo? Não sei se isso é uma boa analogia... Digo, o que estou falando? Esqueça... Mas... por quê? Quero dizer, por que se transformar agora?

Silêncio.

Derek não respondeu. Nada.

A hesitação de Stiles cresceu. Não que ele quisesse continuar olhando para o chão, mas a curiosidade falava mais alto. Ele ergueu o olhar, relutante... e congelou.

O rapaz de olhos verdes e músculos indecentemente bem definidos já não estava mais ali.

No lugar dele, um lobo colossal de pelagem negra e olhos penetrantes o observava com inteligência, quase como se estivesse analisando sua reação. Era magnífico.

Stiles abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. As pinturas exageravam em algumas coisas sobre os Hales—davam a entender que eram bestas sanguinárias, criaturas monstruosas e aterrorizantes. Mas a realidade era diferente. Não havia horror na presença do lobo; havia maravilha.

Sem perceber, sua mão trêmula se estendeu, roçando os dedos pelo pelo denso e sedoso. O lobo permaneceu imóvel, observando-o com a mesma curiosidade.

— Lindo... Isso é realmente lindo.

Sua voz saiu mais suave, quase reverente, enquanto seus dedos deslizaram pela pelagem escura.

Agora mais confiante, ele continuou o carinho. — Quanto tempo levou essa transformação? Eu sequer percebi! Incrível... Bem, eu não queria te ver pelado, mas na próxima vez talvez eu devesse olhar. — Ele pigarreou, tentando parecer profissional. — Por questões científicas, claro.

O grande lobo... revirou os olhos. Literalmente.

— Mas e agora? — Stiles afastou a mão, endireitando-se. — Você se transformou. Muito impressionante, palmas para você. Mas, novamente, por quê?

Derek se afastou alguns passos e, sem cerimônia, abaixou-se diante dele.

Stiles piscou. Uma vez. Depois outra.

O que ele estava...?

— Ah! — Stiles bateu um punho contra a palma da outra mão, como se tivesse acabado de resolver um enigma particularmente complicado. — Você quer que eu monte em você?

Assim que as palavras saíram de sua boca, ele corou violentamente.

Montar em Derek. Montar. Em. Derek.

Seu cérebro decidiu que aquele era o momento ideal para processar imagens inconvenientes e absolutamente inapropriadas, todas envolvendo Derek (versão humana, só para constar) e um quarto, sem roupas...

Ele sacudiu a cabeça. Depois sacudiu de novo. Com mais força.

O lobo rosnou, impaciente.

— C-certo. Certo. Vou montar em você. — Stiles riu nervoso, se aproximando hesitante.

Assim que subiu no grande lobo, Stiles mal teve tempo de se ajustar antes de sentir o corpo ser impulsionado para a frente com uma força avassaladora. Ele se agarrou ao pelo denso e macio de Derek, segurando-se com toda a força para não ser jogado para o lado. O lobo se ergueu sobre as patas e, num instante, disparou.

E que velocidade!

O vento gelado chicoteava o rosto de Stiles conforme eles atravessavam as terras dos Stilinski a um ritmo alucinante. Tudo ao redor se tornava um borrão de cores e sombras, os campos e cercas passando rápido demais para que ele pudesse discernir qualquer coisa. O coração disparava com uma mistura de adrenalina e puro espanto.

Agora tudo fazia sentido. Agora ele entendia como Derek havia atravessado as terras Stilinski sem ser detectado. Com aquele tipo de velocidade e agilidade, ele poderia ter cruzado a propriedade inteira antes que qualquer sentinela sequer piscasse.

— CÉUS! — Stiles gritou, tentando se convencer de que era um grito de excitação e não de pânico absoluto.

Derek não diminuiu o ritmo. Se um lobo pudesse rir, Stiles tinha certeza de que Derek estaria gargalhando naquele momento.

A aproximação da floresta foi quase súbita. As árvores gigantescas se erguiam à frente como sentinelas antigas, seus troncos escuros e robustos formando uma barreira impenetrável. Mas Derek não hesitou. Ele adentrou a mata sem perder o ritmo, desviando-se dos troncos e raízes com uma destreza sobre-humana. Stiles teve que fechar os olhos por um momento, sentindo como se fosse ser lançado para a morte a qualquer segundo.

A corrida continuou, mas, dentro da floresta, o ritmo diminuiu ligeiramente. Derek ainda se movia com uma fluidez impressionante, saltando com precisão entre os obstáculos naturais do caminho — pedras, galhos caídos, troncos grossos. Stiles se esforçava para manter o equilíbrio, cada fibra do seu corpo tensa enquanto se agarrava ao lobo com todas as forças.

Mas então, algo mudou.

O trajeto errático deu lugar a um caminho mais amplo e bem definido. Uma trilha, quase oculta pelas sombras das árvores, mas claramente percorrida muitas vezes antes. A copa das árvores acima se curvava sobre eles, formando um túnel verde e escuro, como se a própria floresta os conduzisse a um destino oculto.

Uma estrada que Stiles nunca tinha visto antes.

Então era por ali que se chegava à mansão Hale?

Agora, Derek seguiu pela trilha oculta na floresta. Stiles se perguntou se ele e Scott, na manhã seguinte, teriam conseguido encontrar aquele caminho sozinhos. Era improvável. A estrada estava bem escondida entre as árvores densas e retorcidas, e qualquer tentativa de explorá-la sem um guia provavelmente resultaria em uma perda de direção desastrosa. Sim, era evidente que precisavam de um Hale para os conduzir.

Mas por que esconder a própria sede assim? A escolha do isolamento não parecia favorecer interações diplomáticas com outras casas nobres. Talvez fosse exatamente essa a intenção. Então, Stiles se lembrou do que sua avó havia lhe contado mais cedo: o incêndio. Aquele evento trágico poderia explicar a reclusão extrema da família Hale.

O incêndio não havia sido acidental. Foi um ataque deliberado. Alguém quis ferir os Hales — e conseguiu. Mas quem? Isso permanecia um mistério.

A cada metro avançado, Stiles sentia que mergulhavam ainda mais fundo no coração sombrio da floresta. O ambiente noturno só tornava tudo mais intimidador. O farfalhar das folhas, os sons indistintos de animais ao redor, a umidade no ar... Tudo contribuía para uma atmosfera quase fantasmagórica. Embora, sendo honesto consigo mesmo, Stiles suspeitava que, mesmo sob a luz do dia, o lugar continuaria tão intimidador quanto.

Por fim, Derek desacelerou e, pouco depois, parou por completo.

Diante deles, erguia-se uma construção imponente. Uma mansão moderna, de grandes janelas e tijolos escuros, com um telhado cinzento que parecia refletir discretamente a luz da lua. Ao redor, um muro baixo, coberto de trepadeiras, servia mais para marcar território do que para realmente impedir a passagem de intrusos. O portão de ferro era o único elemento verdadeiramente intimidador — ornamentado com o símbolo de um lobo e uma lua, moldados no metal com uma precisão artística surpreendente.

Stiles piscou.

Não sabia exatamente o que esperava, mas definitivamente não era aquilo. Por alguma razão, imaginava algo muito mais sombrio e fantasmagórico. Talvez uma fortaleza em ruínas, ou uma caverna envolta em névoa, repleta de olhos brilhantes no escuro. Mas aquela mansão? A bem da verdade, ela parecia... acolhedora.

Ou pelo menos parecia até Stiles notar os lobos.

Eles surgiram das sombras como se sempre tivessem estado ali, ocultos em seus esconderijos invisíveis. Não lobos como Derek, grandes e sobrenaturais, mas lobos "normais" — se é que poderiam ser chamados assim. E embora não fossem monstruosos, ainda eram lobos. Lobos de verdade. Carnívoros. Com presas.

E, no momento, todos pareciam extremamente interessados nele.

Os animais avançaram em direção a Derek primeiro, farejando-o com familiaridade e até demonstrando certo afeto. Derek, em resposta, abaixou-se ligeiramente, permitindo que o rodeassem, alguns até roçando suas cabeças contra ele. Mas então o Hale se moveu, abaixando-se ainda mais — e foi aí que Stiles percebeu o que ele queria.

Oh, não.

Derek queria que ele desmontasse.

E isso significava descer direto para o meio da matilha.

— Ah... Sabe, estou muito confortável aqui em cima. Podemos só... — começou, mas foi interrompido quando Derek soltou um rosnado baixo e empurrou-o de leve para o lado, forçando-o a descer.

Stiles tocou o chão hesitante, e mal teve tempo de se equilibrar antes de se ver cercado pelos lobos. Todos começaram a farejá-lo com curiosidade, focinhos úmidos roçando sua roupa, seus braços, até mesmo seu rosto.

— Bons garotos! — disse, com um sorriso nervoso. — Por favor, não me comam.

— Oh, não se preocupe. Eles já comeram. — Uma voz conhecida cortou o ar.

Os lobos imediatamente voltaram a atenção para a nova presença. Alguns correram na direção da voz, mas não para atacar. Pelo contrário. Eles saltaram para cima da figura que se aproximava, em pura euforia, como cães saudosos de seu dono.

Peter Hale.

O homem estava vestido de forma quase casual demais para a recepção de um convidado: uma camiseta larga, calças de linho e sandálias. Um visual despreocupado, como se ele tivesse acabado de acordar de um cochilo ou estivesse prestes a se esticar preguiçosamente em uma poltrona confortável.

Ele acariciou os lobos com familiaridade, um sorriso brincando em seus lábios.

— Esses são nossos guardas, por assim dizer — comentou, olhando para Stiles com um brilho divertido no olhar.

Stiles engoliu em seco.

— B-bom... — murmurou, observando os animais ao redor. Agora fazia ainda mais sentido manter aquela mansão escondida. Se alguém chegasse até ali sem permissão, não seria a arquitetura que impediria a entrada.

Seriam os lobos.

— Espero que tenha gostado da viagem. — Peter comentou, um sorriso travesso brincando em seus lábios.

— Foi... interessante. — Stiles respondeu, ainda tentando se recuperar da experiência. — Derek foi bem confortável. Digo... confiável.

Ele corou levemente, mas antes que pudesse se amaldiçoar por isso, percebeu algo.

Onde estava Derek?

Seu olhar se desviou para o lado e, então, ele viu.

Derek estava ali. Pelado. Novamente.

O jovem Hale massageava o pescoço, parecendo irritado com algo, e apenas então Stiles registrou que, ao se transformar de volta, ele não havia levado consigo as próprias roupas.

— Esqueceu de trazer suas calças e o cinto? — Peter comentou com diversão. — Erro de principiante!

Ele parecia absolutamente despreocupado com a nudez do sobrinho. Já Stiles... bem, Stiles estava tendo um sério problema para manter os olhos no nível adequado. Mas era difícil, porque... Santo Arkanis, a bunda de Derek Hale era—

Ele se xingou mentalmente e desviou o olhar tão rápido que quase sentiu a coluna estalar no processo.

— Estava distraído, sobrinho? — Peter questionou, e Stiles sentiu a provocação diretamente em sua alma.

Ele se encolheu, focando desesperadamente em qualquer coisa que não fosse Derek. Talvez os lobos, sim. Eles pareciam... expectantes. Como se soubessem de algo que ele não sabia.

Perfeito. Agora até os lobos estavam julgando-o.

— Vamos entrar, sim? — Derek cortou o momento, sua voz saindo num rosnado irritado. — Ele não jantou, então...

— Oh, sim, verdade! — Peter estalou os dedos. — Nós, Hale, não vamos deixar nosso visitante esperando.

Foi então que ele disse algo que fez Stiles franzir o cenho.

— Ele ainda tem que conhecer a chefe da família.

Stiles piscou.

— Espera... Você não é...? — ele inquiriu, confuso.

— O chefe? Oh, não. — Peter riu, meneando a cabeça. — Eu não lidero esta alcateia, Stiles. Minha irmã, Talia Hale, é quem ocupa esse cargo.

Stiles sentiu um leve choque percorrer seu corpo.

A líder dos Hale era uma mulher? Uma nobre líder de fato, e não apenas uma consorte?

Isso não era exatamente comum entre as grandes casas nobres. Mulheres herdavam títulos apenas em circunstâncias extraordinárias ou em famílias progressistas. Parecia que os Hale eram exatamente isso: nada convencionais.

— Tenho certeza de que você vai adorar conhecê-la. — Peter acrescentou, conduzindo um Stiles ainda surpreso na direção da entrada da mansão.

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