Capítulo 11
A mansão Hale era ainda mais convidativa por dentro, apesar de, em alguns aspectos, parecer desorganizada. Ficava evidente que os Hales não prezavam tanto pela manutenção impecável da casa. Não que o ambiente fosse sujo, mas em alguns cantos havia sinais de que não eram varridos com frequência. Além disso, ficava claro que os lobos não ficavam apenas no lado de fora—pelo menos não os de quatro patas. Pelos espalhados e até alguns restos de ossos aqui e ali confirmavam essa suspeita. Stiles imaginou que sua avó surtaria se visse tamanha negligência na gestão doméstica.
Outra coisa que chamou sua atenção foi a ausência de servos. Enquanto adentrava o hall de entrada, não havia ninguém para receber seu casaco ou oferecer qualquer assistência. Claro, os Stilinski também não tinham uma quantidade exorbitante de empregados na casa—havia mais servos trabalhando nos campos e na pedreira do que na mansão em si—mas ali, na residência dos Hale, Stiles não viu ninguém.
— Ah! Ele chegou! — uma voz animada ecoou do andar de cima.
Antes que Stiles pudesse levantar os olhos para ver de quem se tratava, a pessoa saltou do parapeito do segundo andar, pousando à sua frente com uma leveza impressionante.
Era uma garota de cabelos escuros um tanto desgrenhados e olhos verdes vivos, tão intensos quanto os de Derek e Peter, denunciando imediatamente sua relação com a família. Parecia um ou dois anos mais nova que Stiles, mas o que realmente lhe chamou a atenção foi sua vestimenta—calças e uma camisa simples. Não era comum ver mulheres trajando esse tipo de roupa, pelo menos não naquela sociedade. Algumas na capital começavam a adotar essa moda, mas ainda havia muito preconceito. Contudo, Stiles tinha a leve impressão de que aquela garota não estava se vestindo assim por uma questão de tendência.
— Cora... Já disse para usar as escadas. — Peter comentou, embora seu tom não fosse exatamente de repreensão. — Não quando temos visitas. Eles podem pensar que somos... sei lá, bárbaros das cavernas. O que, pensando bem, no seu caso, não seria tão absurdo.
A garota respondeu com um rosnado baixo e animalesco, o que, para Stiles, não parecia ajudar a desmentir a afirmação do tio.
— Essa é Cora Hale, minha sobrinha. — Peter a apresentou, e antes que Stiles pudesse reagir, ela já havia agarrado sua mão em um aperto forte e entusiasmado.
— Oi! Queria ter sido eu a ir te buscar! — disse ela com energia. — Quase nunca saio da floresta, teria sido ótimo ver algo diferente! E ouvi dizer que você é bem interessante! Com suas geringonças mágicas e tudo mais... Mas o tio Peter não deixou.
— Achei prudente que ela não fosse — Peter interveio com um sorriso malicioso. — Afinal, nosso jovem Stilinski já ficou bastante surpreso ao ver um Hale tirando a roupa e se transformando em um lobo. Imaginem a reação dele se fosse uma garota.
— Surpreso? Por quê? — Cora franziu o cenho, genuinamente confusa.
Stiles, por outro lado, já estava corado novamente. A julgar pelo brilho divertido nos olhos de Peter, esse era exatamente o objetivo dele.
— Bem... — começou outra voz, interrompendo o momento com uma naturalidade elegante. — Eu diria que o efeito causado em meu irmão Derek também foi bem surpreendente, se posso dizer assim.
Uma mulher alta, de longos cabelos negros encaracolados e olhos verdes vívidos, tão afiados quanto os de seus irmãos, surgiu de uma das salas adjacentes. Diferente de Cora, sua aparência era menos selvagem, apesar das vestes semelhantes—calças, camisa folgada e botas, um traje funcional e sem ostentação.
Cora, por sua vez, parecia ocupada demais farejando Stiles para prestar atenção.
— Eu vi pela janela — continuou a mulher. — Derek esqueceu de levar as calças? Que interessante.
Ela arqueou uma sobrancelha de maneira elegante.
— Interessante mesmo. — Peter assentiu com um sorriso divertido.
— Ora, o que há de tão interessante nisso? — Cora bufou, cruzando os braços. — E o que deu no Derek para se distrair ao ponto de esquecer as próprias roupas?
— Cora, por que não ajuda o Derek a encontrar algo para vestir? — sugeriu a recém-chegada, em um tom que claramente não deixava espaço para discussão. — O coitado ainda está lá fora, pelado...
Cora revirou os olhos e, com um suspiro exagerado, começou a caminhar em direção à porta, arrastando os pés descalços. Stiles observou enquanto ela saía e fez uma anotação mental: aparentemente, os Hales tinham alguma aversão a sapatos.
A mulher, então, voltou-se para ele.
— Sou Laura Hale, irmã mais velha de Cora e Derek. — disse, estendendo a mão.
Stiles engoliu em seco antes de apertá-la. Havia algo na postura dela, na maneira como se portava, que exalava uma presença forte e indiscutível. Ele não precisou perguntar—sabia, no instante em que ouviu seu nome, que ela era uma mulher de comando.
Os Hales, definitivamente, não eram uma família convencional.
E pensar que, por tanto tempo, ele havia achado que os Stilinski eram os que fugiam dos padrões.
— Sua mãe está no salão principal? — inquiriu Peter, já empurrando Stiles em direção a uma grande porta ao lado da escadaria que levava ao segundo andar.
— Oh, não. Ela está na cozinha, preparando o jantar. — respondeu Laura, fazendo Stiles arquear as sobrancelhas diante da informação inesperada.
— Ótimo, então vamos até lá. — disse Peter, já mudando de direção. — E você não vai ajudar?
Laura deu de ombros e fez uma careta.
— Eu detesto cozinhar... Mas vou arrumar a sala de jantar.
— Ou fingir que está arrumando e, na verdade, não fazer nada? — sugeriu Peter, arqueando uma sobrancelha e lançando-lhe um olhar divertido.
— Talvez. Mas, considerando que temos um convidado hoje, acho que preciso ao menos fingir que sou uma boa anfitriã. — rebateu Laura, lançando um olhar brincalhão para Stiles antes de desaparecer pelo corredor.
Peter guiou Stiles por uma porta lateral mais estreita, conduzindo-o por um corredor até a cozinha. Antes mesmo de chegar, Stiles foi envolvido pelo aroma irresistível de carne assada, batatas cozidas e molho de tomate. Sua boca imediatamente salivou.
— Como pode ver, não temos muitos servos. — comentou Peter casualmente.
Stiles lançou-lhe um olhar de relance. Já havia percebido isso desde sua chegada.
— Seria por causa do incêndio? — soltou sem pensar, arrependendo-se assim que as palavras escaparam. Certamente aquele era um assunto delicado para os Hale.
Peter suspirou, esboçando um meio sorriso triste.
— Pois é... Digamos que meu pai ficou paranoico depois do que aconteceu. Ele dispensou a maioria dos servos. Então, nossa casa pode parecer um pouco...
— Você não deveria se preocupar tanto com o que eu acho. — interrompeu Stiles. — Aparência é superficial, e opiniões são influenciadas por preconceitos. O que realmente me interessa agora é descobrir o que a senhora Hale está cozinhando.
Ele sorriu e apressou o passo, deixando Peter ligeiramente surpreso para trás.
Assim que abriu a porta de madeira, Stiles foi envolvido pelo calor aconchegante da cozinha. O ambiente era amplo e dominado por um grande fogão a lenha, onde uma mulher de presença marcante atiçava o fogo. Seus cabelos negros estavam presos em um rabo de cavalo, e seus braços fortes trabalhavam com precisão enquanto cortava legumes sobre a mesa, adicionando-os ao caldeirão que borbulhava na lareira de pedra. Como suas filhas, vestia calças e uma camisa de tom bege, além de um avental azul, que delineava seu porte musculoso, mas ainda assim feminino.
Quando ergueu os olhos verdes para encarar os recém-chegados, Stiles engoliu em seco. A semelhança com Derek era inegável.
— Oh! Vejo que já chegou. — disse ela, sorrindo ao limpar as mãos no avental. — O jantar está quase pronto. Sei que sua avó pode ficar um pouco chateada por você perder o dela... Mas farei questão de alimentá-lo de forma adequada. Sou Talia Hale.
— Fico agradecido, senhora Hale.
— Tia, devo matar mais uma galinha ou o que temos já é suficiente? — A pergunta veio de uma nova figura que acabara de entrar na cozinha.
Stiles virou-se e deparou-se com uma garota de cabelos castanhos, encaracolados nas pontas, e olhos que, ao contrário do restante da família, não eram verdes. O cabelo curto e desgrenhado lhe dava um ar rebelde, e suas roupas eram ainda mais informais do que as dos outros Hale. Vestia o que pareciam ser calças velhas rasgadas, transformadas em um tipo de short improvisado, e uma camisa de tom neutro. Mas o que realmente chamou a atenção de Stiles foi a galinha viva que ela segurava com firmeza pelas patas, enquanto o animal se debatia em desespero.
Mais alarmante ainda foi o detalhe de sua outra mão, que estava parcialmente transformada. Garras lupinas afiadas emergiam da ponta dos dedos, e um pelo escuro cobria parte do braço.
— Não, Malia. O que temos já será suficiente. — respondeu Talia, sem sequer se abalar com a cena. Em seguida, voltou-se para Stiles com um sorriso. — Não estamos acostumados a receber visitas, então talvez tenhamos exagerado um pouco no jantar.
— Oh... Então eu realmente me sinto honrado. — Stiles comentou, agora ainda mais curioso com a dinâmica daquela família.
Ele percebeu que os próprios membros dos Hale realizavam as tarefas que, em outras casas nobres, seriam delegadas a servos. Isso era algo que faria as demais famílias aristocráticas da região torcerem o nariz em absoluto desgosto. Mas, para Stiles, era fascinante.
— Ah! Essa é minha filha. — anunciou Peter, apontando para a garota, que, sem a menor cerimônia, soltou a galinha no chão da cozinha, permitindo que o animal cacarejasse freneticamente enquanto corria para longe.
— Oi! E aí? — saudou Malia, estendendo a mão para Stiles. Apenas quando ele moveu a própria mão para retribuir o cumprimento, percebeu que a dela ainda estava parcialmente transformada. — Ops, foi mal!
Ela riu, e Stiles ficou intrigado ao observar como a mão rapidamente voltava à sua forma humana, como se fosse algo tão natural quanto respirar.
— Uau... Isso é incrível. A maneira como a Arkanis atua em vocês é tão orgânica! Eu sequer vi Derek se transformar... Um instante ele estava ali, e no seguinte, era um lobo imenso e lindo! Foi como mágica! Lógico que foi como mágica, mas ao mesmo tempo parece que não foi! Entendem?
Stiles percebeu que estava falando rápido demais, embriagado pelo fascínio da descoberta. No instante seguinte, corou.
Talia riu, um brilho divertido nos olhos.
— Melhor sermos fascinantes do que assustadores, não acha?
— E lindos. — acrescentou Malia, sorrindo travessa. — Eu o ouvi dizendo que o lobo de Derek é lindo.
Stiles ficou ainda mais vermelho. Droga. Ele realmente precisava aprender a controlar sua boca.
— Bem, já que ele está aqui... e o jantar já está quase pronto. — interveio Peter, cruzando os braços.
— Oh, eu não esqueci, Peter... — Talia sorriu e voltou-se para Stiles. — Stiles, é assim que prefere ser chamado, certo? Você não veio até aqui apenas para jantar conosco. Ainda precisamos conversar sobre a nossa aliança e sobre o seu pai. Mas antes, há algo que precisa ver.
Ela lançou um olhar significativo para Peter.
— Você poderia levá-lo ao meu escritório e mostrar a carta a ele?
— Carta? — Stiles arqueou as sobrancelhas, lançando um olhar questionador para Peter.
— Sim. Carta. — confirmou Peter com um sorriso enigmático. — A carta que seu pai escreveu para você.
O cérebro de Stiles quase entrou em curto-circuito.
Uma carta? Seu pai escreveu uma carta?
Ele não recebia nenhuma correspondência de Noah Stilinski havia meses. E agora... uma carta? Com os Hale? Por quê?
— Oh, oh, consigo ver as engrenagens girando na cabeça dele... — Malia comentou, divertida.
— Verdade. — assentiu Peter, pousando uma mão no ombro de Stiles. — Sei que está cheio de perguntas, garoto. Mas primeiro, leia a carta. Tenho certeza de que algumas delas serão respondidas. Depois, minha irmã, como chefe da família Hale, preencherá os espaços que faltam.
Stiles engoliu em seco, sentindo um misto de ansiedade e expectativa.
Uma carta. De seu pai.
Talvez, finalmente, algumas respostas estivessem ao seu alcance.
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