Capítulo 12

A luz e o calor da lareira iluminavam e aqueciam o escritório de Talia Hale. O ambiente era acolhedor, mas carregava uma imponência silenciosa. Poltronas de couro estavam dispostas próximas à lareira de pedra, cobertas por peles de animais, oferecendo conforto diante do frio da floresta. Ao longo das paredes, estantes robustas guardavam uma vasta coleção de livros, desmentindo qualquer ideia de que os Hales eram feras iletradas. Havia tratados de direito, volumes sobre estratégia militar e, para a surpresa de Stiles, romances clássicos misturados ali, como se a guerra e a arte pudessem coexistir no mesmo espaço.

Uma grande janela se abria para a floresta, revelando a escuridão pontilhada pela luz pálida da lua. Entre as decorações, pinturas adornavam as paredes — mas não eram imagens de lobos sanguinários despedaçando exércitos, como tantos gostavam de retratar. Eram cenas mais serenas, quase poéticas: lobos correndo livres pelos campos, caçando cervos sob o luar, vivendo na harmonia primitiva que lhes era natural. O destaque do cômodo, no entanto, era uma enorme tapeçaria pendurada na parede oposta à escrivaninha. O tecido, evidentemente antigo, exibia uma lua cheia imensa, brilhando em um céu estrelado, como se fosse um tributo silencioso à própria essência dos Hales.

— Ali. — Peter indicou uma pilha de papéis sobre a mesa.

Stiles engoliu em seco, sentindo o peso daquele momento. Caminhou hesitante até a escrivaninha e, sem sequer pedir permissão, sentou-se. Seus olhos correram sobre os papéis, e então ele viu — a carta.

O reconhecimento foi imediato. A caligrafia meticulosa, as curvas e traços precisos... Era a letra de seu pai. Um nó se formou em sua garganta quando seus dedos deslizaram sobre as palavras, como se, de alguma forma, ao tocar aquela tinta, pudesse tocar Noah Stilinski. Seu pai. O Duque. O homem que sumira sem deixar rastros.

— Vou te deixar a sós com a leitura. — Peter disse de repente, e Stiles sobressaltou-se levemente, quase esquecido de que ele ainda estava ali.

Apenas assentiu, sem conseguir tirar os olhos da carta. Peter saiu, fechando a porta atrás de si, e agora o único som era o crepitar da madeira na lareira e o canto dos grilos lá fora.

Inspirou fundo.

"Vamos lá..." murmurou para si mesmo, então começou a ler.

Olá, garoto,

Primeiro, quero pedir desculpas por não estar aí para os preparativos do seu aniversário. Sim, eu sei — você provavelmente revirou os olhos ao ler isso e já deve estar pensando que eu deveria começar esta carta informando se estou bem, explicando o que estou fazendo, onde estou. Essas coisas são importantes, claro, mas... Stiles, seu aniversário. Sua entrada na maioridade, segundo os parâmetros do nosso reino. Isso é significativo.

Sua mãe estaria extasiada com os preparativos, cheia de ideias e exigências, tentando transformar tudo em um evento inesquecível. E eu me sinto falhando com ela por não estar presente no aniversário do nosso único filho. Por isso, peço perdão.

Sei que minha mãe e meus irmãos estão se empenhando para fazer desta uma celebração grandiosa — como deve ser. Você merece. Mesmo que ache tudo isso uma besteira, mesmo que finja não se importar. Você é meu filho, Stiles. Filho de Evelyne. Você é um Stilinski.

Meu herdeiro.

Uma lágrima escorreu pelo rosto de Stiles, e ele a enxugou com a mão trêmula.

Seu pai...

Ele disse que sou seu herdeiro?

O sussurro escapou de seus lábios quase sem perceber.

Noah nunca havia dito isso em voz alta. Nunca.

Ele continuou a ler.

Mas devo dizer que muitos fatores me impediram de me comunicar antes, assim como de fazê-lo por meios convencionais. Esta carta, sem dúvida, chegou até você por meio dos Hale. Sim, para você isso pode parecer estranho, mas os Hale há muito tempo são aliados dos Stilinski, especialmente no campo de batalha. Laura Hale—acredito que já a tenha conhecido—foi quem recebeu esta carta de minhas mãos para entregá-la a você. Isso ocorreu quando eu estava nas fronteiras do Oeste de Caeloria, mas agora preciso partir para o Leste. Imagino que você já esteja unindo os pontos sobre os motivos que me levam a estar nesses dois extremos.

Stiles sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Sim, ele sabia exatamente o que isso significava.

A Oeste de Caeloria, além das inóspitas cadeias de montanhas, estendia-se a Confederação de Ruun. Um território selvagem, governado por clãs independentes que, por séculos, travaram batalhas incessantes entre si. Eram tribos belicosas e divididas, onde apenas os mais fortes sobreviviam, e o poder era garantido pelo domínio do Arkanis—mas apenas os líderes de clã possuíam esse dom, sendo vistos como divindades vivas por seus seguidores.

A unificação desses clãs sempre fora considerada impossível, até a ascensão do Khan de Sangue. Agora, sob um único estandarte, miravam Caeloria como seu próximo alvo. Não buscavam apenas terras férteis, mas glória, pilhagem e supremacia.

Stiles suspeitava que seu pai estivesse envolvido em algum tipo de manobra diplomática ou, mais provável ainda, em operações para plantar a discórdia entre os clãs, retardando sua ofensiva. A guerra já durava dois anos, e qualquer atraso poderia significar uma vantagem estratégica para Caeloria.

Mas não era essa a sua maior preocupação.

A fronteira leste.

Ali, em meio às vastas planícies verdes, estendia-se o Reino de Orlath—um território regido por dogmas implacáveis, onde o poder pertencia exclusivamente à fé. Uma teocracia absoluta, governada pelo enigmático Voz de Ilyon, líder tanto espiritual quanto político. Sua doutrina era clara e aterradora: Arkanis era uma força demoníaca, e todos os seus portadores deveriam ser exterminados.

Stiles engoliu em seco. Ainda se lembrava das descrições horrendas sobre o que faziam com os nobres capturados. Se tinham ou não Arkanis pouco importava—eram desmembrados e suas cabeças empaladas como estandartes sagrados para "purificar" a terra.

Nos últimos anos, Orlath permaneceu inquietantemente silencioso. Pareciam ter se retirado para algum ritual de isolamento religioso. Mas se seu pai estava seguindo para o Leste, isso só poderia significar uma coisa: algo estava prestes a acontecer. Algo grande.

Sentiu um nó apertar seu estômago, mas forçou-se a continuar lendo.

Coisas estão acontecendo. Coisas grandes e perigosas. E não me refiro apenas a Caeloria, mas a nós, ao mundo como um todo. E esses eventos não estão se concentrando apenas nas fronteiras do reino.

Beacon Hills pode parecer pacífica por estar no coração do território, mas não se engane: a sombra do que ocorre aqui já se propaga para aí.

Filho, você deve tomar cuidado.

Nosso reino, por mais sólido que pareça, está fragilizado.

A rainha Lysandra Caeloria já deveria ter se casado ou renunciado o trono a um herdeiro masculino. O rei morreu há três anos, e os nobres estão cada vez mais irritados por ainda terem uma mulher no poder.

Até agora, a guerra e a instabilidade impediram que a forçassem a abdicar. Mas até quando?

Stiles sentiu o coração apertar.

A rainha.

Ele a vira poucas vezes, quando visitava a capital para passar tempo com Lydia e sua família materna. Sempre a admirou, não apenas por sua inteligência e sagacidade, mas também pelo senso de humor afiado. Mas a verdade era que, apesar de sua força, apesar de seu poder, ela era uma mulher.

E pela lei, ela sequer deveria estar no trono.

Ela o assumira temporariamente após a morte do rei, já que não havia herdeiros masculinos diretos. Mas um "temporário" que durava anos nunca seria aceito por uma nobreza sedenta por estabilidade.

O tempo dela estava se esgotando.

E com isso, talvez, o tempo de Caeloria também.

Algo está se movendo na escuridão.

E, infelizmente, Beacon Hills será um dos alvos.

Você deve ficar atento. E nossa família... ela deve ser protegida. Eu não estou aí, então cabe a você, como herdeiro, assumir essa responsabilidade.

Stiles, eu nunca quis te pedir isso. Confesso que desejei tirar esse fardo dos seus ombros. Evitei falar de muitas coisas antes, e agora me arrependo. Mas fiz isso porque sou seu pai. E, como pai, eu queria que você tivesse uma vida livre das intrigas que me cercam.

O que vivo... não é o melhor.

Mas agora não há mais como evitar.

Descobri algo, algo importante e perigoso. Não posso revelar nesta carta, não sem ter certeza. Mas pedi aos Hale que investigassem. E gostaria que você participasse, me representando.

Esta seria sua primeira missão como meu herdeiro.

O que acha?

Diga à minha mãe, ao meu pai e aos meus irmãos que estou bem.

Um Stilinski é difícil de derrubar.

Raposas são resilientes.

E tentarei voltar a Beacon Hills o quanto antes.

Abraços,
Duque Noah Stilinski.

Stiles soltou um longo suspiro, seus dedos tremendo levemente ao apertar o papel. Não de medo.

Não.

Ele estava deslumbrado.

As palavras de seu pai—tanto as que foram ditas quanto as que ficaram apenas subentendidas—pesavam em sua mente. Ele era o herdeiro. Seu pai o via como tal.

Isso era tudo que ele queria.

Sim, sabia que isso vinha com responsabilidades. Mas ele já estava esperando por isso. Estava pronto para defender sua família, proteger seu lar.

Mas a missão...

O que exatamente estava acontecendo em Beacon Hills além das fofocas, bailes e disputas entre nobres? Além das tentativas constantes de tomar as terras dos Stilinski? Algo muito maior estava em jogo. Algo que sequer fora mencionado diretamente na carta. A que nível?

Seu pai poderia muito bem ter anexado outra folha explicando tudo. Mas não—ele optou pelo mistério e por deixar tudo nas entrelinhas.

Stiles franziu o cenho, concentrado, quando uma leve batida na porta o fez saltar de susto—e cair da cadeira.

O impacto foi acompanhado pelo rangido da porta se abrindo e pela figura imponente de Derek Hale adentrando o escritório. Ele parecia alerta, como se esperasse encontrar algum tipo de desastre.

— Você está bem? — questionou, observando Stiles esparramado no chão. Seu tom era sério, mas havia algo na expressão dele que indicava que não estava tão surpreso assim. — Espero que não tenha feito nenhum experimento suspeito...

— Não. Eu só caí mesmo — murmurou Stiles, tentando recuperar a dignidade. — Às vezes isso acontece comigo. A gravidade parece gostar muito de mim. Talvez mais do que das outras pessoas.

Derek arqueou uma sobrancelha, o canto dos lábios se curvando num meio sorriso.

— Sei...

Ele estendeu a mão, e Stiles hesitou por um segundo antes de segurá-la.

Foi um erro.

Ou talvez não.

Porque Derek puxou com força, e no instante seguinte, Stiles colidiu de encontro ao peito firme do outro.

Muito perto.

Perto demais.

Os olhos verdes encontraram os seus, e por um momento, Stiles sentiu o ar faltar.

— O jantar está servido — disse Derek.

Stiles piscou.

— Bom apetite... — respondeu, ainda meio atordoado.

Derek franziu o cenho e, para sua completa ruína, sorriu.

— Melhor você dizer isso quando estiver de fato comendo, Stiles.

Stiles quase respondeu que poderiam comer outra coisa.

Mas, por milagre, ele conseguiu se calar antes de morrer de vergonha do próprio pensamento indecente.

Ele precisava focar. Na carta. Na missão. No que deveria discutir no jantar.

E não em como Derek Hale parecia ridiculamente comestível.


Palavra da autora

Nesse capítulo dei nome de outros reinos. Expandido mais o mundo. Espero que tenha explicado bem.



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