Capítulo 13


Stiles ainda tentava controlar a enxurrada de emoções que dominava sua mente e coração. A carta. A possível missão. Os conflitos que assolavam Caeloria. A súbita constatação de que talvez estivesse desenvolvendo uma paixonite por Derek Hale. A proximidade de seu aniversário. Era tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que ele se sentia à beira de um colapso, como uma de suas máquinas de arcanomecânica prestes a sobrecarregar.

Enquanto desciam as escadas, Stiles foi arrancado de seus devaneios ao notar a súbita rigidez de Derek ao seu lado. O rapaz-lobo ficou tenso de uma hora para outra, e isso fez Stiles franzir o cenho. Ele seguiu o olhar do outro e viu um homem parado ao pé da escada.

Era um sujeito de meia-idade, um pouco gordinho, de cabelos castanhos claros e olhos cor de mel. Aparentemente, ele havia acabado de voltar do campo, pois suas roupas estavam ligeiramente sujas de terra, e ele carregava um saco de couro que parecia estar cheio de batatas e cenouras. Tirou o chapéu de palha da cabeça assim que os viu se aproximar, e um sorriso largo se abriu em seu rosto, tornando sua expressão ainda mais acolhedora.

— Oh! Derek, boa noite! — Ele então voltou os olhos para Stiles, e sua empolgação aumentou consideravelmente, a ponto de parecer que ia começar a saltitar. Estranhamente, o entusiasmo dele fez Stiles lembrar um pouco Cora, momentos atrás.

— Você deve ser Miecz... er... — O homem tentou pronunciar seu nome, tropeçando nas sílabas.

— Pode me chamar de Stiles. — Interpôs ele com um sorriso, estendendo a mão.

— Oh! Sim, Stiles! — O homem rapidamente limpou a mão suja de terra na camisa antes de apertá-la com firmeza. — Eu sou Elias. Elias Hale. Pai do Derek, da Laura, da Cora... Você já deve ter conhecido minhas crianças.

Stiles assentiu. Algo naquele homem era diferente. Ele não tinha a postura de um nobre e, mais intrigante ainda, não parecia possuir Arkanis. Como poderia ser o pai de Derek e dos demais Hales?

— Fico tão feliz que esteja aqui! — Elias continuou, ignorando o olhar nada animado que Derek lhe lançou. — Sabe, meu filho Derek nunca teve muitos amigos da idade dele para brincar...

— Pai! — Derek rosnou, claramente desconfortável, mas Elias apenas seguiu falando, ainda segurando a mão de Stiles com entusiasmo.

— ...A casa Hale é praticamente composta só de mulheres. Nada contra isso, eu amo minha família, mas Derek cresceu sem ter um amigo da mesma idade e do mesmo sexo para passar o tempo. Eu e Peter não somos bons substitutos, sabe? E com o avô dele, que os deuses o tenham, naquela estranha paranoia de isolamento... Bem, Derek sequer frequentou a escola para nobres da senhora Brightlight...

— Pai, já chega! — Derek agora soava suplicante, e Stiles percebeu que ele estava muito, muito corado.

— Você poderia ser amigo dele e brincar com ele... — Elias sugeriu com um brilho de esperança nos olhos, como se tivesse acabado de descobrir a solução para um grande dilema familiar.

— Pai, eu não sou mais uma criança! Stiles tem coisas mais importantes para fazer do que passar tempo comigo! — protestou Derek, claramente desesperado para encerrar aquela conversa.

Stiles tentou ao máximo conter o riso. Aquilo era simplesmente adorável. Era quase cômico ver um homem tão afável e comunicativo como Elias em meio a uma família de guerreiros ferozes que se transformavam em lobos gigantes.

— Eu... — Stiles começou a dizer, lançando um olhar divertido para Derek. — Eu adoraria me tornar amigo de Derek e brincar com ele.

Fez questão de enfatizar o "brincar", e, talvez propositalmente, não no sentido infantil da palavra. Derek ergueu uma sobrancelha, e um sorrisinho leve surgiu em seus lábios.

— Pai, pare de tentar matar seus filhos de vergonha... — Laura interveio, surgindo do salão de jantar. Pelo som de pratos sendo postos à mesa, o aroma delicioso da comida recém-servida e o burburinho das conversas, era evidente que todos já estavam reunidos para a refeição.

— Matar de vergonha? Eu nunca... — Elias replicou, genuinamente confuso com a acusação. Derek, ao seu lado, revirou os olhos em exasperação.

— Não se preocupe, Laura. — Stiles disse, assumindo um tom despreocupado e ligeiramente travesso. — O senhor Hale aqui apenas estava me informando que, para fortalecer minhas relações com Derek Hale, devo brincar com ele. E, devo dizer, não sou contra a ideia. Tenho bastante interesse em brincar com o jovem Hale.

Laura ergueu uma sobrancelha, claramente divertida.

— Brincar, é?

— Brincar. — Reafirmou Stiles, impassível.

— Sim, brincar... O que há de errado nisso? — Elias insistiu, ainda completamente alheio ao subtexto que começava a se formar na conversa.

Derek, por sua vez, soltou um rosnado baixo, cruzando os braços como se tentasse controlar a própria paciência.

— Céus, vocês podem parar com isso? — resmungou, visivelmente embaraçado. — Vamos logo jantar!

E, sem esperar resposta, marchou emburrado na direção da sala de jantar, deixando para trás um Stiles risonho e uma Laura que lutava para conter o riso. Elias, ainda sem entender o motivo da irritação do filho, o acompanhou tranquilamente.

— Vamos, Stiles. — Laura chamou, gesticulando para que ele a seguisse. — Mas cuidado... Não provoque muito o Derek. Ele pode acabar querendo morder você depois.

Stiles quase respondeu que não via problema algum nisso. Quase. Felizmente, conseguiu segurar sua língua antes de soltar algo que o faria querer se enterrar de vergonha — especialmente na frente da irmã de Derek e sabe-se lá mais quem poderia estar ouvindo.

Mas Laura parecia captar exatamente o que se passava em sua mente. O sorriso dela se alargou e, antes que Stiles pudesse evitar, ela soltou uma risada divertida. E foi assim que, para sua total frustração, Stiles sentiu o calor subir até suas orelhas, corando feito um adolescente pego em flagrante.

A longa mesa da sala de jantar, coberta com uma toalha cinzenta, já estava posta com uma refeição farta e convidativa. Stiles notou imediatamente o grande ensopado fumegante no centro, ao lado de uma travessa com legumes assados no azeite, uma salada fresca de verduras e, ocupando um lugar de destaque, três suculentas galinhas douradas, cercadas por batatas perfeitamente assadas. Era um verdadeiro banquete, especialmente em comparação com as refeições mais modestas que sua família vinha tendo nos últimos meses. Bem, talvez houvesse um motivo para tamanha abundância — o apetite dos Hale parecia proporcional à sua natureza feroz.

A prova estava bem ali, na forma de Cora pegando grandes punhados de comida com as mãos e empilhando-os em seu prato, formando uma pequena montanha de alimentos. Malia, sentada ao lado, parecia igualmente entusiasmada, amontoando pedaços generosos de carne e vegetais sem muita cerimônia.

— Pessoal, esperem Stiles sentar antes de começarem a atacar a comida... — Peter interveio, lançando um olhar de advertência enquanto indicava uma cadeira ao lado de Talia para que Stiles se acomodasse.

O jovem Stilinski se sentou hesitante, notando que, bem à sua frente, Derek já estava no lugar, parecendo menos emburrado do que antes — o que, considerando os acontecimentos recentes, era um avanço.

Assim que Stiles se ajeitou, Talia, com naturalidade e eficiência, pegou um grande espeto e começou a fatiar uma das galinhas, servindo um generoso pedaço de peito no prato dele.

— Obrigado... — disse Stiles, surpreso com a recepção calorosa. — Mas vocês não deveriam se preocupar tanto...

— Oh! Não seja tolo! — Elias interrompeu, sentando-se ao lado da esposa enquanto enchia, sem cerimônia, o prato de Stiles com uma quantidade desproporcional de legumes assados e cozidos. — Ter um visitante na mansão Hale já é, por si só, um grande evento!

— De fato. — Talia assentiu com um sorriso afetuoso. — Além disso, é uma maneira simbólica de reafirmarmos nossa aliança. Não que ela tenha sido rompida...

— Nosso pai... — Peter interveio, pegando uma coxa de galinha e depositando-a em seu prato com um ar casual. — Bem, depois do incêndio, ele meio que nos afastou da vida social. Mesmo dos Stilinski. Ainda nos auxiliávamos mutuamente no campo de batalha, é claro, mas no restante...

— Isso pertence ao passado. — Talia declarou com serenidade, embora um leve traço de melancolia escapasse em sua voz. Stiles percebeu o momento sutil de emoção e notou quando Elias, de maneira delicada e quase automática, pousou a mão sobre o ombro da esposa, um gesto breve, mas carregado de significado. O contraste entre os dois era curioso — ela, uma mulher alta, imponente; ele, menor em estatura, mas com uma presença calorosa e sólida.

— Já podemos comer? — Cora choramingou, olhando ansiosamente para o monte de comida equilibrado de forma precária em seu prato, que parecia prestes a desmoronar.

— Sim... — concedeu Talia, sorrindo.

E então o caos começou.

Derek, Cora, Malia e até mesmo Laura se lançaram à comida com um entusiasmo quase predatório, pegando os pratos servidos com uma ferocidade digna de sua linhagem lupina. Peter, por sua vez, mantinha-se ligeiramente mais contido, mas era rápido e estratégico, pegando exatamente o que queria antes que os mais jovens monopolizassem as travessas.

— Meninos, meninos... — Elias suspirou entre garfadas de sua salada. — Vai ter comida para todos.

Talia riu levemente, comendo com muito mais calma do que o restante da família. Stiles, por sua vez, sentiu-se aliviado por já ter sido servido — ele não tinha certeza se conseguiria competir com a velocidade de seus anfitriões. E, honestamente, não queria correr o risco de perder um dedo no processo.

— Você leu a carta, não é? — Talia perguntou ao lado de Stiles, observando-o enquanto ele ainda mastigava um pedaço suculento de galinha. Ele assentiu levemente, sem interromper a refeição.

— Seu pai nos instruiu a lê-la também. — continuou ela, com um tom de leve desculpa. — Sei que era algo pessoal, mas o duque deixou claro que deveríamos ter conhecimento do que está acontecendo.

Stiles engoliu o pedaço de carne, limpou a boca com a manga e deu de ombros.

— Não se preocupe. Não havia nada constrangedor a meu respeito lá... — respondeu, pousando os talheres. — Mas a parte da missão, sim, essa parte é importante.

— Bem, há também a parte sobre sua festa de aniversário. — Talia pontuou com um sorriso materno. — Seu pai enviou uma mensagem por meio de Laura a esse respeito...

— Oh! Sim... — Laura interveio, ainda lambendo os dedos, e mesmo assim conseguia parecer elegante. Seu prato, no entanto, estava repleto de ossos de galinha devorados até a última fibra. — Ele mencionou algo sobre proteger sua casa contra os outros nobres... especialmente durante seu baile de maioridade. Ele teme que alguém tente aplicar um golpe ou coisa do tipo.

— Bem, já tentaram antes. — Peter comentou, aludindo ao evento em que os chefes das casas nobres, os Arcanum, tentaram fazer Kazimierz assinar um contrato desfavorável.

— E certamente tentarão novamente... usando o baile como isca. — Talia acrescentou, a preocupação transparecendo em sua expressão.

— É só um baile bobo... — resmungou Stiles, teimosamente.

— Bem, nós, Hale, não tivemos bailes nem participamos de nenhum desde o incêndio. Nosso avô praticamente proibiu. — Malia disse, mastigando uma grande batata assada com um entusiasmo quase selvagem. — Então, confesso que não sei absolutamente nada sobre essas festas.

— Eu adoraria ir a um baile! — Cora exclamou, os olhos brilhando com a ideia.

— Bem... nesses bailes, há uma forte tentativa de se formar alianças. — Peter explicou, um sorriso divertido surgindo em seus lábios. — E você, Stiles, já deve ter começado a receber cartas com propostas de casamento.

Stiles ia abrir a boca para responder, mas foi interrompido por um engasgo alto vindo da sua frente.

Derek, que até então estava concentrado em sua sopa de legumes, começou a tossir violentamente, os olhos arregalados em direção a Stiles e depois a Peter, claramente alarmado.

— Propostas de casamento?! — ele repetiu, a voz carregada de incredulidade e irritação.

— Oh... Sim. — Talia respondeu, franzindo o cenho, intrigada com a reação do filho. — Isso acontece nos bailes de maioridade da nobreza. Além de Stiles se apresentar oficialmente como um adulto perante a sociedade, o evento também funciona como um anúncio de que ele está disponível para se casar. E, considerando que a Casa Stilinski está sem seu duque no momento, é bastante provável que outros nobres tentem usar essa oportunidade para pressioná-lo...

— Então era por isso que Noah estava tão preocupado... — Laura murmurou, refletindo. — Bem, eu não sei muito sobre isso... nunca tive um baile. Nenhum de nós teve.

Stiles olhou para os jovens Hale ao redor da mesa. Pela primeira vez, percebeu que havia um certo pesar neles. A paranoia do antigo patriarca os isolara completamente da sociedade nobre, privando-os da superficialidade e dos jogos de influência dos salões de festas. Stiles sempre desprezara esse mundo de ostentação, mas aqueles jovens, alguns da sua idade, nunca tiveram a chance de experimentar e formar sua própria opinião.

Um pensamento lhe ocorreu de repente.

— Bem, então vocês vão ao meu baile. Todos vocês. — declarou, sem hesitação.

— Vamos?! — Cora quase saltou da cadeira, os olhos brilhando de animação.

— Vamos? — Derek, por outro lado, franziu o cenho, não parecendo nem um pouco convencido da ideia.

— Na verdade, essa era exatamente a sugestão que eu tinha em mente... — Peter interveio, o sorriso astuto de sempre brincando em seu rosto. — Proteger os Stilinski e, ao mesmo tempo, trazer os Hale de volta à sociedade.

— Trazer os Hales de volta à sociedade... — Talia repetiu, analisando cuidadosamente as palavras de Peter. Seu olhar percorreu a mesa, pousando sobre cada membro de sua família. — Nós, Hales, somos diferentes. Sei que muitos nos veem como monstros... Mas olhe para nós, Peter. A sociedade não aceitará tão facilmente que o líder dos Hales seja uma mulher. Você tem assumido essa posição para o mundo exterior, permitindo que acreditem que é você quem lidera, mas...

— Que se danem eles, mãe. — Derek rosnou, a irritação evidente na tensão de seus ombros. Ele parecia prestes a se transformar ali mesmo. — Quem liga para o que eles pensam?

— Derek está certo. — Stiles concordou sem hesitar, inclinando-se levemente sobre a mesa. — Você leu a carta do meu pai. Ele me nomeou como herdeiro, apesar de eu não ter Arkanis, o que em si já é uma grande afronta. E vocês... vocês são uma das famílias mais poderosas de Caeloria! Além disso, o reino é governado por uma rainha! Não se esqueça disso, senhora Talia... Você não tem que temer nada. E sendo aliada dos Stilinski, bem... vai perceber que a Casa das Raposas também não segue os padrões esperados.

Stiles sentiu o olhar de Derek sobre ele, intenso, penetrante, como se avaliasse suas palavras com uma mistura de admiração e algo mais. O calor subiu por sua nuca, espalhando-se pelo rosto, e ele rapidamente pegou um copo de vinho, bebendo em um gole só. Talvez tivesse sido rápido demais, pois sentiu o calor do líquido descer ardendo por sua garganta.

— Derek e Stiles estão certos. — Elias interveio, colocando a mão sobre a de Talia em um gesto tranquilizador. — Já passou da hora de os Hale saírem da sombra da floresta. A nova geração precisa crescer sem desconfiar de tudo e todos...

Peter assentiu com vigor, um brilho travesso nos olhos.

— E eu já consigo imaginar a expressão de puro horror dos nobres quando virem tantos Hales reunidos em um baile de maioridade. Aposto que alguns vão até desmaiar. — Disse com um entusiasmo quase sádico.

— Pai... — Malia o olhou de soslaio, mas um sorriso malicioso brincava em seus lábios. — Não vamos lá apenas para assustá-los. Mas, bem... seria divertido ver alguns deles tremendo de medo.

— Na-na-ni-na-não! — Elias interrompeu, assumindo um tom paternal firme. — Nada de assustar os outros só porque acham divertido vê-los apavorados. Isso não é educado.

Stiles deveria concordar, de fato. Mas sua mente já havia voltado para outra questão.

— E a missão...? — murmurou, pousando o copo sobre a mesa e mirando Talia com expectativa. — Aquela que meu pai mencionou?

— Quanto a isso, iremos te informar mais tarde... — Talia disse, lançando um olhar significativo para Laura, que saboreava seu vinho com a calma de quem já sabia mais do que dizia. — Precisamos farejar alguns locais mencionados por Noah quando ele entregou a carta à minha filha. Se conseguirmos encontrar algum rastro, informaremos você, Stiles. E, então, você participará da investigação.

— Ainda mais porque os locais que ele pediu para investigarmos ficam nos limites das terras dos Hale e dos Stilinski. — Acrescentou Laura, pousando a taça sobre a mesa.

Stiles assentiu, sentindo um misto de nervosismo e excitação. Sim, era um paradoxo. A ideia do perigo o deixava inquieto, mas o fato de estar envolvido, de não ser deixado de lado... Isso o enchia de satisfação. Finalmente, alguém o via como parte de algo maior. Finalmente, ele teria a chance de provar seu valor.

— Então... — Cora quebrou o silêncio com sua voz animada. — É verdade que no baile temos que usar vestido? Porque eu nunca usei um.

— Nem eu. — Malia admitiu, franzindo o cenho, como se só agora percebesse o detalhe.

— Eu já usei algumas vezes. — Laura revelou, erguendo uma sobrancelha. — Mas foi em missões na fronteira, e, sinceramente, prefiro calças.

— Precisamos comprar vestidos para as meninas urgentemente! — Elias exclamou, sua animação rivalizando com a de um pai prestes a levar as filhas para uma primeira experiência no mundo das compras.

Talia riu, claramente divertindo-se com a empolgação do marido, mas logo apontou para Derek com um sorriso malicioso.

— E um terno para ele. Não podemos esquecer disso.

Derek, que até então mastigava tranquilamente, parou e franziu o cenho, os dentes rangendo audivelmente.

— Eu não vou usar terno. — Resmungou, a voz carregada de pura recusa.

— Ele vai ficar adorável de terno. — Peter gargalhou, saboreando cada segundo da provocação.

— E você também vai usar um, Peter. — Acrescentou Talia com um tom casual.

O sorriso de Peter se apagou no mesmo instante, substituído por uma careta de puro desagrado.

Stiles observou tudo, lutando contra o impulso de rir. Se alguém ainda temia os Hale por suas habilidades formidáveis, bastaria vê-los assim—trocando provocações sobre ternos e vestidos, torcendo o nariz para um baile—para que qualquer impressão de ferocidade se dissipasse rapidamente.

***

A noite já se estendia pelo céu, profunda e silenciosa. Stiles imaginava se sua família estaria preocupada com sua ausência—e, mais ainda, se Scott ficaria chateado ao descobrir que ele tinha ido até a mansão Hale sem ele. Bem, não podia negar que tinha sido uma experiência fascinante... e ele estava ansioso para contar à sua avó o que descobrira. Sobre seu pai. Sobre a carta.

Instintivamente, sua mão pousou sobre a bolsa de couro onde guardava a correspondência. O simples toque no material macio o fez sentir-se um pouco mais relaxado. Seu pai estava vivo. Ele o havia declarado como herdeiro. E agora, ele tinha aliados. Mesmo que algo sombrio estivesse prestes a acontecer, ao menos não enfrentaria isso sozinho.

Stiles havia saído pela porta da frente da mansão quando os lobos—os normais, dessa vez—vieram ao seu encontro, farejando-o com animação, como se estivessem o avaliando.

— Calminha, calminha... — murmurou, tentando afastá-los com delicadeza, sem querer irritar aqueles enormes animais.

— Será que demos comida para eles? Nossa... pode ser que eu tenha esquecido — disse uma voz grave ao seu lado. Stiles quase pulou de susto ao notar Derek, que surgira silenciosamente como sempre.

— Eles... estão com fome? — perguntou Stiles, esforçando-se para que sua voz não saísse em um tom de pânico. Tinha lido em algum lugar que animais selvagens sentiam o cheiro do medo. Bem, esperava que fosse mentira, porque, se não fosse, os lobos estariam prestes a sentir pavor misturado com puro desespero. Talvez até algo pior, considerando que ele estava perto de literalmente se cagar de medo.

Derek soltou uma risada baixa e rouca.

— Devia ver a sua cara.

Stiles soltou uma risada fraca e forçada.

— Ha ha ha, muito engraçado, senhor Hale... — resmungou, revirando os olhos.

Derek sorriu de canto.

— Bem, já está pronto para voltar para casa?

— S-sim... Eu já me despedi da sua mãe e da sua família... Peter disse que iria me levar de volta — respondeu Stiles, sentindo-se inexplicavelmente nervoso por estar sozinho com Derek ali. Onde estava Peter, afinal? Ele havia dito para Stiles esperar ali fora...

— Peter, é? — Derek arqueou uma sobrancelha antes de, sem qualquer cerimônia, começar a tirar a camisa.

O coração de Stiles quase saltou do peito.

— O que...

— Eu que vou te levar. Peter disse que está com preguiça. — Derek desabotoou a calça, e Stiles sentiu a boca ficar seca.

— Depois de comer, ele se sente indisposto — acrescentou, como se fosse uma explicação lógica. Mas pelo meio sorriso nos lábios de Derek, Stiles suspeitava que essa história não era bem assim.

Stiles, porém, não conseguiu dizer nada. Não conseguiu retrucar, não conseguiu insistir que Peter deveria levá-lo. Ele só conseguiu assistir. Assistir enquanto Derek começava a desfazer o cinto. Sua boca salivava levemente.

— Desta vez, você vai ficar olhando? — Derek perguntou, a voz baixa, rouca, provocante.

Stiles sentiu todo o calor de seu corpo se concentrar no rosto.

— Eu... eu... — tentou responder, mas sua boca parecia ter desaprendido a formar palavras coerentes.

— Bem, não tem nada de errado... — Derek continuou, mantendo o olhar fixo no dele. — Somos ambos homens. Meu pai disse que eu deveria me aproximar de garotos da minha idade para brincar... não é mesmo?

Brincar. Aquela palavra agora tinha uma conotação completamente diferente. O cérebro de Stiles entrou em curto-circuito.

Ele tentou, com todas as forças, se virar.

Mas não se virou.

E então, Derek começou a abaixar as calças.

Stiles, com muita relutância, ergueu o olhar e encontrou os olhos verdes do Hale, que o observavam com intensidade. Sua respiração ficou presa na garganta. Seu coração batia forte demais. Talvez ele estivesse prestes a morrer ali, de pura combustão espontânea.

Ele começou a abaixar o olhar de novo.

E então—

— O que estão fazendo? Já está muito tarde... Talvez Stiles devesse ficar aqui e voltar para a mansão dele amanhã.

A voz de Malia rompeu o silêncio, e Stiles soltou um gritinho, saltando para trás como se tivesse sido pego cometendo um crime.

— O que foi? — Malia franziu o cenho, claramente confusa.

— Nada, nada! — Stiles respondeu rápido, a voz ligeiramente estridente.

Malia farejou o ar, e Stiles congelou. Isso... isso não era bom.

Um rosnado.

Quando Stiles olhou novamente, Derek já não estava mais ali. No lugar do rapaz de olhos verdes e músculos indecentes, havia um lobo enorme, negro e imponente.

— Ah... sim. — Malia observou a cena com um sorriso provocador. — Eu vou avisar meu pai que você finalmente tomou a iniciativa de levar Stiles para casa. Ele já estava até se perguntando quando isso ia acontecer...

Ela riu.

— Bem, acho que vou ter que pagar a aposta que fiz.

— Aposta?! — Stiles exclamou, horrorizado.

Eles estavam apostando nele?! Desde quando?! SOBRE O QUÊ?!

Derek rosnou, claramente não muito feliz também.

— Bem, é melhor eu ir indo... — disse Stiles, sentindo o rosto pegar fogo.

Derek já havia se abaixado, pronto para a viagem de volta, mas algo chamou a atenção de Stiles. Entre suas presas lupinas, ele segurava os restos de suas roupas—calças, camisa, cinto. Bem, ao menos dessa vez, Derek lembrou de levar as roupas consigo. Pequenos progressos.

Respirando fundo, Stiles montou no grande lobo negro, tentando ignorar o fato de que suas mãos estavam agarradas à pelagem quente e espessa de Derek.

— Ah, e Stiles? — a voz divertida de Malia interrompeu seus pensamentos. — Você sabia que não precisamos estar na forma de lobo para farejar coisas? Tipo... por exemplo, a excitação de alguém?

O choque percorreu o corpo de Stiles como um raio.

— O QUÊ?! — ele guinchou, olhos arregalados.

Derek soltou um rosnado ameaçador para a prima, que apenas gargalhou, evidentemente se divertindo às custas dele.

Stiles, por sua vez, estava mortificado. Completamente destruído. Decidiu que o melhor a fazer era enfiar o rosto na pelagem escura de Derek e fingir que a realidade não existia mais. Pelo menos até chegar em casa.

Derek, sem dizer nada (ou rosnar no caso)—ou talvez sem querer piorar a situação—apenas começou a trotar em direção à floresta.

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