Capítulo 14
Uma única lágrima escorreu suavemente pelo rosto de Halina ao terminar de ler a carta. Atrás dela, seus filhos, Agnieszka e Bartosz, acompanhavam a leitura por cima de seus ombros. Se a avó de Stiles deixou escapar uma lágrima contida, tia Agni, por sua vez, dissolvia-se em prantos a ponto de Tio Bart lhe oferecer um lenço — que ela usou para assoar o nariz com um vigor nada discreto.
— Bem... sabemos que ele está vivo — disse Halina, dobrando cuidadosamente a carta sobre o colo e alisando-a com os dedos, como se o gesto pudesse fixar a realidade recém-lida.
— Óbvio que ele estaria bem... — resmungou Kazimierz, que parecia cochilar na poltrona do escritório, mas que agora se virava para a esposa com um meio sorriso. — Halina, ele é nosso filho. Não esperava menos do nosso Noah.
Halina assentiu com discrição e então voltou seu olhar para Stiles, que estava sentado à frente deles, visivelmente apreensivo. O escritório — antes do Duque, agora transformado em sala de reunião da família Stilinski — permanecia parcialmente na penumbra, já que as cortinas, ainda entreabertas, deixavam a luz da manhã entrar timidamente pelas janelas altas.
— Você faltou ao jantar... — começou Halina, com a voz calma e cheia de significado.
— Mas eu fui convocado pelos Hales. Meio que não tive opção de recusar e...
A avó levantou a mão, gesto inequívoco de que Stiles deveria permanecer em silêncio. Ele suspirou, resignado, e se calou com um biquinho de quem aceitava a bronca a contragosto.
— Mesmo que tenha sido convocado por nossos aliados — que, aliás, também são nossos vizinhos — isso não lhe dá liberdade para sumir parte da noite. Você devia, ao menos, ter nos avisado.
Stiles abriu a boca para responder, mas fechou-a rapidamente diante do olhar firme da avó.
— De qualquer forma, essa carta... e o que os Hales nos disseram... tudo isso nos favorece — ela continuou.
— Sim, agora vou ter que recalcular a comida e reorganizar as mesas — lamentou tia Agni, ainda fungando, enquanto devolvia a Bartosz o lenço agora encharcado. Ele fez uma careta visível ao pegá-lo, como se tivesse sido obrigado a segurar um peixe morto.
— Isso é o menos importante... — começou Stiles.
— Menos importante? Faltam quatro dias para sua festa! Temos mil coisas a resolver! — Tia Agni exclamou, o desespero pintando suas palavras.
— Mas o mais importante — interveio Bartosz com voz firme — é que Noah declarou Stiles como seu herdeiro.
Halina assentiu levemente, o olhar agora fixo no neto, que engoliu em seco.
— Isso mesmo... sou o herdeiro agora — disse Stiles, a voz levemente trêmula.
— Mesmo sem Arkanis — murmurou Halina.
— Mesmo sem Arkanis — ele repetiu, com mais convicção do que realmente sentia.
— Mieczysław, você sabe que isso trará consequências com as outras famílias nobres — começou Halina, com a voz serena, mas carregada de gravidade. — Elas não vão aceitar. Não há precedentes de um nobre escolher um familiar sem Arkanis para representar a casa e liderar o clã...
— Eles podem espernear e chorar o quanto quiserem, mas não há como negar o desejo do meu pai — retrucou Stiles, com o queixo erguido em desafio. — E, de fato, não existe nenhuma lei que me impeça. Eu pesquisei. O que temos é um acordo velado, uma tradição passada de geração em geração... conservadorismo puro.
Fez uma pausa, os olhos varrendo cada rosto presente na sala antes de continuar, mais baixo:
— Mas quem eu realmente quero que me aceite... não são eles. São vocês.
Especialmente sua avó.
Stiles nunca disse em voz alta, mas sempre acreditou que, se o mundo fosse justo, Halina seria a herdeira legítima da casa Stilinski. Ela tinha Arkanis. Ela tinha sabedoria. Mas, por ser mulher, a lei lhe negara qualquer possibilidade de liderar. Ainda assim, ele a admirava profundamente — e, acima de tudo, queria tê-la ao seu lado.
Halina inspirou fundo, os ombros erguendo-se com o gesto, e expirou devagar, como se estivesse ponderando séculos de tradição num só suspiro.
— Eu não vou me opor ao desejo do Duque... — disse por fim, com doçura, mas não sem hesitação. — Mas você ainda é tão jovem, Mieczysław...
— Mas eu não estou sozinho — rebateu Stiles, tentando sorrir. O resultado, no entanto, foi uma careta nervosa. — Um herdeiro tem sua família ao lado. Sempre.
— Ele tem razão — murmurou Bartosz, dando de ombros. — E parte dos nossos problemas com os parceiros comerciais pode ser resolvida agora que temos um herdeiro... Sem ofensa, pai.
Todos se viraram para Kazimierz, que aparentemente tentava ler um livro... de cabeça para baixo.
— Hã? O quê? — disse ele, abaixando o livro e encarando a sala com olhos ligeiramente confusos.
— Nada, querido — respondeu Halina, com um leve balançar de cabeça. Havia ternura em sua voz, mas também a aceitação silenciosa de que o marido, outrora um líder respeitado, não estava mais à altura do cargo. E isso, no íntimo, doía.
— É verdade, mamãe... — disse Agnieszka, enxugando discretamente os olhos. — Mieczysław vai precisar de todo o nosso apoio. E, bem, eu confio no meu sobrinho. Em parte, claro... Ele tem talento para atrair confusão como ninguém.
— Tia Agni! — protestou Stiles, mas logo tentou recuperar a compostura, passando a mão pelos cabelos com um sorriso torto. — Meu pai era o líder antes de mim, e ele nunca foi um ditador. Também não quero ser. Esta é uma família — e, na medida do possível, uma democracia. Quero que tomemos essa decisão juntos.
Por fim, Halina sorriu.
— Que assim seja, herdeiro Stilinski — declarou ela.
E, com essas palavras, Stiles sentiu uma tensão deixar seus ombros. Uma da qual só agora percebera o peso.
— E, mesmo sendo o herdeiro, você ainda é menor de idade e tem responsabilidades um tanto mais... mundanas do que administrar um clã — continuou Halina, lançando a Stiles um olhar que ele respondeu com desconfiança visível.
— Segundo a tradição, na véspera do baile de maioridade de um nobre, ele deve apresentar-se à Escola para Jovens Nobres da senhora Brightlight e solicitar pessoalmente seu diploma de conclusão dos estudos — completou ela com a serenidade de quem citava um artigo de lei ancestral.
— Mas... — Stiles soltou um gemido indignado, muito mais próximo de um resmungo infantil do que de uma resposta digna de um herdeiro.
Frequentar a escola, tecnicamente, era algo que ele mal fazia — ou, sendo mais preciso, fazia de tudo para evitar. Inteligente e persuasivo, especialmente no último ano, Stiles conseguira convencer alguns professores a enviarem as tarefas diretamente para a mansão. Ele as resolvia — com maestria, diga-se — e as devolvia devidamente corrigidas, mantendo suas notas impecáveis.
Os professores, é claro, detestavam. E, como vingança refinada, passaram a enviar listas de exercícios no nível de uma academia arcana — do tipo que faria qualquer jovem nobre preferir chorar, enrolar-se num cobertor e assumir posição fetal. Mas não Stiles. Ele resolvia todas. E o que mais gostava era imaginar o olhar de frustração da senhora Brightlight ao ver sua autoridade desafiada por correspondência.
— Eu tenho mesmo...? — murmurou, com voz de réu diante da sentença. A ideia de ir à escola, encontrar-se com outros nobres e, pior ainda, fazê-lo tão perto do baile... parecia tortura.
— Seja forte, herdeiro! — provocou tio Bartosz, tentando não rir.
— E eu também vou à cidade de Beacon Hills! — exclamou tia Agni com os olhos brilhando, mirando o sobrinho como quem avista um projeto de gala. — Temos ajustes a fazer na sua roupa de baile!
Agora sim, Stiles desejava com toda a alma encontrar uma desculpa plausível para desaparecer.
Halina, com um leve sorriso que misturava orgulho e leveza, concluiu:
— Então está decidido. Hoje será um dia movimentado para o nosso herdeiro.
***
Stiles caminhava pelos corredores da mansão Stilinski com a expressão de quem carregava o peso do mundo nos ombros — ou, ao menos, o peso insuportável de ter que ir à escola. Ele deveria estar investigando o que seu pai mencionara na carta... ou, melhor ainda, examinando o estranho cristal de Arkanis que encontrara na noite anterior. Qualquer dessas tarefas parecia infinitamente mais interessante — e importante — do que sentar em uma sala de aula com filhos de nobres mimados.
— Bom dia, meu senhor — disse uma voz às suas costas, arrancando-o de seus devaneios.
Stiles se virou com um leve sobressalto e deparou-se com Melissa McCall. Mulher de meia-idade, de pele morena e olhos castanhos atentos, ela vestia o uniforme tradicional dos empregados da casa Stilinski e carregava nos braços o que parecia ser uma montanha de tecido laranja — provavelmente decoração para o salão principal, onde aconteceria o baile de sua maioridade. Quase todos os funcionários estavam ocupados com esses preparativos, sob a supervisão obstinada de tia Agni.
— Senhora McCall, oi! Lindo dia, não é? Quer dizer... está meio úmido, talvez chova! O que pode ser bom... ou ruim... dependendo do ponto de vista. Eu, por exemplo, estou torcendo por chuva — disse Stiles, com um sorriso culpado e um leve rubor nas bochechas. Ele já imaginava o motivo da abordagem.
Melissa não pareceu minimamente impressionada com sua tentativa de disfarçar o constrangimento discutindo o clima.
— Acho bom o senhor ir ao estábulo e conversar com uma certa pessoa — disse ela, com o olhar afiado típico de quem não aceitava desculpas. — Não costumo me intrometer nos assuntos de vocês dois, senhor Stilinski, mas meu filho... costuma guardar rancor.
— Eu... eu não fiz de propósito, tia Melissa — respondeu Stiles, recorrendo ao apelido carinhoso que usava desde pequeno. Ela não era apenas uma empregada fiel à família: fora dama de companhia de sua mãe e sua melhor amiga. — O Hale apareceu... e, bem, meio que me sequestrou. Quase. E eu tive que ir! Não deu tempo de avisar...
Ele gesticulava nervosamente, como se as mãos pudessem explicar melhor do que as palavras.
— Não sou eu quem você deve convencer, Stiles — disse Melissa, agora com um sorriso leve. — Soube que você vai a Beacon Hills hoje. Pois bem, passe no estábulo antes. Fale com Scott. Resolva isso. Não quero passar o dia inteiro lidando com um filho emburrado.
Stiles soltou um suspiro tão longo que parecia condensar toda a sua frustração.
— Está bem, tia Melissa.
Ela assentiu, aparentemente satisfeita, e seguiu seu caminho pelo corredor, deixando Stiles parado, nervoso e ligeiramente arrependido.
— Certo... aos estábulos, então — murmurou para si mesmo, reunindo coragem como um cavaleiro prestes a enfrentar um dragão particularmente sensível.
***
Stiles queria inspirar fundo e expirar lentamente antes de abrir a porta dos estábulos — um gesto digno de alguém prestes a enfrentar um julgamento. Mas era difícil respirar com o cheiro forte de esterco de cavalo invadindo suas narinas. Diante disso, decidiu abandonar os rituais de preparação emocional e simplesmente entrou no santuário de Scott McCall.
Não precisou andar muito entre as cocheiras para encontrá-lo. Lá estava Scott, limpando uma baia com... digamos, um certo entusiasmo violento. Ele enfiava o garfo no feno e o arrancava com uma força que só podia vir da raiva acumulada. Estava sem camisa, a pele morena e musculosa reluzindo de suor sob a luz filtrada do celeiro. Infelizmente — ou felizmente, dependendo do ponto de vista — a visão despertou em Stiles uma lembrança inconveniente de Derek Hale. E mais do que uma lembrança, uma fantasia: Derek também limpando uma baia, virando-se para ele com um olhar... nada casto.
Stiles balançou a cabeça bruscamente, tentando afastar a imagem como se fosse uma mosca incômoda.
Engoliu em seco, o nervosismo apertando seu peito.
— Er... oi, Scott — disse, com a voz vacilante.
Nenhuma resposta.
— Bom, imagino que esteja irritado... considerando que você me disse claramente para não ir à mansão Hale desacompanhado.
O garfo foi cravado no chão com tanta força que Stiles quase pulou. O som seco ecoou como um ponto final na paciência de Scott.
— Eu juro que queria seguir o plano. Às vezes eu sigo planos! — continuou, apressado. — Mas eu realmente não tive escolha. Derek apareceu e... meio que me arrastou junto. Eu não tive tempo nem de pensar, muito menos de dizer "não".
— Agora você já está chamando o Hale pelo primeiro nome? — disse Scott, finalmente virando-se, o rosto suado e o olhar ferido.
Stiles engoliu em seco de novo. Certo, Scott estava definitivamente irritado.
— Você sempre tem escolha, Stilinski — disse McCall, com a voz dura. — E se eles tivessem te sequestrado? Te torturado? Ou feito algo ainda pior?
— Eles são nossos aliados — rebateu Stiles, tentando manter a calma.
— Agora eles dizem isso — resmungou Scott, cético.
— Eles têm os próprios problemas... — respondeu Stiles, lembrando-se do incêndio. — Mas você está certo em desconfiar. De verdade. Só que... eu estou bem!
— Seu pai me encarregou de cuidar de você — retrucou Scott, erguendo o garfo mais uma vez, embora sem intenção de usá-lo como arma (assim se esperava). — Ele me deu essa responsabilidade. E eu aceitei porque sou seu amigo. E o que você faz? Na primeira oportunidade, foge sem avisar!
Foi a vez da raiva de Stiles vir à tona.
— Scott, eu já disse que não preciso de babá! Prefiro mil vezes ter um amigo do meu lado do que um guarda-costas. Eu sei me cuidar, tá?
Scott soltou uma risada seca, nada divertida.
Stiles corou.
— Eu sei sim! — insistiu, teimoso.
— Sei, sei...
E então ficaram ali, no meio do estábulo, se encarando — dois amigos, magoados, irritados, mas ainda conectados por algo mais forte do que qualquer desentendimento: a preocupação mútua.
— Desculpa... — murmurou Stiles, por fim, quase num sussurro. — Eu não quero brigar com você.
Scott soltou um longo resmungo antes de largar o garfo num canto, com um baque metálico.
— Stiles, você... — ele começou, claramente frustrado — não faz ideia de como eu fiquei assustado ontem. Quando voltei para te chamar para o jantar e encontrei seu laboratório todo revirado, sem sinal de você... Eu praticamente montei no cavalo e fui galopando em direção à floresta dos Hale, pronto para te procurar como um louco. Sua avó foi quem me impediu.
O coração de Stiles apertou, pesado de culpa.
— E então eu te vi voltando... montado num lobo gigante que, veja bem, se transformou em homem. Um homem pelado, para deixar claro — acrescentou Scott, com um ar ofendido.
— Você viu isso?! — a voz de Stiles subiu uma oitava, e seu rosto corou violentamente.
— Esperei você voltar no estábulo. Não consegui dormir. E sim, eu vi — respondeu Scott, arqueando uma sobrancelha de maneira dramática. — Aquele era o Derek, não era? E você realmente precisava encará-lo daquele jeito... enquanto ele estava, você sabe, ali... completamente pelado?
— Eu... eu estava me despedindo! — rebateu Stiles, em voz esganiçada.
— Vocês levaram mais de cinco minutos nisso. E, sinceramente, eu não ouvi muita conversa. Era só você olhando pra ele... ele olhando de volta... ele nu, você vestido. Foi... torturante de assistir — disse Scott, finalmente esboçando um meio sorriso.
Stiles agora estava mais vermelho que um tomate maduro em dia de colheita.
— Eu... Eu... Ah! McCall, cala a boca! — exclamou Stiles, mais envergonhado do que irritado.
Dessa vez, Scott riu de verdade, uma risada leve e familiar que fez o ambiente parecer menos carregado. Stiles levou a mão ao rosto, desejando, com fervor, que ninguém da família — nem qualquer outro servo — tivesse presenciado aquela cena memorável.
— E pensar que eu estava considerando te convidar para me acompanhar à escola... — comentou Stiles, o tom agora mais casual, mas ainda com um toque de desafio. — Você sabe, ser meu guarda-costas chato enquanto eu visito a Escola para Jovens Nobres da senhora Brightlight... Quem sabe você até encontre a Allison por lá...
Isso, claro, capturou imediatamente a atenção de Scott, que ficou em silêncio, fitando o amigo.
— Mas, já que você está tão ocupado limpando baias e me provocando... acho que...
— Ah, cala a boca, Stiles — disse Scott, agora ligeiramente corado. — Eu vou selar seu cavalo... e o meu.
— Nossa, tão prestativo e afoito — provocou Stiles com um sorriso malicioso. — Acho que a Allison aprecia essas qualidades num homem.
Scott lançou um olhar fulminante em resposta, mas não resistiu a um novo meio sorriso.
Sim, pelo visto, eles haviam feito as pazes. Pelo menos, por enquanto.
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