Capítulo 15

O prédio era imponente, com uma fachada em tons azulados que mesclava o charme arcaico de um castelo às linhas elegantes de uma arquitetura mais moderna. Vitrais coloridos decoravam as amplas janelas; sacadas se projetavam entre colunas ornamentadas, e o jardim à frente parecia ter saído de uma pintura — meticulosamente aparado, cheio de roseiras em flor e ciprestes perfeitamente alinhados.

A Escola para Jovens Nobres da senhora Brightlight localizava-se no coração de Beacon Hills, tão central que se podia ouvir o burburinho da praça e o movimento da feira ao redor. Diziam que era um dos edifícios mais antigos da cidade, rivalizando apenas com a venerável Casa do Arcanum, onde os nobres realizavam reuniões importantes. A escola fora criada, originalmente, para educar os filhos da nobreza — e, com o tempo (e o aumento considerável nas mensalidades), passou a aceitar também os herdeiros de alguns comerciantes abastados.

Stiles sentiu o estômago se contrair ao descer do cavalo diante do arco de ferro forjado que marcava a entrada do jardim da escola. Estar ali de novo era desconfortável em vários níveis. Ele definitivamente não queria estar ali — mas não podia fugir da burocracia. Precisava daquele diploma, ainda mais agora que seus planos futuros incluíam a entrada na universidade da capital, Solméria. Obviamente, quando seu pai retornasse a Beacon Hills e toda a confusão cessasse.

— Não é tão ruim assim... — disse Scott, descendo de seu próprio cavalo com uma leveza e despreocupação que Stiles invejou, conduzindo o animal pela alameda de paralelepípedos ladeada por ciprestes e flores até a grande mansão em estilo castelo.

— Talvez não fosse tão ruim... se não fosse um lugar construído para moldar jovens nobres em ideias arcaicas e preconceituosas — resmungou Stiles, ajustando a capa sobre os ombros. — Sem falar na proteção exagerada aos que têm Arkanis. Eles fecham os olhos até para injustiças e bullying, contanto que venha de alguém com poder.

Ele lembrava bem. Fora alvo de muitas dessas "brincadeiras" — como os professores e a própria diretora Brightlight preferiam chamar as humilhações verbais (e, por vezes, físicas) que ele sofrera ao longo da infância e boa parte da adolescência.

Stiles e Scott deixaram os cavalos no estábulo da escola, localizado ao lado da entrada principal, e seguiram rumo à imponente porta de madeira da entrada.

Antes mesmo que Stiles pudesse tocá-la, a porta se abriu silenciosamente. Duas empregadas, vestidas com o tradicional uniforme preto e avental branco impecável, já os aguardavam com uma reverência ensaiada. Stiles engoliu em seco.

— Oh... senhor Stilinski. A que devemos a honra de sua visita? — disse uma mulher magra, vestida com roupas de tonalidades sóbrias, o coque em seu cabelo puxado com tamanha rigidez que parecia esticar o rosto inteiro. Aquela era Jane Brightlight — filha da diretora, herdeira natural da escola e professora de etiqueta e história da nobreza. Os alunos a chamavam de "JB" (algo que ela detestava com fervor). Tinha entre 35 e 40 anos, mas sua postura austera e expressão eternamente azeda lhe conferiam uma aura de idade indefinida... e nada acolhedora.

Ela seria, inevitavelmente, a futura diretora da Escola para Jovens Nobres. E, ao que tudo indicava, perpetuaria o mesmo padrão elitista que já dominava a instituição há gerações.

Stiles percebeu de imediato o sarcasmo disfarçado na voz de JB.

— Imagino que estavam me esperando — disse ele, entregando sua capa e casaco a uma das empregadas, com Scott imitando o gesto. — Afinal, vocês são tão organizados e controladores que devem ter o cronograma completo de todos os aniversários de maioridade dos nobres. Ou não? Porque, se não tiverem... bem, aí eu talvez tenha uma ou duas críticas a fazer.

A careta de JB ficou ainda mais azeda — o que era um feito notável, considerando que aquele já parecia seu estado natural.

— Sim, estávamos esperando — respondeu ela, secamente. — Ainda mais quando um aluno se recusa sistematicamente a frequentar a escola como deveria.

Ela se aproximou, e Stiles teve de conter o impulso de recuar. JB era alta, muito alta — com seus sapatos de salto, devia beirar os dois metros. Stiles tinha a teoria de que todas as Brightlight usavam a própria altura como forma institucionalizada de opressão.

— Venha comigo. A diretora Brightlight irá recebê-lo em breve, e discutiremos sua prova final — anunciou ela, já subindo as escadarias do hall de entrada.

Stiles franziu o cenho, confuso, e correu para acompanhá-la.

— Espera aí, prova? Eu vim pegar o diploma... não pra fazer uma prova!

— Ora, senhor Stilinski, o senhor não é exatamente um estudante convencional — declarou JB, já avançando em direção a um amplo salão forrado de estantes repletas de livros, poltronas acolchoadas e mesas circulares onde os alunos, em teoria, realizavam suas pesquisas. Era o chamado "Salão de Estudo" — um nome pomposo que Stiles sempre achara excessivo. Para ele, o local servia mais como área de repouso e cochilos discretos do que de aprendizado.

— E como não é um estudante convencional — continuou JB, sem sequer olhar para trás — fugindo das aulas, exigindo que enviássemos as avaliações para sua mansão...

— Avaliações que respondi todas, diga-se de passagem, e tirei nota máxima em todas — interrompeu Stiles, sem qualquer modéstia.

Ela ignorou completamente.

— Precisamos ter certeza de que o senhor está, de fato, apto a receber nosso glorioso e cobiçado diploma — concluiu ela ao parar no centro do salão, voltando-se então para Stiles e Scott com um olhar crítico que parecia pesar toneladas.

— Ah, entendi — retrucou Stiles com um meio sorriso — Estão aproveitando a oportunidade para tentar me humilhar em público. Muito nobre da parte de vocês.

— Humilhar? Longe disso, senhor Stilinski — disse JB, com uma falsa suavidade que tornava tudo pior. — Prezamos pela melhor educação possível para todos os nossos alunos. Mesmo aqueles sem Arkanis... e mesmo que pertençam a uma casa nobre. De qualquer forma, você deve esperar aqui.

Ela apontou com um dedo incrivelmente longo — e uma unha ainda mais longa — antes de se virar e desaparecer pelo corredor, não dando a Stiles sequer a chance de lançar mais uma provocação.

— Ainda acha que esse lugar não é tão ruim assim? — murmurou Stiles para Scott, cruzando os braços.

— Ainda bem que sou apenas um servo e uma pessoa comum — respondeu Scott com um meio sorriso, que Stiles retribuiu apenas com um revirar de olhos.

— Ei! Stiles! — gritou alguém com um tom nada cortês.

Stiles soltou um suspiro exausto e se virou na direção da voz. Jackson Whittemore vinha marchando em sua direção com passos firmes e rápidos, como se a simples existência de Stiles fosse uma afronta pessoal.

— Ei, Whittemore, nem um "bom dia"? "Como vai"? Achei que essa escola ensinasse etiqueta... — disse Stiles com ironia. — Você deve ter tirado nota baixa nessa matéria.

Jackson aproximou-se ainda mais, e uma tênue fumaça escapava de suas narinas — um sinal claro de que seu Arkanis do tipo fogo estava sendo ativado, talvez em resposta à irritação.

— Ah, cala a boca... — rosnou Jackson, agora visivelmente corado, e não parecia ser apenas pelo poder elemental. — Eu só queria saber se... se você leu a minha carta.

Stiles franziu o cenho, quase perguntando "que carta?", quando se lembrou do maço de envelopes que recebera recentemente — propostas de casamento e alianças das famílias nobres, como era tradição quando um herdeiro atingia a maioridade aos dezoito anos.

Então Jackson havia enviado uma carta? Ou, mais provavelmente, sua família o obrigara a fazê-lo.

"Escrever uma carta?" pensou Stiles. "Duvido até que ele saiba fazer isso sem queimar o papel primeiro."

— Bem... eu confesso que ainda não li — começou Stiles, com um encolher de ombros despretensioso. — Não tive tempo.

— Como assim "não teve tempo"? — retrucou Jackson, visivelmente ofendido. — E o que, exatamente, poderia ser mais importante do que o seu baile de maioridade... e garantir um casamento? Stiles, convenhamos, você não está em posição de exigir muito. Considerando a situação da sua família e, claro, o pequeno detalhe de você não ter Arkanis... Enfim, devia aceitar a minha proposta. É a melhor escolha que poderia fazer.

Stiles ergueu uma sobrancelha com ironia. Jackson, para variar, não o encarava diretamente. Parecia embaraçado, lançando olhares rápidos ao redor para verificar se outros jovens nobres estavam assistindo à cena. Claramente, aquilo era mais uma jogada política orquestrada pela Casa Whittemore do que uma genuína manifestação de interesse.

E, para alguém que dizia que os Stilinski estavam decadentes, a insistência naquela aliança beirava o desespero. Se as terras da família não fossem desejadas, e se Stiles realmente estivesse tão desvalorizado assim, por que toda essa necessidade de o convencer?

Além disso, havia o detalhe de que, oficialmente, os Stilinski não tinham um herdeiro — mas apenas porque o título ainda não havia sido divulgado. O duque já formalizara Stiles como seu sucessor.

— Oh... que adorável. Não sabia que você nutria tamanha paixão por mim, Jackson — disse Stiles com sarcasmo cintilante. — Declarar-se assim, publicamente... que romântico. Devo, então, esquecer todas as vezes que você me provocou, me ameaçou... e até me bateu? Sim, claro, porque agora seu amor puro e verdadeiro vai me salvar de todos os males. Oh! Que emoção...

Levantou a mão até a testa num gesto dramático digno do palco e fingiu cambalear, apoiando-se em Scott, que apenas segurou o riso.

Jackson o encarou com intensidade. Pequenas volutas de fumaça escapavam de suas narinas. A temperatura estava, literalmente, subindo.

— Estou falando sério, Stilinski. Eu sou sua melhor opção! E... quanto ao passado, bem, podemos deixar tudo para trás. Afinal, sou um dos nobres mais cobiçados!

— E, sem dúvida, o mais humilde — murmurou Scott em voz baixa.

Jackson girou o rosto para encará-lo, e agora pequenas fagulhas de fogo começavam a surgir em sua pele.

— Cuidado, Jackson. Vai acabar entrando em combustão e queimando sua roupa... de novo — disse uma nova voz, cortante e irônica, que não pertencia a Stiles (embora facilmente pudesse). Vestida com um vestido azul-claro e com os cabelos presos por uma fita combinando, aproximava-se Allison Argent.

— E ninguém aqui quer ser traumatizado com a visão do seu corpo nu — acrescentou a garota com naturalidade.

— Não tem nada de traumatizante! — rebateu Jackson, embora suas chamas tenham diminuído visivelmente.

— E, só pra constar, Stiles não recebeu apenas a sua carta... — disse Allison, lançando um olhar de soslaio para ele, antes de desviar o olhar para Scott. — Eu também escrevi uma.

— Eca... — soltou Stiles, com uma careta autêntica. A ideia de sua amiga lhe enviar uma proposta de casamento era perturbadora em níveis indescritíveis.

— Eca mesmo... — riu Allison, como se a simples ideia também lhe desse calafrios.

Jackson os encarou com uma expressão que misturava incredulidade e indignação — como se eles pertencessem a um planeta distante onde regras sociais simplesmente não se aplicavam.

— Nossa, como vocês ainda conseguem ser tão infantis... — uma nova voz se juntou à conversa, arrastando consigo uma aura de pretensão. A figura que se aproximava era a de um homem jovem, mas claramente mais velho que os demais, de aparência elegante. Seus cabelos negros e longos caíam sobre os ombros em ondas bem-cuidadas, e ele segurava uma bengala ornamentada, com um grifo dourado adornando o pomo.

Stiles fez uma careta.

— O jovem Stilinski não deveria se cercar de crianças como vocês — disse o recém-chegado, com um tom indulgente, como se os demais fossem meros aprendizes sob sua tutela. — Ele merece um parceiro maduro. Alguém que compreenda os jogos políticos, as finanças... e, claro, os prazeres do amor.

Ele se aproximava de Stiles com passos calculados, até invadir perigosamente seu espaço pessoal. Ficou tão próximo que Stiles pôde sentir o perfume que o envolvia — uma mistura amadeirada com notas de amêndoas, elegante e incômoda ao mesmo tempo.

— Lorde Adrian Marwood... — disse Stiles, dando um discreto passo para trás, tentando resgatar algum senso de limite. — Um chefe de casa nobre de Beacon Hills aqui na escola? Voltou para retomar os estudos?

— Eu nunca deixei de estudar — respondeu Adrian com um sorriso que pretendia ser sedutor. — Afinal, o lema da minha casa é "A sabedoria guarda o trono", não é? Grande parte dos livros desta escola, aliás, são doações dos Marwood. Mas minha vinda hoje é mais... acadêmica.

— Ele é nosso novo professor de ciências políticas — sussurrou Allison no ouvido de Stiles.

Mais uma razão, pensou Stiles, para agradecer por não frequentar mais aquela escola.

— Exatamente, jovem Argent — disse Adrian, captando o sussurro. — Mas, mais importante que isso, é o fato de que também enviei uma carta ao jovem Stilinski. E, honestamente, creio que, ao lê-la, ele saberá quem deve escolher como parceiro...

Sem dar tempo para Stiles reagir, Adrian pegou sua mão e a levou até os lábios num gesto que deveria ser charmoso.

Stiles estremeceu — não de prazer, mas de pura repulsa.

— Ei! Quem disse que ele vai escolher você?! — exclamou Jackson, indignado por ser ignorado.

— Você? — Adrian virou-se para ele com um olhar de desprezo perfeitamente calculado. — Jovem Whittemore, modere-se. Sou o chefe da Casa Marwood. Estou no mesmo nível de importância que seu pai. E exijo respeito. Não me trate como "você".

— Muito discurso... mas a minha Arkanis é bem mais útil que os seus delírios místicos — rebateu Jackson, inflamando a mão num estalo e aproximando-a perigosamente de Adrian.

Este, com reflexos surpreendentes, deu um salto elegante para trás — para grande alívio de Stiles.

— Não são delírios, são sonhos proféticos! — disse Adrian, as bochechas rosadas de indignação. — Os sonhos da minha casa guiaram este reino por gerações!

— Hora de escaparmos... — murmurou Stiles para Allison, puxando-a discretamente pelo braço e conduzindo-a para fora do Salão de Estudos.

Atrás deles, a tensão entre Adrian e Jackson crescia — já cercada por um pequeno público curioso e pronto para assistir à confusão como se fosse espetáculo.

***

— Eu sabia que essas cartas iam dar problema... — suspirou Stiles, apoiando-se no parapeito da sacada para onde haviam fugido. O som da feira ao longe misturava-se ao canto dos pássaros, criando uma trilha sonora quase bucólica para sua angústia.

— Você devia era estar aproveitando isso — provocou Allison, ao seu lado, com um sorriso divertido. — Ora, agora todos os nobres estão correndo atrás de você.

— Tal como cachorros atrás de um osso! — completou Stiles com desgosto.

— Mas quem sabe algum deles chame sua atenção — insistiu ela. — Aposto que recebeu cartas de nobres de outras regiões... talvez até de outros reinos. Mesmo que não pretenda aceitar nada, é interessante. Quero dizer, você nunca pareceu se interessar por ninguém aqui, mas quem sabe lá fora...

— Allison, acho que não precisa ir tão longe — intrometeu-se Scott, apoiado descontraidamente em um dos pilares ornamentados da sacada, um pouco afastado dos dois. — Acho que o Stiles já tem alguém que despertou... digamos, o interesse dele.

— Scott! Shhh! — protestou Stiles, corando imediatamente.

— Sério? — Allison arqueou as sobrancelhas, interessada. — É alguém que eu conheço?

— Uma dica: envolve lobos... — provocou Scott.

Allison franziu o cenho, pensativa, e então sua expressão se iluminou.

— Os Hale?

— Por que não falamos da sua carta, Allison? Aquela que você mandou pra mim! — cortou Stiles, rápido, tentando mudar de assunto. Agora era a vez da amiga corar, enquanto Scott assumia uma expressão desconfiada.

— Bem, meu avô me obrigou a escrever — confessou Allison, já revirando os olhos. — Era isso ou deixar que ele mesmo escrevesse a carta e eu só assinasse. E você sabe como o Gerard Argent pode ser... poético. Minha avó disse que ele já tentou cortejá-la usando metáforas com armas de caça. Eu morreria de vergonha se ele escrevesse uma carta fingindo ser eu! Tudo errado em tantos níveis...

Stiles assentiu, a expressão entre o riso e o pavor. A ideia de receber uma carta romântica escrita por Gerard Argent era digna de pesadelos.

— Mas... — Allison lançou um olhar de relance para Scott antes de se aproximar de Stiles e cochichar: — Você não precisa ler minha carta. Pode entregá-la para o Scott.

Os olhos de Stiles se arregalaram por um instante, antes de um sorriso maroto surgir em seus lábios.

— Ahá! No fim das contas, você escreveu uma carta melosa e romântica, não é?

Allison ficou ainda mais vermelha.

— T-talvez... Obviamente não pensando em você, Stiles, o que seria nojento! Mas... — Ela agora atingia tons de vermelho dignos de alerta.

— Espero que não tenha colocado meu nome nela. Vai ser bem estranho pro Scott ler — cochichou ele, divertindo-se com a situação.

— Eu me referi ao destinatário apenas como "S"... — confessou Allison, baixando ainda mais a voz. — E como o nome dele e o seu começam com a mesma letra, meu avô não desconfiou de nada.

— Do que vocês estão falando? — perguntou Scott, finalmente notando os cochichos e o rubor de Allison. Ele olhou para Stiles com o cenho franzido e um pouco irritado.

— Você vai descobrir em breve — disse Stiles, com um sorriso enigmático que só aumentou a confusão do amigo.

Scott talvez fosse insistir por uma explicação, mas antes que pudesse falar algo, uma empregada apareceu na entrada da sacada.

— A senhora Brightlight está pronta para recebê-lo, senhor Stilinski.

Stiles soltou um suspiro profundo. Era hora de deixar os cochichos e flertes para trás — e encarar a realidade (possivelmente cruel) do que a diretora planejara como sua prova final.


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