Capítulo 8


A tarde avançava lentamente, tingindo o horizonte com tons dourados e alaranjados enquanto o sol descia em direção às montanhas do oeste. Os pastores guiavam rebanhos de ovelhas e bois pelas estradas de terra, e ao longe, os campos de trigo balançavam suavemente com a brisa do entardecer. O cheiro de terra quente e grama recém-cortada pairava no ar.

Stiles caminhava para longe da mansão, seguindo uma estrada de terra margeada por capim alto, imerso em pensamentos. Seus pés chutavam pequenas pedras no caminho, enquanto as palavras de sua avó ecoavam em sua mente.

— E aí? Como foi? — a voz de Scott surgiu de repente, fazendo Stiles se sobressaltar.

Scott tinha acabado de saltar uma cerca de madeira próxima aos currais, onde alguns cavalos pastavam tranquilamente. Ele se aproximou com aquele ar despreocupado de sempre, mas a expressão atenta mostrava que estava, de fato, esperando uma resposta séria.

— Céus, McCall! Precisamos colocar um sininho no seu pescoço, como fazemos com as vacas. — resmungou Stiles, levando uma mão ao peito.

Scott apenas revirou os olhos.

— Só queria saber se você falou com sua avó... e o que devemos fazer em relação aos Hales.

Stiles soltou um suspiro e deu um meio sorriso.

— Conversei com ela, sim. E, surpreendentemente, ela deixou a decisão por minha conta.

Scott arqueou as sobrancelhas.

— Sério?

— Pois é. Acho que ela sabia que, com ou sem a aprovação dela, eu faria o que bem entendesse. — deu de ombros, despreocupado.

— Isso é bem verdade... — Scott riu, cruzando os braços. — Mas e então? O que você decidiu?

Os dois continuaram andando pela estrada de terra, afastando-se cada vez mais da mansão, o sol projetando sombras longas à sua frente.

— Ora, óbvio que vou atrás de respostas. — disse Stiles, com determinação. — O que significa que vou até a sede da família Hale. Que, aliás, eu nem sei se é uma mansão ou uma caverna obscura infestada de lobos gigantes. Mas não importa. Eu quero saber mais.

— E quando vamos?

Stiles parou no meio do caminho e olhou para Scott, desconfiado.

— "Vamos"?

— Stiles, você não vai entrar sozinho no território dos Hales! — frisou Scott com veemência.

— Bem, tecnicamente, eles são nossos aliados... — lembrou Stiles, como se tentasse convencer a si mesmo.

— Grandes aliados eles estão sendo até agora... — resmungou Scott.

Stiles abriu a boca para rebater, mas foi interrompido por uma voz chamando à distância:

— Oh! Jovem mestre!

Os dois se viraram para a bifurcação da estrada e avistaram uma carroça puxada por uma mula. No topo do veículo, um homem pequeno e robusto, de cabelos grisalhos e barba malfeita, acenava animadamente. Seu sorriso era largo, revelando várias lacunas onde antes estiveram dentes.

— Senhor Smith! Bom vê-lo! — saudou Stiles, se aproximando.

Smith soltou uma risada esganiçada, segurando as rédeas da mula com uma das mãos.

— Bom vê-lo também, jovem mestre! — exclamou. — Vim direto da pedreira. Encontramos mais um daqueles cristais esquisitos que você tanto gosta.

Os olhos de Stiles se iluminaram com excitação.

A pedreira dos Stilinski era uma das atividades secundárias da propriedade, focada principalmente na extração de mármore para venda na vila e em outras localidades. Ela ficava ao oeste da propriedade, nas encostas da Montanha Cinzenta. Durante anos, a mineração fora considerada de pouca importância para a casa Stilinski, sendo apenas um complemento à agricultura e à pecuária. Mas Stiles, com seu interesse peculiar pela arcanomecânica, via a pedreira de outra forma.

Isso porque, ocasionalmente, cristais arcanomecânicos eram descobertos entre as rochas escavadas. E muitos desses cristais, que passavam despercebidos pelos trabalhadores ou eram simplesmente descartados, eram verdadeiros tesouros para ele.

— Me mostre! — pediu Stiles, já subindo na carroça enquanto Smith apontava para a carga.

Com um salto ágil, ele se pendurou na lateral de madeira do veículo e vislumbrou um saco cheio de fragmentos de pedras brutas, reluzindo sob a luz do fim da tarde. Cristais brutos se encontravam incrustados entre os escombros, como pequenas joias esquecidas no meio dos destroços.

Infelizmente, Noah Stilinski nunca deu muita importância a essas descobertas. As outras casas nobres, por outro lado, já haviam começado a investir pesadamente na mineração desses cristais, cientes do potencial crescente da arcanomecânica. O comércio desse novo recurso estava se expandindo rapidamente, especialmente na capital, Solméria. Entretanto, a maioria da população de Beacon Hills — e até mesmo de boa parte do reino de Caeloria — ainda via a arcanomecânica como uma curiosidade científica, sem se dar conta do seu verdadeiro potencial.

Mas Stiles não se importava com o mercado ou com a política das casas nobres. Ele queria entender, explorar, descobrir.

— Obrigado, senhor Smith! — disse ele, tentando puxar o saco para fora da carroça.

Scott, sempre mais prático e visivelmente mais forte, levantou o peso sem esforço, lançando um olhar exasperado para o amigo.

— Não há de quê, jovem mestre. — disse Smith, soltando mais uma de suas risadas roucas. — Se quiser visitar a pedreira, fique à vontade... Tem muitas dessas coisas por lá.

— Ótimo! Perfeito! — Stiles assentiu animado, quase vibrando.

O servo acenou uma despedida, incitando a mula a seguir caminho. Stiles retribuiu o aceno com entusiasmo.

Scott observou o saco de pedras com uma expressão de puro desdém.

— Mais pedras? — perguntou ele, arqueando uma sobrancelha enquanto equilibrava a carga nos ombros.

— Mais cristais, você quer dizer. — corrigiu Stiles, um sorriso satisfeito nos lábios. — E o melhor de tudo? Agora mesmo eu estava indo para o meu laboratório!

Ele apontou para o fim da estrada, onde um barracão de madeira se erguia no meio de um pequeno bosque de árvores baixas. Era um espaço improvisado, construído por Stiles com a ajuda de alguns servos e, claro, muita insistência.

— E quanto aos Hales? — questionou Scott, tentando trazer o amigo de volta ao assunto mais sério.

Stiles, já avançando pela estrada, respondeu sem diminuir o passo:

— Minha avó sugeriu que esperássemos os Hales se comunicarem primeiro... O problema é que eu não faço ideia de como eles vão fazer isso.

Scott franziu o cenho.

— Nunca vi um mensageiro sair daquela floresta nesses anos...

— Pois é! Mas, na reunião dos Arcanum, mencionaram que enviaram mensagens para os Hales. Então, presumo que haja um meio de comunicação com eles.

— Você acha que eles vão responder?

— Se não responderem... Bem, amanhã podemos explorar a floresta.

Scott parou abruptamente.

— Explorar a floresta dos lobos? — repetiu ele, tentando parecer indiferente, mas lançando um olhar inquieto para o leste, onde a Floresta Sombria se erguia como um muro de sombras e mistério.

Stiles deu um tapinha animado no ombro do amigo.

— Relaxa, McCall! Vai ser divertido!

Scott resmungou algo inaudível, mas não teve tempo de argumentar mais, pois Stiles já havia chegado ao barracão e escancarado a porta.

O interior do laboratório era um caos controlado. Prateleiras abarrotadas de livros, máquinas desmontadas, caixas de ferramentas, parafusos espalhados e engrenagens empilhadas disputavam espaço com papéis rabiscados com esquemas de invenções. O cheiro de óleo e metal se misturava ao aroma suave das flores silvestres que cresciam nos pequenos espaços entre as tábuas do piso.

Antes que pudesse dar um passo para dentro, um ganido agudo ecoou pelo ambiente.

Do meio da bagunça, uma pequena raposa de pelagem alaranjada saltou para fora e correu diretamente até os pés de Stiles.

— Olá, Kit! Como vai? Guardou bem os meus experimentos? — perguntou ele, abaixando-se para acariciar o animal.

A raposa, visivelmente satisfeita com a atenção, emitiu um estranho ronronar, antes de soltar um latido curto e incisivo em direção a Scott.

— Ele não gosta de mim! — reclamou Scott, lançando um olhar desconfiado para a pequena raposa, que, por sua vez, rosnou baixinho em resposta.

— Não seja bobo... Kit só é meio territorialista— Stiles disse, pegando Kit no colo e acariciando-lhe a cabeça. O animal, no entanto, manteve seu olhar atento e desconfiado sobre Scott, que, resmungando algo inaudível, apenas se apressou em colocar o pesado saco de cristais sobre a bancada de madeira.

— "Meio" territorialista, é? — McCall resmungou. — Ainda tenho a marca da última mordida para provar o contrário.

Stiles soltou um riso curto, lançando um olhar travesso para o amigo.

— O grande Scott McCall está com medo de uma raposa?

— Não estou com medo. Só tenho bom senso.

— Pelo visto, Kit não cai de amores por você como os cavalos...

Scott apenas deu de ombros, sem se dar ao trabalho de responder. Ele apontou para Stiles, apenas para receber outro latido fino e provocador de Kit.

— Muito bem, faça suas experiências... — gesticulou Scott, apontando para o saco de cristais. — Eu vou organizar os mantimentos para amanhã, além de preparar os cavalos, já que você insiste nessa ideia maluca de "explorarmos" a floresta dos Hales...

— "Explorarmos", Scott? — Stiles arqueou uma sobrancelha. — Achei que eu estivesse indo sozinho...

— Nem nos seus piores devaneios. — Scott cruzou os braços, assumindo um tom mais sério. — E acorde cedo, sim? Precisamos sair ao amanhecer para aproveitar a luz do dia. Aquela floresta já é sombria o suficiente de manhã, não quero nem imaginar o que pode acontecer à noite. Nada de enrolar!

Stiles soltou um suspiro teatral, observando Scott já se distanciar em direção à porta do laboratório.

— Me lembre, Kit... — murmurou, fitando a raposa. — Quem é o servo e quem é o senhor nessa história?

Kit apenas soltou um latido curto, quase risonho, como se estivesse se divertindo com a cena.

Stiles sorriu de canto, abaixando-se para deixá-lo no chão. Em seguida, voltou sua atenção para o verdadeiro motivo de estar ali: os cristais.

***

Ele não soube dizer exatamente quando percebeu que a luz do sol já se fora. Talvez tenha sido quando precisou forçar os olhos para distinguir as linhas do livro e as ilustrações. Ou quando se viu trazendo o cristal tão próximo ao rosto que quase o encostava à pele, tentando analisar suas propriedades organolépticas—características dos materiais que podem ser percebidas pelos sentidos humanos.

Os cristais arcanomecânicos ainda não haviam sido totalmente catalogados. A pesquisa sobre eles continuava, lenta e meticulosa, dificultada pelo fato de alguns minerais serem incrivelmente semelhantes entre si em cor, textura e peso.

Stiles acendeu uma lamparina de óleo próxima, mas, insatisfeito com a pouca iluminação, pegou um de seus dispositivos experimentais—uma esfera metálica com uma base trabalhada. Pegou um Luminis, um cristal que emitia luz ténue, recém-lapidado, e o encaixou no compartimento inferior da engenhoca. Com um simples toque no interruptor lateral, a luz se fez, mais forte que a de qualquer lamparina, embora ainda tremulante.

"Preciso calibrar isso depois", pensou, percebendo a oscilação da luminosidade. Mas, por enquanto, havia um mistério mais interessante a resolver.

Ele estava pesando um cristal peculiar na balança, franzindo o cenho. O mineral parecia denso, mas, paradoxalmente, leve ao toque. Algo nele não se encaixava nos padrões conhecidos.

Consultou suas anotações e a lista de cristais e suas propriedades que obtivera da capital. Provavelmente já estava desatualizada, considerando a velocidade das descobertas, mas ainda servia como um guia confiável. Ele mesmo adicionava suas próprias observações à margem, sonhando com o dia em que faria sua própria grande descoberta.

Mas esse dia ainda não chegara. Ou talvez estivesse prestes a chegar.

— Quem é você? — murmurou para o cristal, como se ele pudesse responder.

No mesmo instante, sentiu uma leve pulsação.

Stiles piscou. Sacudiu a cabeça. "Foi só impressão minha."

Kit, a raposa, soltou um latido baixo e agudo.

— Ele se parece com um Oricalco, Kit... — comentou Stiles, pegando um segundo cristal, um que havia encomendado da capital.

O Oricalco, conhecido como Véu da Gravidade, era um mineral valioso. Tinha a propriedade de manipular peso e força gravitacional, permitindo que objetos levitassem. Stiles estava ansioso para finalmente ter mais de um em mãos—poderia criar tantas invenções com mais desse cristal disponível!

Aproximou o Oricalco do novo cristal que retirara da pedreira e os comparou sob a luz.

Novamente, a pulsação.

Desta vez, Stiles teve certeza de que não era ilusão. Nem um jogo de sombras. Nem exaustão.

Kit soltou outro latido.

— Eu não sei não, Kit... Acho que isso pode não ser um Oricalco. — murmurou, colocando o cristal misterioso sobre a bancada.

Talvez fosse hora de testar.

Os cristais arcanomecânicos, por si só, eram inertes—suas propriedades só se ativavam com atrito, impacto ou o uso direcionado de Arkanis. Stiles respirou fundo, pegando o pequeno martelo que usava para lapidar pedras.

Kit soltou um ganido de advertência.

— Não se preocupe, Kit... — tranquilizou Stiles. — Isso não vai ser perigoso. Só uma pequena batidinha. Assim saberemos se é um Oricalco ou não!

— Perigoso? Como uma pedra pode ser perigosa?

A voz veio de muito perto. Perto demais.

Não era a voz de Scott, que poderia ter voltado para irritá-lo ou arrastá-lo para a mansão antes do jantar.

Não.

Alguém mais estava ali.

Stiles se sobressaltou. O susto foi tão grande que o martelo escorregou de sua mão, caindo exatamente sobre o cristal desconhecido.

E foi assim que a confusão começou.

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