Capítulo 5



O sol já havia se posto, e uma manta azul-escura parecia ter sido cuidadosamente estendida sobre o céu, escurecendo gradualmente à medida que a noite se aprofundava. O brilho das estrelas começava a pontuar o tecido celestial, escapando pelas brechas invisíveis, enquanto a meia-lua pairava acima, oferecendo uma luz tênue que pouco iluminava os viajantes.

Ao cruzar novamente a sombria floresta dos Hales no caminho de volta, Stiles sentiu algo diferente. Onde antes o medo e a apreensão o haviam dominado, agora havia uma curiosidade inquieta, quase ansiosa. Seus olhos espiavam entre as sombras das árvores, como se buscassem vislumbrar um par de olhos atentos os vigiando, uma resposta silenciosa à oferta de Peter Hale.

Ele se lembrou das palavras de Peter, gesticulando casualmente no salão oval da Casa dos Arcanum:

— Bem, de fato não podemos falar sobre isso aqui... — dissera o Hale, como se compartilhasse um segredo íntimo. — Não é seguro, sabe? Muitos olhos e, principalmente, muitos ouvidos. Mas, se realmente estiver interessado, venha até a Mansão Hale. Podemos tomar um chá e... papear.

"Papear." Tomar chá e papear. Tudo aquilo soava desconcertante. Casual demais para uma família que vivia reclusa no coração de uma floresta sombria. E como ele chegaria a tal mansão? Além do caminho principal que costumava cruzar para evitar problemas, Stiles não tinha notado nenhuma outra trilha. "Será que teria que se aventurar pela floresta sozinho?" Pensar na possibilidade fazia com que um arrepio percorresse sua espinha.

Mas essas preocupações precisavam ser deixadas para trás, pelo menos por enquanto. Quando saíram da floresta e alcançaram as vastas colinas cobertas por grama alta, Stiles sentiu algo familiar e reconfortante à medida que se aproximavam das terras dos Stilinski. O som rítmico dos cascos dos cavalos e o ranger da carruagem que transportava seu avô e seu tio anunciavam a proximidade da casa que ele conhecia tão bem.

E então ela surgiu: a imponente Mansão Stilinski, situada no topo de uma colina, envolta por árvores baixas e moitas de flores silvestres que, àquela hora, estavam fechadas em seu sono noturno. A construção era uma mescla fascinante de história e inovação, como se refletisse o espírito da própria família.

Construída há mais de cem anos, a mansão unia o antigo e o novo em perfeita harmonia. As fortificações de pedra, robustas e austeras, davam uma sensação de segurança, enquanto os tijolos em tons alaranjados traziam um toque caloroso, quase acolhedor. As janelas, amplas e envidraçadas, brilhavam com a luz bruxuleante de candelabros no interior, como olhos atentos que vigiavam a noite.

Dois andares principais, mais um terceiro andar reservado para a família e seus momentos mais íntimos, erguiam-se orgulhosamente sob um telhado de telhas negras. Duas torres de castelo flanqueavam os lados da mansão, elevando-se como guardiãs de um passado glorioso, enquanto as heras verdes se espalhavam pela fachada, abraçando as paredes de pedra com um charme rústico.

Diante da entrada principal, uma ampla escadaria de pedra conduzia até a grande porta de carvalho escuro, adornada com entalhes elaborados representando folhas de carvalho e pequenos símbolos arcanos, uma homenagem discreta ao poder ancestral da casa. Ao lado da escadaria, sentinelas silenciosas guardavam a entrada: duas estátuas de raposas esculpidas em mármore branco, suas expressões atentas e elegantes, como se vigiassem cada visitante que ousasse cruzar seu olhar.

Enquanto os cavalos diminuíam o passo e a carruagem parava suavemente diante da entrada da Mansão Stilinski, Stiles sentiu uma mistura de alívio e inquietação crescendo dentro de si. Ele sabia exatamente quem estaria ali para recebê-los, e o pensamento não lhe trazia conforto.

Descendo do cavalo, Stiles hesitou por um momento, olhando na direção do estábulo. Scott, com sua habitual paciência, pareceu captar a intenção de seu amigo antes mesmo de ele falar.

— Eu cuido dos cavalos sozinho, — disse Scott com um meio sorriso.

— Mas você pode precisar de ajuda, — insistiu Stiles, na vã esperança de evitar o inevitável.

— Tenho certeza de que sua avó não vai gostar nem um pouco se você atrasar ainda mais para o jantar... já que perdeu o almoço e tudo mais, — respondeu Scott, afastando-se com os cavalos e deixando Stiles parado, pensativo, com uma expressão de quem calculava as chances de sobrevivência.

— Ei, Stiles, me ajude aqui! — a voz de Bartosz chamou sua atenção. Ele estava ao lado da carruagem, onde a cocheira — uma mulher de meia-idade, corpulenta e de cabelos ruivos presos em um coque apertado — ajudava um sonolento Kazimierz a descer. Bartosz, por sua vez, lutava para equilibrar pacotes e sacos cheios de guloseimas, claramente planejados como oferendas para a matriarca.

Stiles apressou-se para pegar parte da carga, notando o olhar exausto de seu tio.

— Preparado? — perguntou Bartosz, embora o tom de sua voz fizesse parecer mais uma pergunta retórica.

Sem responder, Stiles seguiu pelo caminho de cascalho em direção à mansão, acompanhado pelo tio e pelo avô, guiados pela cocheira. O som dos grilos no campo e o piar distante de aves noturnas traziam um contraste quase irônico com o peso da tensão que pairava sobre eles. As lâmpadas dispostas ao longo da entrada projetavam uma luz bruxuleante, fazendo as sombras dançarem nas paredes externas da mansão. Por um breve momento, Stiles ousou acreditar que sua avó talvez sequer tivesse notado a ausência deles. Talvez.

Essa ilusão foi rapidamente destruída.

Antes que pudessem tocar a grande porta de carvalho esculpida, ela se abriu, revelando um espetáculo que fez Stiles recuar involuntariamente.

O que deveria ser o hall de entrada da mansão parecia ter desaparecido, transformando-se no interior de um vulcão em plena atividade. Sob seus pés, uma ilha de pedra negra flutuava sobre um lago de lava borbulhante que se estendia por toda a sala. O calor era quase palpável, fazendo o suor escorrer imediatamente pela testa de Stiles.

— Bem, acho que mamãe está... irritada, — comentou Bartosz, com um suspiro resignado.

Uma rajada quente varreu o grupo, como uma onda de calor, acompanhada por uma voz firme e cortante:

— Irritada, meu querido filho? Isso é pouco.

Eles olharam para o outro lado do lago. Sobre uma elevação de pedras incandescentes, uma figura imponente surgiu, descendo uma escadaria que parecia se moldar a partir das rochas brilhantes. Halina Stilinski avançava com uma majestade que era ao mesmo tempo impressionante e aterrorizante.

O vestido que usava parecia feito de puro fogo, as chamas dançando ao redor de sua figura sem consumir o tecido. Seus cabelos brancos caiam em ondas livres, mas ainda exibiam algumas mechas negras que resistiam ao tempo, como vestígios de uma juventude que nunca a abandonara completamente. Seus olhos eram escuros, penetrantes, e brilhavam com uma intensidade que parecia revelar todos os segredos de quem ousasse encará-los. Sua pele alva refletia a luz das chamas, dando a ela uma aura quase sobrenatural, como se fosse menos humana e mais uma entidade moldada pelo fogo.

— Olá, vovó, — cumprimentou Stiles, forçando um sorriso. — Que... bela recepção a senhora nos deu, não?

Sua voz soou por cima do som borbulhante e fervilhante da lava, que parecia se mover como um mar vivo ao redor da ilha onde estavam.

Halina arqueou uma sobrancelha com uma mistura de desaprovação e divertimento.

— Mieczysław, sarcasmo? Agora? Realmente acredita que este é o momento adequado para isso?

Ela desceu os últimos degraus, e a lava ao redor pareceu responder à sua presença, subindo ligeiramente como ondas inquietas, ameaçando a pequena ilha onde o grupo estava. Kazimierz, indiferente ao caos ao redor, parecia entediado, como se já tivesse visto esse espetáculo muitas vezes antes.

— N-não... Digo, desculpe, vovó, — respondeu Stiles, tentando não demonstrar o pânico crescente que o calor e a cena despertavam em seu corpo.

Ele sabia que tudo aquilo era uma ilusão — um truque habilidoso da Arkanis da Casa Stilinski. O poder de criar ilusões tão vívidas que confundiam os sentidos e manipulavam a percepção era uma marca registrada de sua família. Mas saber disso não ajudava. Seus olhos viam o fogo, sua pele sentia o calor, e sua mente gritava que aquilo era real.

Seu coração batia rápido, e ele teve que lutar contra o impulso de recuar. "Não é real," ele repetiu para si mesmo. "Não é real."

Halina, no entanto, parecia divertir-se com a tensão no rosto do neto, enquanto um leve sorriso curvava seus lábios.

— Espero que tenha uma explicação muito boa para tudo isso, Mieczysław. E algo me diz que as guloseimas que trouxe não serão suficientes.

— E nós temos, — disse Stiles com um olhar rápido para o tio, esperando que ele tomasse a iniciativa e explicasse a situação. Mas Bartosz, em vez disso, lançou um olhar suplicante, quase infantil, como se implorasse ao sobrinho que assumisse a responsabilidade. Stiles revirou os olhos com exasperação.

— E nós temos, — repetiu ele, agora mais firme. — Houve um problema, e ele foi resolvido. Não precisa se preocupar.

Halina inclinou levemente a cabeça, as chamas ao redor dela parecendo reagir ao seu humor, oscilando e crepitando com mais intensidade.

— Uma explicação sucinta. Pensei que você fosse mais eloquente, meu neto, — comentou Halina indo em direção a eles. A lava ao redor agora borbulhava violentamente, e o calor parecia aumentar a cada passo que ela dava.

— Que problema? E como exatamente ele foi "sanado"? — frisou ela, e, naquele momento, o chão sob seus pés pareceu tremer, como se um terremoto estivesse se formando sob a ilha de pedra negra onde o grupo estava.

Stiles pigarreou, tentando manter a compostura enquanto repetia para si mesmo: "Não é real, não é real."

— Bem... — começou ele, escolhendo as palavras com cuidado. — Tio Bartosz estava tentando fazer um acordo com os membros das outras casas nobres de Beacon Hills, para evitar que eles, como os abutres que são, prejudicassem ainda mais a nossa casa na ausência do meu pai. O acordo, no entanto, sequer foi assinado. Apesar das boas intenções do meu tio, os Stilinski não devem baixar a cabeça ou entregar partes de nossas terras para alimentar esses carniceiros.

Halina estreitou os olhos, e por um momento o ambiente pareceu ficar ainda mais sufocante. Ela então voltou sua atenção para Bartosz, que estava escondendo o rosto atrás de uma pilha de mantimentos, como se pudesse escapar do julgamento da mãe.

— Entendo que nossa situação é delicada, meu querido Bartosz, — começou ela, a voz grave e cortante como lâminas. — Mas isso não significa que devemos nos desesperar ou agir como tolos. Se estava tão preocupado, deveria ter requisitado meus conselhos antes de se lançar à cova dos leões. Essa atitude foi deplorável, meu filho.

— Desculpe, mamãe, — murmurou Bartosz, parecendo uma criança de dez anos sendo repreendida, apesar de já estar próximo dos quarenta.

Halina, no entanto, não parecia satisfeita. Seus olhos escuros se voltaram para Stiles, que tentou manter o olhar firme, mesmo sentindo o peso da desaprovação dela.

— E você, meu neto? Nem mesmo achou prudente pedir minha opinião antes de sair correndo para resgatar seu tio e avô?

Stiles endireitou os ombros, determinado a manter sua posição.

— Eu tive que agir, vovó. A situação não dava tempo para uma audiência formal. Precisei intervir.

Halina ergueu uma sobrancelha de forma quase imperceptível, mas o suficiente para transmitir o quanto estava insatisfeita com a resposta.

— Agir? E como exatamente agiu, Mieczysław, diante dos chefes das casas nobres?

O tom dela deixou claro o que estava subentendido. Ela não estava perguntando sobre as palavras que ele usara, mas questionando como ele, um inerte, havia ousado se colocar diante de nobres dotados de Arkanis. Era sempre assim. Apesar de toda a sua sabedoria e força, Halina parecia acreditar que Stiles precisava de uma redoma de vidro para protegê-lo do mundo.

Essa postura sempre irritara Stiles. Ele inspirou fundo antes de responder.

— Usando da sagacidade, vovó, — disse ele, com um meio sorriso desafiador. — Esse ainda é o nosso lema, não é?

Halina estreitou os olhos, e uma onda de calor pareceu varrer o espaço ao redor.

— Isso seria sarcasmo, Mieczysław?

— N-não... ou talvez sim... Mas a questão é que eu agi! Mesmo sem poderes, eu fiz o que era necessário.

— Tivemos a ajuda dos Hale, claro, — interveio Bartosz rapidamente, tentando atenuar a situação.

Stiles lançou um olhar irritado para o tio. Ele preferia não mencionar os Hale, não por falta de gratidão, mas porque queria que sua própria contribuição fosse reconhecida. Ainda assim, não podia negar a verdade: sem a intervenção de Peter Hale, o desastre teria sido inevitável.

Halina franziu a testa, ponderando as palavras de Bartosz. O ambiente ao redor pareceu estabilizar-se gradualmente, com as ondas de lava perdendo sua intensidade ameaçadora, transformando-se em meros ecos do poder que ela controlava com tanta maestria.

— Os Hale? — repetiu ela, lentamente, com um tom de curiosidade velada. — Isso é curioso. Muito curioso...

— Sim, os Hale nos ajudaram, — admitiu Stiles, embora sua voz carregasse um leve tom de relutância. — Aliás, Peter Hale insinuou que a ajuda deles tinha algo a ver com meu pai...

Ao ouvir isso, o ambiente mudou abruptamente. A ilusão do vulcão desapareceu, dissolvendo-se como névoa ao vento. Em seu lugar, o hall de entrada da mansão Stilinski reapareceu, com sua atmosfera aconchegante e um contraste marcante com o calor sufocante de segundos atrás. A escadaria de madeira polida se erguia no centro, ladeada por papéis de parede com delicados padrões florais. Quadros com paisagens pastorais adornavam as paredes, e mesas dispostas com vasos de flores frescas completavam o ambiente.

A brisa fresca da noite, vinda das janelas parcialmente abertas, agora aliviava o suor acumulado na testa de Stiles, trazendo-lhe uma sensação de normalidade que parecia quase surreal depois do espetáculo anterior.

Halina, por sua vez, voltou a olhar para o neto e, em seguida, para Bartosz, os olhos arregalados como se algo muito significativo estivesse se formando em sua mente. Sua aparência havia mudado junto com o cenário: o vestido de chamas dera lugar a uma peça elegante em tons de laranja suave, perfeito para a noite, fluido e fresco, mas ainda carregado de uma aura de autoridade inquestionável.

— Ele mencionou Noah? — questionou ela, sua voz agora mais baixa, quase um sussurro.

Antes que Stiles pudesse responder, Halina continuou, e o que ela disse a seguir o pegou completamente desprevenido:

— Bem, já era hora de os Hale honrarem nossa aliança... aqueles lobos pulguentos.

Stiles lançou um olhar de relance para Bartosz, que parecia tão surpreso quanto ele.

— Então... Peter Hale estava dizendo a verdade? Nossas casas são mesmo aliadas? — perguntou Stiles, tentando manter o tom firme enquanto lutava para conter a indignação crescente por nunca ter sido informado disso antes.

O som grave das badaladas do antigo relógio de madeira, posicionado discretamente em um canto do hall, ecoou pelo ambiente, marcando a hora tardia.

— Oh! Veja a hora! Já está tão tarde assim? — Halina exclamou, aparentemente irritada. Então, rapidamente, ela mudou de assunto com a naturalidade de quem está acostumada a desviar discussões indesejadas. — O jantar precisa ser servido!

Nesse instante, os servos começaram a entrar apressados, suas mãos estendidas para pegar as sacolas e pacotes que Stiles e Bartosz carregavam.

— Espere, vovó! Sobre os Hale... — Stiles tentou insistir, mas Halina ergueu a mão em um gesto firme que não permitia réplica.

— Primeiro o jantar, Mieczysław! — declarou ela, com uma firmeza que fez até Bartosz endireitar a postura. — Este dia já foi desastroso o suficiente, mas o jantar... o jantar será salvo!

Ela parecia genuinamente animada com a perspectiva de restaurar alguma normalidade ao caos do dia, ignorando completamente a ansiedade e a curiosidade no rosto do neto. Sem dar chance para mais questionamentos, Halina virou-se e seguiu na direção da sala de jantar, deixando Stiles para trás, frustrado, enquanto Bartosz suspirava em alívio, grato pelo adiamento de qualquer outra discussão.

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