Capítulo 4
A feira estava no auge, uma explosão de cheiros, sons e cores que tomava conta da praça central de Beacon Hills. O aroma das especiarias misturava-se ao de frutas frescas, pão recém-saído do forno e bebidas aromáticas, enquanto, ao fundo, um grupo de saltimbancos animava o público com uma apresentação vibrante. Um violinista dedilhava notas animadas, acompanhado por um flautista, enquanto uma jovem impressionava as crianças com suas acrobacias e malabarismos.
A cidade parecia respirar energia e alegria, cada canto repleto de vozes, risos e conversas animadas. Mas, para Stiles, toda essa atmosfera de celebração não passava de um pano de fundo difuso. Ele estava parado diante de uma barraca de doces, a vendedora sorridente oferecendo biscoitos e confeitos variados, mas sua mente vagava inquieta, revisitando as palavras de Peter Hale.
— Eu não acredito que eles nos deixaram de mãos vazias... digo, literalmente! — reclamava Bartosz, segurando firmemente o braço de Kazimierz, que parecia mais interessado nos artistas do que na conversa. O idoso tinha um brilho curioso nos olhos, e Stiles podia jurar que o avô estava considerando fazer algum de seus truques de sombras ali mesmo, algo que provavelmente causaria mais confusão (ou pânico) do que fascínio.
— Como aquele Peter diz que vai nos falar algo sobre meu irmão, apenas para anunciar que só fará isso na mansão Hale? Isso não faz o menor sentido! — Bartosz continuava, gesticulando exageradamente com a mão livre, a indignação claramente estampada em sua voz.
— Se isso te incomodou tanto, devia ter dito a ele diretamente, senhor Stilinski, — sugeriu Scott, com um meio sorriso provocador, enquanto segurava Kazimierz pelo outro braço, dividindo a responsabilidade de manter o idoso sob controle.
Bartosz lançou um olhar irritado para o jovem servo, claramente prestes a responder com mais um de seus resmungos indignados, mas foi interrompido por Stiles.
— Bem, nesse ponto devo concordar com você, tio. Peter soltou a isca, e agora quer ver se mordemos, — comentou Stiles, distraído enquanto analisava biscoitos moldados no formato dos brasões das casas nobres da região. O de raposa, representando sua família, parecia ter sido feito com massa de cenoura.
— E o que faremos? Obviamente, não vamos morder essa isca, não é mesmo? — perguntou Bartosz, com um tom que parecia buscar aprovação.
Stiles ergueu uma sobrancelha, um sorriso ácido brincando em seus lábios.
— Oh, agora quer saber minha opinião, tio Bart? Pensei que você já tivesse pulado para outra tentativa de acordo com alguma casa nobre, sem sequer consultar ninguém... — Ele apontou o biscoito de raposa para Bartosz como se fosse uma acusação literal.
— Stiles... bem... — Bartosz pigarreou, visivelmente desconfortável. — Eu não fiz isso por mal! Precisávamos fazer algo! Seu pai está fora há um ano! Os contratos comerciais precisam da assinatura dele e... meu pai nem sempre está disposto a assinar documentos. Na verdade, as outras casas começaram a espalhar rumores...
— Que rumores? — Stiles perguntou, franzindo o cenho, embora já imaginasse a resposta.
— De que não deviam mais confiar nos Stilinski para negócios. Que uma casa sem seu duque não é uma casa confiável. Nossos parceiros comerciais começaram a nos ignorar, e as contas... bem, elas estão se acumulando.
Stiles apertou os lábios, o biscoito de raposa esquecido em sua mão enquanto processava as palavras do tio. Ele sabia que as coisas não estavam bem — as economias drásticas de sua avó já indicavam isso há meses. Mas ouvir o problema descrito com tanta clareza fez um nó se formar em seu estômago.
— E a solução seria sugerir que vendêssemos nossas terras? — inquiriu Stiles, sua voz carregada de indignação controlada.
Bartosz desviou o olhar, claramente envergonhado.
Stiles respirou fundo, tentando controlar a ansiedade que crescia dentro de si como uma maré incessante. Ele sabia que a ausência de seu pai era a principal razão para a crise em que a Casa Stilinski se encontrava, mas a ideia de vender partes de seu território — o alicerce do legado dos Stilinski — era algo que ele simplesmente não podia aceitar.
— Se as coisas estão assim tão ruins, por que não me contou antes? — disse Stiles, a voz carregada de frustração.
Bartosz bufou, desviando os olhos como se buscasse paciência.
— Eu sou seu tio, Stiles. Pode me criticar o quanto quiser, mas ainda sou responsável por você, e, até a próxima semana, você ainda é menor de idade. Seu pai nos deixou essa responsabilidade — a mim e à sua avó — de remediar as coisas. Afinal, meu pai, na condição em que está... bem, sabemos que ele não poderia realmente fazer isso.
Bartosz hesitou, claramente incerto se deveria continuar, mas finalmente suspirou e prosseguiu:
— Sei que sou inerte, mas, no fim das contas, ainda sou homem. E, neste reino, mesmo um homem sem Arkanis é visto com mais respeito do que mulheres com magia. Então, assumi esse papel: ajudar meu pai, negociar com os outros nobres... fazer o que é preciso. Sei que as terras são importantes, mas vender uma parte delas seria uma forma de comprar tempo. Não iríamos vender tudo!
— Comprar tempo até meu pai voltar, — completou Stiles, olhando de relance para o tio. Seus olhos brilharam com uma mistura de incredulidade e curiosidade. — Então, você realmente acha que o duque Noah Stilinski ainda está vivo?
Bartosz pareceu surpreso com a pergunta, mas logo sua expressão endureceu, carregada de uma confiança que Stiles achou difícil de compartilhar.
— E você não acha? Meu irmão não é fraco, Stiles. Sabe como nossa mãe é poderosa, e até mesmo Zofia já demonstra habilidades impressionantes. Não tenho dúvidas de que ele está bem.
Stiles apertou os lábios, processando as palavras. Ele queria acreditar nisso, queria desesperadamente, mas o silêncio prolongado sobre o paradeiro de seu pai era um peso que ele carregava diariamente. Ainda assim, se havia uma chance de descobrir algo...
— Então, devemos morder a isca, — murmurou Stiles, mais para si mesmo do que para os outros.
Se aquilo era uma oportunidade de ter notícias de seu pai, ele precisava aproveitá-la. O duque não teria os deixado à mercê das intrigas sem um plano. Não podia ter feito isso.
— O senhor Hale nos deu tempo para pensar, — interveio Scott, com a voz sempre calma e prática. — Podemos usar esse tempo a nosso favor.
— Sinto como se os lobos estivessem brincando conosco, como um predador faz com sua presa antes do golpe final, — resmungou Bartosz, com uma expressão amarga.
Stiles virou-se para ele com um sorriso cheio de astúcia.
— Mas não somos qualquer presa, tio. Somos raposas. E o lobo nunca deve subestimar a sagacidade de uma raposa Stilinski.
Bartosz suspirou, passando a mão pelo rosto. Ele parecia exausto, tanto física quanto emocionalmente.
— E o que estamos fazendo aqui, afinal? — perguntou ele, apontando para a feira, para a barraca e para toda a confusão em torno deles.
Stiles, nesse momento, já havia comprado uma quantidade considerável de biscoitos em forma de raposa e estava se aproximando de uma barraca que vendia docinhos de frutas envoltos em açúcar colorido.
— O que estamos fazendo? — repetiu Stiles, parando para pegar um espeto de frutas açucaradas. — Tio, mesmo com as melhores intenções, você cometeu uma grande afronta à família. E, bem, eu também. Você, por não ter contado à vovó sobre esse seu plano brilhante — tenho certeza absoluta de que ela não concordaria. E eu, por ter faltado ao almoço.
Ele fez uma pausa dramática, apontando o espeto de frutas na direção de Bartosz como se fosse um veredito.
— Na verdade, tio, você está em uma situação muito pior do que eu. Além de não ter contado nada à vovó, você também faltou ao almoço. E sabe como ela é meticulosa quanto às refeições em família...
Bartosz ergueu as sobrancelhas, depois deixou escapar um sorriso nervoso.
— Devemos levar algo mais substancial... Mamãe sempre gostou de algo defumado ou frito, não é? Olhe ali! Tem uma barraca vendendo salsichas. Devemos comprar pelo menos umas dez!
Stiles quase riu. Pelo visto, a crise financeira da Casa Stilinski poderia esperar. O dilema mais urgente agora era garantir uma boa dose de guloseimas para a temida matriarca.
Ele mal teve tempo de processar a ideia antes de ouvir seu nome sendo chamado.
— Stiles!
Virou-se na direção da voz e ficou surpreso ao ver Allison Argent correndo em sua direção. Os cabelos negros da jovem estavam um pouco desalinhados, e ela parecia ofegante, como se tivesse atravessado metade da cidade. Stiles olhou ao redor, esperando ver algum outro Argent por perto, mas, para sua surpresa, ela estava sozinha.
— Allison! — Scott exclamou, preocupado, enquanto dava um passo à frente. — Está tudo bem?
Scott, sendo servo, deveria ter se dirigido a ela como "senhorita Argent" ou algo igualmente formal, mas, claro, ele não parecia se importar com essas convenções. Bartosz rolou os olhos ao notar a informalidade, mas parecia cansado demais para repreender Scott sobre como ele deveria se dirigir a uma nobre.
— Eu... — Allison hesitou, as bochechas ganhando um tom rosado enquanto evitava olhar diretamente para Scott. Por fim, voltou-se para Stiles. — Eu que deveria perguntar isso a vocês. Soube do ocorrido. Quero dizer, parte dele. A reunião e... os Hale.
— A fofoca já começou a circular, então? — Bartosz comentou, com um tom cansado, mas sem surpresa.
— Você não estava no salão quando saímos, — lembrou Stiles, erguendo uma sobrancelha.
— Pois é. Fui expulsa depois daquele... espirro, — respondeu ela, com um sorriso ligeiramente orgulhoso.
— Mas você está bem? — insistiu Scott, sua preocupação evidente.
Stiles rolou os olhos discretamente. Scott era incapaz de esconder o quanto gostava de Allison. Era uma combinação de preocupação genuína e algo que Stiles chamaria de "melosidade exacerbada".
— Sim, estou bem. Obrigada por perguntar, senhor McCall, — respondeu Allison, agora sorrindo de maneira tímida, enquanto os olhos dela finalmente encontravam os de Scott.
Allison logo sacudiu a cabeça, como se quisesse afastar seus pensamentos, fazendo os cabelos escuros ficarem ainda mais embaraçados. Suas bochechas rosadas destacavam-se contra a pele clara, evidenciando sua inquietação.
— Eu estou bem mesmo, de verdade, — reafirmou, olhando de relance para Scott antes de continuar. — Digo, mulheres geralmente não são vistas dentro da Casa dos Arcanum, a não ser que estejam sem poderes e sirvam como empregadas...
— Às vezes, eles trazem as garotas do bordel... ouvi dizer, — comentou Bartosz casualmente, mexendo nos biscoitos que carregava.
A afirmação foi ignorada por Allison, mas Stiles arregalou os olhos, dividido entre incredulidade e curiosidade por aquela informação.
— Ser expulsa não foi algo tão importante, — continuou Allison, voltando sua atenção para Stiles. — Na verdade, eu só estava lá porque meu avô insistiu. Foi... estranho. Talvez tenha algo a ver com a reunião.
Sua voz não parecia buscar respostas, mas afirmar uma conclusão óbvia. Stiles, sentindo o peso do olhar dela, rapidamente uniu os pontos.
"Então é isso," pensou. A reunião de fato demonstrou que os chefes das casas nobres — os orgulhosos Arcanum — estavam muito interessados em forjar alianças com a Casa Stilinski. Ou melhor, em tentar controlá-la. E qual era o meio mais eficaz de fazer isso? Casamento.
O pensamento de Gerard Argent oferecendo a mão de sua única neta em troca de uma aliança deixou Stiles enjoado. Allison era sua amiga, uma pessoa com quem ele compartilhava uma relação sincera construída à base de sobrevivência nos sufocantes eventos sociais e bailes, além das longas aulas na seleta (e, segundo Stiles, infernal) escola para nobres da senhora Brightlight. A ideia de que poderiam ser forçados a uma aliança matrimonial era simplesmente absurda.
E, claro, não podia ignorar Scott, que era tão óbvio em seus sentimentos por Allison que até um cego perceberia. Stiles sabia que isso seria uma traição maior do que qualquer acordo matrimonial desfavorável.
— A reunião e qualquer coisa que eles estavam planejando foi completamente interrompida com a chegada dos Hales, — Stiles tentou tranquilizá-la, embora a verdade fosse um pouco mais complicada.
— Mas não por muito tempo, não é? — Allison soltou um suspiro. — Peço desculpas por isso... Stiles... pelo que meu avô pode estar tramando.
— Ei! — Stiles interrompeu, colocando uma das mãos no ombro dela enquanto a outra segurava firmemente o pacote de doces que acabara de comprar. — Você não tem que se desculpar pelo velho ave de rapina que é o seu avô. Os Stilinski são resilientes. Não vamos cair tão facilmente.
Ele lançou um sorriso travesso, tentando animá-la, e completou:
— Aliás, em vez de pedir desculpas, deveria aceitar meus agradecimentos! Foi maravilhoso você lançar aquele redemoinho lá dentro. Jackson ficou ainda mais com cara de cabeça de vento graças à sua Arkanis!
Allison deixou escapar um sorriso pequeno, mas genuíno, que aos poucos se tornou algo de que ela parecia se orgulhar.
— Não tem de quê, — disse ela, piscando para Stiles, como se compartilhassem um segredo.
De repente, o som cortante de águias ecoou pelo céu. Stiles olhou para cima e viu falcões robustos e imponentes fazendo voos rasantes sobre a feira, arrancando exclamações de "oh!" e "ah!" das pessoas ao redor. As aves eram belas e elegantes, mas sua presença era impossível de ignorar: todos sabiam a quem pertenciam.
— Pelo menos você vê algo positivo no meu poder, — continuou Allison, o sorriso desaparecendo à medida que soltava um longo suspiro. Ela também tinha notado os falcões. Sabia o que significavam.
— Tenho que ir, — anunciou, dando um passo para trás e acenando levemente. — Nos vemos mais tarde. Talvez no seu baile, Stiles. Você vai dar um baile de aniversário, não é?
Stiles revirou os olhos.
— Como se eu tivesse algum poder para negar isso... Minha tia e minha avó jamais permitiriam que meu baile de maioridade fosse esquecido. — Ele resmungou, mas acenou de volta, com um sorriso resignado.
Allison sorriu antes de virar-se e correr, os falcões voando em círculos sobre ela como guardiões atentos. Mas antes de desaparecer completamente de vista, lançou um último aceno, que Stiles percebeu ser direcionado a ele.
Ele quase retribuiu, mas foi interrompido pelo som inconfundível de Scott acenando como um idiota, todo animado.
"Ah, Scott," pensou Stiles, suspirando. "Você realmente não tem salvação."
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