Capítulo 3

O objeto retangular em suas mãos vibrava com uma energia quase viva. Stiles podia sentir as molas internas e as engrenagens se movendo, alimentadas pelo cristal que acumulava Arkanis. Ele também sentia o calor ameaçador das chamas de Markus Whittemore, agora a meros centímetros de seu rosto.

Nenhum dos outros nobres tentou intervir. Era óbvio: queriam discipliná-lo. Queriam mostrar a ele, e a todos os presentes, por que o reino havia concedido títulos de nobreza àquelas famílias. O poder que possuíam os tornava merecedores de adoração, respeito e, acima de tudo, medo.

Mas Stiles desprezava essa dinâmica. Ter poderes não tornava ninguém uma pessoa melhor. Além disso, o poder não precisava ser exclusivo dos Arcanum. Pessoas comuns, sem habilidades mágicas, podiam acessar Arkanis através da arcanomecânica. E ele era a prova disso.

Ainda assim, a decisão pesava. Se lançasse sua invenção ali, o que aconteceria? Poderia catalisar um conflito físico entre as casas nobres de Beacon Hills? Um confronto direto seria muito diferente das trocas de farpas habituais, cheias de provocações, fofocas e artimanhas. A guerra era outra história.

Mas ele não podia simplesmente recuar. Gostando ou não, era filho do duque Stilinski. Ele era o herdeiro da casa. E precisava mostrar que, com ou sem poderes, tinha força.

— Cuidado, Markus. O raposo tem garras, — provocou Adrian Marwood, um sorriso divertido brincando em seus lábios.

— Garras não significam nada contra o fogo, — retrucou Markus com desdém, avançando lentamente.

Antes que Markus chegasse mais perto, Scott tentou se colocar entre eles, mas um gesto casual de Gerard Argent o lançou contra a parede oposta, acompanhado de uma leve rajada de vento. Scott gemeu de dor ao cair no chão.

— Scott! — Stiles olhou para o amigo, seus olhos faiscando de raiva.

Bartosz Stilinski arregalou os olhos, claramente apavorado com a demonstração de poder.

Stiles voltou-se para Gerard, seu olhar carregado de irritação. O patriarca da Casa Argent apenas limpou uma poeira invisível do casaco, como se nada importante tivesse ocorrido.

"Chega! Vou mostrar para eles," pensou Stiles, já decidido a lançar sua invenção.

Mas, antes que pudesse agir, o som de palmas lentas e ritmadas ecoou pela sala. O som cortou a tensão como uma lâmina afiada. Todos pararam e se voltaram para a porta, que agora estava aberta.

Ninguém havia percebido que uma nova figura havia entrado.

O homem que se aproximava era alto, e sua aparência destoava completamente do ambiente formal. Ele vestia roupas que pareciam mais adequadas para uma tarde no campo ou uma sessão de esgrima do que para uma reunião oficial. Seu casaco estava aberto, revelando uma camisa branca com alguns botões desabotoados, deixando à mostra um peitoral marcado por cicatrizes.

O detalhe mais impressionante, no entanto, eram seus olhos: verdes e penetrantes, que pareciam ler a alma de cada pessoa na sala. Seu rosto era uma combinação intrigante de charme e perigo, acentuado por um sorriso provocador e cabelos escuros desgrenhados.

— Ora, ora. Quando finalmente decido visitar a Casa dos Arcanum, esperava encontrar tédio absoluto, e não algo tão... — Ele olhou ao redor, fingindo considerar a palavra certa. — ...divertido.

O homem puxou uma poltrona para si com a descontração de quem se sente em casa, sentando-se de forma relaxada. Depois, apoiou as botas em outra poltrona próxima.

Stiles ficou imóvel, o objeto vibrante ainda em sua mão. "Quem é ele?", pensou, enquanto seus olhos se arregalavam ligeiramente. Ele notou que a tensão na sala havia mudado. Nenhum dos outros nobres parecia inclinado a repreender o recém-chegado, muito diferente da recepção que o próprio Stiles havia recebido.

Finalmente, Gerard quebrou o silêncio, sua voz baixa e cuidadosa:
— Peter Hale.

O nome foi dito com a gravidade de quem evoca algo perigoso.

— Não esperávamos a sua vinda.

Stiles ficou boquiaberto. "Um Hale?" Ele olhou para o homem novamente, agora com uma mistura de surpresa e cautela. Ali estava alguém da misteriosa Casa dos Lobos, cuja reputação era tão intrigante quanto assustadora.

— Não esperava? — Peter Hale arqueou as sobrancelhas, a expressão carregada de falsa surpresa. — Ora, por que então fomos notificados? Ainda me lembro bem da carta que chegou à nossa porta: "Reunião urgente"!

— Já tínhamos enviado outras cartas com o mesmo teor de urgência... — começou Adrian Marwood, mas sua voz foi morrendo conforme os olhos verdes e penetrantes de Peter se fixaram nele.

— Ah, mas essas outras cartas não tratavam de uma reunião sobre terras que fazem fronteira com as nossas. — Peter sorriu, mas sua expressão transbordava algo muito diferente de cordialidade. — Se algo acontecer com meus queridos vizinhos da Casa Stilinski, isso, obviamente, também nos afeta. Afinal, fronteiras frágeis levam a problemas... complicados.

Stiles observou o sorriso de Peter com atenção, uma sensação desconfortável rastejando por sua espinha. Havia algo peculiar ali — talvez fosse a impressão de que os dentes do Hale eram ligeiramente afiados demais, como os de uma fera. "Deve ser coisa da minha cabeça," pensou, mas não tinha tanta certeza.

— Não há nada com que se preocupar, senhor Hale, — interveio Gerard Argent, a voz revestida de sarcasmo. — Ninguém aqui tem qualquer interesse nas florestas que sua família tanto preza. Tão cheias de bichos, musgos e... outras coisas irrelevantes.

Stiles não perdeu o brilho de ameaça que surgiu nos olhos de Peter, como o de um predador que acaba de ser provocado. O ambiente ficou carregado, como se todos na sala estivessem prendendo a respiração, esperando por um ataque.

Mas, em vez disso, Peter inclinou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada sonora, acompanhada por uma leve batida em sua perna.

— Argent, como sempre, você é um excelente piadista!

O riso cessou tão abruptamente quanto começou. Peter se levantou lentamente, e a expressão de seriedade que tomou seu rosto fez o ar parecer ainda mais pesado. Stiles sentiu um frio correr por sua espinha.

— Mas, se o que diz é verdade, sugiro que mantenha seus falcões longe de minha floresta. Seria uma pena vê-los... depenados. Ou talvez assados. Ouvi dizer que falcão frito, bem marinado, é uma iguaria refinada. Mesmo nós, Hales, sabemos apreciar uma boa culinária, sabia disso, Argent?

Gerard estreitou os olhos, mas permaneceu calado. Apenas ajeitou a gola de seu terno com um movimento contido, como se tentasse preservar a dignidade.

— Peter... Você não veio aqui apenas para lançar ameaças, não é? — Alan Dunhaven interveio, a voz tranquila tentando amenizar o clima. — De qualquer forma, fico feliz por sua presença. Faz meses que um Hale não aparece na Casa dos Arcanum! Isso deveria ser motivo de celebração.

— Finalmente teremos chá? Estou com sede! — a voz impaciente de Kazimierz Stilinski ecoou, quebrando parte da tensão enquanto ele lançava um olhar emburrado para os presentes.

Stiles abriu a boca para responder ao avô, mas Peter foi mais rápido. Em um piscar de olhos, ele estava diante de Kazimierz, o movimento tão fluido e ágil que fez Stiles se enrijecer.

— Mestre Kazimierz, será uma honra tomar um chá com você! — disse Peter, oferecendo o braço ao idoso.

Stiles deu um passo à frente, pensando em intervir, mas, para sua surpresa, seu avô aceitou alegremente o braço oferecido.

— Aqui não está nada divertido, sabia? Eles nem gostaram dos meus truques! — reclamou o patriarca, enquanto Peter o guiava com uma delicadeza surpreendente.

— Não diga! Isso é uma afronta. O grande Kazimierz, com seus truques ignorados? — exclamou Peter, com um tom que parecia genuinamente ultrajado. — Eu mesmo me lembro de alguns. Durante as batalhas, eram lendários. Houve aquele em que você fez um exército inteiro ser engolido pelas sombras... Ou quando atravessou as linhas inimigas sem ser visto. Foram vitórias memoráveis! Eu sou um grande admirador.

As palavras de Peter tocaram algo profundo em Stiles. Ninguém parecia lembrar-se das glórias do passado de seu avô. Para todos, Kazimierz não era mais do que um velho excêntrico e senil. Mas Peter falava com respeito, até mesmo admiração, algo que Stiles não esperava ver ali.

Enquanto Peter caminhava com Kazimierz, lançou um rápido olhar para Stiles. Um olhar que dizia, sem palavras: "Vai ficar aí parado como um idiota?"

Isso foi suficiente para Stiles reagir. Ele se apressou em ajudar Scott a se levantar e, com um gesto firme, arrastou Bartosz consigo, saindo da sala.

— O que está acontecendo? — sussurrou Scott, enquanto seguia apressadamente atrás de Stiles, ciente dos olhares que os acompanhavam.

— Acho que estamos sendo resgatados.

— Por um Hale?

Stiles lançou um olhar desconfiado para Peter, mas não respondeu. Afinal, ele próprio ainda não sabia o que pensar sobre aquilo.

***

O salão oval estava visivelmente mais vazio em comparação com o momento em que Stiles o atravessara anteriormente. No entanto, os vestígios da ação de Allison ainda estavam evidentes: os restos do bufê espalhados pelo chão eram agora o foco de atenção de alguns servos que se empenhavam na limpeza. Stiles esperava encontrar mais nobres presentes, curiosos pelas consequências da reunião e prontos para transformar o evento em fofoca fresca. Mas não. Talvez o motivo da ausência estivesse encostado na parede.

Um rapaz, com uma expressão de poucos amigos, estava inclinado contra a parede decorada com uma miríade de quadros. As pinturas exibiam paisagens e feitos heroicos das famílias nobres da região. Um deles, particularmente grandioso, retratava um grande lobo destroçando um exército com suas imensas garras. Os servos pareciam evitar o rapaz, lançando olhares apreensivos e cochichando baixinho entre si. Mesmo os poucos nobres que permaneciam na sala demonstravam nervosismo, desviando o olhar ou parecendo trêmulos na presença dele.

O rapaz, de cabelos escuros curtos e rosto firme, talvez pudesse ser descrito como bonito, não fosse pela constante expressão de quem parecia perpetuamente irritado com o mundo. Seus olhos verdes, tão penetrantes quanto os de Peter Hale, pousaram em Stiles, e o jovem Stilinski sentiu seu coração acelerar inesperadamente.

— Derek! Vejo que está fazendo novos amigos, como presumi! — A voz de Peter Hale cortou o silêncio, enquanto ele ajudava Kazimierz a se acomodar em uma poltrona confortável próxima à janela.

O tal Derek deu de ombros, como se não se importasse com a provocação, e se aproximou. Stiles tentou não olhar muito, mas simplesmente não conseguia evitar. Ele nunca tinha visto um Hale pessoalmente e agora estava vendo dois, e havia algo de magnético neles, uma energia exótica que parecia emanar de cada gesto.

Isso era intensificado pelas roupas: soltas, desalinhadas e que mostravam muito mais pele do que o aceitável para a moda usual dos nobres. Derek, por exemplo, usava uma camisa bege, aberta quase até o fim, deixando à mostra um peitoral musculoso coberto por uma leve camada de pelos que descia até... "Pare com isso, Stiles," ele se repreendeu, desviando os olhos com esforço.

— O que é isso aí? — A voz de Derek o trouxe de volta à realidade. Stiles piscou algumas vezes, confuso, até perceber que o rapaz estava apontando para o dispositivo arcanomecânico que ele ainda segurava.

— Ah... isto? Só uma invenção... — respondeu Stiles, nervoso. Era estranho; normalmente, era o mais falante da sala, mas, na presença de Derek, parecia que suas palavras se perdiam antes mesmo de chegar à boca.

— Oh, vejam só! Isso é uma... arcano... bugiganga? — Peter interveio, já se acomodando de frente para Kazimierz, que cantarolava alegremente uma melodia aleatória, completamente alheio ao ambiente tenso ao seu redor.

Bartosz, por outro lado, parecia intensamente focado em arranjar chá e biscoitos para o grupo — uma tarefa que Stiles desconfiava ser menos sobre necessidade e mais sobre escapar da proximidade com os Hales.

— Arcanomecânica, — corrigiu Stiles, quase automaticamente.

— Isso mesmo! — Peter sorriu amplamente. — Ouvi dizer que está se tornando uma nova moda na capital, embora eu não faça ideia de como funciona.

Enquanto falava, Peter estendeu a mão como se fosse pegar o dispositivo das mãos de Stiles, mas Derek o interrompeu com um tom firme:

— Tio, tenha modos.

"Então ele é mesmo um Hale," pensou Stiles, observando os traços de irritação controlada no rosto de Derek.

Peter riu, recostando-se na cadeira.

— Ah, claro! Você deve pensar que somos criaturas selvagens, incapazes de compreender sequer as regras básicas de civilidade, não é?

Ele riu novamente e, antes que Stiles pudesse responder, se levantou e estendeu a mão para cumprimentá-lo.

— Sou Peter Hale, como você provavelmente já sabe, graças ao meu pequeno show na sala de reuniões. E este jovem, que parece uma bola de luz e alegria, é meu sobrinho, Derek Hale.

Antes que Stiles pudesse decidir se aceitava ou não o cumprimento, Peter tomou sua mão com firmeza e o puxou para uma cadeira ao lado da sua.

Scott, sempre alerta, se aproximou imediatamente, permanecendo em pé ao lado de Stiles com uma postura tensa. Isso não passou despercebido por Derek, cujos olhos acompanharam cada movimento do servo com um olhar nada amigável. Derek não parecia disposto a sentar-se, preferindo permanecer de pé, com sua presença quase predatória preenchendo a sala.

— Obrigado pelo que você fez lá dentro... — começou Stiles, enquanto guardava o dispositivo em sua bolsa de couro. — Mas devo dizer que eu tinha tudo sob controle. Não querendo ofender, logicamente.

Scott suspirou audivelmente, levando a mão à testa em um gesto claro de desaprovação. Era típico de Stiles, claro, cuspir na mão que acabara de ajudá-lo. Ainda mais quando essas mãos poderiam, com um simples pensamento, se transformar em garras afiadas e letais. Mesmo assim, Stiles não queria parecer fraco. Não podia. Como ele protegeria sua família se começasse a depender dos outros para salvá-lo o tempo todo?

Um som baixo, gutural, fez Stiles erguer o olhar para Derek Hale. O rapaz tinha rosnado. Um rosnado. Stiles não estava assustado, mas não pôde deixar de pensar: "Humanos não deviam fazer esse tipo de som. E rosnar deveria ser considerado algo mal-educado?"

— Oh, sim... percebi como você tinha tudo sob controle, — interveio Peter Hale, com um floreio exagerado da mão. — Mas, infelizmente, tive que intervir, jovem Stilinski.

— Por favor, me chame de Stiles. — Ele franziu o cenho. — Digo, "jovem Stilinski" é como Gerard me chama, e isso sempre me irritou.

Peter sorriu, o tipo de sorriso que guardava informações e intenções ocultas.

— Que os deuses me tirem os poderes se eu agir como o velho Argent. Pois bem, Stiles, — ele frisou o nome com um tom provocador. — Eu precisei intervir porque o que disse lá dentro era verdade. Se eles querem agarrar o território dos Stilinski, pode ter certeza de que o próximo alvo será o dos Hale.

— Então foi uma jogada estratégica. — Stiles assentiu levemente, fingindo um tom casual.

— E também porque devemos manter uma política de bons vizinhos, não acha? Um ajudando o outro!

— Bons vizinhos? — Stiles arqueou uma sobrancelha. — Vocês sequer apareceram no aniversário de 80 anos do meu avô ou no enterro da minha mãe para oferecer seus sentimentos. É difícil acreditar que agora, de repente, os Hale têm essa súbita paixão por boas relações. O que vocês realmente querem?

Scott cutucou Stiles discretamente, claramente sugerindo que ele deveria calar a boca. Já Bartosz, que carregava uma travessa com biscoitos e chá, quase deixou tudo cair ao ouvir a pergunta.

Peter, no entanto, riu, parecendo genuinamente divertido, enquanto Derek soltava outro rosnado baixo. Desta vez, Stiles respondeu com um simples dar de ombros.

— Eu sei como os nobres daqui agem, — continuou Stiles, cruzando os braços. — Sempre há algo em troca. Meu pai sempre disse que eu nunca daria certo como diplomata, e acho que ele estava certo. Não tenho paciência para enrolações.

— Ora, Stiles, não nos coloque no mesmo saco que os outros nobres, — respondeu Peter, pegando uma xícara de chá e oferecendo-a primeiro para Kazimierz, que aceitou com um sorriso despreocupado. O gesto não passou despercebido por Stiles, que o anotou mentalmente.

— Mas sim, — Peter continuou, voltando-se para Stiles. — Existe algo que nos trouxe até aqui. Acredite ou não, nossas casas são aliadas, mesmo com nossa ausência em eventos públicos. Hale e Stilinski sempre foram amigos.

— Não me diga... — O tom de Stiles era carregado de descrença. Ele nunca ouvira nada sobre essa suposta aliança. Bem, seu pai tinha o péssimo hábito de deixá-lo no escuro sobre assuntos mais profundos da Casa Stilinski, especialmente nos últimos anos, à medida que ele se aproximava da maioridade.

— Pois eu digo, sim. — Peter sorriu novamente, um sorriso enigmático que só aumentou a desconfiança de Stiles. — E, devo acrescentar, viemos aqui a mando de seu pai.

— Meu pai? — Stiles interrompeu, o cenho franzido em confusão. Fazia meses que não recebiam notícias dele. Desde que fora enviado em missão pela Coroa para uma das fronteiras do reino, sua ausência criara um vazio que parecia sufocar a casa Stilinski. Era, afinal, a principal razão pela qual estavam em uma situação tão precária.

— Pois é, — Peter disse, inclinando-se ligeiramente, como se o que fosse dizer a seguir fosse um segredo. — Gostaria de saber mais sobre isso?

Os olhos verdes de Peter fixaram-se no rosto de Stiles, intensos, quase hipnotizantes. Por um momento, Stiles sentiu o ar ao seu redor se tornar pesado, como se o mundo tivesse ficado em suspenso, aguardando sua resposta.


Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top