Capítulo 33
O som de sapatos altos correndo pelo salão misturava-se ao farfalhar de vestidos espalhafatosos, ao choro das crianças e aos gritos dos adultos.
Cadeiras eram lançadas. Mesas tombavam. Taças se estilhaçavam no chão.
Os guerreiros Ruun avançavam, embora não sem relutância. Alguns nobres reagiam com Arkanis: Argent lançavam rajadas de vento; Whittemore erguiam labaredas; outros poderes explodiam aqui e ali, desordenados demais para formar uma defesa real.
Era um verdadeiro caos.
Do lado de fora, ouviam-se uivos e rosnados. Os Hale expulsavam boa parte dos invasores, mas alguns guerreiros ainda conseguiam entrar na mansão, espalhando ainda mais pânico pelo salão.
Um grupo de mulheres e crianças correu para um canto, tentando escapar.
Diante delas, um grande espelho refletia a cena: rostos banhados em lágrimas, mãos trêmulas, vestidos amassados, crianças agarradas às saias das mães — e, atrás delas, um guerreiro Ruun erguendo sua espada serrilhada no ar.
Ele soltou um grito de guerra. Iria derramar sangue. Sangue caeloriano.
Não importava se fosse sangue de fracos. Talvez importasse ainda menos por isso. Na terra natal dele, no oeste, nas terras dos Senhores da Guerra, todos eram guerreiros. Crianças, mulheres, velhos, homens — qualquer um capaz de empunhar uma espada, uma faca ou uma arma qualquer podia tornar-se instrumento de força e glória.
Havia, obviamente, aqueles que não alcançavam tal glória. Esses eram eliminados ao longo do caminho. Sacrifícios necessários para tornar a Confederação de Ruun cada vez mais forte.
Caeloria, por outro lado, escolhera o caminho da fraqueza. Mantinha vivos aqueles seres frágeis, descartáveis, inúteis para a guerra. Talvez, no fim, ele estivesse fazendo um favor àquele reino.
Ainda bradando seu grito de guerra, o guerreiro avançou. O grupo histérico estava encurralado em um corredor lateral.
— Por Ruun e pelo verdadeiro líder! — gritou.
Então atacou. Esperava sentir a espada cortar carne. Osso. Sangue. Mas encontrou apenas fumaça. As pessoas desapareceram diante dele como miragem.
— Agora — comandou uma voz feminina.
Uma cadeira foi erguida e quebrada nas costas do guerreiro.
Bartosz Stilinski recuou, ofegante, ainda segurando os restos do móvel nas mãos. O golpe fez o Ruun travar por um instante, cambaleando, mas não o derrubou.
O guerreiro se virou para atacar, girando sobre os calcanhares.
— Francamente, Bart — disse a voz feminina, seca e desaprovadora. — Devia ter escolhido um instrumento mais resistente.
O guerreiro ouviu a mulher. Mas não a viu. Também não viu o tal Bart.
Uma fumaça escura se espalhou pelo ambiente, obscurecendo tudo ao redor. O corredor desapareceu. As paredes sumiram. O salão, os gritos, as luzes — tudo foi engolido por sombras e névoa.
Então ele a viu. Uma grande raposa laranja surgiu à sua frente.
O guerreiro piscou, confuso. Ainda estava em um corredor? Ainda estava na mansão? Onde estava? Quando tudo havia mudado? Onde estavam os fracos que ele perseguia havia poucos segundos?
— Demônios... — balbuciou.
A raposa se aproximou. Ele cerrou os dedos ao redor da espada serrilhada e atacou. Mas a raposa também se desfez em fumaça.
Então veio o golpe. Algo duro desceu sobre sua nuca. Ele não teve tempo de se defender.
Enquanto desfalecia, viu uma mulher mais velha ao seu lado, vestindo um deslumbrante vestido laranja. Nas mãos, ela segurava um castiçal de prata agora ensanguentado.
O guerreiro caiu no chão.
Halina Stilinski ajeitou uma mecha branca atrás da orelha.
— Muito bem, mamãe! — disse Bartosz, animado.
O grupo que, até pouco tempo, estivera oculto pela ilusão da matriarca Stilinski também soltou uma pequena comemoração, entre suspiros de alívio e choros abafados.
— Quietos — ordenou Halina. — Não temos tempo para isso. Precisamos levá-los para um lugar seguro. Bartosz, conduza-os até a cozinha e depois para os túneis.
— Si-sim... — respondeu ele.
Seu olhar se voltou para a esposa, que segurava a pequena e chorosa Zofia nos braços.
— Mas... e a senhora? Mãe, você precisa vir conosco.
Ele viu Halina largar o castiçal no chão e se abaixar para pegar a espada serrilhada do Ruun abatido.
— Eu vou ficar para ajudar — disse ela.
A lâmina parecia pesada em suas mãos, mas Halina a ergueu mesmo assim.
— Esta ainda é minha casa. Meu domínio.
Bartosz arregalou os olhos. Depois, sorriu.
— Stiles iria gostar de ver isso.
— Bart...
— Ele provavelmente apontaria suas contradições sobre mulheres com Arkanis não irem para a batalha, ou não liderarem...
— Bartosz.
Dessa vez, Halina foi mais firme, apontando a espada para o filho.
— Acho que lhe dei uma ordem, não?
Bartosz soltou uma risada nervosa.
— Sim, sim... Seguirei suas ordens, madame Stilinski.
Ele fez uma rápida reverência e começou a guiar o grupo para uma porta lateral usada pelos serviçais, afastando-os do caos.
Halina os observou por um breve momento. Então fez um sinal com a mão. A porta desapareceu atrás da ilusão de um armário antigo, impedindo que fossem seguidos.
— Pois bem... — murmurou ela, os dedos apertando o cabo da espada. — Está na hora de limpar essa sujeira.
E, com fúria silenciosa, caminhou em direção ao salão principal.
~**~
— Não! Não, não, não! Justo no meu primeiro baile?
Madame Flor sacudiu com força o guerreiro Ruun que segurava pela gola. O homem já estava desacordado, os olhos revirados e uma espuma discreta surgindo no canto da boca.
Ele se somava a mais um invasor na pilha de guerreiros que Madame Flor havia nocauteado.
— Sabe quanto tempo eu levei para me arrumar para isto? — continuou ela, indignada. — Este é o meu melhor vestido! Diga a ele, Isaac!
Isaac olhou para o Ruun desacordado. Depois, para a pilha de corpos. Depois, para sua mestra alfaiate.
— Acho que ele não está em muitas condições de ouvir coisa alguma, Madame Flor... — disse, com uma risada nervosa.
E, francamente, Isaac não sabia por que ainda se surpreendia. Madame Flor era forte. Musculosa. Imponente. Do tipo de mulher que nem o vestido mais bem costurado do reino conseguiria conter por completo.
Também não se podia ignorar seu passado. Antes de se tornar Madame Flor — a alfaiate mais talentosa, afiada e temida de Beacon Hills —, ela fora criada como o filho prodígio do ferreiro da cidade, talvez o homem mais forte de todo o ducado.
Mas aquilo era passado. E, em Madame Flor, do passado haviam permanecido apenas os músculos, a força e a habilidade de olhar para qualquer pedaço de metal, tecido ou pessoa mal-educada como se pudesse moldá-los à sua vontade.
Além de uma artesã sagaz, era, aparentemente, uma guerreira formidável. O que explicava muita coisa. Inclusive por que ela sempre conseguia apertar espartilhos como se estivesse estrangulando inimigos pessoais.
— Impressionante... — murmurou Vermon, observando o desenrolar do confronto.
Ele mesmo não tivera que fazer nada.
E pensar que acreditara que poderia ajudar. Que aquela seria sua chance de provar que um Dunhaven era muito mais do que alguém destinado a curar pessoas. Eles também podiam ferir, se fosse necessário.
Seu pai não gostaria nem um pouco desse pensamento.
Na verdade, Alan Dunhaven provavelmente ficaria profundamente decepcionado. Aquilo quebrava praticamente tudo que ele pregava — e tudo que ensinara ao filho.
Mas, bem, se Vermon fosse quebrar algum código de honra da família, ao menos poderia ter tido a chance de dar o primeiro soco.
Só que Madame Flor roubara os holofotes.
Então, um guerreiro Ruun escapou do alcance dela.
Vermon cerrou os punhos.
Essa era sua chance.
Mas, antes que a espada do invasor chegasse perto o bastante, Isaac avançou.
O aprendiz de alfaiate atacou primeiro. Desviou da lâmina quase como se estivesse dançando e acertou um soco no rosto do Ruun. O guerreiro rosnou, mas não caiu.
Isaac, porém, ainda não havia terminado.
Com um movimento rápido, chutou o calcanhar do homem, fazendo-o perder o equilíbrio. Em seguida, agarrou-o pela cabeça e a fez colidir com força contra a mesa mais próxima.
Dessa vez, o Ruun desabou.
Inconsciente.
Vermon arregalou ainda mais os olhos.
Aqueles golpes eram quase selvagens. Nada nobres, podia dizer. E tampouco delicados.
— Quais são os pré-requisitos para ser alfaiate? — deixou escapar, meio frustrado. — Saber lutar e derrubar guerreiros Ruun?
Isaac soltou uma risada leve, ainda ajeitando os punhos da própria camisa.
— Entre outras coisas... Mas devo dizer que costurar dá uma boa destreza aos punhos.
— Oh, a arte do corte e da costura nos mantém em forma — completou Madame Flor, erguendo o queixo com dignidade.
Vermon sentia que havia mais coisa ali do que Madame Flor e Isaac estavam revelando. Muito mais.
Ele estava prestes a insistir quando um canto vigoroso ecoou pelo salão, fazendo as taças vibrarem nas mesas — as que haviam sobrevivido, é claro. Isso precisava ser enfatizado.
O cantor de ópera, tio de Stiles, da família Ravenspyr, continuava cantando. Ou melhor: usando sua poderosa Voz.
E o efeito era evidente. Vários guerreiros Ruun que haviam adentrado o salão agora jaziam paralisados, os corpos imóveis como estátuas em pleno movimento. Aproveitando a abertura, nobres das famílias Argent, Whittemore, Dunhaven e Marwood começaram a atacá-los, contê-los ou desarmá-los.
Por um instante, Vermon sentiu algo próximo de vitória. O ataque inimigo estava sendo contido.
— Oh, esse cantor sem dúvida é fa-bu-lo-so... — disse Madame Flor, abrindo o leque.
Um leque que, de algum modo, parecia ter sobrevivido aos ataques constantes, às corridas desesperadas e às pilhas de guerreiros Ruun nocauteados por sua dona.
— Talvez possamos pedir a Stiles que consiga um autógrafo para a senhora — sugeriu Isaac.
— Oh, sim... isso seria uma honra! — Madame abanou o leque com ainda mais entusiasmo.
— Mas onde está Stiles? — perguntou Vermon.
Afinal, alguém precisava impedir que a conversa navegasse para frivolidades enquanto o salão ainda era invadido por guerreiros do Oeste.
— Derek também sumiu... — comentou Isaac, franzindo o cenho. — Espero que estejam bem.
— Ora, se fizeram algo ao meu afilhado... — Madame Flor cerrou os punhos sobre o leque.
O objeto se partiu em dois com facilidade assustadora.
Vermon engoliu em seco. Por um breve instante, quase sentiu pena de quem pudesse ter feito algum mal ao jovem Stilinski.
Não. Não sentiu pena. Considerando o caos ao redor, talvez fosse melhor que Madame Flor destruísse essas pessoas mesmo.
— Mas quem é aquela? — perguntou Isaac.
Antes que Vermon pudesse responder, o próprio aprendiz de alfaiate continuou:
— Aquele vestido azul, com um corte nada decente, definitivamente não foi criação nossa. Ela deve ter conseguido no povoado vizinho.
— Definitivamente — concordou Madame Flor, analisando com olhar crítico. — Baixa qualidade. Dá para ver daqui. Mas quem seria ela? Oh... seria Kate Argent? Que estranho. Eu fiz as vestimentas do restante da família dela e—
O tagarelar dos alfaiates cessou abruptamente.
Kate Argent ergueu a mão. Um redemoinho de vento se formou ao seu redor — a Arkanis dos Argent, afiada, elegante e cruel — e avançou pelo salão como uma lâmina invisível.
O golpe atingiu Octavius Ravenspyr. O cantor cambaleou. Sua Voz se quebrou. E, com ela, o encanto também.
Os guerreiros Ruun antes paralisados recobraram o controle do corpo quase ao mesmo tempo. O salão, que por alguns segundos parecera inclinar-se a favor dos caelorianos, mergulhou novamente em violência.
— Por que ela fez isso? — gritou Isaac.
A pergunta parecia estar na mente de todos.
— Não recuem! Ataquem, seus covardes!
A voz grave veio de um homem corpulento e robusto avançou pelo salão, o terno parecendo pequeno demais para seu corpo largo. Chamas dançavam em seus punhos, iluminando sua barba grisalha e o olhar feroz.
— Vamos mostrar que Caeloria não teme esses insetos do Oeste!
Aquele era Markus Whittemore. E, ao que parecia, ele pretendia discursar mais. Talvez falar novamente sobre as glórias da Casa dos Dragões. Talvez enumerar vitórias antigas enquanto lutava, como se cada labareda fosse também uma nota de rodapé em sua própria lenda.
Ainda assim, por mais irritante que fosse, ele era eficiente.
As chamas que conjurava formavam um círculo ao seu redor, uma barreira viva de fogo que servia tanto como proteção quanto como ataque. Os guerreiros Ruun recuavam diante dele. Alguns tentavam avançar, apenas para serem repelidos pelo calor brutal.
Markus estava conseguindo conter a investida. Então veio uma rajada de vento. Forte. Precisa. Traiçoeira.
O golpe atravessou o salão e dissipou as chamas ao redor do Whittemore.
Markus olhou para o alto da escadaria.
Gerard Argent estava ali, ofegante, pálido, com sangue manchando suas roupas. Ainda assim, mantinha a mão erguida, os dedos tremendo pelo esforço do ataque.
— Traidor... — rosnou Markus.
Uma bola de fogo começou a se formar entre suas mãos. Ele iria lançá-la contra o chefe dos Argent.
Iria. Se a espada de um guerreiro Ruun não tivesse atravessado sua barriga.
O salão pareceu prender a respiração. Markus arregalou os olhos. O fogo em suas mãos vacilou. Sangue escorreu de sua boca, manchando a barba grisalha.
Madame Flor soltou um grito. Isaac ficou imóvel.
E Vermon, estranhamente, só conseguiu pensar em uma coisa: Aquela ferida... Seu poder não seria capaz de curá-la.
~**~
— O que fazer? O que fazer? — murmurava Agnieszka, andando de um lado para o outro.
Ela conseguira fugir para uma antessala levando consigo alguns criados, poucos convidados e qualquer pessoa perdida o bastante para segui-la no meio do caos. Também conseguira trancar a porta e improvisar uma barricada com móveis, cadeiras e uma mesinha que, em circunstâncias normais, provavelmente teria sido considerada cara demais para ser arrastada pelo chão.
Mas agora estavam presos ali dentro. Seguros? Ou encurralados?
— Agnieszka Stilinski, sua tola! — repreendeu a si mesma, levando as mãos ao rosto. — Não consigo fazer nada direito. O baile? Um desastre! E agora nem para escapar de forma adequada. Oh, céus!
Continuou a andar de um lado para o outro.
— Eu achei que a festa estava boa... — comentou Kazimierz.
O ancião estava sentado em uma poltrona — a única que sobrara, já que as outras haviam sido usadas na barricada — e, de alguma forma, conseguira trazer uma travessa de bolinhos consigo durante a fuga.
— Os bolinhos estavam bons.
Agnieszka parou apenas por um segundo para encará-lo.
Claro. É claro que seu pai havia salvado os bolinhos.
— Diga-me, Agni, por que acabou? — perguntou Kazimierz, confuso. — Sequer cantamos parabéns. Na minha época, batíamos palmas! Cantávamos! Eu não vi nada disso...
Ele franziu a testa, matutando.
— Talvez, se voltarmos para o salão...
— Não vamos voltar para o salão, papai — cortou Agnieszka, tentando soar firme.
Notou, porém, que Kazimierz começava a cochilar, a cabeça pendendo levemente para o lado. Em qualquer outra situação, ela ficaria preocupada. Naquele momento, porém, aquilo talvez fosse um alívio.
Mas o que deveria fazer?
Agnieszka olhou para o grupo reunido na antessala: servos, alguns nobres menores, dois comerciantes e uma dama que segurava um leque quebrado como se fosse uma arma de guerra. Todos pareciam assustados.
E nenhum deles tinha Arkanis. Perfeito.
Bem, havia alguém com Arkanis. Seu pai. Que agora soltava um leve ronco.
— Vamos ficar bem... — disse Agni, tentando parecer confiante.
O resultado foi menos convincente do que esperava.
— Talvez eu possa sugerir, senhorita Stilinski — disse Archibald, com uma reverência discreta —, que nos afastemos das janelas e fechemos as cortinas.
Agnieszka piscou.
— Oh! Boa ideia. Vamos fingir que não estamos aqui e tal. Perfeito! Podemos fazer isso. Perfeito, Archi... Já lhe disse como eu o amo?
Archibald ergueu uma sobrancelha.
— Não de modo sensual ou coisa do tipo! — acrescentou ela depressa.
Agnieszka soltou uma risada nervosa e olhou para o pequeno público que a observava com expressões entre apreensão, confusão e um leve desejo de não ter ouvido a última frase.
Ela pigarreou.
— Ora, o que estamos esperando? Vamos fazer o que Archibald disse.
Todos começaram a seguir a orientação de Archibald. Ou melhor, começaram a seguir. Até algo — ou alguém — destruir a porta que haviam barricicado com tanto esforço.
Madeira estalou. Móveis foram lançados para dentro da antessala.
A barricada, que levara preciosos minutos para ser montada, desmoronou em segundos.
Do outro lado, surgiu um Ruun alto e brutal. Não empunhava uma espada, mas um martelo gigantesco, pesado o bastante para rachar o piso a cada arrastar. As roupas pretas cobriam apenas parte de seu corpo avantajado, deixando à mostra braços grossos, ombros largos e cicatrizes demais para qualquer pessoa minimamente sã considerar tranquilizador.
— Oh! Na-na-ni-na-não... — protestou Agnieszka, recuando um passo. — Isso é injusto. Por que eu não pego um guerreiro com uma estatura normal? Isso é perseguição contra Agni?
Ela bateu o pé no chão, como se pudesse assustar o inimigo — ou o próprio destino — dessa forma. Não assustou.
O guerreiro avançou, erguendo o martelo acima da cabeça.
— Agni!
Ela ouviu alguém gritar. Não foi seu pai, que continuava cochilando apesar de todo o alvoroço.
Não. Alguém a empurrou para o lado.
O martelo desceu com violência. Mas atingiu apenas uma imagem dela.
Sim, havia outra Agni ali, parada no mesmo lugar, usando o mesmo vestido, o mesmo penteado e a mesma expressão entre indignação e pânico.
— Nossa... — murmurou Agnieszka, encarando a própria duplicata. — Acho que engordei um pouco.
Então a imagem foi esmagada pelo martelo. E se desfez em fumaça. Uma ilusão. Uma ilusão perfeita. No nível dos Stilinski.
Mas sua mãe não estava ali. Zofia tampouco tinha habilidade suficiente para criar algo tão verdadeiro. Não daquele jeito. Não ao ponto de confundir o guerreiro Ruun, que agora encarava o espaço vazio onde antes havia uma Agni — e depois a Agni real — com visível irritação.
A própria Agnieszka também ficou confusa. Mas apenas por alguns segundos. Alguém a empurrara.
Archibald estava ao seu lado. Então ela percebeu.
Não porque tivesse habilidades especiais, nada disso. Mas porque, naquele momento, as peças finalmente começaram a se encaixar.
O mordomo pareceu entender que fora descoberto. Ou melhor: ele não era, de fato, o velho e confiável Archibald.
A barbicha desapareceu primeiro. Depois as rugas. O bigode. Os cabelos grisalhos.
A aparência austera do mordomo dissolveu-se como névoa, dando lugar a um homem de cabelos castanho-escuros, com alguns fios grisalhos, barba desgrenhada e olhos castanhos quase cor de mel. Olhos cansados. Profundamente cansados. Mas vivos.
Agnieszka levou uma mão à boca.
— Pelos deuses, Noah... — disse ela, a voz falhando entre um riso e um soluço. — Você parece acabado.
Noah Stilinski abriu um sorriso exausto.
— Pois é... Bom te ver também, irmã.
O duque de Beacon Hills estava de volta.
O guerreiro Ruun urrou, irritado. Obviamente, sentia-se excluído. Ainda mais porque a Agni que ele acabara de esmagar havia simplesmente evaporado.
Todavia, o grito do guerreiro trouxe consequências.
Agni sabia muito bem que um Stilinski se valia das ilusões como principal arma. Noah até sabia manejar uma espada, é claro. Mas como poderia lutar de igual para igual contra aquele gigante?
O urro do guerreiro do Oeste pareceu responder por si só.
— Ah... cala a boca! — resmungou Kazimierz, ainda meio sonolento.
O velho fez um gesto displicente com a mão, como se tentasse enxotar uma mosca incômoda.
Bem. De certa forma, enxotou.
As sombras da sala, já mergulhada em penumbra, avançaram. Ou melhor: escorreram pelo chão. Espessas, negras, famintas. Enrolaram-se nos tornozelos do guerreiro Ruun e o puxaram para baixo.
Ele tentou lutar. Debateu-se. Ergueu o martelo. Golpeou o chão. Mas nada daquilo adiantou contra as sombras.
A escuridão o consumiu pouco a pouco, como se o guerreiro afundasse em um mar de trevas. Então desapareceu. Agni assistiu à cena horrorizada.
Noah soltou um suspiro.
— Obrigado, pai.
Kazimierz, agora enfim acordado, piscou algumas vezes e observou o homem diante de si, como se tentasse decifrar aquela visão.
— Noah?
— Sou eu, sim, pai — respondeu o duque, com um sorriso cansado.
Kazimierz bocejou.
— Nossa... sua mãe não vai gostar de saber que você apareceu sem um terno adequado para o aniversário do Stiles.
Noah olhou para as próprias roupas amarrotadas, sujas e nada compatíveis com um baile de maioridade.
— Imagino que ela possa se irritar um pouco.
Ganhou um soco da irmã mais velha no braço.
— Ai.
— Ela não vai se irritar, Noah. Mamãe vai querer matar você! — ralhou Agni, os olhos brilhando de lágrimas e fúria. — Há quanto tempo está infiltrado aqui? Pelos deuses, você leva esses negócios de espionagem a sério demais, sabia?
Para comprovar a irritação, deu mais um tapa nele.
— Sabe o quanto ficamos preocupados? E o seu filho? Não pensou nele?
— Agni... — Noah segurou a mão dela antes que viesse outro golpe. — O que fiz... fiz por vocês. Por Stiles. Deixe-me explicar.
Ela ficou olhando para ele, ofegante, entre a vontade de abraçá-lo e a vontade de esganá-lo.
Bem, estava esperando a explicação.
Mas tudo foi interrompido por uma grande explosão no andar superior. As luzes se apagaram. A mansão inteira tremeu.
E a escuridão, tal como as sombras de Kazimierz, pareceu envolver todos eles.
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