Capítulo 32

Bem, se Halina Stilinski estava com medo de que o aniversário de Stiles — seu baile de maioridade — não fosse surpreendente o bastante, podia ficar tranquila.

Especialmente considerando a crise econômica que a família Stilinski enfrentava. A matriarca temia que os nobres vissem a contenção de gastos como uma fraqueza. Mais uma. Algo que pudesse ser usado contra eles pelas outras casas. Ou talvez ela apenas não quisesse que os Stilinski se tornassem alvo de fofocas por oferecerem um baile abaixo das expectativas. Além disso, queria que fosse algo memorável. Seu neto alcançava a maioridade. Apresentava-se oficialmente ao reino. Era um marco.

Stiles teria de dizer à avó que, de fato, o aniversário fora surpreendente em vários sentidos. Memorável, sem dúvida. Contudo, também seria inevitavelmente alvo de fofocas. Bem provável que mais do que isso. A coroa de Caeloria, sem dúvida, voltaria seus olhos para aquele ducado do interior.

— Eu não acredito em tudo isso! — disse Lydia, enquanto os três desciam as escadas, deixando para trás o escritório onde os orlathianos permaneciam paralisados. Temporariamente, era importante frisar. — Uma conspiração! Traição! E tudo acontecendo aqui...

— Por que sinto que esse "aqui" teve um tom meio crítico? — comentou Derek. — Acha que Beacon Hills não vale todo esse alvoroço como Solméria?

Lydia fez um gesto de descaso com a mão.

— Bem, sim — respondeu ela, com honestidade brutal.

Derek rosnou.

— Stiles, controle seu lobo, sim?

— Eu não sou lobo de ninguém.

— Ainda — provocou Lydia.

— Stiles, controle sua prima — rosnou Derek, agora meio corado.

Os dois se encararam, irritados, ao chegarem ao fim da escadaria do primeiro andar. Então franziram o cenho diante da falta de resposta de Stiles.

Ambos se voltaram para o jovem Stilinski, que, naquele momento, examinava a arma que havia roubado — ou pegado emprestado, dependendo do ponto de vista legal, moral e narrativo — dos homens de Orlath.

— Isso é fascinante — murmurou Stiles, os olhos brilhando com interesse. — Eles usaram um cristal de Aerion para impulsionar uma rajada de vento e lançar um projétil. Fascinante, porque utiliza uma lógica semelhante à das armas de pólvora. Ou seja: uma faísca acende a pólvora, a queima libera um grande volume de gás, o gás empurra a bala pelo cano em alta velocidade...

Ele girou a arma nas mãos, observando o mecanismo com atenção quase reverente.

— Aqui, porém, não há pólvora. Só o poder do cristal, concentrado pela disposição interna dos canos, gerando pressão e...

Stiles ergueu a arma e apontou para um vaso de porcelana decorado com raposas alaranjadas.

— ...o projétil sai. Interessantíssimo. Não que minha tia fosse gostar da criação, mas precisamos levar em consideração a criatividade e—

— Stiles — interrompeu Lydia, revirando os olhos de forma dramática. — Sério mesmo? Este não é o momento para ficar animado com essa coisa de arcanomecânica.

— Definitivamente não deveria estar animado com uma arma do inimigo que poderia ter nos matado — frisou Derek, focando em outro ponto.

— Poderia — disse Stiles, fazendo um biquinho. — Mas não matou. Agora a arma é nossa.

Derek apenas rosnou, impaciente.

— A questão não é essa — insistiu Lydia. — O que vamos fazer agora? Parece que lá embaixo está acontecendo uma confusão ainda maior e—

Um uivo lupino atravessou a mansão. O som se propagou pelo ambiente, profundo e poderoso, acompanhado por gritos, estilhaços de vidro se quebrando e ruídos de caos vindos tanto de fora quanto de dentro da casa.

Os três se entreolharam, apreensivos.

— Os Hale estão contra-atacando — concluiu Derek.

Ele já começou a afrouxar a gravata.

— Preciso ir com eles. Minha família pode estar precisando de ajuda.

Stiles engoliu em seco. Um combate — para não dizer uma guerra — estava acontecendo ali. Na sua casa. Parecia surreal.

Sim, Caeloria estava em guerra contra outras nações, mas isso acontecia longe. Nas fronteiras. Alguns homens eram convocados. Alistamentos aconteciam. Famílias recebiam cartas. Tropas partiam. Mas as consequências reais pareciam distantes demais para alcançar Beacon Hills.

Ainda mais porque Orlath permanecia estranhamente silenciosa havia algum tempo, e Ruun, até então, parecia atacar de forma desorganizada, violenta, sim, mas não devastadora. Caeloria tinha Arkanis. Tinha as casas nobres. Tinha a coroa, os exércitos, a Fênix.

Caeloria sairia vitoriosa. Era isso que todos diziam. Era isso que Stiles também havia acreditado, de algum modo.

Agora, porém, sentia-se mergulhado no tipo de conflito que antes só existia em jornais, livros e conversas entrecortadas de adultos. Palavras ditas em voz baixa por seu pai. Comentários interrompidos quando ele entrava na sala. Relatos distantes demais para parecerem reais.

Mas os gritos lá embaixo eram reais. O uivo dos lobos era real. O cheiro de fumaça começando a se espalhar pela mansão era real. O que fazer?

Derek parecia decidido a se lançar no conflito. Stiles, no entanto, hesitava. Lydia também. A prima abraçava os próprios braços, como se tentasse se ancorar naquele momento, impedir que o pânico a arrastasse.

Somos nobres mimados, pensou Stiles, com uma crítica amarga contra si mesmo.

Derek soltou um suspiro.

— Vocês podem ficar aqui. Escondam-se. Eu vou—

O que quer que ele fosse dizer morreu sob o som alto de um grito.

— Socorro!

A voz feminina não veio de baixo, do salão de baile. Veio do fim do corredor. E Stiles a reconheceu de imediato.

— Tia Melissa? — chamou, aflito, virando-se na direção do som.

Uma pessoa querida estava em perigo. Não. Várias pessoas queridas estavam em perigo naquele momento. Sua família. Seus amigos. Os servos da casa. Todos. Ele não podia hesitar.

Stiles mordeu o lábio inferior com força, como se a dor pudesse lhe dar coragem, e disparou pelo corredor.

— Stiles! — Lydia e Derek gritaram ao mesmo tempo.

Mas logo o seguiram. Derek, frustrado. Lydia, em uma mistura muito particular de pavor e irritação. O seu primo bem que poderia parar de se meter em confusão por alguns minutos, não poderia?

Uma porta se abriu no fim do corredor. Stiles a reconheceu de imediato. Como não reconheceria? Era a porta do seu próprio quarto.

Um homem de pele morena, em tom de bronze, saiu de lá subitamente. Tinha cabelos negros e longos, presos em uma trança, e olhos escuros que varreram o corredor com frieza. Com uma das mãos, segurava os cabelos de Melissa McCall, arrastando a empregada ferida. Com a outra, empunhava uma longa espada dentada.

Usava roupas escuras, feitas de panos enrolados e sobrepostos, mas que deixavam evidente o corpo musculoso e marcado por cicatrizes. As calças folgadas se moviam com leveza, e as botas, feitas de pelagem animal, quase não produziam som contra o chão.

Ele se movia como um predador.

Aquele era um guerreiro de Ruun.

— Ei, você... — disse ele, apontando a espada para Stiles.

Falava em sua própria língua, uma língua cantada, quase melódica, como se cada palavra carregasse um ritmo antigo.

— Você tem cara de quem sabe alguma coisa. Onde está o tal Stilinski, hein?

— O que ele está falando? — perguntou Lydia, tensa.

— Use a Voz — ordenou Derek.

— Não mande em mi—

Antes que Lydia pudesse terminar, o guerreiro moveu a espada. Uma onda de vento cortou o corredor e atingiu a jovem Ravenspyr, lançando-a contra a parede mais próxima.

Derek soltou um urro. Mas o Ruun puxou Melissa contra si, pressionando a lâmina contra o pescoço dela. Stiles sentiu o sangue gelar.

Ruun usavam Arkanis. De um modo diferente, sem dúvida. Mais bruto. Mais marcial. Mais integrado ao corpo e às armas. Mas usavam. Eles não estavam lidando com orlathianos que renegavam a Arkanis. Aquele era um guerreiro forjado para a guerra. E, para ele, Arkanis era tão básica quanto respirar.

— Para trás — ordenou o homem, agora na língua de Caeloria.

Derek parou, tremendo de fúria. Stiles apertou os dedos ao redor da arma arcanomecânica, escondendo-a atrás do corpo.

— Stilinski? — perguntou ele, na língua de Ruun.

O guerreiro estreitou os olhos. Stiles sustentou seu olhar.

— O que você quer com os Stilinski?

— Você fala a língua do meu povo? — O guerreiro inclinou a cabeça, surpreso. — Olha só... isso eu não imaginava. Vocês, fracos, aprendendo a falar a língua dos fortes.

Ele falou — ou cantou. Na língua de Ruun, o limite entre uma coisa e outra era tênue. Havia ritmo nas palavras, uma cadência quase musical, mas o desprezo no som era claro demais para ser confundido com beleza.

Stiles tentou não se deixar abater. Que os Ruun viam todos os outros povos como fracos, isso todos sabiam.

— Pois é, eu falo — respondeu Stiles, sustentando o olhar dele. — Espero estar pronunciando bem.

O guerreiro estreitou os olhos, avaliando-o.

— Um pouco — admitiu.

Stiles quase se ofendeu. Quase.

— Assim fica mais fácil — continuou o Ruun. — Esta aqui não consegue entender nada do que digo. Mas "Stilinski" é a mesma palavra na minha língua e na sua.

Ele disse isso enquanto pressionava levemente a espada contra o pescoço de Melissa. Ela soltou um choramingo baixo.

Stiles sentiu o corpo tremer. De medo. E de fúria.

A arma estava atrás de si, apertada entre seus dedos. Ele queria usá-la. Quase podia ouvir Alphonse ficando horrorizada com essa possibilidade — uma arma arcanomecânica, feita para ferir, talvez até matar. Mas talvez sua tia entendesse as circunstâncias. Arcanomecânica deveria facilitar a vida das pessoas. Mas também podia proteger essa mesma vida.

Stiles respirou devagar, tentando manter a voz firme.

— Ainda assim, você não explicou por que quer encontrar os Stilinski.

— E por que você deveria saber? — retrucou o guerreiro Ruun. — Isso importa para você? Não. Só preciso da informação. Ou haverá consequências.

A espada pressionou um pouco mais. A lâmina cortou levemente o pescoço de Melissa, e algumas gotas de sangue caíram sobre o tapete em tons de bronze e laranja.

Stiles precisou se controlar. Precisou pensar. Precisou não se deixar dominar pelo instinto de fazer alguma coisa idiota, desesperada e possivelmente fatal.

Derek, por outro lado, não estava se saindo tão bem nessa parte. Já havia se livrado da gravata, e parte da camisa estava aberta. Bufava de raiva, os ombros tensos, o corpo inclinado para a frente como se cada músculo implorasse para atacar. Stiles teve até a impressão de que os dentes do rapaz estavam mais pontiagudos.

Mas o guerreiro pouco pareceu se importar com aquilo.

— Mande seu troca-peles se controlar, sim? — disse o Ruun, sem tirar a lâmina do pescoço de Melissa. — Estamos negociando aqui. Eu poderia tê-la matado há muito tempo.

Stiles ergueu a mão livre — já que a outra ainda segurava a arma, oculta atrás do corpo — e fez um gesto para que Derek se acalmasse. Ou esperava que tivesse feito. Também havia a possibilidade de o Hale interpretar aquilo como um abano, um sinal de "espere", ou até uma tentativa ridícula de enxotá-lo.

Stiles não era exatamente bom em dar sinais discretos durante discussões diplomáticas envolvendo sequestros e lâminas no pescoço de pessoas queridas. Isso, infelizmente, a escola não ensinava.

Derek rosnou. Mas pareceu entender.

— Bem, você perguntou "onde está o tal Stilinski" — disse Stiles. — Se devo ajudá-lo, preciso saber a qual Stilinski você se refere. Existe mais de um. Terá que ser um pouco mais específico.

Ele deu um passo à frente. O guerreiro Ruun pareceu não notar de imediato. Estava ocupado demais arregalando os olhos diante da informação.

— Mais de um? — repetiu, confuso. — Mas isso não seria estranho? Todos chamando uns aos outros de Stilinski?

— Stilinski é um sobrenome — informou Stiles, dando outro passo.

Talvez o guerreiro não visse muita ameaça em um rapaz mirrado como Stiles, especialmente quando comparado à massa de músculos furiosa que era Derek. Ou talvez ainda estivesse tentando processar a revelação absurda de que "Stilinski" não era exatamente um nome próprio.

— Sobrenome? Ah! Vocês têm essas coisas, não é? Nomes de família. Quanta besteira. Nós temos nomes de clãs e o nome de título que ganhamos no primeiro combate. Eu mesmo sou Come-Ossos, do clã Sangue Vermelho!

Stiles decidiu não comentar o que o tal Come-Ossos deveria ter feito em seu primeiro combate para receber esse nome. O ritual de passagem dos jovens Ruun, pelo que lera, envolvia participar de arenas contra animais selvagens — e, em alguns casos, contra outras crianças. Os sobreviventes ganhavam não apenas glória, mas o direito a um nome.

Também decidiu não comentar a redundância de um clã chamado Sangue Vermelho. Afinal, sangue era vermelho. Nada muito inovador ali. Era para inspirar medo? Por dizer o óbvio?

Certo. Foco, ordenou a si mesmo. Não é o momento de discutir criatividade com um guerreiro armado.

— E ainda mais... — continuou Stiles, aproximando-se outro pouco.

— Mais? — perguntou Come-Ossos, desconfiado. Quiçá finalmente tivesse percebido o quão perto o rapaz de roupas elegantes e língua solta estava chegando.

— Você interrogou uma serva sobre nobres de Caeloria — disse Stiles. — E a está usando como escudo. Deve saber que a nobreza deste reino costuma se importar muito pouco com seus servos. Então, não foi uma escolha muito estratégica.

— Não foi? — Come-Ossos riu de leve. — Mas vocês não me atacaram. E ainda estão negociando.

— Ela não é importante para outros nobres — revelou Stiles, mantendo a voz firme. — Mas é para mim.

Melissa, ainda presa, soltou um som baixo. Stiles não desviou os olhos do guerreiro.

— Mas eu sou nobre. De baixo escalão, devo admitir. De longe, não sou um Stilinski. Mas ainda sou nobre. Devo valer bem mais como refém do que ela. E posso revelar muito mais coisas do que uma serva conseguiria. Além disso, falo a sua língua. Viu? Só estou vendo vantagens.

— Stiles, o que você está dizendo a ele? — perguntou Derek, em um tom perigosamente próximo da fúria.

Bem, ele devia ter notado o tagarelar do jovem Stilinski, mas não entendia o conteúdo. Tampouco sabia que Stiles havia mentido descaradamente e estava se oferecendo como refém em troca de Melissa.

Melhor assim. Stiles tinha quase certeza de que Derek não aprovaria a proposta.

— Você é mesmo nobre? — perguntou Come-Ossos, estreitando os olhos. — Não parece agir muito como um.

— E como um nobre age? — devolveu Stiles, sem perder o ritmo. — Veja minhas roupas. Não parecem chiques e pomposas o suficiente?

Come-Ossos o avaliou de cima a baixo.

— De fato, disseram-me que os nobres daqui usavam roupas inúteis para combate — observou, crítico. — Muitos babados. Coisas douradas. Parecem chamarizes para predadores.

— Pois é. Aqui estou eu, um jovem nobre ideal para ser o refém ideal.

Stiles deu mais um passo. Come-Ossos abaixou levemente a espada. Parecia prestes a libertar Melissa.

— Stiles, pare! — rosnou Derek, avançando. — O que pensa que está fazendo, sua raposa idiota?

— Raposa? — O guerreiro Ruun piscou, repetindo a palavra na língua de Caeloria. — Disseram-me que o Stilinski era uma raposa.

Come-Ossos soltou Melissa de forma brusca e estendeu a mão para agarrar a gola do casaco de Stiles.

— Somos mesmo raposas — sussurrou Stiles.

Ele se deixou puxar. Mas trouxe consigo a arma dos orlathianos. Nos segundos seguintes, coisas demais aconteceram ao mesmo tempo. Derek rosnou e se transformou diante deles. Come-Ossos apenas lançou um olhar irritado — nada surpreso — para a fera lupina que surgia no corredor. O guerreiro ergueu a espada na direção de Stiles, como se pretendesse usá-lo de escudo contra o lobo. Mas não percebeu o que o jovem Stilinski empunhava.

Durante todo aquele tagarelar, Stiles havia conseguido retirar discretamente o cristal desconhecido do bolso e encaixá-lo na arma. Agora, em meio à confusão — Come-Ossos tentando puxá-lo, Melissa gritando, Derek avançando como uma tempestade de garras e dentes —, Stiles puxou o gatilho. E o poder do cristal se somou aos demais dentro da arma.

O estrondo foi surpreendente. E devastador.

~**~

— Devemos fugir... — disse Scott, arfando.

Seus punhos doíam e estavam avermelhados.

Quantos guerreiros de Ruun ele havia socado? Não tinham sido tantos. Ou talvez tivessem sido muitos. Ele perdera a conta.

Ainda mais no ambiente escurecido do estábulo, iluminado apenas por uma lamparina presa no alto da parede. Era difícil distinguir indivíduos quando todos pareciam ter escolhido o mesmo modelo de roupa: tecidos escuros, botas silenciosas, armas serrilhadas e a péssima mania de invadir propriedades alheias.

Mas havia lampejos de luz. Eram os ataques constantes de Jackson Whittemore, que lançava bolas de fogo pelo estábulo como se aquilo resolvesse todos os problemas.

Não resolvia. Na verdade, criava outros. O estábulo estava começando a pegar fogo.

Scott temia pelos cavalos. E por si mesmo. Ao contrário de Whittemore, Scott McCall não era imune às chamas.

Os Ruun gritavam ordens entre si e apontavam para a mansão. Scott não entendia a língua deles, mas viu alguns guerreiros avançarem naquela direção.

O estômago dele afundou. Sua mãe estava lá dentro. Stiles também. E Allison.

Allison deveria estar lá.

— Fugir é coisa de covarde! — disse Jackson, ofegante. — Um dragão não foge do combate!

Um guerreiro Ruun avançou contra ele.

Jackson ergueu a mão e lançou uma labareda para afastá-lo. Mas o homem desviou com uma destreza assustadora. Então empunhou a espada serrilhada e cortou a chama no ar.

Não. Não cortou. A chama se enrolou na lâmina. A espada passou a arder. Jackson paralisou.

O guerreiro levou a lâmina flamejante à boca e a lambeu lentamente. Ele também era imune ao fogo.

Ora, pelo visto, os Whittemore não eram os únicos capazes de dominar a Arkanis flamejante.

— Fugir seria uma boa ideia, não? — suplicou Scott.

— Talvez... — admitiu Jackson, ainda encarando o guerreiro. — Mas meu pai não ficaria satisfeito se eu abandonasse meu posto e—

— Jackson, seu pai não está aqui! — cortou Scott, furioso.

Ele agarrou o nobre pelo braço e o puxou em direção a uma saída lateral. Então se lembrou de Archibald. O mordomo ainda estava desacordado no compartimento oculto.

Scott tentou se voltar para o local onde o havia encontrado, mas uma flecha cortou seu caminho. O projétil se cravou em uma coluna de madeira e, no mesmo instante, uma camada de gelo se espalhou pela superfície.

O frio súbito contrastou de forma brutal com o calor crescente do incêndio.

Mais Arkanis. Mais guerreiros Ruun.

— Estamos cercados! — disse Jackson, apenas destacando o óbvio.

Scott o puxou para baixo a tempo de evitar que outra flecha congelante acertasse sua cabeça. Os dois caíram no chão de terra, feno e um pouco de esterco.

— Minha roupa... — Scott ainda ouviu Jackson resmungar.

Ele já estava prestes a dar uma bela lição de moral no nobre, mas sentiu um chute atingir suas costelas.

O ar saiu de seus pulmões. Ao lado, mãos agarraram Jackson, tentando imobilizá-lo.

— Não! — gritou Scott, arfando.

Ele rolou para o lado, escapando de outro chute por pouco, e se levantou às pressas. Sua mão encontrou um forcado encostado perto de uma baia. Scott o agarrou e girou a ferramenta como se fosse uma lança improvisada.

As pontas de ferro cortaram o ar.

Um guerreiro Ruun recuou, surpreso com a rapidez do movimento.

Scott firmou os pés no chão sujo do estábulo, o peito subindo e descendo com dificuldade, os olhos ardendo por causa da fumaça.

— Chega — murmurou.

Então avançou com o forcado nas mãos. Conseguiu bloquear alguns ataques das espadas Ruun, mas eram muitos. Vinham de vários lados, rápidos, coordenados, como predadores cercando uma presa. O metal rangia contra o ferro do forcado, e cada impacto fazia seus braços vibrarem até os ombros.

Scott ofegou. O ar quente e a fumaça que já dominavam o estábulo começavam a deixá-lo desnorteado. Mas ele não podia esquecer os ensinamentos de luta que tivera com lorde Noah Stilinski.

Sim, o duque fizera questão de ensiná-lo a se defender. Ensinamentos que, curiosamente, o próprio duque não impunha ao filho primogênito com a mesma rigidez. Scott nunca questionara muito o motivo. Seria porque Stiles era inerte? Mas Scott também não tinha Arkanis. Então por quê?

Na época, ele não se importara o bastante para perguntar. Estava ávido para aprender. Mais do que isso: queria ser útil. Queria ser mais do que apenas o garoto dos estábulos.

Com um movimento rápido, Scott desviou de uma lâmina e usou o cabo do forcado para atingir o pulso de um dos guerreiros. A espada serrilhada caiu no chão. Ele girou o corpo, acertou o inimigo com as pontas de ferro e, antes que outro Ruun avançasse, largou o forcado e agarrou a arma caída.

Agora tinha em mãos uma espada Ruun. Serrilhada. Pesada. Estranha. E isso pareceu causar uma espécie de paralisia entre os guerreiros presentes.

Eles não avançaram. Apenas observaram.

O guerreiro que Scott havia ferido soltou um grito de fúria e avançou. No meio do movimento, porém, seu corpo começou a se contorcer.

Scott arregalou os olhos. O homem se transformou. Não em uma criatura majestosa, como os lobos Hale, mas em algo longo, sinuoso, coberto por escamas escuras que refletiam a luz do fogo.

Uma serpente. Uma serpente gigante.

Scott teve apenas um segundo para se recuperar da surpresa de ver aquilo que antes era humano dar lugar a uma fera reptiliana. Girou sobre os calcanhares, evitando o bote por pouco. O hálito quente da criatura passou perto de seu rosto.

Ele ainda tinha a espada nas mãos. Sua mente agiu por instinto. Scott atacou. A lâmina serrilhada cortou o ar. Depois, cortou carne.

A cabeça da serpente caiu no chão.

Por um instante, era apenas isso: a cabeça de uma criatura monstruosa, imóvel sobre a terra batida, entre feno queimado e manchas de sangue.

Então a forma mudou. As escamas recuaram. O focinho se contraiu. E, no lugar da cabeça da serpente, havia a cabeça de um homem.

Scott soltou um grito de pavor. Ele tinha matado alguém.

— Ora, vejam só...

A voz veio de um dos guerreiros que se aproximavam. Scott a entendeu porque, dessa vez, falavam a língua de Caeloria.

Mas então percebeu. Não era um guerreiro. Era uma mulher.

Ele sequer havia notado antes. As roupas folgadas dos Ruun, os panos escuros, as camadas de tecido e as faixas cobrindo parte do rosto tornavam difícil distinguir homens e mulheres. Scott simplesmente presumira que todos fossem guerreiros.

Na verdade, sequer imaginara mulheres na linha de frente de um combate.

A mulher abaixou o pano que cobria parte de seu rosto. Tinha pele alva, olhos levemente puxados e cabelos negros escapando do turbante que usava.

— Viu só, Kira? — disse ela, olhando para alguém atrás de si. — Pelo visto, seu noivo não valia tanto assim. Conseguiu ser morto tão facilmente por um fraco de Caeloria.

Noivo? Scott sentiu o pavor afundar ainda mais em seu peito. Ele tinha matado o noivo de alguém?

O guerreiro de menor estatura ao lado da mulher também abaixou o pano do rosto, revelando uma jovem.

Mas não havia lágrimas em seus olhos. Nem fúria. Nem raiva. Scott quase sentiu alívio.

— Se ele conseguiu matar um Ruun, não deve ser tão fraco assim — disse a jovem.

— Talvez... — A mulher mais velha deu de ombros, avaliando Scott como se ele fosse uma ferramenta recém-descoberta. — Talvez seja mais útil do que pensamos.

Um dos Ruun disse algo em sua voz cantada e musical. A mulher mais velha assentiu levemente.

— Não esqueci a missão — respondeu ela. — Mas não podemos negar que algo extraordinário ocorreu aqui.

Seu olhar voltou para Scott.

— Afinal, não é todo dia que perco um cunhado e ganho outro.

Scott franziu o cenho. Como é que é?

A mulher o encarou, e havia algo naquele olhar profundo que fez Scott estremecer. Não era apenas ameaça. Era avaliação. Como se ela o medisse por dentro, desmontando-o em partes para decidir se valia alguma coisa.

— Mãe, ele não é Ruun — disse a guerreira mais baixa, colocando-se diante da outra com a cabeça levemente abaixada. — Não conhece nossas tradições e—

Scott sentiu um leve alívio por não ter mais aquele olhar diretamente sobre si.

— Quieta, Kira — cortou a mulher, firme.

Ela parecia prestes a dizer algo mais, mas sua voz foi interrompida por outra, muito menos controlada.

— Me deixem ir! Vocês sabem quem eu sou? Sabem quem é meu pai? Ele é o grande dragão de Caeloria! Seu poder pode até se igualar ao da Fênix!

Jackson se debatia perto dali, preso pelos guerreiros Ruun, o rosto sujo de fuligem, lágrimas e vinho.

— Ah... capturamos um nobre — disse a mãe de Kira, voltando-se para ele. — Talvez ele saiba onde o Stilinski está.

Scott prendeu a respiração. Stilinski. Eles estavam procurando quem? O duque? Stiles?

A mulher tirou do cinto um chicote escuro, feito de couro trançado e anéis metálicos. Com um movimento rápido, estalou a arma no ar.

Uma descarga cortou o estábulo. Relâmpago. Trovão. Eletricidade. Scott sentiu os pelos dos braços se arrepiarem com o efeito.

Diante da demonstração de poder, Jackson se calou.

A guerreira, que parecia claramente a líder daquele grupo, aproximou-se dele com passos lentos.

— Diga-me onde está o filhote de raposa — falou ela. — E talvez...

O chicote estalou novamente, muito perto do rosto de Jackson. Ele gritou de pavor. Uma linha vermelha surgiu em sua bochecha, e gotas de sangue respingaram no chão.

— ...talvez eu o deixe com vida.

— Espere, mãe! — Kira interveio de novo. — Ele pode ser o Stilinski. Digo, parece nobre.

A mulher olhou para a filha. Kira pareceu murchar sob aquele olhar.

— Kira, não seja tola. O tal Stilinski não tem poder. Um sem-poder, mas ainda assim alguém que nosso líder deseja. E serei eu, Noshiko, do clã do Trovão, quem irá levá-lo.

Ela ergueu o queixo.

— A glória será minha.

Talvez para reforçar a força de suas palavras, Noshiko estalou o chicote mais uma vez. Uma onda de relâmpago e trovão se espalhou pelo estábulo, apagando algumas das chamas próximas e fazendo os cavalos relincharem em pânico.

Os outros guerreiros Ruun mantinham distância. Scott percebeu. Eles não apenas respeitavam Noshiko. Temiam-na.

Stiles. Eles estavam atrás de Stiles. O desespero atravessou Scott como uma lâmina. Seu amigo estava em perigo.

Eu confio a proteção do meu filho a você, Scott.

As palavras de Noah pareceram soprar em seu ouvido.

O duque viera falar com ele antes de partir para sua missão. Scott ainda se lembrava da cena com estranha nitidez: Noah junto ao cavalo, a expressão séria demais para uma simples despedida.

— Acha mesmo que Stiles precisa de proteção? Scott perguntara na época, em tom brincalhão. Digo, acho que não posso proteger seu filho das bugigangas dele. Eu sei manejar uma espada, mas apagar incêndios no laboratório... Acho que o que o senhor me ensinou não vai servir para isso.

A brincadeira deveria ter sido recebida como insubordinação. Mas o duque apenas sorrira.

— Ele vai precisar de proteção.

Noah pousara a mão sobre os cabelos escuros de Scott, fazendo um breve cafuné antes de montar.

— Proteja meu filho, Scott McCall.

Scott prometera. E, naquele momento, aquela promessa pareceu uma corrente invisível, puxando-o direto para o destino diante dele.

— Eu sou o tal Stilinski — ouviu-se dizer.

Noshiko, que usava o cabo do chicote para erguer o rosto choroso de Jackson, voltou sua atenção para Scott.

Aquele olhar de novo. Profundo. Afiado. Como se pudesse enxergar a mentira.

— Isso é verdade? — perguntou ela.

Enquanto falava, cutucou o ferimento no rosto de Jackson com a ponta do chicote, fazendo uma faísca elétrica saltar. O rapaz soltou um som dolorido, quase um soluço.

Jackson, porém, tentou se controlar. Olhou para Scott em desespero. Scott viu a hesitação em seus olhos. Então assentiu levemente, encorajando-o.

— Sim... — disse Jackson por fim, em um sussurro rouco. — Ele é o Stilinski.

— Bem, ele está vestido como um nobre... — comentou Kira, parecendo até um pouco esperançosa com a possibilidade.

— Disseram que o tal Stilinski era excepcional — murmurou Noshiko, estudando Scott de cima a baixo. — Mas será mesmo verdade?

— Mãe, ele disse que—

— Dizer não é o mesmo que ser.

Noshiko ergueu o chicote. A eletricidade dançou no ar, iluminando seu rosto por um instante. Scott tentou permanecer firme.

— Eu sou o Stilinski que vocês querem.

Foi então que uma grande explosão veio da mansão. O estrondo atravessou a noite. E tudo escureceu.

~~Palavras da autora~~~
Desculpe a demora pessoal! Estava com alguns problemas e fiz uma viajem! 
Mas vou voltar a atualizar. Eu resolvi dividir o último capitulo em duas ou três partes, pois estava ficando muito grande.
Aqui temos a introdução de uma personagem que será importante para o livro 2 - Kira. E Scott acabou noivando? E como vai ficar a Allison? Bem, amanhã posto o próximo capítulo!


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