Capítulo 31
Será que tudo aquilo era um sinal de que Stiles deveria parar de formular planos? Porque, no fim, por mais que ele planejasse, coisas absolutamente não planejadas insistiam em acontecer. Bem, para ser justo, algumas partes haviam seguido o esperado.
Ele previra que Gerard traria os homens de Orlath. Também previra que o velho falcão faria mais uma manobra para, enfim, fincar suas garras nas terras e no título de duque dos Stilinski. Stiles não imaginara que seria algo no nível de uma ordem expedida por membros do Conselho Real, mas também não podia dizer que fora uma surpresa completa.
Os Argent haviam construído, de forma inteligente e paciente, uma rede de aliados em várias partes do reino — especialmente em cargos administrativos e burocráticos. Usavam casamentos arranjados como armas, favores como coleiras e influência como lâminas cuidadosamente escondidas sob luvas de seda.
Isso, Stiles podia entender.
O que ele não previra fora a reação de Gerard à carta de seu pai. A certeza com que dissera que o duque Noah Stilinski estava morto. O que aquilo significava? Gerard havia atentado contra a vida de Noah? Ou sabia de alguém que o fizera? E qual era, exatamente, a relação dos orlathianos com tudo aquilo?
Fato era que Stiles tampouco imaginara que a situação chegaria àquele ponto: Gerard Argent caído no chão do escritório, sangrando por causa de um disparo vindo de uma arma arcanomecânica.
Uma arma. Sua tia Alphonse teria surtado de raiva se visse aquilo. Mas a arma não era o único instrumento de arcanomecânica presente naquele escritório. Havia outro. Escondido debaixo da escrivaninha.
O Guardavoz.
Um aparelho alimentado por um cristal de Arkanis Sonirus, cuja propriedade era justamente capturar e reproduzir sons. Dependendo do tamanho do cristal, a quantidade de som armazenado podia ser maior — e a reprodução, amplificada.
A máquina fora modificada por Stiles para registrar toda a conversa comprometedora de Gerard. A ideia original era simples: gravar o velho falcão admitindo alguma manobra ilegal e, depois, usar aquilo contra ele. Mas agora o alcance da situação era muito maior. O Guardavoz estava registrando o que evidentemente era uma articulação de traição. E com um inimigo de Caeloria parado bem ali, dentro do escritório de seu pai.
— Volto a perguntar, meu caro Stiles... — disse Deucalion, a voz um pouco mais firme. — Onde está o cristal?
Stiles tentou se concentrar. Tentou, especialmente, não olhar para a arma que um dos gêmeos segurava, agora apontada diretamente para ele.
Derek rosnava ao seu lado, já tentando se colocar à frente, mas a arma se moveu de imediato para acompanhá-lo.
— Bem... — Stiles pigarreou, forçando-se a trazer a atenção de volta para si. — Eu estudo arcanomecânica, assim como você. Então sabe muito bem que vivo rodeado de cristais.
Deucalion abriu um meio sorriso. Stiles quase pôde imaginar presas escondidas por trás daqueles dentes.
— Você sabe muito bem a qual cristal estou me referindo — disse o orlathiano. — Sua sagacidade não surtirá efeito comigo, raposo.
O sorriso dele se estreitou.
— Pode não parecer, mas não sou um dos homens mais pacientes que existem. Sabe?
Stiles engoliu em seco.
— Acho meio difícil acreditar — disse o jovem Stilinski, tentando manter a voz firme — que, considerando a quantidade de cristais que você roubou das minhas terras, ainda não tenha encontrado algo semelhante ao...
Ele hesitou. Não tinha um nome para o cristal que usara no teste de conclusão da Escola para Jovens Nobres da senhora Brightlight. Tudo indicava tratar-se de um tipo novo de cristal de Arkanis. Algo ainda não documentado.
— ...ao cristal que utilizei — concluiu. — Então não vejo por que me questionar sobre ele.
Deucalion soltou um suspiro.
— Vocês, hereges, realmente não sabem nada sobre os cristais, pelo visto. Bem, isso eu já imaginava. São atrasados demais, afinal. Submeteram-se ao poder demoníaco daquilo que chamam de Arkanis.
Stiles piscou algumas vezes ao ouvir aquele discurso. Sabia que o reino de Orlath nutria um profundo preconceito contra usuários de Arkanis. Sabia também que tudo estava ligado à religião deles, a uma doutrina centrada em um deus único, puro e absoluto chamado Ilyon. Mas ouvir aquilo diretamente, com tanta naturalidade, ainda era estranho. Muito estranho.
— Somos atrasados? — Stiles se viu questionando. — É, realmente, talvez sejamos um pouco. Nossa decoração não envolve cabeças de portadores de Arkanis fincadas em espetos... ou algo do tipo. Peço perdão por esse deslize de inferioridade.
— Stiles... — Lydia o cutucou de lado. Provavelmente para lembrá-lo de quem estava segurando a arma.
Deucalion soltou uma risada rouca. Os gêmeos, no entanto, não riram. O que segurava a arma permaneceu visivelmente sério, o cano ainda apontado na direção deles.
— Óbvio que você enfatizaria esse aspecto do meu reino — disse Deucalion.
Ele se acomodou na poltrona onde Gerard estivera sentado momentos antes.
Gerard, por sua vez, havia se arrastado até um canto do escritório, ainda segurando o ombro ferido. O sangue sujava o chão, formando uma trilha escura até o ponto em que o velho falcão se apoiava na parede, ofegante.
— Ignorando, claro, os pontos importantes — continuou Deucalion. — Somos pioneiros no estudo da arcanomecânica. Muito antes de vocês, hereges, começarem suas pesquisas, nós já construíamos as primeiras máquinas.
— Contraditório, não? — Stiles interveio. — Considerando que vocês dizem que Arkanis é demoníaca e tudo mais.
Deucalion não pareceu abalado pela interrupção. Olhou indolentemente para Stiles, como um professor paciente diante de um aluno rebelde. Stiles não gostou nem um pouco daquele olhar.
— Chamamos a Arkanis de Sangue de Akayon — explicou Deucalion. — Akayon, o irmão gêmeo de Ilyon. Enquanto nosso deus criou a vida e os homens, Akayon, o primeiro demônio, criou o caos por inveja.
A voz dele assumiu um tom quase litúrgico.
— Por meio de seu sangue, infectou homens com poderes divinos, e esses poderes geraram guerras. Os filhos de Akayon, como passaram a ser chamados, renegando a vida que lhes fora dada por Ilyon, desejaram dominar tudo e todos. Escravizaram aqueles que não possuíam tal poder.
— Mas esse poder não infectou apenas humanos — prosseguiu Deucalion. — O sangue demoníaco caiu sobre a terra, infiltrou-se no solo e cristalizou. Assim surgiram os cristais de Akayon. Mais tarde, porém, esses cristais foram usados pelos sem poder para lutar contra os demônios.
Ele sorriu.
— E vencemos. Por isso, passamos a chamá-los de cristais de Ilyon.
Stiles franziu o cenho. Não esperava receber uma aula de religião em pleno sequestro político. Por mais que aquela mitologia fosse, em parte, fascinante, ele confiava muito mais na explicação científica: a Arkanis era uma forma de energia natural que podia se manifestar em seres vivos e não vivos. Não sangue demoníaco. Não bênção divina. Não qualquer outra metáfora conveniente para justificar perseguições.
— Certo... muito interessante — disse Stiles. — Mas—
Deucalion ergueu a mão, ordenando silêncio. E, caso Stiles não entendesse o gesto, o gêmeo fez questão de engatilhar a arma. Stiles fechou a boca.
— Devido a essa guerra do passado, houve consequências — continuou Deucalion. — Orlath já não possui cristais. Não na quantidade de que precisamos.
— Isso explica o roubo dos cristais de Caeloria — Stiles ousou interpor.
O gêmeo armado deu um passo à frente, irritado.
— Os cristais nunca foram de vocês de verdade — disse Deucalion, em tom de desaprovação. — Não escutou a história, raposo? Os cristais sempre foram dos Puros. Sempre pertenceram a Ilyon.
Stiles sentiu uma vontade quase física de revirar os olhos.
— Sei que, para você, podemos parecer fanáticos religiosos ou algo do tipo.
— Definitivamente algo do tipo — Stiles sussurrou.
Deucalion fingiu não ouvir.
— Mas nem mesmo vocês sabem explicar como a Arkanis funciona — prosseguiu. — Nem por que os demônios, ou as casas nobres, como vocês os chamam, não nascem todos com poder. Nem por que existem cristais. Isso ainda é um mistério, não é?
Stiles teve de admitir, em silêncio, que Deucalion tocara em um ponto incômodo.
Existiam muitas hipóteses para explicar os inertes, mas nenhuma parecia se sustentar por completo. Também não havia uma resposta definitiva para o fato de a Arkanis não surgir de forma aleatória na população. E de onde vinha, afinal, o poder das famílias agora denominadas nobres? Era, sem dúvida, um grande mistério. Um mistério que Stiles detestava ver usado por um fanático armado como se fosse prova de alguma verdade divina.
— Mas o que isso tem a ver com o cristal que usei na escola? — perguntou Stiles, começando a perder a paciência. — Sei que ele podia ser utilizado de formas mais diversas do que outros cristais, mas isso justifica vir até aqui? Atacar o Argent que é claramente o seu aliado? Fazer todo esse tagarelar religioso? Por que não simplesmente me matar e procurar o cristal nos meus pertences?
— Stiles! Não dê ideias a eles! — exclamou Lydia, horrorizada.
— Só quero entender por que estão perdendo tempo com tudo isso! — retrucou Stiles.
Deucalion riu outra vez.
— Eu não vejo perda de tempo em mostrar o nosso lado. Muito menos em fazê-lo compreender o quão sagrados são esses cristais. E alguns... alguns podem ser mais sagrados que outros.
Dessa vez, Deucalion parou de sorrir. Seus olhos se fixaram em Stiles com uma intensidade quase insana.
— Acha que a tal Arkanis é apenas energia? Acha que ela não possui desejos? Ambições? Acha que a Arkanis é sempre passiva diante da vontade dos mortais? Se esse cristal apareceu para você — um descendente de sangue demoníaco, agraciado pela ausência da manifestação maligna —, então há um motivo.
Stiles soltou uma risada nervosa.
— O quê? Do jeito que está falando, parece até que o cristal me escolheu.
Deucalion não riu. Ele se levantou da poltrona e caminhou até a escrivaninha, apoiando as mãos sobre a madeira. Inclinou-se na direção de Stiles.
Derek se moveu prontamente, colocando-se ao lado dele, mas um disparo vindo de um dos gêmeos atingiu a parede a poucos centímetros do rosto do Hale, forçando-o a recuar.
Stiles se sobressaltou ao sentir o impulso de energia passar perto demais. O disparo atravessou o espaço atrás dele e estilhaçou o vidro da ampla janela às suas costas. O ar frio da noite invadiu o escritório, fazendo as cortinas balançarem.
— Não sei por que Ilyon decidiu que um dos cristais primordiais se manifestasse para um descrente do reino inimigo — disse Deucalion, a voz baixa, fervorosa. — Mas, ao saber que você era um pesquisador de arcanomecânica, compreendi que havia lógica. O fato de você não ter poder... outro sinal. Sua inteligência... sua linhagem... ser filho daquele maldito raposo...
Ele respirou fundo, como se estivesse diante de uma revelação sagrada.
— Sim. Meu deus deseja nos mostrar algo. E se você entregar o cristal a mim, será prova suficiente de que, assim como você, eu também sou escolhido.
Stiles só conseguiu pensar uma coisa naquele momento: Deucalion era completamente maluco. Ele quer que eu entregue o cristal de livre e espontânea vontade? Tipo... como parte de um ritual? Ou sei lá?
Stiles sentiu, nervoso, o peso do cristal no bolso. Sim, ele estava com o cristal. Começara a desenvolver o estranho hábito de carregá-lo sempre por perto, talvez como uma espécie de amuleto da sorte — embora não acreditasse em sorte.
O cristal sem nome estava ali. No bolso interno de seu casaco.
Suor escorreu por sua testa, apesar do frio da noite que entrava pela janela quebrada.
— Entregue-me o cristal, Stiles — disse Deucalion. — Cumpra o seu dever.
Nesse momento, uma luz iluminou o escritório.
Stiles virou o rosto de relance e viu a claridade de uma chama no lado de fora. Ela explodiu no ar como um belo fogo de artifício, espalhando luz alaranjada pela noite.
— O quê? Os Ruun não deveriam começar agora! O sinal viria depois! — disse um dos gêmeos.
Ele não falou na língua de Caeloria, mas no idioma de Orlath, cheio de erres ásperos e sons arrancados do fundo da garganta.
Stiles deveria agradecer muito às aulas de idiomas forçadas pelo duque.
— Quieto! — ordenou Deucalion, na mesma língua.
Os Ruun estão aqui? pensou Stiles, rápido. Mas decidiu não externar a descoberta. Em vez disso, gritou:
— Lydia, agora!
Sua prima não esperou novas instruções. Apenas falou:
— Parem!
Ela usou a Voz.
A palavra reverberou pelo escritório, ecoando nas paredes e no crânio de Stiles como um sino invisível. Um formigamento atravessou sua cabeça.
Stiles saltou sobre a mesa e chutou Deucalion no peito. O orlathiano permaneceu paralisado como uma estátua, apenas os olhos acompanhando Stiles com uma mistura de raiva e surpresa.
— Quanto tempo vai durar? — perguntou o jovem Stilinski, já se aproximando do gêmeo que segurava a arma.
Os olhos do homem se moviam loucamente, mas o corpo permanecia imóvel.
— Não sei — respondeu Lydia, tossindo um pouco. — Eu não sou treinada no uso da Arkanis como meu pai e meu tio. Minutos, talvez...
Stiles assentiu. Minutos seriam suficientes. Esperava que fossem.
— O que está fazendo? — questionou Derek.
Ele também estava um pouco lento. A Voz fora direcionada aos inimigos, mas Lydia não tinha treinamento suficiente para controlar o alcance com precisão. Até o Hale sentira os efeitos, movendo-se com certa dificuldade pela sala.
Ainda assim, seus olhos verdes permaneceram fixos em Stiles, que lutava para arrancar a arma arcanomecânica da mão rígida do gêmeo.
Demorou alguns segundos, mas finalmente conseguiu tomar o dispositivo.
— Pegando emprestado! — respondeu Stiles, piscando para o lobo.
Derek balançou a cabeça, mas não disse nada. Os três correram rapidamente para a porta.
— Esperem! Não me deixem aqui! — gritou Gerard, ainda caído no chão.
Stiles o ignorou. Ou melhor, quase o ignorou. Virou-se apenas o bastante para lhe dar um pequeno aceno de despedida.
Então saiu do escritório com seus companheiros, enquanto gritos e sons de confusão começavam a subir do andar de baixo.
~**~
— Ora, vejam só... — disse Kate Argent, aproximando-se com uma taça de vinho nas mãos. — Não esperava encontrar um vira-lata aqui.
Seu olhar deslizou de Peter Hale para Alphonse Ravenspyr, e um sorriso cruel se formou em seus lábios.
— E acompanhado de uma corva. Bem, isso é conveniente, não é? Corvos consomem lixo. Restos de mortos. Uma combinação bastante apropriada.
Peter observou a Argent com desdém.
Já imaginava que comparecer ao baile despertaria certos comentários. Os Hale haviam ficado longe dos eventos sociais por tempo demais. Desde o incêndio, o exílio autoimposto por seu pai os afastara dos outros nobres, como se qualquer uma daquelas famílias pudesse ter sido responsável pela destruição da Mansão Hale — pela morte de vários membros da família, incluindo a própria mãe de Peter e Talia.
Mas isolamento não podia ser a resposta para sempre.
— Nossa... — disse Peter, com uma polidez que Kate obviamente não esperava. — Nunca conversamos pessoalmente, senhorita Argent. Falei bastante com seu pai, o velho Argent, é verdade. Mas imaginar que nossas primeiras palavras seriam apenas analogias malfeitas com os símbolos dos brasões de nossas famílias... Confesso que esperava mais de você.
Ele virou levemente o rosto para Alphonse.
— O que acha, Alphonse?
Alphonse sorriu.
— De fato, muito sem criatividade. Era para ser uma provocação ou uma piada? Fiquei sinceramente em dúvida, porque não creio que uma adulta formularia uma ofensa tão infantil.
— Pois é — concordou Peter. — E ainda há erros conceituais. O símbolo dos Hale é o lobo. Logo, a comparação com vira-latas é bastante imprecisa.
— Peter, acho que isso foi intencional.
— Ah! Então aí está a piada?
— A provocação, querido — corrigiu Alphonse, piscando para ele.
— Oh, sim. Claro. Mas e a parte do corvo? — Peter questionou, coçando o queixo.
— Bem, foi aí que achei mais fraco — ponderou Alphonse, enrolando uma mecha ruiva no dedo. — Corvos são necrófagos, sim, mas não exclusivamente. Também caçam pequenos animais, roubam comida e comem frutas.
— Fascinante.
— Não é? Agora, dizer que isso tem relação com o lobo e que a combinação é conveniente... aí eu realmente não entendi.
Peter arregalou os olhos, como se acabasse de ter uma revelação.
— Espere. Ela quis dizer que estou morto? Que sou um lixo? Que sou um lobo vira-lata lixo morto-vivo? Ou algo do tipo?
— Ah! Deve ser isso!
O tagarelar de Peter e Alphonse fazia Kate ficar cada vez mais vermelha de raiva e vergonha. Obviamente, aquele não era o objetivo de sua fala.
— Isso é ridículo! Vocês vão se arrepender por isso! — disse ela, rangendo os dentes.
E foi só. A filha de Gerard Argent se afastou a passos rápidos, rígida de fúria. Peter e Alphonse esperaram alguns segundos. Então caíram na gargalhada.
— Você viu a cara dela? — Peter perguntou, limpando uma lágrima do canto do olho.
— Talvez tenhamos sido duros demais — disse Alphonse, embora seu sorriso denunciasse que ela não lamentava coisa alguma. — Quem sabe devêssemos ter parecido um pouco ofendidos pela provocação?
Peter inclinou a cabeça.
— Ah, não...
Ele levou a mão à cintura de Alphonse e a puxou para mais perto. A corva corou quando seu corpo colidiu de leve contra o dele.
— Eu não gostaria de parecer ofendido com as insinuações dela — murmurou Peter. — Afinal, corvos e lobos combinam muito bem.
— Porque você é um lobo vira-lata lixo morto-vivo? — provocou Alphonse, erguendo o rosto para encará-lo.
Suas bochechas estavam rosadas, e Peter sentiu que aquela era a visão mais bela que vira em toda a noite.
— Isso também... — sussurrou ele, aproximando-se.
E o que ele iria fazer? Beijá-la? A ideia surgiu em sua mente com uma força perigosa.
Eles tinham se aproximado havia pouco tempo. Talvez fosse imprudência. Talvez fosse loucura. Ele nem a conhecia direito.
Ela sabia que ele já fora casado? Bem, "casado" talvez fosse uma palavra generosa para aquela união arranjada, rígida e breve, que durara poucos meses e deixara para trás uma filha. Uma tentativa estranha de seu pai de firmar alianças com um ramo distante dos Hale, os Tate. Uma união que não dera certo. Como poderia dar, se Peter tinha apenas dezoito anos quando fora empurrado para aquele casamento? Enfim. Alphonse não sabia nada disso.
Ela era uma mulher que quebrara normas sociais, uma cientista da capital, uma corva brilhante demais para se deixar prender por convenções pequenas. Por que ficaria ao lado dele? Não. Era melhor se afastar. Ignorar aquela atração. Enterrá-la antes que se tornasse algo que pudesse ferir os dois.
Mas, em vez de se afastar, Peter se aproximou mais. E Alphonse não o afastou. Pelo contrário. Ela puxou levemente sua gravata. Eles iriam se beijar. Iriam. Se não fossem os gritos vindos do salão.
— Ruun! Há guerreiros de Ruun lá fora! — gritou um servo, entrando correndo pela porta principal.
E, naquele momento, o caos tomou o baile. A música parou. Os nobres começaram a correr de forma desordenada, alguns colidindo uns contra os outros, outros derrubando taças, cadeiras e qualquer vestígio de dignidade que ainda restasse no salão.
Peter não entrou em pânico. Ao contrário. Seus olhos logo procuraram os outros Hale em meio à confusão.
Encontrou sua filha, Malia Hale. Encontrou Cora, próxima de Talia. E viu Laura caminhando em sua direção, usando um vestido azul-escuro colante que ficaria marcado na memória de metade do salão.
— Bem que achei que esse baile estava muito sem graça... — disse Laura, retirando os sapatos altos e entregando-os à ainda confusa Alphonse.
— Pois é... — Peter desfez o nó da gravata, sorrindo de forma predatória. — Faltava mesmo um pouco de ação.
— Esperem, vocês vão... — Alphonse começou.
Mas não precisou terminar a pergunta. A resposta surgiu no centro do salão.
Três grandes lobos apareceram entre os convidados, enormes, imponentes, selvagens. Os outros Hale já haviam se transformado. Alguns nobres gritaram. Outros recuaram. Pelo menos dois desmaiaram diante da visão.
— Vamos mostrar a Beacon Hills o poder dos Hale — disse Peter a Alphonse.
Então começou a se despir rapidamente, entregando as peças de roupa a ela. Laura fez o mesmo, para completo desespero da cientista, que tentava ao mesmo tempo ignorar a vergonha da situação e ocultar os corpos dos dois dos nobres e servos que corriam em pânico.
Talvez, devido ao desespero geral, ninguém tenha notado o homem e a mulher nus no meio do salão. Ou talvez tenham notado e decidido que, diante de uma invasão Ruun, aquilo era apenas mais uma excentricidade Hale.
Alphonse, por sua vez, tentou não olhar demais. Logo, porém, Peter já não era mais humano. Em seu lugar havia um grande lobo de pelagem branco-prateada.
No centro do salão, uma loba de pelagem escura ergueu a cabeça. Alphonse imaginou que fosse Talia. A loba uivou.
O som ecoou pelo salão com uma força ancestral, profunda, reverberando nas paredes, nos ossos, no peito dos presentes. Logo, foi acompanhado pelos outros lobos.
Aquilo era fenomenal. Mais reverente do que o efeito da Voz da família dos corvos. Mais antigo. Mais selvagem. Mais vivo.
E assim os lobos partiram rumo ao combate.
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