Capítulo 30

Melissa assistia a tudo do segundo andar da mansão, de um ponto com visão privilegiada para o amplo salão dos Stilinski. Dali, vira a primeira dança de Stiles com Derek — e com a adorável adição de Zofia. Uma interação linda. Fofa, até. Do tipo que arrancava suspiros de criadas mais jovens e comentários discretos de tias sonhadoras.

Melissa, no entanto, ainda se sentia receosa com a escolha de parceiro de seu jovem lorde. Afinal, era preciso enfatizar: fazia praticamente uma semana que Stiles de fato conhecia o jovem nobre da Casa dos Lobos. Apesar de os Hale e os Stilinski serem famílias vizinhas, os lobos eram reclusos demais. Interagiam pouco com os outros habitantes de Beacon Hills, participavam de quase nenhum evento social e pareciam preferir as sombras da própria floresta ao brilho de qualquer salão nobre.

Isso a deixava apreensiva. Mas... quem era ela para se meter nisso? Uma simples empregada. Ela devia se lembrar disso.

Mesmo tendo sido dama de companhia de Evelyne, esposa do conde Noah. Mesmo tendo sido sua confidente. Sua melhor amiga. Nada disso invalidava o fato de que Melissa era uma plebeia, e ali se tratava de nobres.

Stiles... Ela quase o enxergava como um filho. Quase. Mas não tinha o direito de intervir. Não tinha o direito de aconselhar. Não deveria sequer pensar nisso com tanta insistência.

Não seria correto. Havia protocolos a serem seguidos. Mesmo que os Stilinski não fossem exatamente convencionais — e, pelos deuses, eles definitivamente não eram —, ainda assim existiam limites. Ainda assim, Stiles convidara Scott para a festa. E Scott até ganhara uma roupa granfina para a ocasião, algo que deixara Melissa tão orgulhosa que quase chorara ao vê-lo arrumado.

Mas, mesmo assim, algo a incomodava. O que os outros diriam? Criticariam Stiles? Criticariam Scott? Será que fora certo estimular aquela amizade entre os dois? Servos em meio a nobres estavam destinados a se machucar. Eram sempre o elo mais fraco. Sem Arkanis. Sem título. Sem uma casa de prestígio para protegê-los de verdade.

Amizade, por mais bonita que fosse, não servia como armadura contra a dura realidade que os cercava.

Evelyne morrera. Sua amiga. Mas Melissa sabia muito bem que jamais seria lembrada dessa forma. Não de verdade. Para os registros, para os nobres, para a história, ela havia sido apenas uma empregada de confiança. Só isso. Somente isso.

Tola fora ela por acreditar que poderia haver algo além. Mesmo com a promessa que fizera.

— Talvez eu deva conversar com Scott sobre isso... — sussurrou.

— O que você anda matutando tanto aí?

A voz atrás dela a fez se sobressaltar. Ou melhor: quase se sobressaltar. Não. Quase, não. Melissa de fato deu um pulinho, deixando cair as toalhas de mesa que carregava nos braços.

— Oh, céus! — resmungou, virando-se já preparada para dar uma bronca.

Mas encontrou seu superior. Archibald. O mordomo da Casa Stilinski — e, em muitos sentidos, quase o general da criadagem da casa das raposas.

— Senhor Archibald... eu só...

As palavras morreram antes de se organizarem.

Archibald sempre parecia um muro. Rígido, austero, impossível de abalar. Nunca demonstrava muita emoção, e talvez fosse justamente isso que o tornava tão intimidador.

Na cozinha e na residência dos criados, mantinha certa distância dos demais. Tomava sua xícara de chá em silêncio, lia seus livros de capa gasta e penteava o cavanhaque com uma solenidade que era alvo constante de piadas abafadas pela criadagem.

Ainda assim, era justo. E um dos servos mais antigos da Casa Stilinski. Isso lhe garantia a admiração de muitos. E o temor respeitoso de praticamente todos.

— A senhora não deveria estar lá embaixo, senhora McCall? — perguntou ele.

Era uma pergunta. Mas, vindo de Archibald, soava muito como uma ordem.

— Eu estava indo. Vim pegar mais toalhas... — disse Melissa apressadamente, abaixando-se para recolher as que haviam caído.

Para sua surpresa, Archibald se ajoelhou diante dela e a ajudou. Aquilo era estranho. Muito estranho.

— Madame Stilinski também ordenou que os servos da casa se divertissem, você bem sabe — disse ele, recolhendo uma das toalhas com cuidado impecável. — Há comida e bebida na cozinha. Na verdade, soube que o jovem mestre Stilinski solicitou justamente isso. Palavras dele: "A festa de aniversário não é só para mim."

Archibald fez uma pausa breve, como se ponderasse a lógica da afirmação.

— O que não faz muito sentido, considerando que, de fato, o aniversário é dele.

Melissa conhecia aquelas ordens. E achara muito a cara de Stiles ampliar as festividades para incluir também os servos da casa. Aquilo fez o sentimento contraditório de crítica e satisfação reverberar em seu peito outra vez.

— Ele parece muito com Eve... — deixou escapar.

Então se calou por um segundo, mas as palavras seguintes vieram antes que pudesse contê-las:

— Ela fazia questão de organizar festas para a criadagem. E até cantava para eles. Madame Halina reclamava, claro, mas mesmo assim ficava na cozinha para ouvir as músicas de Eve... Acho que Stiles puxou isso dela.

Melissa se calou de vez. Não devia estar falando daquela forma. Não devia se referir à antiga condessa como "Eve". Não ali. Não diante de Archibald. Não sem o título adequado.

Evelyne Ravenspyr Stilinski fora sua senhora. Não apenas sua amiga. Correção: não fora sua amiga. Não oficialmente. Não da maneira que importava para os outros.

Usar aquele apelido era errado em tantos níveis que Melissa já podia esperar uma longa lista de críticas vindo de Archibald. Talvez uma reprimenda seca. Talvez uma ordem para polir toda a prataria dos Stilinski até que pudesse enxergar a própria culpa refletida nela.

Mas nada disso veio.

— Fico feliz que Stiles tenha herdado isso dela — disse Archibald apenas. — Melhor assim.

Melissa franziu o cenho. Não houve crítica. Nenhuma reprimenda. Definitivamente estranho. Antes que pudesse questionar, porém, Archibald se levantou com uma agilidade que não parecia pertencer a alguém com mais de sessenta anos.

— Senhora McCall, é melhor descer. Ainda há muito trabalho a ser feito — disse ele, retomando o tom sério e irritado de sempre.

E, sem acrescentar mais nada, desceu a escadaria rumo ao primeiro andar, onde provavelmente reassumiria sua posição como anunciador das famílias nobres e poderosas que chegavam à festa.

Melissa o observou partir, confusa e hesitante. Então se levantou, segurando as toalhas contra o peito, e já se preparava para descer quando parou. Um som seco. Algo caíra em um dos quartos. Ou talvez no corredor.

Ela ouviu, mesmo com a comoção estranha que vinha do andar de baixo.

Um leve alarme percorreu sua nuca. Aquela vozinha sensata em sua cabeça lhe disse para ignorar. Para focar em sua tarefa. Afinal, ela já havia se afastado demais das funções que deveria estar cumprindo. Archibald estava certo. Ela precisava descer.

Então veio outro som. Algo se arrastando.

Melissa apertou as toalhas entre os dedos. E mudou de direção. Não desceu as escadas. Seguiu pelo corredor que deveria estar deserto.

~**~

— Eu sou um tremendo covarde. Um tremendo idiota. Digo, eu ganhei uma oportunidade que, diga-se de passagem, é única! Eu devia estar me empanturrando de comida, bebendo e... sei lá. Tirando uma folga, pelo menos! Você entende?

Scott fez a pergunta ao cavalo que escovava nos estábulos.

Qualquer pessoa que entrasse ali acharia bastante estranho ver um homem usando roupas tão elegantes afundar as botas no feno e no esterco enquanto escovava um cavalo com afinco quase desesperado.

O animal soltou uma bufada. Talvez indicando que entendia. Ou talvez reclamando porque Scott McCall havia parado de escová-lo.

— Mas eu meio que me senti culpado... — continuou Scott, retomando o movimento da escova. — Digo, eu sou um servo. Os outros estavam trabalhando, correndo de um lado para o outro, servindo bebida, carregando bandejas, arrumando mesa... E eu lá, me divertindo? Parecia estranho. Sei que Stiles fez tudo com boas intenções, mas...

Ele suspirou.

— Com quem eu iria conversar no meio de todos aqueles nobres metidos a besta? Talvez só com Isaac e madame Flor. Stiles estava ocupado demais com o futuro namorado dele... Nada contra, claro. Não quero ficar segurando vela. Mas você entende que eu precisava escapulir de lá, não entende?

O cavalo, como resposta, sacudiu o rabo e relinchou.

Scott arregalou os olhos, ofendido.

— Não! Não... Eu não fugi de lá porque fiquei pensando que, quando Allison chegasse, eu não saberia como interagir com ela.

O animal virou levemente a cabeça, como se duvidasse. Scott apontou a escova para ele.

— Não me olhe assim.

O cavalo bufou outra vez.

— Está bem, talvez um pouco — admitiu Scott, derrotado. — Digo, agora que estou com uma roupa adequada e tudo mais, seria uma ótima oportunidade para... ah!

Ele exclamou alto demais, assustando o animal, que relinchou de novo, claramente contrariado.

— Desculpa, desculpa! — Scott levantou as mãos em rendição. — Mas sim, talvez fosse uma oportunidade para ficarmos juntos. Talvez como... casal, ou algo assim.

A palavra pareceu grande demais em sua boca. Ele engoliu em seco.

— Mas não esqueça, Caramelo, que Allison não viria sozinha. Ela viria com a família dela.

Scott olhou para a entrada dos estábulos, como se algum Argent pudesse surgir das sombras apenas por ter sido mencionado.

— E como eu iria me apresentar para eles? Como... eu?

A frase morreu. Ele baixou o olhar para as próprias mãos, soltando a escova que usara para cuidar do cavalo. Mãos marcadas por cicatrizes. Por calos. Por trabalho. Não eram mãos de um nobre.

A roupa podia ter realçado sua aparência. Podia tê-lo feito parecer mais elegante, mais digno, talvez até pertencente àquele mundo por alguns instantes. Mas não podia ocultar o que ele realmente era.

— Talvez eu não tenha sido covarde, e sim sensato... — murmurou, talvez mais para si mesmo do que para o cavalo. — Digo, por que eu insisto nesse romance?

Scott soltou um suspiro pesado e deixou a testa encostar no flanco do animal, como se buscasse algum tipo de alento para a angústia que preenchia seu coração.

O que ele poderia oferecer a Allison?

A casa que dividia com a mãe, no terreno atrás da mansão? Uma das pequenas residências dos servos que trabalhavam diretamente para os Stilinski — diferente daqueles que viviam nos vilarejos das terras das raposas, dedicando-se à agricultura ou à mineração na pedreira da família.

Uma casa estreita, com duas camas, dois quartos e uma pequena sala-cozinha com uma lareira apertada.

Enquanto isso, a mansão Argent era gigantesca. Allison tinha todas as regalias: vestidos, joias, professores particulares, criados, salões, jardins, sobrenome, prestígio.

Scott não tinha nada a oferecer além do próprio amor.

E, naquele momento, começava a sentir que talvez isso fosse insuficiente.

— Céus... e eu pensando que tinha fugido do drama — disse uma voz arrastada. — Só para encontrar um pé-rapado chorando por uma mulher que ele obviamente não vai conseguir.

Scott levantou a cabeça de súbito. Tão de súbito que, por um instante, pensou que fosse quebrar o próprio pescoço. Quase ouviu um estalo.

Virou-se para a entrada do estábulo.

Não esperava ver ninguém ali. Aquele era o estábulo exclusivo dos Stilinski. O outro, onde estavam os cavalariços, os cavalos e as carruagens dos nobres convidados, ficava em uma construção maior e até mais elegante. Scott tinha ido justamente para aquele lugar esperando solidão. Privacidade.

Ninguém da família das raposas viria até ali durante o baile. E os outros servos certamente estavam ocupados demais para desperdiçar tempo no estábulo menor.

Mas o rapaz que entrou cambaleando parecia ter se esforçado bastante para contrariar essa lógica.

Jackson Whittemore surgiu à porta, trôpego e desgrenhado. A casaca havia sido abandonada em algum lugar. Usava apenas um colete preto sobre uma camisa em tons de vermelho-escuro, acompanhado por uma gravata laranja e dourada que já pendia torta no pescoço. A calça tinha marcas de sujeira nos joelhos — o que sugeria que ele já havia caído pelo menos uma vez no caminho até ali.

Ainda assim, segurava uma garrafa de vinho em uma das mãos com o triunfo de um conquistador voltando da guerra.

A outra mão empurrava a porta do estábulo como se ela fosse uma inimiga particularmente teimosa.

Scott reconheceu de imediato a pessoa que invadia seu espaço — e ainda tinha a audácia de fazê-lo com tanta grosseria.

— Jackson, o que está fazendo aqui? — resmungou.

— Ei, servo... me chame pelo meu nome de família — reclamou Jackson, apontando um dedo em direção a ele. Ou quase em direção a ele. O dedo estava mais voltado para um cavalo próximo. — Whittemore! Os dragões de Caeloria! Senhores do fogo! Todos nos temem!

A declaração talvez surtisse mais efeito se Jackson não estivesse discursando para um cavalo em vez de para Scott.

Scott precisou controlar a vontade de gargalhar.

— Sim, claro, senhor Whittemore... — disse, com um suspiro. — Está meio distante do salão do baile. Se perdeu?

Jackson enfim virou o rosto para ele.

Os olhos cinzentos estavam meio opacos pelo álcool. O queixo firme e o rosto bonito, de fato, poderiam impressionar em outras circunstâncias. Mas qualquer traço de nobreza ou beleza se perdia quando o jovem dragão abriu um sorriso bêbado e absolutamente idiota.

— Não me perdi — declarou, ofendido. — Eu vim aqui de forma deliberada. Viu? Sei falar uma palavra difícil. De-li-be-ra-da!

Ele ergueu a garrafa como se aquilo comprovasse seu argumento.

— Ah! Aposto que nem você nem Stiles previram isso!

Jackson tentou se apoiar em um banco de madeira. Se sua intenção era sentar, estava fracassando de maneira evidente.

Scott rolou os olhos, soltou outro suspiro enorme e foi ajudar o nobre bêbado antes que ele caísse de cara no feno. Ou pior. No esterco.

— E o que eu iria fazer no baile? — resmungou Jackson, já sentado no banco.

Ele sequer agradeceu Scott pela ajuda. Em vez disso, levou a garrafa aos lábios e sorveu um gole de vinho. Parte da bebida escorreu pelo canto de sua boca.

— Stiles já escolheu o lobo pulguento idiota...

Scott ergueu as sobrancelhas. Jackson pareceu se dar conta do que dissera com alguns segundos de atraso.

— Espera. Não diga ao Hale que eu o chamei de lobo pulguento idiota! — pediu, subitamente alarmado.

— Vou pensar no seu caso — disse Scott, tentando não sorrir.

Pelo visto, o grande dragão temia o poder dos lobos. Interessante.

— Mas você realmente achou que Stiles fosse escolher você?

Whittemore deu de ombros.

— Não — respondeu.

A sinceridade pegou Scott de surpresa.

— Mas meu pai esperava. Ele meio que pensa que o filho dele é o maior conquistador do reino. Que todos os jovens nobres de Beacon Hills estão loucos por mim. — Jackson fez uma pausa e levou a garrafa de novo à boca. — Bem, ele pode estar um pouco certo. Afinal, eu sou muito bonito.

— Aham... — Scott assentiu, tentando não revirar os olhos. — E, pelo visto, com muito amor-próprio.

— Obrigado! — disse Jackson, como se aquilo fosse um elogio genuíno.

Ele bebeu mais um gole de vinho.

— Mas eu sei que Stiles não se enquadra nesse padrão. Tentei explicar isso ao meu pai, mas ele achou que eu não estava me esforçando o bastante. Fez-me escrever aquela carta e... eu tive que mentir. Disse que estava conseguindo alguns pontos positivos com o raposo.

— Você mentiu? — Scott ergueu as sobrancelhas.

Ele sabia que muitos nobres estavam mirando Stiles agora que o baile de maioridade chegara. A perspectiva de conquistar a mão do Stilinski — e, com ela, alianças, influência e acesso às terras do duque — era evidente no monte de cartas que Stiles recebera durante a semana.

Mas Scott não imaginava que Jackson estivesse realmente envolvido naquela disputa. Não de verdade. Não depois de todos os anos em que provocara Stiles, perseguira-o e até trocara socos e pontapés com o filho do duque.

— Você não sabe como é o meu pai... — murmurou Whittemore.

Scott ficou surpreso ao ver medo no rosto dele. Medo real. Não combinava com Jackson. Não com o Jackson sempre confiante, arrogante e cheio de si que desfilava por Beacon Hills como se o chão tivesse sido colocado ali apenas para receber suas botas.

— E quando ele viu Stiles com o Hale... eu...

Um leve tremor percorreu os ombros de Jackson.

— Eu tive que sair de lá. Sabe?

Scott não sabia. Não de verdade. Mas assentiu mesmo assim.

Ele não sabia quase nada sobre os Whittemore, além do que todos em Beacon Hills sabiam: eram uma família que colecionava glórias militares, vangloriava-se do próprio poder destrutivo e parecia acreditar que incendiar coisas era uma personalidade. Também eram uma das famílias mais desagradáveis da região — valentões, metidos, barulhentos, quase mais irritantes do que a soberba cuidadosamente polida dos Argent.

Mas, naquele momento, Jackson Whittemore não parecia um dragão. Parecia apenas um rapaz bêbado, assustado e tentando fingir que ainda tinha garras.

— Você tem sorte, sabia? — Scott ouviu Jackson dizer.

— Sorte? — McCall franziu o cenho.

— Por ser plebeu.

Scott ficou imóvel por um instante.

Jackson, no entanto, continuou falando, a voz arrastada pelo vinho e por algo mais difícil de nomear.

— Você não precisa se comprometer com as coisas da família. "Jackson, você precisa treinar mais." "Jackson, precisa estudar mais." "Jackson, case-se com tal nobre." "Jackson, não abaixe os ombros." "Não coma demais." "Não coma de menos." "Não pareça fraco." "Dragões não abaixam a cabeça." Mais. Mais. Mais.

Scott não sabia se o nobre falava realmente com ele ou apenas consigo mesmo.

— Por isso tenho raiva de Stiles — continuou Whittemore, apertando os dedos ao redor da garrafa. — Porque ele consegue escapar da responsabilidade! Entende? Ele não precisa ir à escola. Pode dizer aquelas coisas. Pode rir da cara de todo mundo. Pode fingir que nada o atinge e sair por aí sendo... sendo Stiles! Isso é injusto!

E, com isso, Jackson soltou uma bola de fogo de uma das mãos.

Felizmente, não da mão que segurava a garrafa de vinho.

— Ei! — gritou Scott. — Cuidado! Aqui está cheio de feno! Você ficou louco? Nem eu nem os cavalos somos à prova de fogo!

Ele retirou o casaco às pressas e correu para abafar as chamas antes que se espalhassem.

Jackson ao menos pareceu meio culpado. Até tentou se levantar, talvez para ajudar, mas a embriaguez o fez pender para o lado e bater de cara em um armário de ferramentas.

Scott já estava perdendo a conta de quantas vezes revirara os olhos desde que Jackson entrara no estábulo.

Mas, pelo menos, o fogo foi apagado.

Então ele olhou para o próprio casaco elegante — agora coberto de fuligem, feno e com uma parte queimada na manga. Perfeito. A única peça chique que tinha, feita especialmente para o baile, e Jackson Whittemore já conseguira estragá-la.

Scott deveria dizer umas poucas e boas a Jackson. Dizer que ele tinha sorte? Como assim?

Jackson sequer fazia ideia de como era a vida do povo comum do reino. Dos servos. Sabia que horas acordavam para trabalhar? Que horas conseguiam dormir? Sabia se tinham pausa para descanso ou não? Sabia o que era entregar parte do que se produzia como tributo ao nobre que possuía a terra sob seus pés?

Os Stilinski, ao menos, eram senhores benevolentes. Mas Scott ouvira histórias de servos de outras casas. Histórias de sofrimento. De humilhação. De martírio.

E o pior: eles não tinham voz. Não tinham representantes. Não tinham um salão onde pudessem reclamar, nem um conselho onde pudessem exigir justiça. Eram sempre os nobres que falavam. Sempre os nobres que decidiam. Sempre os nobres que tinham o direito de ser ouvidos.

Mesmo um inerte como Stiles tinha mais voz do que um simples plebeu.

Scott fechou os punhos. Nem havia percebido que estava com tanta raiva assim. Se fosse um Whittemore, talvez já estivesse em chamas agora.

— Caramba... é assim que os Stilinski cuidam dos servos? — ouviu Jackson dizer. — E depois dizem que são melhores que os dragões... Meu pai manda fazer a mesma coisa com os servos da nossa família quando eles fazem algo errado.

— O quê? — Scott rangeu os dentes.

Então percebeu para onde Jackson olhava.

O armário de ferramentas havia caído, provavelmente por causa do impacto do dragão bêbado. Mas não era a bagunça — que, com toda certeza, Scott acabaria tendo que arrumar — que chamava a atenção de Jackson. Não. Havia tábuas soltas atrás do armário. Um compartimento oculto. E, dentro dele, havia uma pessoa. Um homem idoso. Desacordado.

Scott conhecia aquele homem.

— Archibald? — chamou, a voz trêmula e hesitante.

O mordomo da Casa Stilinski estava ali. Não usava seu terno impecável, mas roupas simples. As mãos estavam amarradas à frente do corpo, e a cabeça pendia de lado, como se tivesse sido jogado ali às pressas.

Scott correu até ele e tocou o pescoço do velho, procurando pulsação. Estava vivo. Graças aos deuses, estava vivo.

— Mas... o que significa isso? — balbuciou Scott.

Ele tinha certeza de que vira Archibald na mansão momentos antes. O mordomo estava anunciando as famílias no baile. Scott o vira. Todos o tinham visto. Ele não teria vindo até os estábulos.

Na verdade, Scott nunca vira Archibald ir até aquele estábulo em toda a sua vida. Então... como?

Foi então que ouviu. O trotar de cavalos. Vindo de fora. Aquele estábulo era exclusivo dos Stilinski. Nenhum cavalariço traria montarias para ali durante o baile. E aquele som não vinha da estrada de cascalho. Vinha do campo.

— Bem, vocês servos são mesmo estranhos... — riu Jackson, bebericando da garrafa. Logo depois, choramingou ao perceber que o vinho havia acabado.

— Jackson... — chamou Scott, em tom apreensivo.

— Já disse para me chamar de Whittemore. Ou senhor Whittemore. Ou melhor: lorde Whittemore.

— Que seja!

Sem paciência, Scott foi até ele e o puxou consigo para a parte dos fundos do estábulo.

Os cavalos relinchavam, assustados e inquietos. O trotar se tornava cada vez mais evidente.

Havia uma pequena janela nos fundos. Scott a abriu e deu de cara com o campo escuro. Os vastos campos de cultivo dos Stilinski se estendiam diante dele, engolidos por uma noite sem lua. Era difícil enxergar qualquer coisa.

Mas havia alguém ali. Ele sentia.

— O quê? Ei, não me puxe assim! Ponha-se no seu lugar, servo! — Jackson reclamava, embora se deixasse conduzir.

Scott o ignorou.

— Você consegue lançar outra bola de fogo?

Jackson o encarou, desconfiado.

— Óbvio que sim.

— Lance lá fora.

Ou melhor: Scott não pediu. Ordenou. Jackson estreitou os olhos.

— Como ousa me dar ordens?

Scott respirou fundo.

Então mordeu onde sabia que doeria.

— Eu duvido que você consiga lançar uma bola de fogo forte o bastante para iluminar o campo, Jackson. Aposto que não consegue. Seu pai estava certo, afinal. Você não passa de um dragão fraco.

Arrependeu-se quase de imediato. Porque viu lágrimas dominarem os olhos cinzentos de Jackson. Quase. No instante seguinte, fumaça começou a escapar de suas narinas.

Jackson ergueu o braço. Por um segundo, Scott pensou que o dragão fosse lançar a bola de fogo contra ele. Mas não. Jackson lançou-a para fora.

Uma esfera flamejante cortou a escuridão e explodiu no céu como fogos de artifício, espalhando luz alaranjada sobre os campos.

Teria sido belo. Sem dúvida, teria sido. Jackson até pareceu orgulhoso do próprio poder. Mas não houve aplausos de Scott McCall. Porque ele viu. Guerreiros de Ruun. Com suas vestes negras, montados em corcéis igualmente escuros. Dezenas deles. Rodeando a Mansão Stilinski.


~~Notas da Autora~~

Hoje é o meu aniversário 🎂!! Yeah! Presente aqui para vocês!

Reta final do livro. 

E quem afinal é o Archibald? 


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