Capítulo 29
— Sem dúvida, o baile de maioridade dos Stilinski continua tão surpreendente quanto eu me lembrava — disse Gerard Argent, aproximando-se de Stiles com um sorriso cordial nos lábios.
Stiles, por sua vez, não soube dizer se aquilo era um elogio ou uma crítica. Afinal, uma pessoa podia se surpreender diante de uma paisagem primaveril deslumbrante, coberta de flores, luz e pássaros cantando. Mas também podia se surpreender ao encontrar uma cobra venenosa escondida entre as folhas, pronta para dar o bote. Era ambíguo. E o jovem Stilinski tinha quase certeza de que a ambiguidade era intencional por parte do chefe da Casa do Falcão.
— Uma pena que eu tenha chegado tarde demais para a primeira dança — continuou Gerard, os olhos agora se voltando para Derek, que permanecia ao lado de Stiles de forma tão protetora que quase parecia uma muralha. — Mas vejo que já escolheu seu candidato, não é? E olhe só... eu nem sabia que lobos sabiam dançar.
Aquilo poderia soar como um simples comentário. Se alguém ouvisse de longe, talvez pensasse que não havia ali intenção alguma de crítica ou provocação.
Mas Stiles sabia reconhecer um ataque preciso da casa cujo lema era "A visão guia a lâmina". Que ele, particularmente, interpretava de forma mais livre como: "A língua afiada dos falcões corta mais do que espada."
— Sabemos dançar — respondeu Derek, em um tom baixo e controlado. — Tão bem quanto sabemos caçar e destruir nossos inimigos. Se quiser, posso demonstrar, senhor Argent.
A frase deixou livre a interpretação sobre qual demonstração Derek oferecia: a dança ou a caça.
De qualquer forma, Stiles sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Um arrepio bastante positivo. Quase indecentemente positivo.
Pela leve contração que surgiu na máscara cordial de Gerard, o efeito também atingiu o patriarca da Casa Argent — embora, obviamente, não da mesma forma que atingira Stiles. Porque isso seria estranho. Muito estranho. Um tipo de estranho que Stiles não estava disposto a considerar nem sob tortura.
— Oh, aquele é Octavius Ravenspyr? — perguntou Chris Argent, desviando o olhar para o palco improvisado onde o cantor ainda preenchia o salão com sua voz. — Ah, sim, claro, ele é seu tio! Que honra conhecer o famoso cantor de ópera.
Chris Argent — ou Christophe, embora todos o chamassem de Chris havia tanto tempo que seu nome completo parecia ter sido esquecido pelo próprio reino — era o filho mais velho de Gerard e pai de Allison. E, para surpresa eterna de Stiles, parecia genuinamente simpático.
— Se quiser, posso mexer alguns pauzinhos para conseguir um autógrafo — ofereceu Stiles.
Chris ergueu as sobrancelhas, parecendo genuinamente animado com a possibilidade. Contudo, sua animação foi logo cortada pelo pigarro crítico de Gerard.
Chris, apesar de seus quarenta anos, de repente pareceu um garoto sapeca flagrado fazendo alguma malandragem. Aquilo irritou Stiles mais do que deveria. Ou talvez exatamente o quanto deveria.
E a irritação apenas piorou com o que veio em seguida.
— Espero que saiba escolher suas alianças, raposinha — disse Kate Argent, com um sorriso afiado demais para ser bonito. — Afinal, minha sobrinha Allison certamente seria muito mais valiosa como parceira do que um lobinho, por mais atraente que ele seja.
O olhar dela passou por Derek de cima a baixo, com uma audácia que fez os dedos de Stiles se fecharem discretamente.
— Não é pelo corpo, nem pela libido, que devemos guiar nossas escolhas — prosseguiu Kate. — E sim pelo futuro da família e da casa. Bem... considerando que você é apenas um inerte, talvez não compreenda as nuances, a importância e os efeitos de suas decisões. Se ao menos vocês tivessem algo de Arkanis para guiá-los...
Kate Argent. A irmã maligna, como Stiles gostava de enfatizar mentalmente.
O que ela dissera fora extremamente rude por vários motivos. Primeiro, por tratar Allison como uma moeda de troca e não como um ser humano. Stiles notou a amiga corar e baixar a cabeça, constrangida. Chris, ao menos, a consolou, puxando-a levemente para perto de si.
Gerard, por outro lado, não emitiu nenhum pigarro crítico. Pelo contrário. Havia clara admiração e orgulho no olhar que lançou à filha. Um orgulho frio, satisfeito, quase predatório. Em seguida, veio uma expressão de desgosto tão breve que talvez passasse despercebida por qualquer outra pessoa.
Mas Stiles viu. E quase pôde ouvir os pensamentos do patriarca Argent. Por que Kate Argent teve que nascer mulher?
Afinal, dentro da cultura misógina de Caeloria, uma mulher — mesmo uma mulher com Arkanis — não podia ser líder, chefe de família ou herdeira de nada. E era óbvio que Gerard não considerava Chris ideal para ocupar tal posição. Faltava-lhe, talvez, aquela língua afiada e aquele caráter claramente amoral que o velho falcão tanto parecia apreciar.
— Ora, Kate... — começou Stiles, abrindo um sorriso amplo. — Aprecio sua opinião. De verdade. É sempre fascinante observar uma pessoa transformar preconceito, arrogância e frustração pessoal em conselho familiar.
O rosto de Kate se enrijeceu. Stiles continuou, doce como veneno servido em taça de cristal:
— Mas receio não compartilhar de sua mentalidade. Especialmente quando ela envolve medir pessoas pela utilidade que teriam como ferramentas políticas. Ou reduzir alianças a desejos carnais, como se todo afeto fosse uma fraqueza e toda escolha precisasse passar pela aprovação de alguém com um falcão costurado no peito.
Derek soltou um som baixo ao lado dele. Quase um rosnado. Mas, dessa vez, Stiles não sabia dizer se era ameaça ou aprovação. Talvez ambos.
— Além disso — acrescentou Stiles, inclinando a cabeça com falsa inocência —, levando em consideração o fato de que a senhorita ainda está solteira, seu conselho sobre alianças vantajosas parece ser algo que nem você mesma aplica, não é mesmo, senhorita Argent?
O efeito foi imediato. Uma tonalidade vermelha se apoderou do rosto de Kate Argent. E, bem, Stiles adorou cada segundo.
Aos vinte e quatro anos, Kate era bela, disso ninguém poderia discordar. Tinha o porte altivo dos Argent, cabelos bem-arrumados, busto avantajado e uma força física visível nos braços e ombros, mesmo sob o vestido azul que moldava suas curvas com precisão calculada.
Mas, apesar da beleza, dos modos treinados e do favoritismo evidente de Gerard, os anos passavam e a filha preferida do patriarca Argent seguia sem promessa de noivado.
O que, naturalmente, era alvo de incessantes fofocas em Beacon Hills. E Stiles, como qualquer raposa minimamente competente, sabia exatamente onde morder.
— Cuidado, jovem Stilinski — disse Gerard, agora perdendo parte do tom educadamente cordial. — Eu lhe asseguro que o comentário de minha filha foi feito com as melhores intenções.
— Ora, e o meu também foi, meu caro Argent — respondeu Stiles, sem perder o ritmo.
Ele não se deixou pressionar pelo olhar feroz que Gerard e Kate lançavam em sua direção. Ainda assim, notou outros olhares: a admiração discreta de Chris, o receio evidente de Allison.
— Aprecio de verdade suas sugestões e conselhos — continuou Stiles, com um sorriso polido demais para ser modesto. — Ainda mais agora que adentrei a maioridade.
— O rapaz parece ser bastante corajoso, mestre Argent... — Deucalion se intrometeu na conversa.
O orlathiano sorria como alguém assistindo a uma peça particularmente divertida. Seus olhos acompanhavam cada reação com evidente interesse.
— Impertinente, você quis dizer — murmurou Victoria Argent.
A mulher de semblante sério e aspecto sóbrio — esposa de Chris e mãe de Allison — falou baixo, mas não baixo o suficiente para que os presentes não ouvissem.
Gerard soltou outro pigarro, desta vez como se tentasse dissipar o assunto, e fez um gesto elegante com uma das mãos.
— Bem, a Casa Argent lhe dá os parabéns, jovem Stilinski. Contudo, devo dizer que tenho assuntos importantes a discutir.
Então abriu levemente o casaco azulado que vestia, adornado com costuras prateadas e pequenos broches em formato de falcão.
Stiles notou de imediato o envelope guardado no bolso interno. O selo de cera trazia a marca de uma fênix. Um selo real. Da coroa de Caeloria.
Stiles ergueu as sobrancelhas. Pelo sorriso de triunfo que surgiu nos lábios do velho Argent, aquilo fora intencional. Provavelmente feito para desestabilizá-lo.
Uma mensagem vinda da coroa do reino, enviada à Casa Argent e não à Casa Stilinski? Não à casa de um duque? Aquilo, sem dúvida, despertava interesse. Ou soava como um alarme.
— Isso é um presente de aniversário? — perguntou Stiles, em tom provocador. — Não precisava, Gerard.
Mais uma vez, o velho falcão perdeu minimamente a compostura. Foi pouco. Quase nada. Um leve estreitar dos olhos, uma contração discreta no maxilar. Mas Stiles viu. E, por um instante, aquilo bastou.
— Stiles... devo chamar minha mãe? — sussurrou Bartosz, ainda acalentando Zofia no colo.
Tia Agni assistia a tudo com apreensão. Derek e Lydia estavam tensos, mas nenhum dos dois se afastava de Stiles.
Stiles sabia por que o tio sugeria trazer a velha matriarca da família. Talvez pensasse que ela deveria tomar conhecimento daquela manobra dos falcões. Talvez não confiasse que Stiles pudesse lidar com Gerard sozinho.
Talvez tivesse razão em se preocupar. Mas Stiles não podia recuar. Não ali. Não diante de todos.
— Não precisa, tio — respondeu ele, também em voz baixa, antes de voltar os olhos para Gerard. — Acho que nosso querido lorde Argent só deseja conversar um pouco sobre negócios. O velho falcão não sabe realmente relaxar em meio a uma festa, não é mesmo?
Gerard abriu a boca, talvez para contradizê-lo, talvez para repreendê-lo. Stiles não lhe deu tempo.
— Archibald.
O mordomo se aproximou prontamente, surgindo com aquela eficiência silenciosa que o fazia parecer convocado por magia — embora, infelizmente, fosse apenas competência extrema e um talento assustador para estar sempre no lugar certo.
— O escritório do meu pai está disponível, não é mesmo?
— Sim, mestre Stilinski — respondeu Archibald, com uma leve inclinação de cabeça.
— Pois bem. Irei acompanhar nosso convidado para uma pequena reunião. Avise minha avó e os demais convidados que porventura chegarem que não vou me demorar.
Stiles então voltou o olhar para Gerard Argent, sustentando o sorriso. Dessa vez, sem ironia evidente.
— Talvez devesse chamar seu avô, Kazimierz Stilinski — sugeriu Gerard. — Ele é o chefe da sua casa quando o duque Noah não está presente, não é mesmo?
A pergunta podia soar como uma dúvida legítima. Mas não era. Era mais um ataque afiado do falcão.
Gerard sabia muito bem que Kazimierz já não possuía lucidez suficiente para assumir a liderança da casa ducal. Sabia também que, se o critério fosse Arkanis, experiência e discernimento, quem deveria comandar os Stilinski na ausência de Noah seria Halina Stilinski. Mas Halina era uma mulher. E, dentro das tradições sufocantes de Caeloria, isso a tornava incapaz — ao menos aos olhos da lei e da nobreza — de ocupar certas posições de poder ou decisão.
— Meu avô está ocupado no momento, dedicando-se ao bufê do meu aniversário — respondeu Stiles, em tom trivial. — E pretendo deixá-lo exatamente assim. Além disso, ele não é, no momento, o chefe dos Stilinski.
Gerard ficou desconcertado. Stiles lhe lançara apenas uma migalha para atrair a ave, mas não lhe deu tempo de bicá-la.
— Por aqui, Argent.
Stiles lançou um olhar para Lydia e Derek, indicando que o acompanhassem. Os dois entenderam de imediato e se moveram ao seu lado.
O velho Argent tentou retomar a compostura e o seguiu, acompanhado por Deucalion e os gêmeos. Antes de partir, trocou um olhar significativo com Kate, algo breve demais para ser casual e calculado demais para ser inocente.
— Eles vão com você? — questionou Gerard, apontando para os acompanhantes de Stiles.
— Acha mesmo que ficarei sozinho com o senhor? — perguntou Stiles, sem sorrir. Então, como se tivesse acabado de se lembrar de que era educado parecer agradável em uma festa, abriu um sorriso.
— Sou um jovem nobre ainda solteiro, recém-chegado à maturidade. O senhor é viúvo e pertence a uma casa de grande influência na região... Bem, isso poderia gerar fofocas, não é mesmo?
Gerard corou. De verdade. Foi discreto, claro. Um leve rubor nas bochechas, uma rigidez súbita no maxilar, um brilho ofendido no olhar. Mas aconteceu. E Stiles registrou aquilo com a satisfação de um estudioso diante de uma descoberta rara.
Também percebeu uma risada contida de Chris, que aparentemente ouvira o comentário. Allison, porém, parecia preocupada.
Ela não podia falar diretamente com Stiles — não com o avô ali presente —, mas moveu os lábios em silêncio. Stiles decifrou as palavras com facilidade. Afinal, já haviam feito aquilo inúmeras vezes na escola e em outros encontros formais dos quais eram obrigados a participar. Quantas conversas sem som os dois haviam tido, escondidas de suas respectivas famílias?
— Onde está Scott? — ela perguntou, sem voz.
Stiles sentiu o estômago afundar.
— Eu não sei... — respondeu da mesma forma, movendo apenas os lábios.
E, de fato, aquilo o preocupou. Onde estava seu melhor amigo? Ele se lembrava de tê-lo visto antes da dança com Derek. Mas depois? Onde Scott havia se metido?
— Vamos logo com isso, jovem Stilinski — disse Gerard, impaciente.
— Sim, claro.
Stiles voltou a caminhar, mas seu olhar varreu o amplo salão antes de deixar o espaço.
Não viu Scott em lugar nenhum. Estranho. Muito estranho.
~**~
O escritório do duque fora arrumado recentemente. Afinal, de fato não vinha sendo usado desde que o duque Noah Stilinski fora chamado para uma misteriosa missão pela coroa do reino — e deixara de se comunicar por meses.
Os rumores de que ele havia morrido, desertado ou simplesmente abandonado a família corriam soltos por Beacon Hills. Eram repetidos em salões, sussurrados em corredores, disfarçados em comentários piedosos e servidos junto com taças de vinho por nobres que pareciam lamentar a possível tragédia... enquanto calculavam quantos hectares poderiam arrancar dos Stilinski caso ela se confirmasse.
Até Stiles chegara a acreditar nessa possibilidade. Mas a carta do pai, guardada firmemente no bolso interno de seu casaco, lembrava-o de que aquilo não era verdade.
Noah estava vivo. Ainda afundado em sua missão, sim. Distante. Silencioso. Envolto em segredos que nem mesmo o filho conseguia decifrar por completo. Mas vivo. E, naquela carta, alertara Stiles de que coisas estranhas estavam acontecendo além das fronteiras do reino. Problemas que se espalhavam como rachaduras invisíveis, avançando até o coração de Caeloria. Até Beacon Hills.
Stiles se sentou atrás da escrivaninha do pai. A cadeira era grande demais. Pesada demais. Carregada demais de presença. Mesmo assim, ele não se moveu.
Derek e Lydia permaneceram ao seu lado, um de cada lado, como se fossem duas sentinelas improváveis: o lobo e a corva protegendo a raposa.
— Pois bem — começou Stiles, apoiando os cotovelos sobre a mesa. — Do que se trata o envelope, Argent? Vou logo ao assunto e peço perdão por não oferecer chá ou uma taça de vinho, mas acredito que não devamos perder tempo com trivialidades.
Gerard percebeu a disposição da sala. Percebeu Stiles na cadeira do duque. Percebeu Derek e Lydia ao seu lado. E, por um segundo, hesitou antes de se sentar na poltrona diante da escrivaninha. Mas logo o fez, balançando a cabeça com desdém, como se aquela composição fosse algum tipo de brincadeira infantil.
Deucalion se acomodou prontamente na outra poltrona, sem esperar convite. Os gêmeos permaneceram junto à porta do escritório, imóveis como guardas.
Stiles os observou com interesse.
Por que Deucalion estava ali?
Engraçado. Gerard havia questionado os acompanhantes de Stiles, mas não parecia ver problema algum em trazer orlathianos consigo para uma reunião privada dentro da casa de outro nobre. Também não dera explicação alguma sobre a presença deles. O que, para Stiles, era bastante revelador. E um pouco divertido.
Sim, de certo modo, ele estava se divertindo ao observar os movimentos nada sorrateiros do falcão. Gerard Argent podia ser perigoso, mas, naquele momento, estava se comportando como uma ave de rapina convencida de que ninguém notaria suas garras.
— Bem, posso resumir para você... — disse Gerard, retirando o envelope do casaco e colocando-o sobre a mesa.
— Ser inerte não me tornou analfabeto, lorde Gerard.
Stiles pegou o envelope. O selo já havia sido rompido, é claro. Gerard obviamente lera o conteúdo antes.
— Cuidado, jovem Stilinski — advertiu o velho Argent. — Você está sendo muito insolente esta noite. Tenho sido tolerante por se tratar do seu aniversário e por todas as circunstâncias em que está inserido. Entendo sua frustração e tudo mais... Mas, como o conteúdo desse envelope vai lhe informar, existe uma solução para os seus problemas.
— Solução para os meus problemas... — repetiu Stiles, retirando as folhas de dentro do envelope e começando a lê-las rapidamente.
Lydia se inclinou sobre seu ombro, acompanhando a leitura.
— Isso é do Conselho Real de Caeloria — informou ela, a voz baixa, mas tensa.
Stiles estreitou os olhos diante dos selos, assinaturas e termos oficiais.
— Acha que seu pai sabia de algo sobre isso? — perguntou ele, sem desviar os olhos do documento.
— Acha mesmo que, se papai soubesse de algo assim, não teria me informado? Me poupe, Stiles — respondeu Lydia, afoita. — Isso é do conselho, sim. Meu pai faz parte dele. Mas, pela assinatura final, não teve a anuência de todos os conselheiros da coroa.
— Ah, sim... — murmurou Stiles.
Ele observou as assinaturas e carimbos ao final do documento. Tudo muito oficial. Tudo muito pomposo. Tudo muito cheio de autoridade, tinta cara e arrogância institucional.
Mas Lydia estava certa.
Karl Ravenspyr, chefe da Casa dos Corvos e um dos membros do Conselho Real, não estava entre os signatários.
— Isso é de fato oficial? — Stiles lançou a pergunta a Gerard.
Àquela altura, o velho Argent havia tirado um lenço do bolso e enxugava levemente a testa.
— Tem a assinatura do conselho — respondeu, irritado.
— Mas não de todos — enfatizou Lydia. — Isso não foi resultado de uma reunião plena nem de uma votação formal do conselho, foi?
— Mocinha... — disse Gerard, em um tom complacente, como se Lydia fosse uma criança e não uma mulher quase adulta, prestes a alcançar a própria maioridade. — Para algumas situações emergenciais, nem todos os membros do conselho são necessários para expedir ordens.
— Pelo visto, também não passou pela rainha — cortou Stiles, deixando os papéis sobre a mesa.
Gerard sorriu, embora o gesto não alcançasse os olhos.
— Nossa querida rainha certamente tem assuntos mais importantes com os quais se preocupar do que simples problemas hierárquicos de um ducado. Como, por exemplo, se continuará sentada no trono nos próximos meses.
Ele fez um aceno displicente com a mão, como se a crise da coroa fosse algo trivial — e não a maior fonte de instabilidade atual do reino.
Stiles o encarou. Devagar. Com atenção.
— Diga-me, Gerard — falou, pegando uma das folhas enviadas da capital. — A situação daqui é simples e trivial, ou é importante o bastante para que o senhor solicite uma manobra de conselheiros ligados à Casa Argent para emitir essa ordem? Decida-se.
Dessa vez, Gerard não pareceu surpreso com o ataque direto. Pelo contrário. Sorriu de forma predatória.
— Solicitar manobra? Ora, jovem Stilinski, você faz parecer que estou tentando articular um golpe.
— Bem — disse Stiles, erguendo o documento —, quando o Conselho Real declara que pretende transferir a administração do ducado para os Argent, nomear o senhor como meu tutor e "garantir a preservação da linhagem Stilinski", como diz aqui nestes papéis... isso me soa bastante como um golpe. Ou estou extrapolando a interpretação?
— Transferir o ducado? — Derek rosnou.
Ele quase avançou sobre Gerard, o corpo no limiar da transformação. Os ombros se enrijeceram, as unhas pareceram alongar por um instante, e os olhos verdes ganharam um brilho feroz.
Gerard também se levantou, a postura rígida, como se estivesse prestes a invocar os ventos ali mesmo dentro do escritório.
— Calma, Derek — disse Stiles, sem tirar os olhos de Gerard. — Isso é uma tentativa de golpe, não um golpe consumado.
Agora Gerard riu.
— Ora, raposa... Eu admiro a sua perseverança. É uma pena que não tenha Arkanis. Sem dúvida, teria sido interessante tê-lo como rival. Mas, sendo um inerte, você não tem força alguma.
A palavra caiu no escritório com o peso de uma sentença.
Gerard inclinou-se ligeiramente para a frente, o sorriso ainda preso aos lábios, mas sem qualquer cordialidade.
— Sem seu pai aqui, o ducado está sem líder. É óbvio que seu avô senil não pode assumir as responsabilidades da casa. O ducado de Beacon Hills é importante demais para ficar à míngua, nas mãos de mulheres com Arkanis e inertes.
Ele não se deu ao trabalho de ocultar o desprezo na voz.
Derek rosnou outra vez. Dessa vez, o som veio mais profundo, mais bestial. O corpo dele se tensionou, e por um instante Stiles teve a impressão de que o Hale realmente arrancaria a cabeça do falcão com as próprias garras.
Stiles segurou seu braço antes que isso acontecesse. Ao mesmo tempo, levantou-se.
— Diga-me, Argent... qual seria seu primeiro ato como meu tutor e duque interino? Hein? — perguntou Stiles, a voz baixa demais para ser tranquila. — Talvez permitir que membros da Confederação de Ruun entrem nas minhas terras? Que minerem cristais?
Ele fez uma breve pausa, os olhos presos no velho falcão.
— Ops. Mas você já permitiu que isso acontecesse, não é mesmo?
O silêncio que se seguiu foi curto, mas delicioso.
— O que me intriga, na verdade, é o motivo de tudo isso — continuou Stiles, inclinando levemente a cabeça. — Porque você sequer parece tão interessado nos cristais de Arkanis em si. Não além do aspecto financeiro, talvez. Mas não creio que seja só isso.
Seu olhar deslizou, então, de Gerard para Deucalion.
— Não. Há outra coisa aqui. Algo maior.
Stiles voltou a encarar Gerard, mas a frase seguinte foi direcionada ao orlathiano:
— E creio que Deucalion sabe muito bem o motivo.
Gerard paralisou. E então olhou para Stiles. Não com desprezo. Com surpresa. Surpresa real.
Deucalion, por outro lado, continuava sorrindo. Observando. Como se aquilo fosse um espetáculo cuidadosamente montado para seu entretenimento pessoal.
— Mas até consigo imaginar uma possibilidade — prosseguiu Stiles, devagar. — Bem, traição você já cometeu, Gerard. Então, o que falta para um golpe maior contra o reino?
Uma leve ventania percorreu o escritório. As janelas estavam fechadas. Obviamente, aquilo não vinha de fora. Gerard fechou os punhos, irritado.
— O que faço é pelo bem do reino — disse ele, com firmeza. — Manter as coisas como estão, com uma rainha no poder... isso sim é traição.
Ele parecia prestes a continuar, mas foi interrompido pela risada de Deucalion.
— Nossa, Gerard... você de fato subestimou demais o rapaz — disse o orlathiano, ainda rindo. — Ele é bem mais sagaz do que imaginei.
O sorriso dele se alargou.
— Bem, ele é sobrinho de Alphonse, então... talvez eu não devesse estar tão surpreso.
Gerard pigarreou. Era o sinal claro de que desejava encerrar toda aquela encenação antes que Stiles arrancasse mais alguma peça do tabuleiro.
— Que seja — disse ele, impaciente. — Você já conhece minhas intenções. Mas eu deveria ter suposto que descobriria, afinal, você é uma raposa. Mesmo sem Arkanis.
O desprezo na última frase não passou despercebido.
— Ainda assim, a ordem foi expedida. Não há nada que possa fazer, a menos que deseje se opor à coroa. Mesmo que me acuse de traição, Stiles, será você quem cometerá traição caso se oponha a uma ordem real.
Lydia lançou um olhar receoso para Stiles.
Derek, por outro lado, continuava encarando Gerard e Deucalion com fúria mal contida.
— Ah! — Stiles abriu um sorriso súbito. — Você usou meu nome. Ou meu apelido. Embora, sinceramente, eu já o considere mais meu nome do que apelido.
Gerard franziu o cenho.
— Para mim, isso conta como um ponto positivo a meu favor — completou Stiles, satisfeito.
— Do que você está falando?
— Estou falando que não vou me opor às ordens da coroa — respondeu Stiles, ainda sorrindo. — Porque, na verdade, meu caro falcãozinho... elas são inválidas.
Gerard soltou um "ah" incrédulo.
— Como elas seriam—
Stiles ergueu o dedo indicador. Para surpresa de todos — inclusive, talvez, do próprio Gerard — o velho Argent se calou. Foram apenas alguns segundos. Mas alguns segundos eram tudo de que Stiles precisava.
— Inválidas porque partem do pressuposto de que a Casa Stilinski não possui um herdeiro formalmente indicado pelo duque — explicou Stiles. — Isso abriria espaço para tutelagem, sim. Mas não é o caso. A Casa Stilinski tem um herdeiro.
— E quem seria ele? — perguntou Gerard.
Seu olhar se voltou por um instante para Derek, como se imaginasse que os Hale tivessem se aproximado justamente por isso: para tomar o controle das raposas através de alguma aliança conveniente.
Stiles quase riu. Quase.
— Sou eu, velho falcão.
Ele retirou a carta do pai do bolso interno do casaco e a colocou sobre a mesa, por cima dos papéis enviados pelo conselho da capital.
— Meu pai me nomeou herdeiro.
Gerard encarou a carta com incredulidade ainda maior.
— Você só pode estar brincando — murmurou. — Noah escreveu isso? Isso deve ser uma farsa. Noah está morto.
A convicção com que ele disse aquilo fez o ar no escritório parecer mais frio.
Gerard pegou a carta e leu rapidamente. A incredulidade em seu rosto foi, pouco a pouco, dando lugar à fúria.
— Deucalion... — rosnou ele, erguendo os olhos do papel. — Você disse que ele estava morto. Você me garantiu.
Stiles sentiu um frio percorrer sua espinha. Gerard esperava que Noah estivesse morto. Não apenas acreditava nisso. Esperava. O que aquilo significava?
Havia mais coisas ali do que Stiles previra. Muito mais. Seu olhar se voltou lentamente para o estrangeiro.
Deucalion permanecia sorrindo, observando Stiles com intensidade quase desconfortável.
— Diga-me, Stiles... É assim que gosta de ser chamado, não é? — perguntou Deucalion, com calma. — Você também gosta de arcanomecânica.
Não era uma pergunta.
— Gerard me contou muitas coisas interessantes a seu respeito — continuou ele. — E, em especial, mencionou um evento curioso ocorrido em sua escola. Algo envolvendo cristais de Arkanis.
Stiles engoliu em seco.
— Em meu reino, esses cristais são escassos — prosseguiu Deucalion. — E não possuímos a mesma variedade que vocês têm aqui em Caeloria. Mas você usou um cristal diferente, não foi? Diferente de todos os que conhecemos.
O silêncio se tornou espesso.
— Deucalion, isso não importa agora — cortou Gerard, irritado. — A questão de Noah—
Deucalion o dispensou com um simples aceno de mão. O gesto apenas pareceu enfurecer ainda mais o falcão. Uma ventania súbita atravessou o escritório, erguendo os papéis sobre a mesa e fazendo-os rodopiar no ar.
— Cale a boca, herege — disse Deucalion, sem paciência.
Stiles arregalou os olhos diante do termo. Herege.
Gerard pareceu prestes a atacar. Mas então um disparo ecoou pelo escritório. O som foi seco, agudo, brutal. Veio de um dos gêmeos.
Havia um dispositivo em suas mãos — uma arma arcanomecânica compacta, metálica, com um cristal pulsando no centro. O mecanismo disparou uma onda concentrada de energia que atravessou o ombro de Gerard.
O velho Argent gritou. O impacto o lançou para trás, e ele caiu no chão com um som pesado, uma mão apertando o ferimento. Sangue respingou sobre a escrivaninha e salpicou a bochecha de Stiles.
Por um instante, Stiles apenas ficou ali. Imóvel. Fascinado. Não porque aquilo fosse belo. Não porque fosse agradável. Mas porque sua mente, sempre rápida, sempre barulhenta, pareceu travar diante da súbita certeza de que o jogo mudara. Completamente.
Deucalion sorriu. Não havia nada amigável naquele sorriso.
— Bem... onde estávamos? — perguntou ele, como se Gerard Argent não estivesse sangrando no chão. — Ah, sim.
Seu olhar voltou a Stiles.
— O cristal. Onde ele está, Stiles?
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