Capítulo 34
Sua garganta estava seca. Ao tentar falar, apenas uma tosse escapou. Havia fumaça e poeira por todos os lados. Stiles piscou diversas vezes, mas não conseguia enxergar um palmo à frente do rosto.
Quando a névoa começou a se dissipar, Stiles sentiu o vento frio da noite tocar seu rosto. E aquilo não vinha de uma janela quebrada pelo impacto da arma somado ao efeito do cristal misterioso.
Não. O que havia diante dele era um tremendo buraco.
A parede externa do corredor simplesmente deixara de existir. Parte de seu quarto também havia sido arrancada, como se uma mão gigantesca tivesse atravessado a mansão e levado consigo pedra, madeira, vidro e qualquer noção razoável de segurança arquitetônica.
Onde antes havia tapeçarias, lambris polidos e a porta parcialmente aberta de seus aposentos, agora restavam vigas partidas, pedaços de parede pendurados, cortinas rasgadas tremulando no vazio e lascas de madeira espalhadas pelo chão. O tapete do corredor estava queimado nas bordas, coberto por poeira branca, fuligem e fragmentos de vidro que brilhavam de forma cruel sob a luz distante das chamas.
O rombo se abria para a noite sem lua. Lá fora, Beacon Hills parecia ter sido engolida por sombras e fogo.
No andar inferior, o caos se movia como uma criatura viva. Guerreiros Ruun corriam pelo pátio, alguns sendo arrastados ou lançados para longe por grandes lobos que avançavam entre eles com rosnados profundos. Garras riscavam pedra. Espadas refletiam lampejos alaranjados. Gritos se misturavam a uivos, ordens e ao som seco de corpos atingindo o chão.
Mais ao longe, Stiles conseguiu enxergar o estábulo em chamas.
O fogo subia pelas vigas de madeira, lançando faíscas contra o céu escuro. A fumaça se erguia em colunas densas, e os relinchos apavorados dos cavalos cortavam a noite com uma urgência que fez seu estômago afundar.
O cheiro também chegou até ele. Madeira queimada. Poeira. Sangue. E aquele odor metálico e estranho da arcanomecânica sobrecarregada, como metal aquecido depois de uma tempestade.
Stiles engoliu em seco.
— Vovó vai me matar... — foi o que conseguiu resmungar entre uma tosse e outra.
O poder do cristal era, sem dúvida, devastador.
Onde estava Come-Ossos? O guerreiro contra quem lutava? Stiles havia disparado praticamente em cima dele. Um calafrio percorreu seu corpo. Ele tinha matado alguém?
Não deveria ter sobrado nada do guerreiro. O impacto da arma provavelmente o desintegrara por completo, assim como fizera com a parede, as janelas, as cortinas e o fim do corredor.
— Stiles...
A voz veio fraca. Ínfima.
Stiles olhou para os lados, tentando encontrar a fonte.
— Tia Melissa? — chamou, ao reconhecê-la.
— Aqui... Aqui...
Ele olhou mais uma vez ao redor. Mas a repetição da voz o fez considerar um novo ângulo. Para baixo.
Stiles engoliu uma exclamação — ou tentou, porque outra tosse o interrompeu.
Melissa estava pendurada do lado de fora, segurando-se ao que restara do tapete do corredor. A ponta do tecido ainda estava presa a um pedaço de madeira na beirada do buraco aberto pela explosão.
Stiles correu para salvá-la. Ajoelhou-se na beirada, esticando o corpo o máximo que pôde para alcançá-la.
Melissa segurou seu braço. O tapete começou a rasgar.
— Oh, não! Não, não! — repetiu Stiles, tentando puxá-la.
Mas, sem apoio, logo se viu escorregando também. O tapete continuava se rasgando. Ele ouvia o tecido se desfazendo, fibra por fibra, sob o peso dos dois.
— Pelos deuses... — murmurou Melissa, alarmada, com o pânico evidente na voz.
— Não se preocupe. Tudo está sob controle. Tudo calculado nos mínimos detalhes. A gravidade, o peso, a massa, a força de resistência do tecido... Não se preocupe, vou tirá-la daí em poucos minutos. Segundos, até. Você vai ver! — tagarelou Stiles, nervosamente.
Enquanto isso, o pano rasgava cada vez mais, e Stiles percebia que estava mais perto de cair com Melissa do que de salvá-la.
— Me deixe ir, mestre Stilinski — ouviu-a dizer, entre lágrimas.
— Tia Melissa, o que está dizendo? Eu nunca—
Ela negou com a cabeça, interrompendo-o.
— É melhor assim... Digo... eu sou só...
— A melhor amiga da minha mãe! — cortou Stiles.
Melissa o encarou, atônita.
— Você é parte da minha família — continuou ele, apertando o braço dela com mais força. — Tal como Scott. É óbvio que eu não vou abandonar você. Nunca.
Melissa piscou algumas vezes, ainda estupefata. Stiles não entendia. Ela realmente se sentia tão descartável assim? Mesmo que ela fosse serva e ele um nobre, Stiles não conseguia vê-los como pessoas tão diferentes.
Então o tapete se partiu de vez. Stiles sentiu o corpo despencar no vazio junto com Melissa.
Fechou os olhos, mas não soltou o braço dela. Esperou o pior. Talvez caíssem sobre as roseiras e os arbustos do jardim. Talvez a queda fosse amortecida. Talvez doesse menos do que parecia que doeria.
Mas o impacto não veio. A queda não continuou.
Algo o puxou na direção contrária.
— Seu grande idiota! — rosnou uma voz irritada. — Você não se cansa de se colocar em perigo ou de saltar, literalmente, para situações de quase morte? Isso é o quê? Um passatempo para você?
Derek. A voz o trouxe de volta ao interior da mansão — literalmente —, puxando-o junto com Melissa para longe da beirada destruída.
Stiles soltou um enorme suspiro de alívio e se virou para a serva.
— Viu? Tudo totalmente calculado... — disse, forçando um sorriso.
Melissa, ao menos, não pareceu contrariada. Soltou um riso baixo, trêmulo, mas logo seu rosto ficou rubro, e ela desviou o olhar.
— O que...? — Stiles não entendeu.
Então seguiu o olhar dela até o Hale mal-humorado que os salvara. E compreendeu o motivo do rubor de Melissa McCall.
Derek Hale estava...
— Pelado! — gritou Lydia, aproximando-se cambaleante. — Por que ele está pelado? Oh, meus deuses! O que aconteceu com a mansão?
A prima de Stiles vinha pelo corredor em passos instáveis. Havia sido arremessada pela rajada de vento de Arkanis emitida pelo guerreiro Ruun — que agora, presumivelmente, jazia em paz. A garota claramente sofrera com o ataque: perdera um sapato, o vestido estava amarrotado e o cabelo, antes impecável, encontrava-se completamente despenteado.
Isso, para Lydia, era uma grande afronta.
Derek havia se transformado em lobo no meio da confusão. Logo, perdera as roupas.
Naquele caso, como não tivera tempo de retirá-las antes — como já fizera em outras ocasiões —, as peças haviam sido simplesmente destruídas. Rasgadas. Reduzidas a trapos espalhados em algum ponto do corredor, provavelmente junto aos destroços da parede, do tapete e de qualquer resquício de dignidade daquele momento.
O resultado era um Hale musculoso e nu em pelo diante deles. E Stiles, ao contrário das duas mulheres, não compartilhava exatamente do mesmo constrangimento.
Bem, talvez fosse mais justo dizer que o constrangimento vinha principalmente de Melissa. Lydia, por sua vez, encarava Derek de um modo difícil de descrever — algo entre choque, avaliação crítica e a perturbadora calma de quem catalogava informações para uso futuro.
Sim, Derek era algo que merecia ser admirado. E os ombros dele... E o abdômen... E aquela linha descendo pela virilha—
Não. Não era o momento para isso.
Stiles precisava lembrar que estavam em crise. Não podia se perder em contemplação de músculos, abdômen, virilha e—
Foco, Stiles Stilinski. Foco.
— Eu vou pegar alguma coisa para ele — disse Melissa, levantando-se depressa.
Ela e Stiles ainda estavam ajoelhados no chão, em meio ao tapete rasgado, à poeira e aos restos de destroços.
— Não, tia Melissa, você não precisa... — começou Stiles.
Então seu olhar voltou, por pura falta de autocontrole, para o corpo nu de Derek. O Hale, por sua vez, não parecia se importar muito em ser o centro das atenções.
— Sim, definitivamente preciso — respondeu Melissa, lançando um olhar crítico primeiro para Stiles e depois para Derek.
Derek a encarou com uma expressão que parecia dizer: isso não é minha culpa.
— Tome. Use isso para se cobrir, pelos deuses! — disse Lydia, jogando um pedaço de cortina na direção do Hale.
Derek agarrou o tecido com um resmungo.
— Vocês fazem muito drama.
— Stiles, você não me contou que todo Hale é nudista! — acusou Lydia.
Derek rosnou para ela. O que, infelizmente, não ajudou muito em sua defesa.
Stiles resolveu focar em outro ponto que não fosse o Hale. Mesmo agora que Derek cobria a parte de baixo com a cortina rasgada, ainda havia muito espaço para observação.
Espaço demais, talvez.
— Ah! — exclamou Stiles, fazendo Derek e Lydia se sobressaltarem.
Ele engatinhou até os escombros e retirou dali a arma dos orlathianos — a responsável por toda aquela destruição.
— Não acredito que você ainda vai ficar segurando isso por aí... — ralhou Lydia, colocando a mão na cintura. — Você viu o que essa coisa é capaz de fazer!
— Eu sei, eu sei... — respondeu Stiles.
Sua preocupação, no entanto, era outra. Ele precisava pegar o cristal encaixado na arma. E foi exatamente o que fez.
O cristal desconhecido. O mesmo cristal que parecia ser alvo do interesse de Orlath e também da Confederação de Ruun. Mas Stiles não entendia o porquê.
Ora, se era aquele tipo de cristal que queriam, por que a mineração ilegal em suas terras não havia encontrado outro? Não era possível que Stiles tivesse o único cristal daquele tipo.
Impossível.
Deucalion o chamara de cristal primordial. Mas o que isso realmente significava?
Stiles observou o cristal. Ele não parecia se destacar muito enquanto permanecia preso ao mecanismo da arma. Não brilhava de forma espetacular, não irradiava poder visível, não cantava segredos antigos nem fazia qualquer coisa útil para facilitar a vida de um jovem herdeiro em crise.
Então Stiles aproximou a mão. O pulsar aumentou. Como um batimento cardíaco acelerando. Ele franziu o cenho. O cristal estava reagindo a ele?
— Pelos deuses, o que aconteceu aqui? — perguntou uma voz.
Stiles se virou.
Uma mulher de cabelos ruivos estava parada no corredor, descalça — pelo visto, decidira abandonar os sapatos altos em algum ponto do caos — e segurando um monte de roupas nos braços.
Alphonse.
Stiles engoliu em seco ao ver o olhar da tia ir primeiro para o grande buraco na parede, depois para ele, e por fim para o dispositivo que tinha nas mãos.
— Mieczysław Stilinski — começou ela, em um tom muito sério. Na verdade, em um tom mortífero o bastante para fazer Stiles sentir uma tremenda vontade de correr e se esconder. — Espero que você tenha uma ótima explicação para justificar o uso da arcanomecânica desta forma.
— Caramba... Esse é o poder dos Ruun? — perguntou Chris Argent.
Alphonse não estava sozinha. Stiles agradeceu internamente por isso. Chris a acompanhava. E não apenas ele.
— Por que ele está pelado...? — soltou Allison de repente, corando dos pés à cabeça enquanto apontava para Derek.
— Tecnicamente, ele não está pelado — disse Stiles, levantando-se depressa e se colocando à frente de Derek, como se precisasse proteger sua modéstia. — Tem algo cobrindo.
Não que Derek parecesse se importar. O Hale apenas revirava os olhos diante daquele excesso de drama causado pela falta de roupas.
— Meu jovem, isso não é muito adequado na presença de damas... — disse Chris, já retirando o paletó e oferecendo-o a Derek.
Derek encarou a peça por longos vinte segundos. Stiles contou. Então, por fim, aceitou.
— O que de fato aconteceu? — perguntou Alphonse, os olhos fixos em Stiles. — Você subiu para a reunião com a velha águia dos Argent...
Ela fez uma pausa breve e olhou para Chris.
— Sem querer ofender.
Chris respondeu com um sorriso nervoso, mas não a contradisse.
— E, pouco depois, toda essa confusão começou — completou Alphonse.
— Senhorita Ravenspyr, você não pode sugerir que meu pai tem algo a ver com isso... — disse Chris.
Mas seu tom carregava mais incerteza do que firmeza.
— Ah, eu não sei, Christophe — respondeu a corva, voltando-se para ele. — O que você me diz? Diga-me que seu pai não está envolvido nesta confusão. Ou, ao menos, que não está envolvido em transformar a vida do meu sobrinho e da família Stilinski em um verdadeiro martírio.
— Meu pai... bem... — Chris pigarreou, como se fosse apresentar algum argumento.
Mas nenhum argumento veio. Sua boca permaneceu aberta por um instante, depois se fechou.
— Vovô pode até ter esse complexo de grandeza — disse Allison, a voz tensa —, mas não acredito que ele chegaria a esse ponto. Seria traição! Não é mesmo?
Ela olhou para Stiles. Stiles, por sua vez, não conseguiu sustentar o olhar da amiga. Desviou.
E talvez aquele gesto tenha dito mais do que qualquer resposta. As palavras não ditas ficaram pairando entre eles. Pesadas. Inconvenientes. Terrivelmente claras.
— Stiles, o que meu avô fez?
Stiles ouviu a pergunta de Allison. Podia sentir a dor em suas palavras, mas também havia ali uma determinação que lhe era característica.
Ele ainda não queria encará-la. E, por isso, viu antes de todos as pessoas que subiam do andar inferior.
Para seu alívio, não eram mais guerreiros Ruun. Reconheceu nobres da Casa Whittemore, com seus ternos e vestimentas em tonalidades vermelhas — que ele sempre considerara ostentação demais. Também viu alguns servos de sua casa acompanhando-os, todos armados.
Era o reforço. Estavam salvos.
Então vieram as bolas de fogo.
Foram lançadas pelos membros da Casa do Dragão, mas não tinham Stiles como alvo.
Chris foi rápido. Com um movimento da mão, dissipou com uma rajada de vento a esfera flamejante lançada contra ele.
— O que vocês pensam que estão fazendo? — gritou Chris.
Os Whittemore pareciam não querer responder. Já conjuravam novos ataques.
Stiles se colocou à frente de Chris e Allison.
— Eu exijo saber o que está acontecendo! — disse, erguendo a voz. — Estamos lutando entre nós agora? Porque, se for assim, de fato vamos perder esta guerra!
Ele olhou de relance para Lydia. Talvez a prima pudesse usar a Voz novamente e paralisar todos. Seria uma alternativa.
Os Whittemore, ao menos, pareceram hesitar. Um deles se adiantou. Havia lágrimas em seus olhos, que logo secaram devido ao aumento da temperatura de seu corpo.
— Os Argent são traidores — declarou ele. — Não apenas traíram seus aliados, como também traíram a Coroa de Caeloria. E cometeram um crime brutal contra os nobres de Beacon Hills.
O homem apontou o dedo para Chris, que observava tudo atônito.
— Os Argent assassinaram o chefe da Casa Whittemore. O grande Markus Whittemore está morto.
O silêncio após aquela revelação foi tão pesado que Stiles sentiu dificuldade para respirar.
Mas parte disso talvez viesse do calor emanado pelos Whittemore. O ardor de seus corpos transformara aquele corredor parcialmente destruído em uma verdadeira sauna.
— Certo... — Stiles quebrou o silêncio. — Essas são acusações graves, mas isso não significa que todos os Argent sejam traidores. Esta ainda é a minha casa. Sou filho de Noah Stilinski e seu herdeiro. Exijo que vocês se contenham.
O Whittemore abriu um meio sorriso que parecia mais uma careta.
— Pode exigir o que quiser, jovem senhor, mas já temos nossas ordens.
— De quem? — Stiles quis saber.
Afinal, a autoridade maior naquele ducado vinha de uma única pessoa. E essa pessoa não estava presente. Logo, o poder deveria recair sobre Stiles.
A não ser que...
— Do duque. Seu pai.
Stiles ficou mais do que surpreso.
— O duque Noah Stilinski ordenou que todos os Argent fossem capturados — informou o Whittemore. — Entretanto, o duque não especificou se deveríamos capturar tais traidores vivos ou mortos. Posso interpretar essa ordem de tantas maneiras...
— Meu pai... — Stiles teve dificuldade para pronunciar aquelas palavras, pois muitos conflitos e emoções borbulhavam em seu íntimo. — Meu pai não deve querer mais matança. Existem leis. Existe o direito a julgamento. E é isso que o duque deve desejar. Por ser seu filho, eu sei.
Ele sustentou o olhar do Whittemore.
— Espero que vocês também não queiram se tornar traidores por burlarem suas ordens, querem?
Aquilo pareceu surtir algum efeito.
Os Whittemore se entreolharam e hesitaram.
Então os servos dos Stilinski avançaram, armas em punho, na direção de Chris e Allison.
— Stiles... — Allison falou.
Ou talvez tenha clamado. Desta vez, Stiles não desviou o olhar da amiga. Encarou-a com pesar, ainda mais quando ouviu um dos servos declarar a sentença. Allison parecia perdida, amparada pelo pai, que, por sua vez, estava resignado ao próprio destino.
— Por ordem do duque, representante do poder da rainha de Caeloria, vocês estão presos sob o juízo da Fênix.
~**~
A luz do sol começava a se fazer presente, iluminando o escritório da mansão Stilinski.
Havia um vento frio matinal entrando pela janela quebrada. A cortina balançava com a brisa, levantando os papéis espalhados sobre a mesa. As poltronas haviam sido remexidas. Alguns móveis estavam fora do lugar.
Havia manchas de sangue no tapete e na parede.
Noah se agachou para pegar uma carta caída no chão. Ao ler o conteúdo, soltou uma leve risada. Uma risada seca, sem muita emoção, ao perceber a tentativa do velho Argent de usurpar o poder da Casa Stilinski.
Noah esperava que aquelas manobras permanecessem naquele nível burocrático, feitas de intrigas políticas, documentos falsos e ameaças veladas. Não que saltassem para algo muito mais amplo.
Muito mais mortífero. Como aquilo que observava agora.
Ele avançou pelo escritório. Seu escritório.
A familiaridade do lugar o abraçou, mesmo em meio à evidente desordem do ambiente.
Noah foi até a escrivaninha e se sentou na poltrona. Por alguns segundos, tentou relaxar. Não conseguiu.
— Você deveria mesmo estar aqui? — perguntou Halina Stilinski, entrando sem ser anunciada.
Bem, sendo sua mãe — e considerando o contexto atual —, protocolos não pareciam muito importantes.
— Este é meu escritório, mamãe — respondeu ele, em um tom cansado.
— Sei que é.
Noah reparou que a mãe segurava uma espada, mas nada disse.
— Há quanto tempo você está oculto entre nós? — perguntou ela.
Noah já esperava aquela pergunta. Soltou um grande suspiro. Estava realmente cansado.
— Isso realmente importa?
— Você sabe que sim — respondeu Halina. — Somos sua família, Noah. Será que não poderia confiar mais em nós?
— Eu não disse que não confio. Só que as circunstâncias...
Ele começou a falar, mas se calou diante do olhar de Halina. Mesmo sendo adulto, o olhar da matriarca ainda surtia efeito.
Noah abaixou os olhos para a escrivaninha. Porém, em vez de continuar, tocou algo embaixo do móvel. E sorriu.
Um aparelho de arcanomecânica ainda estava ali. Um Guardavoz. Só podia ter sido ideia de seu filho. Uma ótima ideia.
Ali, Noah teria provas suficientes contra os Argent. Contra Orlath. Talvez aquilo enfim convencesse o Conselho de que o reino do leste não estava apenas adormecido. Que ouvissem, por fim, seus alertas.
— A sagacidade da raposa... — murmurou ele, com orgulho.
— Sagacidade, de fato — pontuou Halina. — Mas não leve o lema da raposa ao ponto da manipulação.
Noah não respondeu à mãe, embora ainda sentisse o peso do olhar dela sobre si.
Ela não sabia. Nenhum deles sabia.
Mas o momento de revelar a verdade se aproximava.
~**~
A porta se abriu com um rangido baixo. Por um instante, Stiles pensou no pior.
Seu olhar varreu o interior do barracão que chamava de laboratório, procurando sinais de invasão, destruição, saque ou sangue. Mas não. A desarrumação que encontrou ali dentro era, em grande parte, a mesma de sempre.
Pilhas de anotações se equilibravam de forma precária sobre bancadas manchadas de óleo. Engrenagens, fios de cobre, pequenos cristais opacos e ferramentas de precisão estavam espalhados por todos os lados, como se tivessem sido abandonados no meio de uma ideia brilhante — ou de uma explosão iminente. O cheiro familiar de metal aquecido, poeira, madeira velha e graxa ainda pairava no ar.
Os guerreiros Ruun, pelo visto, não haviam demonstrado interesse por aquela construção. Ou talvez tivessem olhado para a bagunça e concluído que alguém já a havia saqueado antes.
Um ganido baixo o alcançou. Stiles demorou alguns segundos para perceber. Sua mente ainda transitava pelos acontecimentos da noite. Não por todos. Apenas por alguns, porque ele fugira da mansão na primeira oportunidade.
Fugira de ver a quantidade de feridos. De assistir aos Argent sendo presos. De descobrir nomes. Rostos. Ausências. Havia temido saber mais.
Algum servo se ferira gravemente? Algum conhecido morrera, como Markus Whittemore? Ele não vira Jackson, mas conseguia imaginar como o rapaz reagiria ao saber da morte do pai.
Também não encontrara Scott. E como explicaria Allison? Como diria ao melhor amigo que ela havia sido levada sob acusação de traição?
Stiles apertou os dedos contra a palma da mão. Não fizera nada. Apenas assistira à amiga ser arrastada por uma acusação que tinha certeza de que não se estendia a ela.
Seu avô e sua tia, Gerard e Kate... bem, esses sim eram culpados. E, convenientemente, haviam escapado. Junto com o restante dos Ruun. Junto com o trio de Orlath.
Stiles não se sentia vitorioso.
A mansão ainda estava de pé. A invasão havia sido repelida. Alguns inimigos tinham fugido. Mas nada dentro dele parecia comemorar. Havia apenas um peso frio alojado em seu peito, apertando a cada respiração.
Outro ganido veio, mais insistente. Então Kit correu em sua direção.
— Kit... — murmurou Stiles.
Ele se abaixou e segurou a raposa nos braços. Ela se aninhou contra seu peito, quente, pequena e viva. Stiles fechou os olhos por um instante.
— Fico feliz que esteja bem.
A raposinha começou a emitir latidos alegres. Mas não para ele. Stiles abriu os olhos. Alguém se aproximava do barracão.
— Scott... — pensou, aliviado.
Mas não era Scott quem apareceu à entrada. Era Derek. Agora vestido — em partes.
Usava uma camisa folgada dada por Melissa, calças simples e ainda trazia sobre os ombros o paletó de Chris Argent. As roupas não combinavam entre si, não serviam direito e, ainda assim, de algum modo irritante e absolutamente injusto, Derek parecia confortável dentro delas.
Stiles sentiu o coração acelerar levemente.
A presença do Hale era estranhamente reconfortante em meio a todo aquele desastre. Como encontrar uma parede firme depois de uma noite inteira vendo o mundo desabar.
Os dois ficaram se olhando por alguns segundos. Nenhum dos dois disse nada.
O laboratório parecia menor com Derek ali. Ou talvez fosse apenas Stiles esquecendo, por um instante, como respirar direito.
— Você mentiu — disse Derek, por fim.
Stiles franziu o cenho.
— Desculpe?
Derek enfiou uma das mãos no bolso da calça.
— Você não me disse que um baile nobre frívolo seria tão animado.
Stiles o encarou por um segundo. Então um sorriso pequeno, cansado e quase involuntário puxou o canto de seus lábios.
— "Animado" é um adjetivo bem interessante para escolher diante dessa situação.
— Será que todo baile de maioridade é assim? — perguntou Derek. — Fico imaginando como será o de Cora...
Dessa vez, Stiles soltou uma risada baixa.
— Não acredito que sua irmã seja tão azarada quanto eu.
Disse aquilo em um tom mais triste do que pretendia.
Era estranho. Ele realmente não queria aquele baile todo pomposo. Havia reclamado dos preparativos, das roupas, dos convidados, das danças, dos olhares, das expectativas e de toda aquela encenação aristocrática sufocante. Mas, no fim, o baile acontecera.
E o resultado não fora nada parecido com o que esperava.
O que teria acontecido se tudo tivesse seguido o curso normal? Talvez uma noite tediosa, cheia de fofocas, comentários maldosos sobre sua família e muito puxa-saquismo cuidadosamente disfarçado de elegância. Só isso. Como tantos outros bailes dos quais já havia participado.
No fim, talvez ele desejasse que tivesse sido exatamente assim. Tédio. Falsidade. Música ruim. Bolinhos bons. Nada de profecias apocalípticas, invasões, traições, explosões, prisões ou paredes desaparecendo de forma ofensivamente dramática.
— Eu trouxe algo — disse Derek.
Stiles ergueu o olhar. Derek se aproximou e tirou alguma coisa do bolso. Stiles ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— Por que está olhando assim? — resmungou o Hale. — É seu aniversário, não é? Nesses eventos, as pessoas costumam entregar presentes.
— Certamente... — respondeu Stiles, estendendo a mão, meio ansioso.
Sentiu o peso de algo pequeno sobre a palma. Era uma figura entalhada. Na verdade, eram duas. Uma raposa e um lobo.
Stiles trouxe a peça para mais perto dos olhos, analisando-a com cuidado. A madeira havia sido trabalhada com uma precisão inesperada. A raposa tinha o focinho levemente erguido, a cauda curvada em um arco elegante, os olhos estreitos numa expressão astuta. O lobo, maior, mantinha o corpo inclinado ao lado dela, como se estivesse em posição de guarda — ou de companhia. As linhas eram simples, mas firmes. Havia delicadeza nos detalhes das orelhas, no pelo sugerido por pequenos cortes, na forma como as duas figuras pareciam separadas e, ao mesmo tempo, parte da mesma cena.
— Sei que não é nada muito chique — disse Derek, desviando o olhar. — E eu não entendo nada de arcanomecânica. Pensei até em conseguir algo do tipo, mas o tempo era curto. Então fiz isso.
Stiles piscou.
— Você fez isso?
— Acabei de dizer que fiz, Stiles — rosnou Derek.
Mas Stiles percebeu. Ele parecia embaraçado.
— Eu achei lindo — disse Stiles, a voz mais baixa. — Não sabia que você era um artista.
Em resposta, Derek apenas soltou um resmungo. Suas bochechas ficaram levemente avermelhadas.
Aquela era outra versão de Derek que Stiles ainda não tinha visto. Um contraste quase absurdo com a expressão irritada, crítica e de limão azedo que parecia ser uma constante no semblante de Derek Hale.
E Stiles achou aquilo ainda mais fofo. E atraente. Muito atraente.
— Obrigado, Derek — disse ele.
Stiles deixou Kit sobre a bancada e segurou a pequena escultura com as duas mãos, como se tivesse receio de danificá-la. A peça era detalhada demais para ser tratada como simples madeira. Delicada demais para ter saído das mãos de alguém que, naquela mesma noite, havia se transformado em um lobo gigante.
— Eu ia fazer só um lobo — explicou Derek, rápido demais. Tagarela, algo raro para ele. — Mas Malia disse que seria estranho entregar algo assim. Só um lobo. Ela disse que parecia prepotente. Então fiz uma raposa também. Mas eu devia ter entregado só a raposa, analisando agora. Ficou ainda mais estranho do que entregar só o lobo.
Ele estendeu a mão.
— Me dê de volta. Vou corrigir.
Stiles afastou a escultura de seu alcance. Ou tentou. Porque Derek era forte e rápido demais para um Stilinski sem qualquer instinto de autopreservação funcional.
Os dois disputaram a peça por alguns segundos, entre mãos escapando, dedos se prendendo e passos desajeitados pelo laboratório. Stiles recuou, rindo sem fôlego, até sentir as costas baterem na parede.
Derek parou diante dele. Perto demais. Uma das mãos apoiada ao lado da cabeça de Stiles, a outra ainda tentando alcançar o presente.
Stiles ergueu a escultura acima do ombro, protegendo-a como se fosse um tesouro nacional.
— Não pode pegar o presente de volta depois que já entregou, Derek.
— E por que não? Fui eu que dei.
— Quando deu, já foi dado. É a regra.
— Que regra?
— Regra das boas maneiras referentes à entrega de presentes a aniversariantes. Capítulo dois, subseção três.
Derek estreitou os olhos.
— Você está mentindo.
— Será que estou?
Stiles sorriu. E encarou o lobo. Nenhum dos dois se afastou.
O espaço entre eles era estreito. Devia ser desconfortável. Devia fazer Stiles lembrar que havia poeira em suas roupas, sangue seco em algum lugar de sua manga, uma mansão parcialmente destruída lá fora e uma crise política enorme esperando para devorá-lo vivo.
Mas não foi isso que sentiu. Sentiu o calor de Derek. O cheiro dele, misturado a fumaça, noite fria e madeira. Sentiu o próprio coração batendo rápido demais.
— Uma raposa e um lobo... — sussurrou Stiles, acariciando a escultura com o polegar antes de guardá-la no bolso do paletó, junto ao cristal misterioso que, convenientemente, parecia ser o causador de todos os problemas recentes de sua vida. — Achei a escolha adequada. Não há nada a ser consertado.
Derek continuou olhando para ele. Stiles engoliu em seco.
— Mas... bem que eu gostaria de mais um presente.
— Seu aniversário meio que já acabou, Stilinski — resmungou Derek. — Não precisa ficar exigindo tantos presentes assim.
Stiles o encarou. O pedido surgiu antes que pudesse pensar demais.
— E um beijo? Seria pedir demais?
Aí estava. Stiles falou. Pronto.
Talvez não fosse o momento adequado. Afinal, ainda estava cheio de emoções por tudo que havia vivido. Mas Stiles queria acumular alguma lembrança daquela noite que não estivesse ligada apenas ao desastre. Algo que ainda pudesse fazê-lo acreditar que o amanhã guardava alguma coisa boa.
Talvez fosse uma grande besteira pedir aquilo.
— Esquece — começou ele, forçando uma risada. — Era brincadeira. Ha ha—
A fala morreu quando Derek o beijou. Não houve aviso delicado. Não houve pergunta sussurrada.
Apenas Derek avançando, decidido, e a boca dele encontrando a de Stiles com uma urgência quase rude. O beijo começou bruto, quente, desajeitado, como se nenhum dos dois soubesse exatamente o que fazer com todo o medo, a raiva e o alívio que ainda carregavam no corpo.
Stiles prendeu a respiração. Por um segundo, ficou imóvel. Então beijou de volta.
A mão livre subiu até o ombro de Derek, agarrando o tecido da camisa folgada. Derek inclinou o corpo, prendendo-o mais contra a parede, e Stiles sentiu o impacto daquele calor atravessá-lo de um jeito completamente injusto, completamente inadequado e absolutamente impossível de ignorar.
A boca de Derek era firme. Impaciente. Viva.
Stiles se agarrou a ele como se precisasse daquilo para se manter inteiro. Como se o beijo pudesse calar, por alguns instantes, o barulho da mansão destruída, os gritos da noite, o peso das acusações e o medo do que viria depois.
Derek fez um som baixo contra sua boca. Algo entre um suspiro e um rosnado. Stiles sentiu os joelhos quase falharem.
O que era ridículo. Ele havia sobrevivido a uma invasão, a uma arma arcanomecânica, a um buraco na parede e a um guerreiro chamado Come-Ossos.
Mas Derek Hale beijando-o daquele jeito? Aparentemente, esse era o verdadeiro perigo.
Quando se afastaram, foi apenas o suficiente para respirar.
A testa de Derek permaneceu próxima à dele. O ar entre os dois estava quente demais, curto demais. Stiles abriu os olhos devagar e encontrou os de Derek, intensos, escuros, ainda irritados — porque Derek parecia incapaz de deixar de parecer irritado até mesmo depois de beijar alguém como se pretendesse incendiar o mundo.
Stiles umedeceu os lábios.
— Certo — murmurou, sem fôlego. — Esse foi um presente excelente.
Derek desviou o olhar, as orelhas levemente vermelhas.
— Já chega de presentes por hoje.
Stiles sorriu.
— Depois me diga quando é o seu aniversário. Vai ser minha vez de dar presentes.
Derek nada disse.
Apenas o encarou com uma expressão meio irritada, meio embaraçada. E Stiles notou — ou achou que notou — um leve sorriso no canto dos lábios do Lobo.
Pois parecia que sim.
— Posso pegar meu presente agora — disse Derek. — Por que esperar pelo aniversário? Nunca gostei desses rituais estúpidos.
Ao dizer isso, tomou novamente os lábios de Stiles. E Stiles não reclamou.
Também não fez questão de apontar a contradição. Ora, não fora o próprio Derek quem dissera que já bastava de presentes por hoje? Pelo visto, o Hale era perfeitamente capaz de ser contraditório quando lhe convinha.
Mas Stiles não estava interessado em evidenciar paradoxos. Estava ocupado demais aproveitando.
Kit ganiu sobre a bancada, claramente se sentindo excluído de tudo aquilo.
O sol começou a entrar pelas frestas do barracão. A manhã avançava com todo o seu ímpeto, dourando ferramentas, cristais, papéis espalhados e os destroços de uma noite que mudara tudo.
Era um novo dia.
E, talvez, o início de uma nova fase para Caeloria.
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