Capítulo 25
Um rapaz de cabelos castanhos, penteados para trás com teimosa elegância, fitava o próprio reflexo. O terno azul-noite ajustava-se ao seu corpo com precisão quase impertinente, bordado em finos detalhes âmbar que evocavam a raposa — o símbolo ancestral da Casa Stilinski. A camisa, branca como marfim polido, abraçava-lhe o torso de forma nobre, enquanto as calças, ajustadas na medida exata, destacavam suas pernas longas e o porte naturalmente esguio. Até as abotoaduras reluziam, feitas de prata polida e cravejadas com diminutas pedras de Arkanis em tom alaranjado.
Stiles quase não se reconhecia naquele reflexo. Não via mais o rapaz de cabelos eternamente bagunçados, de camisas gastas e calças simples, que costumava vagar por Beacon Hills ou se enfiar no "laboratório" — o barracão improvisado onde realizava seus experimentos. Ali, diante do espelho, estava alguém que lembrava, de fato, um nobre. O filho do Duque Noah Stilinski. O herdeiro. O chefe da Casa.
— Stiles, você já está pronto? — Lydia bateu na porta, mas, como de costume, não esperou resposta antes de entrar.
— Lydia! E se eu estivesse pelado?! — exclamou o primo, corando levemente.
Ela apenas revirou os olhos, embora um rubor quase imperceptível tivesse colorido suas próprias bochechas. Havia algo de fascínio em seu olhar, como se por um instante ela visse Stiles sob uma nova luz.
— Bem, parece que a Madame Flor se superou desta vez... — comentou, avaliando-o da cabeça aos pés. — Conseguiu operar um verdadeiro milagre.
Stiles notou o vestido da prima: negro e cinzento, em camadas de babados que ondulavam como fumaça elegante, nas cores da Casa Ravenspyr. Os cabelos ruivos estavam presos em um intricado penteado de tranças e broches prateados em forma de pequenas flores. Nada que o surpreendesse, é verdade; Lydia sempre fazia questão de transformar qualquer salão de baile em seu palco pessoal.
— Vou interpretar isso como um elogio. — retrucou Stiles com um meio sorriso, ajustando de novo as abotoaduras.
Ela deu de ombros.
— Então? Está pronto para tudo isso? — perguntou, acomodando-se em uma cadeira próxima. — Sei que você detesta bailes, mas devo confessar... tenho grandes expectativas para este em particular.
— Pois é... dizem que os bailes de maioridade dos Stilinski costumam ser... diferentes. — Stiles respondeu, tentando soar casual.
— Já ouvi falar — Lydia concordou, forçando um sorriso. — Papai me contou algumas histórias sobre o baile do tio Noah.
Stiles percebeu imediatamente a mudança no tom dela.
— O que foi, Lydia? — perguntou, preocupado.
— Nada. — disse rápido demais, afastando a mão como quem enxota um pensamento inconveniente.
— Lydia... — insistiu Stiles, aproximando-se e tocando de leve a mão enluvada da prima.
Ela mordeu o lábio inferior, evitando encará-lo.
— Com tudo isso acontecendo, você realmente não vai voltar conosco para a capital, vai? — murmurou, a voz quase inaudível. — Não vai morar com os Ravenspyr... nem entrar comigo na universidade.
O coração de Stiles apertou. Eles haviam sonhado juntos com aquele futuro: dividir uma casa perto do campus em Solméria, viver dias dedicados apenas a livros e descobertas, afastados das intrigas das Casas Nobres. Lydia, por ser mulher, mesmo dotada de Arkanis, teria pouca voz no conselho; e ele, por ser um inerte, estaria igualmente fora do jogo político. Seria a liberdade que ambos desejavam. Mas agora... tudo havia mudado em questão de dias.
— Sinto muito, Lyds... — disse em tom baixo.
Ela puxou a mão de volta com um gesto rápido.
— Não tem por que se desculpar — replicou, soltando um suspiro pesado e levantando-se de repente, tão brusca que quase derrubou o primo para trás. — Afinal, é óbvio que isso é o que você sempre quis. Dá para ver o quanto está animado em se tornar chefe da sua Casa. Uma grande conquista.
O tom dela era polido demais para ser sincero. Havia sarcasmo escondido entre as palavras, e se havia alguém capaz de reconhecer sarcasmo... era Stiles Stilinski.
— O engraçado é que você sempre criticou os nobres e suas intrigas... E agora... — Lydia começou, mas calou-se por um instante, antes de disparar com firmeza: — Você não me contou nada sobre o que estava acontecendo aqui! E muito menos sobre o fato de ter um namorado! E olha que eu sempre compartilhei com você todos os meus namorados!
Stiles corou até as orelhas, sentindo-se repentinamente transformado em um tomate fresco.
— Namorado? Que namorado?! — sua voz saiu esganiçada, quase um guincho.
— Ah, não se faça de bobo! — Lydia cutucou-lhe o peito com o dedo enluvado. — O tal lobo bombado da nossa idade. O Derek Hale! Não tente desviar do assunto. Eu achei que, além de Scott, eu era sua melhor amiga... E então chego a Beacon Hills e descubro que fui jogada no meio de uma confusão — e não do tipo convencional em que você normalmente se mete!
Stiles suspirou, reconhecendo parte da frustração da prima. De fato, muita coisa havia acontecido em tão pouco tempo: o sumiço de seu pai, o Duque Noah; os nobres tramando para abocanhar terras e alianças; a carta misteriosa; a aliança com os Hales revelada e reforjada; guerreiros Ruun aparecendo em suas fronteiras e minerando Arkanis... e, em meio a tudo, seu baile de maioridade se aproximando como se nada disso existisse.
Era um milagre ele ainda não ter enlouquecido.
— Eu continuo não gostando do modo como nosso reino é organizado — disse ele, firme, encarando Lydia. — Essa divisão entre nobreza e povo, usar Arkanis como medida de valor humano... Eu ainda sou contra. Mas agora sei que, de alguma forma, posso provocar mudanças nesse sistema injusto. Assumindo a liderança da minha Casa. Como um inerte. — Sua voz cresceu em confiança a cada palavra, surpreendendo até a si mesmo. — E, de qualquer forma, não serei chefe para sempre. Meu pai está vivo. O Duque vai voltar.
Lydia soltou um suspiro, mas dessa vez menos irritado.
— Falando assim... me irrita. Mas não com você. — Ela ergueu os olhos para ele, finalmente. — Me irrita comigo mesma, que sempre tentei me afastar dessas questões.
— Você não é obrigada a seguir meu exemplo, Lydia.
— E vou apenas assistir você assumir responsabilidades, enquanto eu me contento com festas, namoricos e finjo ignorar os problemas políticos de Caeloria? — rebateu ela, cruzando os braços. — Sendo que minha família está atolada até o pescoço nesse conselho?
— Dizem que ignorância é uma bênção... — murmurou Stiles com um meio sorriso.
— Ah, vá à merda, Stiles! — Lydia retrucou, embora ele notasse um rastro de riso nos olhos dela. — Eu não vou ficar para trás e parecer a garota mimada e avoada da história!
Stiles não conseguiu segurar uma risada. A competitividade sempre fora marca registrada da prima — e quando inflamava, ela era capaz de transformar até um simples debate em batalha.
— Eu nunca disse que você era isso.
— Mas pensou.
— Nem pensei! — retrucou, erguendo as mãos em rendição. — Sempre achei que você seria minha parceira diante das batalhas que virão. — Ele fez uma reverência exagerada, arrancando de Lydia um sorriso relutante.
— Bom saber que ao menos você reconhece. Porque Lydia Martin Ravenspyr não será deixada de lado! — declarou ela, apontando para o primo com teatralidade.
Stiles respondeu com uma mesura ainda mais espalhafatosa.
E ela riu.
Foi quando a porta se abriu.
— Stiles, sua tia está desesperada atrás de você... Na verdade, acho que ela está à beira de assassinar alguém por causa dos preparativos — anunciou Scott, entrando sem bater, como se a privacidade de Stiles fosse um luxo inexistente.
Stiles assobiou ao ver o amigo: Scott vestia um terno azul-marinho, camisa branca impecável e uma gravata azul-esverdeada. O cabelo escuro fora domado, dando-lhe uma dignidade inesperada, como se fosse herdeiro de uma Casa poderosa.
— Olha só! Aposto que a Allison vai adorar... — provocou Stiles com uma piscadela, vendo o amigo corar.
— Nossa, Madame Flor deve ter dedos divinos... — comentou Lydia, com ar teatral. — Conseguiu transformar o Scott em alguém apresentável!
— Obrigado, Lady Ravenspyr — respondeu Scott com ironia, inclinando-se em falsa reverência.
— Certo, vamos ao encontro da tia Agni — disse Stiles, inspirando fundo e ajeitando o terno, como quem se preparava para entrar em uma batalha e não, supostamente, em seu próprio baile de aniversário.
Mal abriu a porta do quarto e quase foi atropelado por um servo cambaleante carregando uma travessa de talheres de prata. O corredor estava tomado por um verdadeiro formigueiro humano: criados improvisados, gente que antes trabalhava no campo ou na mina, agora promovidos — à força — ao posto de serviçais da festa. Claramente, nem todos estavam aptos à nova função: alguns tropeçavam nos tapetes, outros tremiam tanto que os copos de cristal chacoalhavam em suas bandejas como sinos prenunciando desgraça.
— Vamos. — Scott tomou a dianteira, abrindo caminho entre o caos organizado, com Lydia e Stiles seguindo atrás.
— E qual seria exatamente o plano? — Lydia perguntou, enquanto desviava de um grupo de servos que se esforçava para retirar um enorme relógio do salão, provavelmente para abrir espaço na festa.
— Plano? — Stiles repetiu, só para receber um doloroso beliscão da prima. — Ai!
— Não me faça usar a Voz em você, Stiles — ameaçou Lydia, semicerrando os olhos.
— Certo, certo. O plano... não é nada complicado — começou Stiles, erguendo o queixo em falsa confiança. — Apenas incitar os nobres a agir como... bem, nobres.
— Como assim? — Lydia franziu o cenho, desconfiada.
Scott riu à frente. — Ele quer dizer arranjar intrigas. Talvez até algumas briguinhas.
— Ora, nem todos os nobres agem assim! — resmungou Lydia.
— Basicamente esse é o plano. — Stiles concluiu com um sorriso maroto, omitindo os detalhes que preferia manter guardados. Havia coisas maiores em jogo: Orlathianos usando Arkanis em invenções suspeitas, guerreiros de Ruun minerando em território caeloriano, e uma certeza perturbadora de que alguma Casa nobre da região estava acobertando esses estrangeiros hostis. E todos pareciam, por coincidência ou destino, interessados nos cristais de Arkanis.
E que melhor ocasião para investigar nobres suspeitos do que em um baile?
Ainda mais se alguém desse um empurrãozinho para acelerar o processo... Confusão, afinal, podia muito bem ser a "Arkanis" natural de Stiles Stilinski.
— Ah, você está aqui! — exclamou tia Agni ao vê-lo descer as escadas. Ela estava magnífica em um vestido de seda laranja-escuro, bordado com pequenas raposas douradas, um contraste vivo que combinava perfeitamente com a diadema nos cabelos castanhos, presos em tranças elaboradas. Porém, o brilho do traje era traído pelo suor em sua testa e pelo rubor excessivo em suas bochechas, que já começava a arruinar a maquiagem.
— Os convidados já estão chegando, Mieczysław. Sua avó acha melhor que você esteja lá para recebê-los. Já começou a fazer isso, mas é seu dever como aniversariante e centro deste baile! E, por favor, nada de repetir a peça que seu pai fez no baile dele — esconder-se usando Arkanis até o final foi engraçado, admito, mas muitos nobres não gostaram! — ela tagarelava sem respirar, até segurar os ombros do sobrinho e, de repente, mudar de tom. — Oh, pelos deuses, você está tão lindo! — lágrimas começaram a brotar em seus olhos. — Se sua mãe o visse... se seu pai o visse... Lembro de quando você nasceu, tão pequeno, e agora já é um adulto! E eu, veja só, tão velha...
— Não, tia Agni, você está no auge da sua idade — apressou-se Stiles a responder, temendo um colapso emocional ali mesmo.
Mas não adiantou muito: as lágrimas já escorriam, levando parte da maquiagem junto. Os servos pararam, indecisos entre acudir a anfitriã ou fugir antes de levarem uma bronca.
— Lady Stilinski... — Lydia adiantou-se, segurando o braço da tia com delicadeza. — Vamos tomar um pouco de água, sim? Depois posso retocar sua maquiagem. Assim vai parecer ainda mais deslumbrante do que já está.
Stiles soltou um suspiro de alívio ao ver a prima assumir o controle da situação.
Scott o cutucou discretamente, indicando com a cabeça para que continuasse descendo mais um lance de escadas.
Ah, sim... Era hora de "aparecer" no próprio baile — tal como sua tia exigira.
Agora só restava mais um lance de escadas. Bastava descer e atravessar o térreo para chegar ao grande salão de jantar, onde o baile aconteceria. Stiles já podia ouvir a orquestra de Beacon Hills afinando seus instrumentos, as notas soltas ecoando pelo ar como presságios. O leve burburinho de conversas, o tilintar de taças de cristal, o farfalhar de vestidos de seda — tudo lhe parecia distante e ao mesmo tempo esmagador.
Ele não estava nervoso antes. Ou talvez estivesse, mas soubesse disfarçar. Agora, tão perto do momento, sentia o coração bater como um tambor de guerra. Suas mãos suavam, e por um instante teve certeza de que desmaiaria ali mesmo, despencando pela escada com toda a glória e elegância de um Stilinski em colapso.
— Ei, nada de vacilar agora — murmurou Scott ao seu lado, como se fosse possível que Stiles não vacilasse.
Stiles não respondeu. Apenas começou a descer os degraus — e parou de respirar.
Alguém o esperava ao pé da escada.
Um rapaz alto, imponente, trajando um terno que parecia feito sob medida para arrancar suspiros. O tecido era de um azul profundo, da cor do mar em fúria durante uma tempestade. Bordados prateados em forma de estrelas cintilavam sob a luz dos candelabros, e as abotoaduras — discretas, mas imponentes — tinham a forma de luas cheias. Uma gravata verde-musgo, a exata tonalidade das florestas dos Hale, completava o conjunto.
Mas não era o terno. Não.
Era ele.
Derek Hale parecia ter saído de algum épico antigo, moldado com precisão cruel demais para ser real. O traje apenas acentuava seus ombros largos, o peito firme e a postura de predador que fazia qualquer um sentir-se menor. E aqueles olhos... olhos verdes que capturaram Stiles de imediato, penetrando tão fundo que por um instante ele sentiu-se nu, completamente exposto, mesmo com todas as camadas de seda, veludo e orgulho que carregava.
Cada passo que dava era acompanhado pelo olhar fixo de Derek. Um olhar que não o deixava fugir, não permitia distrações, como se o estivesse medindo, saboreando, avaliando cada fraqueza. Stiles engoliu em seco, e ainda assim continuou a descer, a coragem se misturando ao medo e à estranha excitação de ser o centro da atenção daquele lobo.
Quando finalmente chegaram próximos o bastante, Stiles percebeu que tinha perdido a habilidade de falar. A língua parecia pesada, os pensamentos confusos. Ele só conseguiu balbuciar:
— Oi, Derek... bela noite, não?
Derek não respondeu com palavras. Apenas deixou escapar um som grave, quase um rosnado baixo, que, para Stiles, soou mais íntimo do que qualquer discurso poderia ser.
O coração de Stiles pulava no peito, mas, contra toda lógica, ele ousou. Levantou a mão e pousou-a no antebraço de Derek. Sentiu a firmeza dos músculos sob o tecido, o calor que parecia irradiar da pele do rapaz, mesmo com a barreira do terno. Derek ergueu uma sobrancelha diante do gesto ousado, os lábios se curvando em um esboço de algo que poderia ser um sorriso.
— Er... você poderia me acompanhar até o salão de baile? — Stiles perguntou, a voz levemente trêmula.
Derek não disse nada, mas inclinou a cabeça em concordância, oferecendo o braço com uma naturalidade quase aristocrática.
E assim, guiado por Derek Hale, Stiles Stilinski atravessou o último degrau rumo ao salão. Scott, que observava toda a cena, rolou os olhos com tanta força que provavelmente veria o cérebro.
Sem dúvida, seria uma entrada triunfal.
~~Palavras da autora~~~
Desculpe a demora em atualizar! Bem, agora vai começar o baile!
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