Capítulo 24
Beacon Hills era uma região única, situada no coração do Reino de Caeloria. No passado, entretanto, não havia tantos nobres amontoados uns sobre os outros como agora. Outrora, quem governava aquelas terras era — e sempre fora — a família Stilinski. Não à toa, foi a raposa quem recebera o título de duque, a posição mais alta da hierarquia regional.
Em tese, os demais nobres da região seriam vassalos da raposa. Na prática, quando essas famílias receberam porções das terras Stilinski, doadas pela Coroa, tiveram de jurar subordinação e lealdade ao clã. É irônico pensar nisso agora, quando essas mesmas casas — sem título de ducado — agiam como abutres traiçoeiros desde que o Duque Noah se afastara de suas terras: tramando alianças obscuras, boicotando decisões e tentando forçar casamentos enfiados goela abaixo em Stiles Stilinski.
Sim, o clã da raposa já não vivia o auge que desfrutara ao receber o ducado de Beacon Hills, mas isso não significava que havia perdido sua força — muito menos sua obstinada perseverança. A raposa não abaixa a cabeça para ninguém; pelo contrário, é bem capaz de morder o calcanhar, roubar alguns ovos do seu opulento galinheiro e sumir na toca antes que os cães de caça tenham tempo de farejá-la.
Mas por que, afinal, os outros nobres haviam vindo?
Essa era uma excelente pergunta.
Alguns vieram como braços auxiliares do duque, como os Dunhaven e os Marwood, trazendo dons de cura e visões proféticas. Depois chegaram os Hale, cuja presença nos bosques intrigou a muitos. Por que aceitar terras cobertas de floresta sem sequer transformá-las em pasto? Apenas mais tarde Stiles compreenderia que havia ali uma aliança estratégica: a combinação perfeita entre a astúcia da raposa e a força dos lobos. Corria ainda o boato de que os Hale eram perseguidos e só encontraram asilo seguro em Beacon Hills.
Já os Argent e os Whittemore chegaram por último, e Stiles jamais entendeu os reais motivos que os levaram a mudar sua sede para aquelas terras. Curiosamente — ou talvez nem tanto — sua chegada coincidiu com a descoberta dos primeiros cristais de Arkanis. Naquele tempo, tais pedras eram vistas apenas como uma curiosidade mística, sem aplicação prática nem valor comercial.
Os Stilinski, por sua vez, nunca deram grande atenção à mineração desses cristais. E quanto às outras casas? Stiles pouco sabia. Mas uma coisa era certa: cada vez mais carroças carregadas de minerais seguiam em direção à capital do reino.
Por que minerar em segredo? E, pior ainda, por que fazê-lo em terras que não lhes pertenciam?
Nada disso fazia sentido.
Esses pensamentos fervilhavam na mente de Stiles enquanto ele acompanhava Derek e Peter, seguindo as marcas profundas deixadas por carroças pesadas que riscavam o solo como cicatrizes abertas.
— Laura seguiu as coordenadas dadas pelo Duque Noah... — comentou Peter enquanto avançavam pela trilha irregular.
Stiles notou que, devido à encosta, não havia como avistar a estrada principal. Estavam em um nível mais baixo, afastados do caminho usual, como se caminhassem sob o próprio nariz da estrada, invisíveis a quem passasse por cima. Aquele vale estreito e oculto parecia perfeito para esconder qualquer coisa que não quisessem revelar à vista de viajantes comuns.
— Ela ficou surpresa ao perceber que se tratava de uma área que faz fronteira entre as terras dos Hale e as dos Stilinski. — Peter prosseguiu. — Ficou furiosa, na verdade. Algo assim acontecendo sem que ninguém notasse... não sabemos há quanto tempo isso ocorre.
— Algo... — repetiu Stiles, franzindo o cenho. — Mas o quê, exatamente?
— Mineração de cristais, pelo visto — respondeu tia Alphonse, os olhos já atentos demais, como se procurassem vestígios no solo.
— Não é como se isso fosse ilegal... — retrucou Stiles, ainda que sem muita convicção. — Minerar em si não é crime. Mas minerar em terras que não são suas... aí sim temos um problema.
Se alguém fosse responder, não teve tempo.
Chegavam a uma interseção estreita, onde a encosta descia outra vez, quando Derek ergueu a mão em alerta, interrompendo-os com o silêncio de um predador que fareja presa.
— Alguém à frente. — Sua voz era grave, e bastou para que todos os músculos de Stiles se retesassem.
Peter fez sinal para que se escondessem. Havia pedras largas o bastante na lateral do caminho, e o grupo se esgueirou para trás delas. Stiles colou o peito na superfície áspera da rocha, tentando fazer seu coração não ecoar tão alto a ponto de ser ouvido.
Então, o som chegou: madeira rangendo, cascos batendo compassados, ferro contra pedra.
Uma carroça surgiu na curva, pesada, abarrotada de cristais que reluziam sob a luz cinzenta como se carregassem estrelas aprisionadas. No assento, um homem de rosto rude, cicatrizado, a expressão carregada como quem nasceu para intimidar. Os músculos dos braços se esticavam sob a camisa puída enquanto segurava as rédeas, o olhar duro varrendo o caminho como se fosse proprietário legítimo daquele território.
Atrás dele, cavalgavam três homens encapuzados, de postura tão rígida quanto hostil. As sombras das capas ocultavam-lhes os traços, mas não havia como esconder a forma como mantinham as mãos próximas às espadas pendendo da cintura, como predadores preparados para saltar. O silêncio deles era mais ameaçador do que qualquer insulto poderia ser.
Stiles sentiu o estômago revirar. Aqueles homens não pareciam simples mineradores.
As suspeitas de Stiles se confirmaram quando ouviu aqueles homens falarem. O tom de suas vozes era surpreendentemente harmonioso, quase como um canto — mas ninguém ali estava prestes a entoar uma canção. Não, era apenas a cadência natural de sua língua estrangeira. Um detalhe, porém, era evidente: não eram homens de Caeloria.
Aquele som despertou uma lembrança incômoda. Os Stilinski, afinal, eram versados em línguas — talvez porque, como família nobre voltada à espionagem, sempre precisassem assumir feições e papéis de diferentes povos. Para que a ilusão de Arkanis fosse completa, era essencial não apenas parecer alguém, mas falar como alguém. Conhecer palavras, costumes, inflexões. Mesmo os que não tinham Arkanis — como Stiles — eram treinados em idiomas, uma disciplina que Duque Noah ensinava pessoalmente com rigor. E, céus, como ele sentia falta dessas lições.
Por isso, não houve dúvida quando reconheceu aquela fala. O que o alarmou foi perceber de onde vinha. Era um povo que jamais esperaria encontrar no coração de Caeloria.
— Eles são de Ruun! — sussurrou Stiles, ou pelo menos acreditou que tivesse sussurrado.
Derek, ao seu lado, reagiu de imediato: avançou, pressionou a mão áspera contra os lábios de Stiles e, para piorar sua dignidade, inclinou-se sobre ele para garantir silêncio absoluto.
Um dos guerreiros montados virou-se de súbito, o olhar cortante varrendo a estrada como se tivesse farejado algo fora do lugar. O silêncio que se seguiu pareceu sufocar o ar ao redor. Todos engoliram em seco.
Um segundo cavaleiro perguntou algo em sua língua cantada, de entonação ritmada e arrastada — tão em contraste com o que Stiles sabia sobre o povo da Confederação de Ruun. Guerreiros brutais que moldavam crianças com ferro e sangue, ensinando-as desde cedo a lutar entre si até que apenas as mais fortes sobrevivessem. Fracos, doentes e "inúteis" eram descartados sem hesitação. Para eles, a força não era apenas virtude: era a própria definição de caráter. E aqueles que nasciam com Arkanis eram elevados ao status de chefes de clãs, quase deuses vivos.
O guerreiro que suspeitara estreitou os olhos, fixando a estrada em silêncio. O companheiro insistiu, e Stiles traduziu mentalmente as palavras com rapidez:
"O que foi? Algo errado?"
Não houve resposta. Apenas o ranger das rodas quando a carroça, carregada de cristais, parou.
Stiles sentiu o coração disparar, a respiração entrecortada abafada pela mão quente de Derek. Seus olhos verdes, fixos e tensos, miravam os homens à frente como se já calculassem o próximo movimento.
"Por que eu tive que abrir a boca..." pensou Stiles, amaldiçoando a si mesmo com amargura.
O guerreiro de Ruun finalmente quebrou o silêncio, sua voz melodiosa arrastada como um cântico.
— Não foi nada... provavelmente apenas algum rato do campo.
— Bem que poderíamos caçá-lo — resmungou o outro, o da carroça. — Já estou farto dessas rações secas. Sinto falta de carne... e sangue.
Stiles estremeceu. O corpo retesado de Derek sobre ele não ajudava em nada; sentia os músculos do lobo tensionados, cada fibra pronta para o ataque. E se eles resolvessem procurar a tal "caça"? Se descobrissem o grupo ali escondido?
Pior ainda: Derek e os outros não estavam entendendo o que aqueles homens diziam. Só Stiles sabia. Precisava avisá-los, mas como? Abrindo a boca e denunciando o esconderijo?
De qualquer forma, isso não seria possível. A mão quente de Derek ainda cobria seus lábios, firme, intransigente. E o corpo dele — sólido, quente, esmagadoramente próximo — mantinha Stiles preso contra a rocha.
— Não temos tempo para isso — disse o terceiro cavaleiro, sua voz marcada por uma melodia rápida e ritmada. — Já estamos atrasados.
Um açoite nas rédeas, e os cavalos obedeceram. A carroça rangeu, retomando o movimento. O guerreiro desconfiado lançou ainda um último olhar pela estrada antes de seguir também, acelerando o passo do animal.
Os sons de cascos e rodas foram desaparecendo aos poucos. Para Stiles, no entanto, cada segundo daquela espera parecera uma eternidade. Uma eternidade sufocante. Uma eternidade deliciosa.
Porque, em meio ao medo, havia outra sensação difícil de ignorar: o peso de Derek sobre ele, o calor que emanava de sua pele, o roçar dos corpos a cada respiração contida. Estavam tão próximos que seus peitos quase se moviam em sincronia.
Quando o perigo, ao menos por ora, se dissipou, Derek desviou lentamente os olhos da estrada para Stiles. Sua mão permaneceu nos lábios dele, como se hesitasse em soltar.
E foi então que Stiles tomou a iniciativa insana. A língua escapou-lhe num gesto rápido, dando uma lambida suave contra a palma áspera que o calava.
Derek arqueou uma sobrancelha, o olhar faiscando. No início parecia irritação — embora, para ser justo, a expressão de Derek quase sempre oscilasse entre "irritado" e "mais irritado ainda". Mas dessa vez, algo mudou. A dureza de seu semblante suavizou-se, a mão recuou... ou quase. Porque, em vez de afastá-la de vez, Derek deixou que seus dedos roçassem lentamente os lábios de Stiles.
Louco por louco, Stiles decidiu ir além. Mordeu de leve a ponta de um dos dedos, deixando a pressão dos dentes falar por si.
O rosnado baixo que Derek deixou escapar vibrou entre eles. E, embora carregado de força, não havia nele raiva. Muito menos irritação.
Era puro desejo.
— Pessoal, acho que a barra está limpa e... ah! — Scott surgiu, puxando os cavalos por trás de uma rocha angular, mas congelou de imediato. O pequeno grito de surpresa escapou ao se deparar com a cena de Derek e Stiles. Uma cena que, digamos, não entraria em nenhum manual de castidade.
Scott ficou vermelho na mesma hora. Já Stiles, em pânico, tentou se levantar e afastar Derek, mas parecia que o Hale havia decidido, por pura maldade, pesar o dobro do que realmente pesava.
— Não está acontecendo nada! — disparou Stiles, ofegante, as palavras atropeladas. — Só estávamos... escondidos de forma estratégica e extremamente furtiva. Já viu quantos lugares horríveis para se esconder tem aqui? Pois é, nós dois encontramos um espaço... eficiente! Foi tudo muito... adequado!
Ele gesticulava como quem defendia uma tese de doutorado, enquanto Derek, ainda por cima, exibia aquele leve sorriso provocador que era capaz de fazer qualquer raposa perder a compostura. Só então o lobo se levantou, com uma calma irritante.
Stiles, para sua própria vergonha, sentiu uma pontada de frustração. Só um pouquinho.
— Aham. Sei. — Scott pigarreou, alisando a crina de um dos cavalos com exagerada concentração. — Vocês realmente... se esconderam muito bem.
— Obrigado. — Derek respondeu sem pestanejar, como se tivesse acabado de receber um elogio genuíno por seu talento tático.
Stiles quase engasgou com aquela resposta.
— Se Octavius ou Lydia estivessem aqui, talvez já tivéssemos atacado aqueles homens e os forçado a falar... — disse Alphonse, do outro lado da estrada. Ela parecia levemente corada e Stiles percebeu, com certa estranheza, que Peter havia a ajudado a se levantar do esconderijo. Mais estranho ainda: sua tia não o afastara de imediato.
— Ora, pensei que a Voz fosse proibida por lei em interrogatórios, a menos que houvesse a aprovação de um comitê de ética real... — comentou Peter, arqueando a sobrancelha com falsa inocência.
— Que se dane o comitê! — rebateu Alphonse, gesticulando com veemência. — Claramente esses homens não são daqui. São estrangeiros, isso é óbvio! E, nessas circunstâncias, não me importo em usar Arkanis além da burocracia.
— Sempre podemos recorrer à força bruta — disse Peter num tom mais sóbrio, que fez um calafrio percorrer a espinha de Stiles. Não era difícil imaginar os Hales — talvez transformados em lobos gigantes — arrancando confissões de prisioneiros de uma forma nada delicada.
— Eles são de Ruun — admitiu Stiles, um tanto constrangido. — E... desculpem ter deixado isso escapar antes. — Lançou um olhar de soslaio para Derek, que o encarava como quem diz: ótimo trabalho de furtividade, raposa.
— Eu meio que já tinha percebido pelo cheiro — assentiu Peter.
Stiles piscou, impressionado. Havia mesmo esse negócio da sensibilidade olfativa dos Hales, mesmo na forma humana. O Arkanis daquela família parecia obedecer a leis próprias.
— E você conseguiu entendê-los? — perguntou Scott, curioso.
— Entendê-los? — Derek repetiu, franzindo o cenho, como se a ideia de Stiles ter captado algo que ele não captara fosse uma afronta pessoal.
— Os Stilinski sempre foram ótimos tradutores e intérpretes — explicou Alphonse, em um tom de orgulho que fez Stiles corar. Pelo menos uma habilidade sua não envolvia explosões ou desastres com cristais.
— Sim, eu entendi — confirmou Stiles, coçando o queixo com ar pensativo. — Eles não falaram nada muito específico, mas deu para perceber que são subordinados a alguém. Mencionaram prazos, atrasos... Isso indica que há organização, talvez até uma cadeia de comando. — Ele suspirou. — Mas o que guerreiros de Ruun estão fazendo aqui? Estamos em guerra contra eles! Como conseguiram entrar tão fundo em nosso território sem levantar suspeitas?
— Obviamente, alguém os encobriu — disse Alphonse, cruzando os braços diante de si. — E eu não duvido que seja algum nobre desta região.
— Isso seria traição... — murmurou Scott, colocando em palavras o que todos pensavam.
— E, de qualquer forma, o que Ruun quer com cristais? — acrescentou Stiles, inquieto. — Pelo que sei, eles não valorizam a arcanomecânica. Para eles, Arkanis é poder de clã, não algo a ser moldado em máquinas.
Peter passou as mãos pelos cabelos escuros num gesto visivelmente tenso.
— Temos Orlathianos em Beacon Hills... e agora guerreiros de Ruun. Isso não cheira nada bem.
— Pois é... — murmurou Stiles, sentindo o coração acelerar novamente. — E se até um Hale está dizendo que não cheira bem... é porque a coisa fede mesmo.
Com tudo aquilo acontecendo, Stiles achava ridiculamente estúpido pensar que, em apenas um dia, seu baile de maioridade seria realizado. Como alguém poderia cogitar danças, música e vestidos cintilantes em meio a uma crise dessas?
A não ser que...
— Pessoal, talvez eu tenha uma ideia para avançarmos nessa investigação... — disse ele, esboçando um sorriso que só podia significar encrenca.
Peter franziu o cenho, desconfiado.
Scott fez uma careta imediata, como se pressentisse que aquilo terminaria em desastre.
Derek permaneceu impassível, a muralha de sempre.
E Alphonse... bem, Alphonse arqueou as sobrancelhas, curiosa demais para esconder o interesse.
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