Capítulo 23

Claro que eles não se transformaram em lobos no meio da cidade de Beacon Hills. E não — antes que alguém presuma — não era por pudor. Pudor, afinal, não parecia ser exatamente um traço marcante dos Hales. Peter, por exemplo, havia tirado a roupa bem ali na estação de trem, sem a menor cerimônia, como quem troca de casaco num fim de tarde.

Stiles notou, não sem embaraço, que os Hales não se preocupavam muito com o que mostravam. Camisas abertas até o peito, músculos à mostra, sem sapatos — apenas aquelas sandálias típicas dos soldados da fronteira — tudo isso entrava em choque direto com os rígidos costumes da época, em que até mostrar os tornozelos podia render um escândalo nos salões de chá.

Mas não era exatamente uma afronta moral. Não... Aquilo era estratégia.

Stiles percebeu que o verdadeiro motivo para evitarem a transformação em plena cidade era mais sensato — e triste. Os olhares. O medo. O pânico que viria logo depois. Afinal, não é todo dia que se vê lobos gigantes caminhando pelas ruas estreitas e civilizadas de Beacon Hills. E talvez, só talvez, os Hales estivessem cansados de alimentar os boatos.

Boatos de que não eram humanos.

De que eram monstros disfarçados.

Feras úteis apenas em tempos de guerra.

Existiam até cantigas infantis alertando as crianças a nunca se aproximarem das terras dos Hale, ou acabariam devoradas antes do entardecer.

Por isso, eles se transformaram apenas quando já estavam fora dos limites da cidade.

Lydia, por sua vez, optou por não acompanhá-los. Antes de partir, porém, deixou um aviso muito claro: se Stiles não voltasse antes do jantar, ela invadiria o território Hale com todos os seus encantos vocais — e os tímpanos de todos seriam suas vítimas. Ela não detalhou como faria isso, mas o olhar de fogo que lançou foi suficiente para desconcertar até Derek por um instante. Peter, claro, apenas riu.

Mas seria tolice subestimar Lydia Ravenspyr.

Já Alphonse... Bem, Alphonse decidiu acompanhar.

— Tia, o Peter estava só provocando — disse Stiles, guiando seu cavalo pela trilha de terra. Ao lado, Scott vinha montado, mais adiante seguiam os dois enormes lobos: um negro — Derek, Stiles reconhecia pelo olhar intenso — e outro maior, de pelagem branca e platinada — Peter.

Stiles, prestativo, levava consigo as roupas que os dois haviam deixado para trás. Melhor isso do que vê-las penduradas nas bocas caninas como se fossem troféus.

— Você não precisa montar em um lobo, de verdade... — continuou Stiles, voltando-se para a tia — Digo, pode vir comigo ou com o Scott. Seria bem mais prático.

Mas Alphonse já havia assumido sua pose de indignação inabalável.

— Não, Stiles. Uma Ravenspyr tem palavra. E se eu disse que montaria nesse pulguento, é isso que farei. A não ser, claro, que ele não tenha palavra nenhuma e tenha dito aquilo apenas para me fazer desistir — cruzou os braços diante do peito, o queixo erguido num gesto de puro desafio. — O idiota.

Stiles revirou os olhos.

— A menos que um Hale não tenha palavra... ou, no caso agora, latido. Essa seria a linguagem dos lobos? — Alphonse provocou, com o tom afiado de quem estava se divertindo mais do que deveria.

O lobo em questão — Peter, imponente e de pelagem platinada que cintilava sob o sol — aproximou-se com uma lentidão que parecia, no mínimo, calculada.

Stiles engoliu em seco. Por mais que convivesse com os Hales, era impossível ignorar o quanto aquelas criaturas lupinas eram belas, imponentes... e levemente aterrorizantes. Especialmente quando você, ou melhor, sua tia, insistia em provocá-los com tamanha ousadia.

— Então, vira-lata? — Alphonse continuou, erguendo uma sobrancelha — Vou montar em você ou não? Será que isso é sequer possível? Você não tem rédeas, tampouco uma sela para...

Ela interrompeu a frase, surpresa, quando o enorme lobo se agachou, claramente convidando-a a subir.

A cor subiu-lhe às faces, tingindo suas bochechas de um tom escarlate quase tão vibrante quanto seus cabelos. Por um instante, o olhar de Alphonse hesitou — só um instante — e Stiles teve que morder os lábios para conter a risada.

— Pois bem — disse ela, alisando a roupa numa tentativa elegante de recompor a dignidade. Em seguida, deu um passo à frente.

— Eu já montei no Derek — comentou Stiles, numa tentativa talvez útil (ou talvez apenas fraternalmente maldosa) de oferecer instruções básicas sobre como montar num lobo gigante. — É seguro. Só precisa segurar firme no pelo e...

— Tudo bem, Stiles. Eu aprendo rápido — respondeu Alphonse com um toque de orgulho ferido, lançando-lhe um olhar cortante antes de subir, com alguma dificuldade, no dorso do lobo.

Ela ainda tentava se acomodar quando, de súbito, Peter se ergueu com uma agilidade impressionante. O movimento inesperado arrancou-lhe um gritinho — breve, mas inegavelmente aflito — e Alphonse, instintivamente, se agarrou ao pescoço da criatura, apertando-se contra ele.

Stiles arqueou as sobrancelhas. Aquilo — tinha certeza — foi de propósito.

— Bem, uma coisa resolvida... Acho — murmurou Stiles, montando em seu cavalo e acompanhando Scott logo atrás. Seus olhos, no entanto, estavam fixos à frente, onde Peter seguia em ritmo acelerado, com Alphonse ainda se segurando em seu flanco e soltando pequenos gritos — nem todos de pavor, aparentemente.

— Pelo menos por enquanto. Agora teremos, enfim, a tal investigação que seu pai propôs realizar... — comentou Scott, lançando-lhe um olhar curioso. — Você tem alguma ideia do que exatamente se trata?

Stiles deu de ombros.
— Nenhuma certeza. Só perguntas.

E eram muitas. A missão que seu pai lhe confiara já era intrigante por si só, mas havia muito mais em jogo. O que, afinal, um orlathiano fazia em Beacon Hills? E, pior ainda, sob ordens diretas dos Argents? Só a menção ao velho Gerard Argent já fazia seus instintos gritarem. Era impossível confiar naqueles olhos frios e nas intenções ainda mais geladas por trás de seus sorrisos educados.

Deve ter algo a ver com arcanomecânica... pensou Stiles. Fazia sentido. Ainda que a maioria da nobreza local preferisse ignorar os avanços da ciência — e a tratasse como algo menor, útil apenas para extrair minérios raros e revendê-los à capital —, os Argents nunca foram interessados. Muito pelo contrário.

Mas por que agora?

— Stiles! Vamos! — chamou Scott à frente, já desviando por uma trilha lateral, que se ramificava da estrada de terra principal e mergulhava em um caminho estreito, ladeado por mato alto.

O jovem duque piscou, despertando dos próprios pensamentos. Viu Peter, Derek e Alphonse já à frente, desaparecendo entre os arbustos e árvores.

— Certo, certo, já estou indo! — murmurou, açoitando levemente as rédeas e conduzindo o cavalo pelo novo trajeto, irregular, como se o próprio caminho refletisse a confusão em sua mente.

***

A floresta do território dos Hale parecia ainda mais sombria agora que haviam deixado qualquer vestígio de estrada para trás. Stiles perdera há muito tempo qualquer ponto de referência que pudesse, hipoteticamente, guiá-lo de volta à segurança — isso, claro, se segurança ainda fosse uma possibilidade naquele cenário.

Não ajudava o fato de que, embora fosse manhã, a floresta parecia crepuscular. Uma névoa tênue se arrastava rente ao chão, como se a própria natureza cochichasse segredos indecifráveis. E os insetos... ah, os insetos. Stiles tinha quase certeza de que alguns besouros ali eram grandes o suficiente para almoçarem com talheres.

— Tem algo no meu cabelo, não tem? Tenho certeza de que tem alguma coisa — exclamou, agitando as mãos nos cabelos em um gesto aflito, como se estivesse sendo perseguido por uma aranha do tamanho de um gato.

Só para, segundos depois, perceber que era apenas uma folha.

O lobo — Derek, claro — lançou-lhe um olhar que, mesmo vindo de um canídeo de proporções épicas, conseguiu reunir perfeitamente um misto de julgamento e tédio. Stiles ficou embasbacado. Lobos não deviam ser tão expressivos.

— Sabe... você devia sair mais. Pegar um pouco de sol, respirar ar puro. Em vez de viver trancado naquele laboratório que você insiste em chamar de cabana — comentou Scott com um meio sorriso.

— Eu saio na natureza o suficiente — resmungou Stiles, corando levemente ao dar um pequeno açoite nas rédeas do cavalo, como se o animal pudesse galopar para longe da conversa embaraçosa.

O caminho tortuoso por entre as árvores enfim se abriu, revelando uma vasta clareira. Mas não era uma paisagem familiar. Stiles não reconhecia aquele trecho como parte das terras comuns da Casa Stilinski. Havia algo... deslocado ali. Os contornos do terreno, a vegetação ressequida, o silêncio opressivo. Ele percebeu, com certo atraso, que estavam indo em direção à Montanha Cinzenta — ao oeste.

— Estamos indo para a pedreira? — questionou com o cenho franzido, mesmo sabendo que aquele trajeto não fazia sentido. Ele conhecia bem o caminho até a pedreira onde os servos da Casa da Raposa mineravam mármore, e eles estavam a quilômetros de distância da rota usual.

Bem, Stiles sinceramente não esperava que Derek fosse de fato responder — especialmente em sua forma peluda. Mas ali estavam, lobos e tudo mais, e Peter já seguia adiante, descendo uma encosta coberta por menos grama e mais pedra. A paisagem tornava-se abruptamente mais árida, e o terreno irregular exigia atenção.

A extensão das terras dos Stilinski era considerável, disso Stiles sempre soubera. Não era à toa que o título de Duque recaíra sobre sua família, e não sobre os demais nobres da região. As raposas tinham os maiores domínios do território — embora grande parte deles permanecesse subutilizada.

A verdade é que os Stilinski jamais se destacaram por sua ambição expansionista. Contentavam-se em conservar o que já possuíam: as famílias de servos leais, a pequena comunidade escondida entre colinas e florestas, e a devoção silenciosa à coroa, atuando como espiões nos bastidores do poder. Levavam uma vida quase bucólica, enraizados na crença de que o verdadeiro domínio não se media em conquistas territoriais, mas em permanência.

A ilusão que era o poder — e a própria Arkanis dos Stilinski, talvez — o fizera compreender que viver cercado de riqueza e ostentação era, no fim das contas, inútil. Pois mesmo sem Arkanis, essas coisas não passavam de outras formas de ilusão. E, quando se tratava de ilusões, os Stilinski sabiam muito bem do que estavam falando.

Stiles e Scott foram obrigados a desmontar para conduzir os cavalos pela encosta íngreme, os cascos deslizando ocasionalmente sobre o cascalho solto.

— E então, o que achou, Stiles? — indagou Peter, já em sua forma humana e, claro, completamente nu, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Alphonse estava ao seu lado, com a mão sobre os olhos — ou, ao menos, pretendia estar. Stiles percebeu perfeitamente o espaço estratégico entre os dedos, permitindo à sua tia uma visão mais do que generosa da nudez do Hale mais velho. E o pior: ela parecia divertidamente impassível quanto a isso.

— Achar o quê? — Stiles apressou-se a desviar o olhar e remexer nas bolsas da sela, de onde retirou as roupas de Peter com a destreza de quem já havia feito aquilo antes. De mais a mais, onde estava Derek? Não que ele estivesse procurando a nudez do lobo mais jovem, claro. Era só... responsabilidade. Alguém precisava trazer as roupas.

— Este lugar — Peter insistiu, ainda demorando um pouco mais do que o necessário para se vestir. — A fronteira entre suas terras e as nossas. O que acha dela?

Stiles parou por um instante. Seus olhos percorreram a paisagem ao redor: o terreno pedregoso que descia em direção a uma ravina estreita, a vegetação rarefeita e o horizonte cinzento da Montanha que se erguia a oeste como uma muralha silenciosa. Havia algo de austero e quase poético naquela parte esquecida do mundo.

— O que eu acho...? — murmurou, pensativo, franzindo o cenho diante do cenário, como se tentasse decifrá-lo.

Foi então que Stiles notou algo fora do lugar: marcas de carroça, rastros de cascos — uma trilha, talvez até uma estrada, aberta ali recentemente. Alguém estivera passando por aquela parte do território? Mas... ele não conhecia aquele trecho específico do território, e duvidava que sua família tivesse ciência disso.

— Eu disse que seu território é muito desprotegido — comentou uma voz súbita ao seu lado, fazendo Stiles quase saltar da sela.

Claro. Era Derek.

— Sério? — resmungou Stiles, levando uma mão ao peito e a outra estendendo as roupas do Hale. — Uma coleira com sininho. Já sei o que te dar de presente no seu aniversário.

Derek apenas arqueou um canto da boca, num meio sorriso quase imperceptível — e perigosamente charmoso.

— Certo. Alguém andou pelo nosso território. Pode ser só um atalho... Não significa necessariamente que estejam fazendo algo ilegal — começou Stiles, tentando recuperar o foco.

— Invadir o território de uma casa nobre sem autorização formal ou sem que a estrada tenha sido previamente acordada como via comum é, sim, ilegal — retrucou Derek, agora vestido da cintura para baixo. O peitoral nu, por sua vez, era uma provocação visual que Stiles se esforçava (em vão) para ignorar.

— Bem... eu conheço um certo alguém que também invadiu meu território — disse Stiles, erguendo uma sobrancelha em desafio.

— Eu fiz isso, mas... — tentou se justificar Derek.

— Espera. Ele não anunciou sua presença? — cortou Peter, olhando repreensivamente para o sobrinho. — Der, isso foi muito deselegante. Por mais entediante que seja, existem protocolos, sabe...

— Aha! — exclamou Stiles triunfante, apontando o dedo na direção do rosto impassível de Derek.

Este, por toda resposta, fingiu que ia morder o dedo de Stiles, o que o fez recuar com um meio riso.

Antes que o teatrinho se prolongasse, Alphonse se agachou repentinamente à beira da trilha recém-formada.

— Isso é um cristal? — perguntou, cutucando algo no chão. Retirou dali um fragmento pálido e brilhante.

Stiles se aproximou imediatamente, os olhos arregalados.

— Isso não é um mineral qualquer... — murmurou Alphonse, examinando o objeto na sua mão. — É um cristal usado em arcanomecânica.

Stiles engoliu em seco.

— Eles... estão minerando cristais aqui? — balbuciou. — Mas isso não faz sentido... Eles têm o direito de extrair esses recursos em suas próprias terras. Por que fariam isso aqui?

— Bem, foi exatamente por isso que viemos investigar... — disse Peter, com um tom que soou menos jovial e muito menos brincalhão do que o habitual. — Então, vamos começar?

Stiles lançou um olhar de soslaio para Alphonse, depois para Scott, buscando ali alguma confirmação silenciosa, antes de finalmente assentir com a cabeça.

Seja lá o que fosse, ele iria descobrir...Essa era sua função como herdeiro do Duque, e seu representante ali.


--Palavras da autora--

Sorry a demora pessoal! 

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