Capítulo 26
Aquele calor o estava enlouquecendo.
Não que ele não tivesse usado roupas assim antes. Certo — a quem estava tentando enganar? Nunca usara nada remotamente parecido com aquilo.
Os Hales nunca foram obrigados a seguir as convenções da etiqueta. Pelo menos era o que o velho Augusto Hale vivia repetindo: "Os outros só nos querem na forma de lobo — grandes, ferozes e obedientes. Não há lugar para ternos ou mesuras."
E, para ser justo, havia lógica nisso. Tantas camadas de roupa só serviam para atrapalhar uma transformação. Quanto mais folgada — e, de preferência, descartável — melhor.
Além disso, segundo o pai, ninguém queria realmente interagir com um Hale em sua forma humana. "Que sentido há em usar rendas e gravatas, se preferem ver suas presas?" dizia ele, com um meio sorriso sombrio. Assim, as regras da boa sociedade, os bailes e até a escola privada para nobres eram, nas palavras do patriarca, "perda de tempo".
Obviamente, era tudo mentira.
Peter Hale descobrira isso ainda adolescente, quando desobedeceu à proibição de subir ao sótão. Os baús lá em cima, sobreviventes do incêndio que consumira metade da família — inclusive sua mãe —, guardavam mais do que lembranças. Dentro deles, encontrou ternos finos, vestidos de gala e joias dignas de reis. Pois é — houve um tempo em que os Hales eram nobres de verdade: orgulhosos, elegantes, e, sim, um pouco metidos.
Agora, usando um terno escuro de corte impecável e as abotoaduras em formato de lua minguante (que roubara de um daqueles baús), Peter ainda não se sentia confortável. Talvez o velho Augusto estivesse, afinal, um pouquinho certo.
— Você deveria parar de puxar o colarinho — comentou uma voz divertida atrás dele. — Vão pensar que o lobo está usando uma coleira apertada demais pro próprio gosto.
Peter se sobressaltou, virando-se.
Não era sua irmã — que, aliás, estava deslumbrante em um vestido azul-escuro herdado da mãe e restaurado à perfeição por Madame Flor (Peter tinha certeza de que a alfaiate escondia algum tipo de Arkanis de costura sobrenatural).
Mas não. Não era Talia. Era Alphonse Ravenspyr.
— Não se coloca coleira em um lobo, minha cara — retrucou Peter, o sorriso malicioso surgindo com naturalidade.
E então ele a viu por completo.
O vestido dela — ou o que passava por um — era um desafio às convenções. A saia longa, feita de tecido leve, ocultava calças elegantes de linho; o corpete negro, de alças finas cravejadas de pequenas pedras, moldava o busto de forma que nem o observador mais disciplinado conseguiria ignorar. Sobre os ombros alvos — e salpicados de sardas, ele notou — caía um xale prateado que mais insinuava do que cobria.
Os cabelos ruivos estavam soltos, caindo em ondas indisciplinadas até os ombros, como se se recusassem a obedecer a qualquer tentativa de ordem — muito apropriado, pensou Peter, para Alphonse.
Por alguns segundos, ele simplesmente esqueceu como se falava.
Alphonse, percebendo o silêncio dele, arqueou uma sobrancelha — o tipo de gesto que podia fazer um homem se sentir simultaneamente desafiado e condenado.
— Bem... — pigarreou Peter, puxando o colarinho e afrouxando a gravata azul que parecia querer estrangulá-lo. — Acho que agora entendo por que alguns nobres ficam tão irritados e impacientes nessas festas. Afinal, essas roupas cortam a circulação, o oxigênio e, no meu caso, qualquer resquício de bom humor.
Alphonse revirou os olhos e deu alguns passos na direção dele.
Era menor — ele sabia disso —, mas os sapatos de salto alto lhe concediam alguns centímetros extras de pura autoridade.
— Eu não imaginava que os Hales pudessem ser tão dramáticos apenas por causa de um código de vestimenta — comentou ela, estendendo as mãos em direção ao pescoço dele.
Peter congelou.
Ora, ele era um Hale. Tinha participado de batalhas reais, visto sangue e guerra desde que o pai decidira que qualquer lobo capaz de se transformar era velho o suficiente para lutar. Não havia motivo algum para que uma mulher, ainda mais uma Ravenspyr, o deixasse nervoso.
E, no entanto, seu coração disparou.
— O que foi? — provocou Alphonse, com um sorriso que era puro desafio. — O lobo está com medo de um corvo?
Os dedos dela tocaram o colarinho dele, e Peter esqueceu completamente como se respirava.
— O que você está... — começou a dizer, mas a pergunta morreu no ar quando Alphonse começou a afrouxar sua gravata.
O gesto foi simples, mas Peter sentiu como se algo dentro dele também se soltasse — um nó invisível, talvez. O ar pareceu mais leve, embora o calor só aumentasse. E, desta vez, ele sabia muito bem que não era culpa da roupa.
— Você é realmente habilidosa com isso... — murmurou, a voz mais rouca do que pretendia.
Ela estava próxima. Muito próxima.
Peter podia sentir o perfume dela — uma mistura inesperada de flores silvestres, grama fresca e um toque metálico, como o cheiro do ar antes de uma tempestade. Era algo diferente, intrigante... viciante.
Seu faro aguçado, herança da linhagem dos lobos, captava cada nuance, e, antes que percebesse, ele se inclinou levemente para mais perto, apenas para sentir melhor.
E Alphonse... não se afastou.
— Sim, eu já usei gravatas também. — disse Alphonse, os dedos ainda brincando com o tecido azul que envolvia o pescoço de Peter. — Não sei se Stiles comentou, mas precisei me disfarçar de homem para cursar a universidade.
Peter arqueou uma sobrancelha, intrigado.
— Mulheres podem estudar, claro — continuou ela, o tom casual contrastando com o fogo que brilhava em seus olhos. — Mas, normalmente, só o que chamam de "cursos femininos": corte e costura — sim, existe um curso para isso —, enfermagem, educação infantil... Mas arcanomecânica? Ah, isso nunca.
Os dedos dela ainda se moviam na gravata, embora já a tivesse afrouxado há tempos. Peter, por sua vez, não parecia disposto a lembrá-la desse detalhe.
— Então, para provar o contrário àquela corja de velhos preconceituosos, troquei meu nome, cortei o cabelo, usei um terno horrível e entrei na universidade como homem. — Um sorriso triunfante curvou seus lábios. — E não só me formei, como ganhei prêmios pelos meus experimentos. Revelei minha identidade no final. Você devia ter visto a cara deles. Pareciam ter engolido carvão aceso.
Peter se viu sorrindo, quase rindo, imaginando a cena.
— Eu adoraria ter visto isso.
— De toda forma — completou ela, endireitando a postura e corando levemente —, sei muito bem mexer em gravatas.
Ela então percebeu o quanto ainda estava próxima dele, as mãos pousadas em seu peito largo. Um instante longo demais.
Estavam no salão principal, onde o baile de maioridade de Stiles aconteceria em breve. Os Hales haviam sido os primeiros nobres a chegar — ideia de Talia, que achou prudente evitar uma entrada triunfal em meio ao olhar curioso (e desconfiado) das outras casas. Ainda assim, a atenção já se voltava para eles, sobretudo para a cena de uma Ravenspyr em posição tão... íntima com um Hale.
As fofocas, sem dúvida, começariam antes mesmo da primeira dança.
Peter, porém, não se importava nem um pouco.
— Obrigado — disse ele, a voz baixa, rouca de propósito. — Quem sabe, quando tudo isso acabar, você possa me dar umas aulas... caso sejamos convidados para outro baile.
Ele pousou a mão sobre a dela — a que ainda segurava sua gravata.
Alphonse sobressaltou-se, mas não recuou. Apenas arqueou o canto dos lábios, o olhar faiscante.
— Talvez. Mas saiba que sou uma professora muito rígida.
Uma mecha ruiva caiu sobre seu rosto. Peter, sem pensar, tocou-a com delicadeza e a colocou atrás da orelha dela, os dedos roçando levemente sua pele quente.
— E você deve saber — retrucou ele, sorrindo — que sou um aluno bem rebelde.
Alphonse o encarou com aquele olhar característico que ficava entre o desafio e o perigo.
— Pois tome cuidado — avisou, num tom que soou mais como provocação do que ameaça. — Qualquer deslize... e eu ataco.
— E eu estarei pronto para receber seu ataque, senhorita Ravenspyr. — respondeu ele, num sussurro divertido.
Ficaram ali, próximos demais, o ar entre eles carregado de algo que nenhum dos dois ousava nomear. O flerte pairava no ar como faísca prestes a virar fogo.
Mas então, Peter desviou o olhar — e a tensão se quebrou.
— Aquilo é... Derek com o Stiles? — perguntou, animado.
Alphonse seguiu seu olhar, e um sorriso genuíno surgiu em seus lábios. Seu sobrinho, impecável em um terno de corte refinado com detalhes em âmbar — símbolo da raposa —, parecia cada centímetro de sua nobre linhagem.
Aquele baile, pensou ela, seria um lembrete a todos os abutres de Beacon Hills de que a Casa Stilinski permanecia firme — viva e altiva, mesmo sem Noah presente.
Peter soltou um assobio — algo tão inapropriado que metade dos nobres virou a cabeça, escandalizada.
— Ora, admita, Alphonse — comentou ele com um sorriso travesso. — Eles fazem um belo casal. Uma raposa e um lobo. Combinação perfeita.
Alphonse cruzou os braços, esforçando-se para conter o sorriso que teimava em surgir.
— Só se o lobo souber se comportar.
Peter arqueou uma sobrancelha, o brilho de desafio acendendo-se em seus olhos.
— Ah, minha cara... lobos nunca se comportam. — inclinou-se um pouco, a voz baixa, quase um sussurro conspirador. — Mas, às vezes, é justamente essa incapacidade de seguir as regras que torna tudo infinitamente mais interessante.
***
— Fico muito feliz que tenha nos convidado... Digo, depois de tudo... — Talia hesitou, ajeitando o colar no pescoço. — Digo, nós nem comparecemos ao funeral de Evelyne...
Ela falava rápido, nervosa. Era a primeira vez em anos que se encontrava cara a cara com Halina Stilinski. E, francamente, havia motivos para o nervosismo. Não era apenas o poder Arkanis daquela mulher que a impressionava, mas também a presença. Halina vestia um elegante vestido laranja com sutis detalhes em branco, irradiando autoridade e sofisticação em igual medida.
Talia ainda se lembrava das histórias do pai sobre ela — histórias que misturavam admiração e receio. E, se Augusto Hale temia alguém, essa pessoa, sem dúvida, merecia respeito.
— Não se preocupe, querida. — disse Halina, tocando com delicadeza as mãos da Hale. O gesto, apesar de gentil, carregava uma firmeza maternal. — Entendo perfeitamente a situação de vocês. Conheci Augusto quando éramos jovens... Sei o quanto ele podia ser teimoso. Na escola, tínhamos até um apelido para ele: Cabeça-Dura-Hale.
Talia tentou conter o riso, mas falhou miseravelmente. Imaginar o rígido e soturno Augusto com um apelido desses era... quase libertador.
— Eu é que devo pedir desculpas — respondeu ela, com sinceridade. — Somos vizinhos, aliados, e depois do incêndio... Tentei falar com meu pai, mas ele estava em luto. Raivoso. Afastou todos. E eu... — suspirou — ...eu devia ter insistido mais.
A mão de Halina tremeu levemente, e Talia, num impulso quase filial, pousou a sua sobre ela.
— Não devemos revirar o passado, lady Stilinski — interveio Elias Hale, com seu sorriso tranquilo. — O tempo dos culpados já passou. Agora só há aliados: Stilinski e Hale, raposas e lobos, novamente unidos.
Halina sorriu, com ternura.
— Isso é verdade. — assentiu, firme. — Mas devo frisar que a aliança entre nossas casas jamais foi realmente quebrada.
Talia assentiu, aliviada.
— Mamãe, olha! — exclamou Cora, apontando entusiasmada. A garota usava um vestido em tons de rosa e azul — que, honestamente, parecia ter sobrevivido a uma pequena guerra para chegar intacto até ali. Os sapatos de salto haviam sido abandonados havia muito, mas ela exibia um sorriso radiante. — É o Derek! Ele está engraçado!
— Cora, não aponte assim, querida... — disse Elias, tentando soar severo, mas rindo nervosamente logo em seguida.
Halina Stilinski observou a cena com um pequeno sorriso. Ah, sim... os Hales precisavam de ajuda. Não apenas com política ou etiqueta nobre, mas com educação básica. Augusto Hale, pensou ela, dera aos filhos e netos coragem e força — mas definitivamente não boas maneiras.
Bem, ela ficaria feliz em ajudá-los nisso. Afinal, já havia educado os próprios filhos (com relativo sucesso) e os netos — o que certamente a qualificava como uma veterana nesse tipo de missão.
Mas qualquer pensamento se dissipou no instante em que Halina viu quem acabava de entrar no salão.
Mieczysław Stilinski — seu neto — adentrava no salão de braços dados com Derek Hale.
Halina conteve o fôlego.
Ele estava deslumbrante. O terno de corte impecável, os detalhes em âmbar evocando as cores da raposa, e o porte altivo que lembrava o pai... e até mesmo a ela própria. Uma lágrima escapou, silenciosa, e ela nem se deu ao trabalho de limpá-la.
— Eles estão perfeitos — murmurou Talia, ao seu lado, também emocionada.
Halina sorriu, com um brilho de esperança nos olhos.
Raposa e lobo. Uma combinação improvável... mas fascinante.
No passado, ela mesma quase se casara com Augusto Hale. E, veja só, o destino parecia querer corrigir um romance que o tempo não permitiu florescer.
Talvez, afinal, a união entre as duas casas estivesse apenas esperando a geração certa para acontecer.
***
Vermon Dunhaven chegara cedo — talvez cedo demais. Mas havia lógica em seu plano: chegar antes, suportar o mínimo necessário e sair antes que o primeiro grupo de damas entediadas começasse a comentar sobre chapéus, escândalos e linhagens.
Ele não gostava de bailes. E, no círculo da nobreza, parecia haver um a cada semana, sempre com um motivo mais absurdo que o anterior. Casamentos distantes, conquistas militares de tios que ninguém conhecia, colheitas bem-sucedidas... tudo era desculpa para vinho, fofocas e conversas insuportavelmente vazias.
Ainda assim, aquele baile era diferente. O baile de maioridade de Stiles Stilinski — o "garoto irritante e, contra todas as probabilidades, interessante". Não que Vermon fosse admitir isso em voz alta, é claro.
Stiles sempre o chamara atenção. Desde criança, quando enfrentava valentões, discutia com professores e tinha a audácia de fazer perguntas que todos temiam formular. E, principalmente, quando simplesmente decidiu parar de frequentar a escola da Senhora Brightlight. Vermon lembrava bem o caos que aquilo causara: pais indignados, professores revoltados e a diretora criando regras para evitar que alguém seguisse o exemplo.
Ele próprio quis fazer o mesmo. E odiava admitir que Stiles o fizera primeiro.
Com o tempo, o garoto se tornara ainda mais peculiar — agora obcecado pela arcanomecânica, aquela fusão improvável de magia e ciência. Vermon chegou a se interessar, mas sua vida estava presa ao hospital da família: um enorme edifício branco no coração de Beacon Hills, onde os Dunhaven curavam ferimentos, doenças e — nas palavras de seu pai — "a própria ignorância da nobreza sobre o sofrimento alheio".
Alan Dunhaven era um homem admirável. Reformara o hospital para atender a todos, ricos ou pobres, e transformara o nome da família em sinônimo de cura e benevolência. Vermon o respeitava por isso. Mas, ao mesmo tempo, sentia-se aprisionado.
Nem todo mundo queria ser um santo.
Ele desejava, talvez, descobrir novas formas de Arkanis — algo fora da tradição, algo que fosse seu. E, curiosamente, sentia que Stiles Stilinski poderia ser a chave para isso.
Pensava nisso enquanto estendia a mão para pegar um pequeno bolinho coberto de chocolate. Era simples, quase humilde, e por isso chamava tanta atenção.
Afinal, os bailes nobres sempre ofereciam pratos extravagantes — iguarias raras, temperos exóticos, nomes impronunciáveis — mas que, invariavelmente, tinham gosto de nada. Comida que servia mais para exibir fortuna do que alimentar o estômago.
Mas aquele bolinho... parecia diferente. Real. Tentador.
Ele esticou o braço — e, de repente, chocou-se contra outra mão.
— Ah, desculpe. — disse o outro rapaz, sorrindo.
Vermon ergueu o olhar. Cabelos castanhos bem penteados, olhos claros e vivos, um sorriso fácil — o tipo de sorriso que exalava charme sem esforço. O terno que usava era moderno, ajustado com precisão, com bordados discretos que sugeriam bom gosto e, claro, dinheiro.
"Deve ser um nobre", pensou Vermon. "Mas nunca o vi na escola."
— Não, tudo bem... pode pegar. — respondeu, embora cada fibra do seu ser gritasse o contrário.
— Não, senhor. Obviamente o senhor parece querer este. — disse o rapaz, com um sorriso atrevido.
Vermon franziu o cenho, irritando-se — não porque o garoto estivesse errado, mas porque o lera com facilidade absurda.
— Pode ficar. Eu nem gostei tanto assim. — mentiu, tentando manter o rosto impassível.
— Sério? — o rapaz cruzou os braços diante do peito, e o sorriso se ampliou. — Que curioso. Todos dizem que faço bolos excelentes... meus clientes, meus amigos. Por isso Lady Stilinski me pediu para preparar alguns para o buffet.
Vermon piscou, surpreso.
— Foi você quem fez?
— Oh, sim. Stiles adora meus bolinhos. Então, para compensar o convite, achei justo trazer alguns. — respondeu o rapaz com um suspiro melodramático, tocando o próprio peito. — Infelizmente, não fiz muitos. As encomendas me tomaram tempo demais... — fez uma pausa, lançando um olhar rápido à própria roupa — e, sinceramente, nem tive chance de provar um.
Vermon arqueou uma sobrancelha. A referência às "encomendas" soou ambígua — talvez intencionalmente.
— Bem... acho que deveria comer um. Estão muito bons. — disse por fim, em tom polido.
Devia se despedir. Era o que sempre fazia. Conversas pequenas o entediavam — especialmente em bailes. Mas havia algo naquele rapaz que o deixava intrigado. Ele parecia deslocado ali, e ainda assim, perfeitamente à vontade. Um confeiteiro — ou algo do tipo — entre nobres. E, o mais curioso de tudo: era amigo de Stiles.
— Oh, obrigado pelo elogio, senhor. — respondeu o jovem, com um brilho malicioso nos olhos.
Vermon o encarou, sem saber se estava sendo provocado.
— Há outros doces para provar, sabe? — continuou o rapaz. — Este é o meu primeiro baile. Não sei se o senhor percebeu.
Vermon o analisou melhor. Sim, agora que mencionava, havia algo de hesitante em seus gestos — uma inquietação disfarçada sob o tom leve da voz. Ele parecia à beira de um nervosismo que apenas o sarcasmo podia conter.
— Não, não percebi. — mentiu Vermon, educadamente.
O rapaz riu.
— Muito gentil da sua parte fingir que não notou, senhor. Um verdadeiro cavalheiro.
Vermon corou, discretamente. Ousado, aquele garoto. E falador demais. Ele não estava acostumado a ser provocado — muito menos a ficar sem saber como reagir.
— Me chamo Isaac Lahey. — disse o rapaz por fim, estendendo a mão.
Vermon hesitou, então apertou-a. O toque era firme, quente, com uma confiança desconcertante.
Lahey.
O nome soava familiar. Não era nobre, nem de família influente... mas onde ele já o ouvira?
Talvez nos relatórios do hospital — sim, algo sobre um aprendiz, um assistente...
— Isaac, querido! Estava louca te procurando! — exclamou uma voz melodiosa e inconfundivelmente dramática, interrompendo seus pensamentos.
Vermon ergueu o olhar e, por um instante, esqueceu-se de como reagir.
A figura que se aproximava era alta, elegante e impossível de ignorar. Usava um exuberante vestido vermelho com plumas e bordados dourados, contrastando com a pele morena reluzente sob a luz dos candelabros. A cabeça raspada realçava o porte altivo, e o cavanhaque perfeitamente delineado dava-lhe uma beleza singular — algo entre o andrógino e o divino.
Madame Flor.
Mesmo Vermon, que raramente se importava com as fofocas da alta sociedade, conhecia aquele nome. A lendária alfaiate de Beacon Hills, cujas criações adornavam praticamente todas as famílias nobres do reino. As mesmas famílias que compravam seus trajes com fervor... mas evitavam dirigir-lhe a palavra em público.
Havia algo de incômodo — para os outros — em alguém que vivia tão livremente, desafiando convenções de gênero e etiqueta.
Mas, para Vermon, ela parecia simplesmente fascinante.
— Eu estava aqui, madame... só tentando comer alguma coisa. — respondeu Isaac, com o tom calmo de quem já se acostumara às entradas triunfais de sua mentora.
Vermon então uniu os pontos. Claro! Isaac Lahey — o nome vinha das fofocas que circulavam nos salões, sussurradas entre taças de champanhe. O talentoso assistente de Madame Flor, responsável por entregar suas criações às casas nobres da região. Era bem possível que ele mesmo tivesse trazido o terno que Vermon usava naquela noite.
Maravilhoso, pensou. O confeiteiro encantador e o alfaiate da corte — combinação perfeita...
— Vejo que esteve conversando. — disse Madame Flor, sorrindo de maneira astuta e lançando um olhar sugestivo para Vermon. — Fazendo amigos, querido? Que bom! Sempre fico feliz quando você conhece gente nova... especialmente quando essa gente é bonita.
Isaac cobriu o rosto, rindo baixinho. Vermon, por outro lado, ficou momentaneamente sem palavras.
— É um prazer conhecê-la, Madame Flor. — conseguiu dizer por fim, fazendo uma reverência respeitosa.
Os olhos de Madame Flor brilharam, e ela sorriu com uma graça teatral.
— Oh, o prazer é todo meu, jovem Dunhaven! Já vesti praticamente toda a sua família — mas devo dizer que você é o único que realmente nasceu para usar minhas criações. — disse ela, examinando-o de cima a baixo com a perícia de uma artista. — Agora que o vejo de perto, preciso discordar das cores terrosas de sua casa. Não, não... você precisa de algo mais vibrante! Já pensou em vermelho? Ou talvez laranja? Até o branco ficaria divino em você! Ou mesmo...
— Madame... — Isaac interveio, rindo baixo.
— Oh, sim, claro! — exclamou Flor, abanando a mão com elegância. — Lá estou eu, pensando em trabalho quando deveria estar festejando! Ah, estou tão animada! Meu primeiro baile! Apesar de já ter feito roupas para centenas de pessoas que frequentam esse tipo de evento, nunca fui convidada antes! — ela suspirou dramaticamente e, de repente, ofegou, erguendo o leque. — Oh, céus! Aquela ali está usando um vestido horrível! Claramente não feito por mim. — disse, apontando discretamente com o leque para uma dama do outro lado do salão. — Reconheço o corte... só pode ser do Kalabero. Ridículo! Veja como o busto parece prestes a saltar para fora! E a parte de trás... oh, misericórdia! Ela parece uma pata, não acha?
Vermon pigarreou, incerto se deveria responder — mas, ao observar a mulher, não pôde negar: havia mesmo algo de... aquático na silhueta.
— Bem... sendo ela da Casa Argent, cujo símbolo é um falcão... não está tão distante assim de uma pata. — disse, antes que pudesse se conter.
Silêncio. E então, risadas. Madame Flor gargalhou com gosto, enquanto Isaac tentava conter o riso — sem muito sucesso. Vermon sentiu o rosto aquecer. Ótimo. Agora, além de socialmente inepto, sou engraçado por acidente.
Talvez fosse o momento ideal para recuar discretamente e salvar o que restava da sua reputação.
Mas, antes que pudesse dar um passo, Madame Flor exclamou novamente:
— Oh! Olhem! — ela quase bateu palmas de empolgação. — Stiles e Derek estão entrando! Ah, que perfeição! Minha melhor criação! Vejam como estão lindos!
Vermon seguiu o olhar da alfaiate — e, de fato, não havia como negar. Stiles Stilinski, com seu terno azul-noite e detalhes em âmbar, parecia o retrato da elegância moderna. Ao seu lado, Derek Hale, em tons sombrios e prateados, irradiava uma força contida, um contraste quase poético com a vivacidade do anfitrião.
E, mais interessante ainda, era a forma como se olhavam.
Os murmúrios começaram quase imediatamente — como abelhas em volta de mel. Nobres cochichando, abanando leques, franzindo sobrancelhas.
Vermon arqueou uma sobrancelha, contendo um sorriso. Ah, aquilo certamente iria apimentar a noite.
E ao ver Isaac e Madame Flor trocarem olhares cúmplices, pensou que talvez... só talvez... valesse a pena ficar mais um pouco naquele baile.
Mesmo que apenas para ver o caos florescer — e, quem sabe, participar um pouco dele.
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