Capítulo 20

— Já disse que não vou fazer nada. Quer dizer, vou fazer algo, mas não o que o senhor está pensando! Quando digo "fazer", quero dizer apenas caminhar até a plataforma e esperar o trem que vem da capital! — explicou Stiles, gesticulando talvez mais do que o necessário. À sua frente, o homem de uniforme azul-escuro, com um quepe adornado por um broche em forma de fênix — distintivo da Coroa — mantinha uma expressão pétrea.

Era um sujeito magro, talvez magro demais, com uma barba grisalha espessa que contrastava de maneira curiosa com sua compleição esguia. Um cachimbo apagado pendia de seus lábios quase escondidos sob os fios densos da barba, como se fosse parte integrante de seu rosto austero.

— Sei. E por que deveria confiar nisso, hein, senhor Stilinski? Da última vez que deixei você ir até a plataforma... — começou ele, com a voz fina e seca como folhas no fim do outono.

— Isso foi há mais de dois anos, senhor Rudolph! — interrompeu Stiles, recebendo um olhar crítico do velho ranzinza.

— O que exatamente o mestre Stilinski aqui fez para ser proibido de entrar na estação? — perguntou Peter Hale, que não apenas soava genuinamente curioso, mas visivelmente se divertia com a situação.

Derek, a seu lado, permaneceu em silêncio, mas arqueou uma sobrancelha num gesto de claro entretenimento.

— Ah, vamos evitar esse assunto... — disse o tio Bartosz Stilinski, tentando aplacar o constrangimento iminente.

O cenário ao redor dava um ar quase teatral à cena. A entrada da estação, um portal de ferro artisticamente moldado, abria-se para uma plataforma discreta, com bancos de madeira escura, algumas lojinhas vendendo jornais, cigarros e quitutes embalados em papéis coloridos. Poucas pessoas circulavam ali. A chegada do trem ainda era uma novidade em Beacon Hills — uma inovação vista com ceticismo por muitos. A associação entre a tecnologia e a arcanomecânica fazia os mais tradicionais preferirem os velhos cavalos, carruagens e carroças, como se a fumaça das locomotivas pudesse perturbar o equilíbrio ancestral do lugar.

— Esse garoto, quando a estação foi inaugurada — começou o senhor Rudolph, tirando o cachimbo da boca e apontando-o como uma admoestação solene —, entrou escondido e se meteu nas entranhas da locomotiva que partiria rumo ao condado vizinho. E sabe-se lá o que fez lá dentro... mexeu em alguma coisa e... bum!

Ele abriu os braços dramaticamente. Scott mal conteve a risada, e Stiles, ruborizado, o atingiu com uma cotovelada certeira.

— Ah... Explosão. Isso não é exatamente uma novidade quando se trata do Stiles — comentou Derek, arrancando um olhar assassino de Stiles, que agora lamentava profundamente que ele tivesse resolvido falar.

— Isso só aconteceu uma vez. As outras vezes... — começou Stiles, mas Rudolph o cortou com a precisão de uma navalha bem afiada.

— O conde Noah, como seria de se esperar, arcou com os prejuízos. E mais: comprometeu-se pessoalmente com a segurança da estação. Seu filho só poria os pés aqui se estivesse acompanhado do próprio pai.

Cada palavra era como uma martelada na dignidade de Stiles, que sentia o rosto corar até as orelhas. Parecia uma criança travessa sendo desmascarada diante da diretoria. E, convenhamos, não havia nada de inocente em explodir uma locomotiva inteira.

Naquela época, é verdade, Stiles não compreendia certos princípios fundamentais da arcanomecânica — especialmente os que envolviam a instabilidade provocada por um excesso de cristais encantados no mesmo compartimento. Um pequeno desequilíbrio, um toque curioso demais... e boom. Mas agora ele sabia. E, com alguma sorte, talvez não explodisse mais nada. Talvez.

— Meu pai não está aqui... — murmurou ele, como se isso ainda pudesse ser usado a seu favor.

— Exato. Então você não entra — declarou o senhor Rudolph com a convicção.

— Mas estou acompanhado — interveio tio Bartosz, forçando o que Stiles teve de admitir ser um sorriso surpreendentemente convincente, apesar das gotas de suor que lhe perlavam a testa.

— Sem querer ofender, senhor Stilinski, mas eu preferiria alguém que possuísse Arkanis. Assim, caso algo... incomum aconteça, posso ter certeza de que o problema será contido — disse o funcionário, e isso pareceu acender algo em Stiles.

— Em poucos dias estarei com a maioridade! Vamos acabar com essa proibição absurda. Não preciso de babá... e, sinceramente, não temos tempo para isso. Deixe-nos passar!

— Ter dezoito anos não o transforma, por si só, em adulto. E foi justamente essa proibição que garantiu a integridade da estação até hoje! — retrucou Rudolph, irredutível.

— Você fala como se eu fosse um monstro... ou, sei lá, uma bomba relógio — resmungou Stiles, cruzando os braços.

Foi então que Peter Hale decidiu intervir.

— Eu poderia ser o guardião dele — disse com naturalidade, como se estivesse oferecendo companhia para um chá.

— E o senhor teria Arkanis? E quem seria de fato o senhor? — perguntou o velho funcionário, estreitando os olhos em desconfiança.

— Peter Hale. Suponho que já tenha ouvido falar dos Hales — respondeu Peter com um sorriso. Não o tipo amistoso de tio Bartosz, mas um que parecia conter dentes demais para ser inteiramente humano. E, de fato, Stiles viu os caninos brilhar à luz da manhã, afiados.

O funcionário soltou um gritinho agudo, tão surpreso que deixou cair o cachimbo, que quicou duas vezes antes de se acomodar no chão de pedra.

— Oh! Sim, claro... os Hales... bem, se é esse o caso... — disse ele, já recuando como se estivesse prestes a ser engolido por um lobo. O que, considerando Peter, não era exatamente uma metáfora.

Finalmente, adentraram a plataforma. Stiles soltou um suspiro exagerado. Ao longe, alguns funcionários da estação lhe lançavam olhares desconfiados, como quem avista uma tempestade prestes a retornar.

— Que exagero! Foi só uma explosãozinha... — resmungou Stiles, numa tentativa fracassada de minimizar o evento que, dois anos antes, marcara sua reputação com o selo definitivo do caos.

— E foi uma explosão bastante impressionante — retrucou Scott, entusiasmado demais para conter o sorriso. — A locomotiva literalmente saltou pelos ares! E bem diante de uma multidão de nobres! Era a inauguração da estação...

— Eu me recordo vividamente... Quase tive um ataque cardíaco — suspirou tio Bartosz. — Sua avó ficou tão furiosa que, no auge da emoção, materializou ilusões de explosões secundárias por toda a estação. O que, naturalmente, deu a impressão de que o estrago fora ainda maior do que de fato foi.

Ele soltou uma risadinha quase nostálgica.

— Bem, isso apenas tornou o incidente mais memorável. Ver os nobres de Beacon Hills em pânico, correndo para se esconder, tropeçando em vestidos de gala, deixando cartolas voarem como folhas ao vento... Admito, foi uma cena singular.

— Que pena que os Hales não estavam presentes! — comentou Peter, soltando um suspiro. — Parece que foi realmente... divertido.

Stiles, no entanto, discordava do adjetivo. Divertido certamente não era a palavra.

Lembrava-se com clareza quase dolorosa da expressão do pai — o conde Noah — quando chegou ao local, empurrando escombros para salvá-lo da locomotiva tombada. E o encontrou perfeitamente ileso, ofegante de empolgação, tagarelando sobre como os cristais de Arkanis haviam sido potencializados pela máquina experimental construída por sua tia. Uma teoria fascinante, é claro, mas que perdeu completamente o impacto diante do olhar petrificado de seu pai.

Convém destacar que o conde não compartilhou daquele entusiasmo. Nem um pouco.

E foi assim que vieram os seis meses de castigo. Meio ano de exílio forçado das bibliotecas, das publicações cientificas e, pior, do seu laboratório de Arcanomecânica. Em vez disso, Stiles foi condenado a acompanhar o pai em reuniões entediantes com parceiros comerciais, participar da colheita no campo da família e manter uma distância regulamentar de qualquer dispositivo com engrenagens ou cristais encantados.

Ele teve certeza de que morreria de tédio. E, por algumas semanas, considerou essa possibilidade com certa esperança.

— E valeu a pena? O que tem de tão especial em um trem? — perguntou Derek, dando de ombros com ceticismo desinteressado.

O que tem de especial? — repetiu Stiles, indignado, como se tivesse ouvido uma blasfêmia. Seus olhos brilharam com aquele entusiasmo inconfundível que precedia uma enxurrada de informações técnicas. — A arcanomecânica simplesmente amplifica a energia térmica gerada pela queima de carvão para produzir vapor de alta pressão, que, por sua vez, move os pistões que acionam as rodas da locomotiva!

Ele falava rápido, com as mãos gesticulando como se moldassem o próprio ar.

— Os primeiros protótipos de trens exigiam enormes quantidades de carvão queimado nas fornalhas. Mas a minha tia — Alphonse Ravenspyr — desenvolveu um método para otimizar essa queima, utilizando cristais de Pyrathor. Eles concentram o poder elemental do fogo, e, ao serem inseridos na fornalha, aumentam em 70% a eficiência energética! Menos carvão, mais potência. Um avanço brilhante!

— Sua tia? — Peter arqueou uma sobrancelha com genuína curiosidade. — Ravenspyr... esse nome impõe respeito. Mas "Alphonse"? Não soa um pouco... masculino?

— Ah, isso tem uma explicação — respondeu Stiles, sorrindo de lado. — Quando ela tentou ingressar na universidade, descobriu que mulheres não podiam se matricular, a não ser em cursos considerados "adequados ao sexo feminino" — seja lá o que isso significasse para aqueles velhos conservadores. Então, ela adotou um nome masculino, disfarçou-se de homem e entrou no recém-criado curso de Arcanomecânica de Solméria. Conseguiu manter o disfarce por anos — inclusive da família.

— E quando defendeu a tese... — completou Bartosz, com um sorriso carregado de orgulho disfarçado.

— Ela revelou sua verdadeira identidade — concluiu Stiles, os olhos quase cintilando. — A banca a havia elogiado como um gênio revolucionário, e de repente perceberam que o tal "Alphonse" era, na verdade, uma jovem mulher. Imagino os rostos deles tentando engolir os próprios elogios! — riu Stiles, saboreando mentalmente a cena.

— Ela manteve o nome — explicou Bartosz — talvez como forma de protesto... ou porque se acostumou. Enfim, ela é... peculiar.

— Ela é fantástica — corrigiu Stiles, com firmeza.

— Certo, bem... De qualquer forma, imagino que esse assunto não seja de grande interesse para vocês. Peço desculpas por terem sido arrastados para isso — começou Bartosz, massageando a nuca com ar constrangido, lançando um olhar a Peter e Derek.

De fato, em teoria, os Hales não deveriam acompanhá-los até ali. O plano original de Stiles era simples — pelo menos na sua cabeça: receber os parentes da Casa Ravenspyr na estação, garantir as cortesias iniciais com a ajuda do tio e, então, seguir com os Hales para a investigação. A diplomacia e as boas-vindas ficariam sob responsabilidade de Bartosz, enquanto Stiles cuidaria do que realmente importava.

Sua prima Lydia provavelmente o mataria por deixá-la de lado, mas ele compensaria isso depois com alguma combinação de elogios, presentes e alguma fofoca da região.

Afinal, ele não podia deixar a missão dada pelo pai em segundo plano. Sim, seu baile de maioridade e aniversário era um evento de grande prestígio (segundo sua avó e sua tia, um marco de iniciação social), mas havia algo mais urgente em jogo. Algo suficientemente grave para manter o conde Noah estacionado na fronteira, investigando a mando da Coroa.

E agora, esse mesmo algo talvez tivesse alcançado o coração do reino.

— Ah, mas agora eu sou o guardião do Stiles — anunciou Peter com um sorriso cheio de intenções, passando o braço sobre os ombros do jovem Stilinski. — Estou comprometido com essa história, segundo seu Rudolf, pelo menos... e, para ser honesto, vai ser interessante conhecer a casa dos Corvos. Já ouvi falar deles, mas nunca os vi em ação.

— Tio, não precisa exagerar... — disse Derek, entre dentes, acompanhando a fala com um baixo rosnado enquanto afastava, sem a menor gentileza ou sutileza, o braço de Peter dos ombros de Stiles.

Stiles corou no mesmo instante, como se a temperatura da plataforma tivesse subitamente subido alguns graus.

— Se vocês querem conhecer os Corvos... bem, aí está a chance de ouro — anunciou Scott, apontando para o horizonte.

Na planície escarpada que se estendia além da estação, primeiro se via a fumaça — uma pluma cinzenta dançando no céu — e, em seguida, a silhueta metálica da locomotiva se delineando, avançando com imponência. O som do apito cortou o ar como uma trombeta de guerra.

Stiles sentiu a excitação crescer dentro de si. Saber que aquela máquina era, em parte, movida por arcanomecânica só aguçava sua imaginação sobre o quanto mais a ciência e a magia poderiam conquistar juntas.

Mas foi Derek quem, de repente, apontou para algo fora do esperado.

— O que é aquilo? — perguntou, não se referindo ao trem.

Stiles, por um breve momento, achou que ele estivesse apenas provocando. Mas então viu: além da locomotiva, havia outra trilha de fumaça. Mais tênue. Mais rápida.

Seguindo paralelamente aos trilhos, surgia um veículo desconhecido. Era de duas rodas, sendo a dianteira significativamente maior que a traseira. Sobre ele, uma única figura, encapuzada, mantinha-se firme. Na parte posterior da engenhoca, um pequeno motor — claramente arcanomecânico — rugia em esforço, soltando fumaça conforme impulsionava o veículo com velocidade surpreendente.

— O que é aquilo? — repetiu Stiles, agora com genuína fascinação. Nunca vira algo assim antes. E embora Beacon Hills não fosse exatamente um centro de inovações tecnológicas, ele conhecia todas as máquinas motorizadas que já haviam passado pelo reino. Aquilo... era novo. Rápido. E misterioso.

— Seja lá o que for, está ganhando do trem! — exclamou Scott, boquiaberto, enquanto o veículo bufava fumaça e disparava como uma flecha viva, ultrapassando a locomotiva como se ela estivesse parada.

Stiles estreitou os olhos, tentando focar melhor na figura sobre o veículo inusitado. O cabelo ruivo, preso em um coque desalinhado, faiscava sob o sol.

— É a tia Alphonse! — exclamou, empolgado. Claro que seria ela. Quem mais faria uma entrada dessas? Será que aquela era sua nova invenção? Só de imaginar a possibilidade de estudá-la, Stiles sentiu o coração acelerar. Será que ela deixaria ele pilotar? Ou, ao menos, desmontar a geringonça com o pretexto científico de "análise estrutural"?

— Alphonse... sempre fazendo entradas dramáticas — resmungou Bartosz, um meio sorriso brotando nos lábios, entre a irritação e a admiração.

— Mas ela não está sozinha — murmurou Derek, lançando um olhar de soslaio para Peter.

— De fato — confirmou Peter, apontando com o queixo para uma segunda trilha de fumaça surgindo no horizonte. Logo atrás da máquina de duas rodas de Alphonse, outro veículo surgia — mais lento, porém sinistro.

Stiles mal conseguia acompanhar, mas os Hales pareciam enxergar com clareza incomum. Será que era um efeito colateral do Arkanis que os tornava mais... aguçados? Ele faria essa pergunta mais tarde, se sobrasse tempo...

O segundo veículo era um contraste grotesco ao da tia. Onde o dela era ágil, elegante, desenhado com curvas aerodinâmicas e beleza funcional, o outro era uma aberração metálica sobre quatro rodas, com uma carroçaria torta que tremia a cada metro percorrido. Ele bufava e pipocava, como se sua combustão estivesse à beira do colapso, mas persistia, ganhando terreno com uma obstinação mecânica.

— Isso é... uma corrida? — perguntou Scott, sem esperar resposta, os olhos arregalados.

Stiles, no entanto, já havia percebido algo perturbador: o segundo veículo trazia um apêndice cilíndrico acoplado à parte dianteira — algo que não combinava com design funcional, muito menos com velocidade. Aquilo parecia... uma arma.

A multidão começava a se aglomerar. Algumas palmas ecoaram, como se tudo aquilo fosse um espetáculo. Era o efeito Alphonse, o inesperado era esperado dela.

Mas a ilusão de espetáculo se desfez quando o cilindro frontal da máquina perseguidora brilhou e disparou uma rajada de fogo.

Alphonse reagiu rápido. Pulou do caminho do ataque, desviando em um arco espetacular que a fez aterrissar com perfeição entre os trilhos — sua engenhoca de duas rodas acompanhando o movimento e entrando na ferrovia. Não havia sido destruída, mas agora, sobre os trilhos, a máquina começava a perder velocidade, adaptando-se com dificuldade ao novo terreno.

A atmosfera mudou num piscar de olhos.

— O que, pelos deuses, está acontecendo?! — exclamou Bartosz, quase suplicante.

— Eu... eu não sei! Mas temos que fazer alguma coisa! Minha tia... — Stiles apontava frenético para os trilhos, onde Alphonse agora manobrava sua máquina, lutando contra a perda de tração.

E o trem se aproximava. Rápido demais.

— Pelo visto, tudo isso vai se tornar mais um evento memorável na estação — comentou Peter, já abrindo os botões da camisa com toda a calma de quem se preparava para um banho de sol. Stiles mal teve tempo de registrar o gesto antes de arregalar os olhos.

— O que você está... — começou a perguntar, corando até a raiz do cabelo ao vê-lo tirar a camisa, revelando o peitoral definido, marcado por cicatrizes. Mas a surpresa virou puro choque quando Peter também tirou as calças e as jogou casualmente para Derek, como quem entrega o jornal da manhã.

— Mas que descaramento...! — exclamou uma senhora da multidão, cuja indignação foi cortada por um grito.

Onde antes estava Peter Hale, agora surgia um imenso lobo — uma criatura de pelagem cinza-prateada, quase branca como neve. Seus olhos ardiam com determinação selvagem.

E então ele disparou. Um vulto ágil e furioso, saltando a plataforma com um único impulso e correndo em direção aos trilhos — à tia Alphonse, ao trem, à máquina inimiga.


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