Feira de Scarborough

Este conto foi inspirado numa cantiga popular muito antiga com o mesmo nome. Scarborough é uma pequena cidade na costa da Inglaterra, onde se realizava uma grande feira popular durante a época medieval.

Apesar das inúmeras versões feitas, eu segui a letra que se pensa ser original e que se encontra aqui em baixo. Espero que gostem.

 ✯

Na encruzilhada à frente da carroça vagarosa, encontrava-se um homem, coberto dos pés à cabeça com um manto esfarrapado. Tinha estado sentado no muro que ladeava a estrada e saltara para o caminho mal ouvira o som dos cascos à distância. O velho na carroça mandou parar os cavalos antes que os animais embatessem no homem que, claramente, não tinha intenções de se mexer.

 — Vai para Scarborough, meu bom homem?  — perguntou o desconhecido no meio da estrada.

O velho cigano, desconfiado,  olhou para a neta sentada ao seu lado antes de voltar a encarar o estranho.

 — Vamos, sim  — respondeu a rapariga, ao ver a armadura a despontar por baixo do manto escuro do forasteiro quando este levantou a mão para afagar o focinho de uma das éguas.

 — Vão para a feira?

 — Vamos, sim  — respondeu o velho.

O cavaleiro suspirou e puxou mais o capuz do manto para cobrir o seu rosto antes de se aproximar dos seus interlocutores, que continuavam sentados na carroça com as rédeas na mão.

 — Poderiam, por gentileza, falar por mim a uma rapariga que lá vive?

A pequena redobrou a atenção e dobrou-se sobre o colo do avô, para poder aproximar a sua cara da do cavaleiro, do outro lado da humilde carroça. Aquilo cheirava-lhe a uma história de amor. Sabia Deus o quanto ela ansiava por uma. Nem que fosse apenas para ser testemunha.

 — Que rapariga? E que quer que se lhe diga?

Sob o capuz escuro, o homem pareceu sorrir tristemente.

 — Irá reconhecê-la quando a vir, Miss. O seu cabelo, do mais laranja que há, está sempre entrançado e preso por largos anéis de osso. As suas sardas emolduram os seus olhos de chocolate e complementam o seu belo sorriso, que aquece qualquer coração.

A jovem na carroça não conseguiu deixar de reparar na dor na voz do homem.

— E o que é que gostaria que disséssemos a essa rapariga? — insistiu a mais nova, arrancando o cavaleiro da sua espiral de tristeza.

— Tem boa memória, Miss? A lista é um pouco longa.

O avô, que deixara parte das suas suspeitas de lado ao reparar no sofrimento do estranho e nos seus bons modos, respondeu pela neta:

— Ela tem a melhor memória de todas! 

A menina sorriu e corou com o elogio.

— Ainda bem. Nesse caso, escolhi uma boa mensageira.

— Pode deixar, que o seu recado será entregue! — respondeu a ciganita.

O cavaleiro começou a andar para trás, devagarinho.

— Diga-lhe para me fazer uma camisola de cambraia, sem costuras ou marcas de agulha. Quando estiver pronta, ela que a lave no poço seco que nunca teve água e onde a chuva nunca caiu e que a deixe a secar no espinho que nunca floresceu desde o nascimento de Adão.

O queixo da jovem caiu. 

— Isso são tarefas impossíveis! Para que precisa ela de fazer isso? — perguntou a cigana.

O cavaleiro assobiou antes de responder:

— Para provar que é o meu verdadeiro amor.

Um cavalo negro, revestido de uma reluzente armadura, saiu das sombras da floresta que envolvia o caminho à esquerda da carroça em resposta ao chamamento do forasteiro encapuzado. Já o cavaleiro estava nas costas da sua montada e pronto a partir, quando o velho o parou.

— Desculpe! — Forçando as rédeas do corcel, o cavaleiro virou-se de novo para a carroça para ouvir a pergunta. — Se a rapariga perguntar quem lhe incumbiu semelhante missão, o que lhe dizemos?

Atirando o capuz para trás para descobrir a cara e os cabelos cor de ébano, o cavaleiro respondeu:

— Ela de certeza que sabe quem é. Mas, se por acaso existir dúvida, diga-lhe que fui eu! — acrescentou, levantando a mão esquerda antes de partir no sentido contrário ao da carroça.

Por instantes, o avô e a neta pensaram que a mão levantada tinha sido um gesto de despedida. Mas depois, ao recordar a cena, aperceberam-se que o homem tinha a palma da mão marcada com uma gorda e torta estrela de 4 pontas. Se contassem à rapariga da feira que o cavaleiro tinha na mão aquela marca, a moça com certeza o identificaria. 

Tomando as rédeas das mão do avô, a pequena cigana ordenou às éguas que retomassem a marcha, seguindo pelo caminho da direita. Estava ansiosa por chegar a Scarborough.

Contudo, um grito, que se sobrepôs aos bater descompassado dos cascos na terra, forçou-a a parar outra vez. A pequena, ainda sentada no banco da frente da carroça, olhou para trás, apenas para ver o cavaleiro de há pouco.

Por momentos, este pareceu indeciso. Mas depois lá falou o que queria:

— Ela que me peça um favor parecido de volta. Estarei à espera!

E partiu, sem dar hipótese de resposta aos ciganos na carroça.

Quando chegaram a Scarborough, horas mais tarde, o sol já se estava a pôr. Por ser tão tarde, avô e neta decidiram procurar um lugar para jantar e pernoitar, ficando a tarefa de ir em busca da moça para o dia seguinte.

A ciganita mal conseguiu dormir nessa noite, mesmo tendo bebido o chá especial do avô para acalmar os nervos. A ansiedade fervilhava no seu corpo, queimado as veias como lava e acelerando o seu coração como se estivesse prestes a declarar-se para a pessoa amada. Como resultado, passou a noite praticamente em claro.

No dia seguinte, com mais energia do que seria de esperar, a menina percorreu ansiosamente toda a feira enquanto o avô, sentado na carroça, vendia os bens que tinham trazido. Ela estava quase a desistir da sua demanda, certa de que tinha vasculhado o recinto todo sem encontrar a dita dama, quando viu de relance uma cortina de cabelos cor de fogo, ao longe. Curiosamente, vinha da mesma zona onde um bando de artistas de rua animava a feira com músicas, danças e acrobacias complicadas.

A pequena cigana aproximou-se do alvoroço e olhou em volta. Em menos de nada, os seus olhos encontraram a mulher que lhe tinha sido descrita: alta, com a tez tão clara que realçava as sardas que lhe emolduravam os olhos castanhos e com rebeldes cabelos laranja presos numa traça apertada, adornada com anéis de osso. Encontrava-se em frente a uma casinha rústica, rodeada de mulher mais velhas com as frontes sujas. 

Atravessando a multidão, a menina dirigiu-se ao que mais tarde percebeu ser uma barraca de ervas e especiarias.

— Bom dia, Miss! — exclamou, chamando a atenção da mais velha.

Assustada com a voz repentina, a ruiva encarou-a.

— Um cavaleiro pediu-me que lhe transmitisse uma mensagem —  continuou a cigana.

Um sorriso calmo e quente nasceu nos lábios finos da mulher, chegando aos seus olhos em curtos instantes. Com um braço delgado, a ruiva rodeou os ombros da mais nova e afastou-a da multidão de senhoras curiosas.

— E que mensagem é essa?

A pequena recitou tudo quanto lhe tinha sido pedido, sem falhar uma vírgula sequer.

— Obrigada — disse a mulher no fim, com o seu largo e calmo sorriso.

A ruiva virou costas à pequena e retornou à sua banca, agora vazia de clientela. A outra seguiu-a.

— Vai fazê-lo, Miss? —  perguntou a cigana, olhando expectante para a mulher do outro lado do balcão.

Aquele sorriso radiante não esmoreceu com a pergunta.

— Mas é claro. Bem, vou tentar, pelo menos. Nunca poderia ser o seu verdadeiro amor se não tentasse.

A pequena suspirou involuntariamente.

— Como eu queria estar apaixonada... Mas, de qualquer maneira, nunca ninguém repara em mim. Mais vale estar solteira do que andar a morrer de amores não correspondidos.

Um brilho travesso surgiu no olhar da ruiva, que levantou um dedo na direção da menina à sua frente antes de se voltar para os armários nas suas costas. Depois de remexer os frascos nas prateleiras, a mais velha deu meia volta, provocando um tilintar estranho com os anéis presos no cabelo.

— Aqui tens —  disse, estendendo dois frascos. —  O mais pequeno é para ti e o outro é para os chás do teu avô.

Duas perguntas surgiram na cabeça da menina.

— O que é que tem o meu?

Um reboliço surgiu nas costas da cigana.

— Salsa, sálvia, alecrim e tomilho —  respondeu a mulher com um sorriso.

A segunda pergunta não chegou a ser formulada. Um grupo de mulheres passou por cima da menina, roubando o seu lugar ao balcão. Por mais que se esticasse, a ciganita não conseguiu voltar a falar com a ruiva e acabou por desistir de esperar que a calma retornasse à pequena loja. Aquelas mulheres não tinham ar de quem se fosse embora cedo.

Assim, a ciganita afastou-se sem chegar a perguntar como é que a mulher sabia que ela tinha vindo com o avô à feira, e que ele tinha por hábito fazer chá. Afinal, elas nunca se tinham visto até àquele momento. 

A menina e o avô ainda ficaram na feira por mais uns dias. E depois dessa experiência tão boa e lucrativa, repetiram a viagem a Scarborough nos anos seguintes, para vender os produtos que o seu acampamento produzia em excesso. No entanto, a jovem cigana, que encontrou o amor pouco depois de receber aquele frasco misterioso, nunca mais voltou a ver a mulher de cabelos cor de fogo.

***

Três anos depois da cigana ter transmitido à mulher ruiva aquele estranho pedido, chegou um forasteiro à cidade costeira de Scarborough. 

Outrora fora um cavaleiro, que abandonara o amor para servir o seu senhor, a quem devia mais do que simples vassalagem: se não fosse o seu mestre, ele não tinha passado da sua adolescência. Escapou com vida de uma guerra perdida e agora, com a morte do seu senhor e sem outra dívida que precisasse de ser saldada, voltava ao sítio onde tudo começou.

Guiado apenas pela correria das crianças na sua memória, o ex-cavaleiro percorreu a feira de Scarborough em busca de uma donzela de cabelos alaranjados. Para seu infortúnio, ela já não se encontrava na cidade.

Perguntou tanto a cara novas como a caras do passado pela jovem, mas ninguém tinha informações que o pudessem ajudar. Sentindo-se impotente, o guerreiro tomou uma decisão: ficaria na cidade à espera dela e colocaria ao serviço da população a arte para a qual tinha sido educado em criança. 

Ele não tinha a certeza se a mulher que procurava alguma vez iria voltar. Mas pareceu-lhe mais sensato estabelecer-se na cidade que ela tanto amava e ficar à espera de um possível retorno do que partir pelo vasto mundo, sem nenhuma ideia quanto ao caminho que ela tinha tomado anos antes ao partir. 

***

O sol ia alto e, no entanto, não havia calor suficiente naquela tarde de inverno para que as ruas da cidade se tornassem convidativas. Quase todos os habitantes se encontravam refugiados em casa, tão próximos das lareiras quanto possível. E os poucos que se viam fora do seu lar por causa dos seus ofícios, sonhavam estar enroscados debaixo das cobertas, reconfortados com o calor do abraço dos seus familiares.

Um homem grande e coxo percorria as ruas de Scarborough, guiado por um rapazinho com pouco mais de 7 anos. Chegados aos destino do visitante, o pequeno recebeu o pagamento prometido e fugiu na direção de casa enquanto o homem entrava nas traseiras de um edifício atarracado.

— Bom dia! Em que é que lhe posso ser útil? —  perguntou uma voz grave ao pé do lume.

— É o ferreiro de Scarborough? — questionou o forasteiro.

O homem ao lado do fogo mergulhou a faca que estava a forjar num balde de água fria e abandonou o seu trabalho.

— Sou, sim. Quem é que deseja saber?

— Mostre-me a palma da sua mão esquerda, por favor.

O ferreiro olhou para o estranho com desconfiança. Contudo, algo no tom de voz do homem à sua frente lhe transmitiu certa urgência e, um pouco a contra gosto, lá cedeu.

Satisfeito por ver a marca em forma de estrela de 4 pontas, o coxo sorriu e atirou um objeto na direção do ferreiro, que o apanhou em pleno voo.

— Tenho uma mensagem para si.

O ferreiro olhou para o pequeno objeto aninhado na sua mão calejada e os seus olhos arregalaram-se de espanto. Ele era capaz de reconhecer o padrão naquele anel de osso em qualquer lado: fora ele mesmo a esculpi-lo.

— Ela tem um favor semelhante a pedir-te —  disse o homem. — Ela quer que lhe arranjes um acre de terra entre a água salgada e a areia, que o ares com um chifre de cordeiro e que o semeies apenas com grãos de pimenta. Quando fores fazer a colheita, fá-lo com uma foice de couro e junta tudo no fim com uma corda feita de urze. Quando tiveres acabado, vai buscar a tua camisa de cambraia.

— Só então serei o seu verdadeiro amor... —  sussurrou o ferreiro, em conjunto com uma voz de menina, emergida das suas memórias.

Apertando o anel na sua mão com força e piscando os olhos para apagar as recordações, o homem de cabelos cor de ébano olhou com determinação para a porta do seu humilde estabelecimento. 

— Onde é que eu a encontro?

O forasteiro encolheu os ombros.

— Ela disse que saberias a resposta a essa pergunta a seu tempo.

Com um borrão de movimento, o visitante saiu para se dedicar aos seus afazeres.

Naquela mesma tarde, o guerreiro sem mestre juntou os seus poucos pertences — incluindo a espada que lhe fora oferecida pelo seu mentor —, selou o seu cavalo e partiu de Scarborough sem olhar para trás.

Achar um pedaço de terra entre a água do mar e a areia não foi fácil, mas a verdadeira natureza do guerreiro fê-lo ter sucesso onde outros falhariam. Construiu para si uma cabana e arou a terra com um chifre de cordeiro, plantando sementes de pimenta nas fendas geradas. Enquanto as plantas se desenvolviam naquele solo hostil, o ex-cavaleiro ocupava os seus dias a fazer uma foice de couro e uma corda de urze. 

E quando finalmente teve tudo pronto, esperou.

***

O bosque à saída de Scarborough estava envolto numa espessa neblina naquela manhã, pelo que não se conseguia ver mais do que um par de metros à frente do nariz.

— Não vás... —  sussurrou a jovem, agarrada ao braço do adolescente a seu lado.

— Não posso ficar. Devo-lhe a minha vida e ele exige que a use ao seu serviço para pagar a minha dívida respondeu ele, abraçando com força o corpo delgado do seu amor.

Ela, na altura uma criança inexperiente na vida, chorou e soluçou.

— O amor impõe aos amantes tarefas impossíveis, mas nenhuma delas é maior do que  aquilo que um coração consegue suportar. — Convicta, ela quebrou o abraço para olhar o rosto emoldurado pelo cabelo e a barba incipiente, ambos negros como ébano, contrastando com o verde das íris do aprendiz de ferreiro. Ao fazê-lo, os anéis de osso no seu cabelo, que ele tinha esculpido para deixarem de ser enfadonhos, retiniram. — Ficarei à tua espera

 — Não posso deixar que fiques à minha espera. Não sei quando vou regressar. 

— Não há pecado em esperar pelo nosso verdadeiro amor.

Ele franziu o cenho, cético.

— Como sabes que sou o teu verdadeiro amor?

Não que ele duvidasse da força dos seus sentimentos. Desde criança que o amor que nutria pela adolescente à sua frente mal lhe cabia no peito. E ele tinha a certeza que ela o amava também.

—  Há uma maneira — disse, muito séria, ao apagar os resquícios de lágrimas tanto da sua face como da dele. —  A arcaica maneira da Natureza, que é um dos muitos segredos do meu povo: se realizares e suportares tarefas impossíveis por mim, saberei que és o meu verdadeiro amor.

A neblina trouxe o eco de armaduras e cavalos.

— Anda, rapaz! — gritaram ao longe.

Ele soube que era consigo. Não podia ser com mais ninguém.

— E aqui temos a nossa primeira tarefa impossível: se suportarmos esta separação sem lágrimas ou saudade, saberemos que o que há entre nós é amor verdadeiro.

Ele assentiu, concordando. Instantes depois, a promessa silenciosa estava selada com um amargo beijo de despedida.

***

O ex-cavaleiro despertou sobressaltado do seu sono carregado de memórias. O sol ainda não se tinha levantado quando ele se arrastou do catre onde dormia para uma bacia com água pousada a um canto. Porém, ao mergulhar as mãos na água gelada, uma rajada de vento vergou as tábuas da janela, entrando na cabana e trazendo até aos seus ouvidos o sussurro de uma voz conhecida.

E com uma simples palavra, o ferreiro ficou a saber exactamente a que cidade se dirigir para encontrar a donzela dos seus sonhos.

Impaciente, o homem apressou os seus afazeres matinais e colocou-se ao caminho. O seu cavalo, apesar de ser velho, correu como nunca antes o tinha feito. Parecia até que partilhava da ansiedade do dono.

Poucas horas depois, cavaleiro e montada entravam na cidade indicada. Estranhamente, não se via vivalma.

O corcel foi deixado junto a um bebedouro rodeado de pasto para comer e descansar, enquanto o homem se afastava a passos largos na direção da praça da cidade. À medida que se aproximava, as ruelas desertas e silenciosas iam sendo substituídas por ruas sucessivamente mais largas e ruidosas. Quando deu por si na periferia da praça, tinha à sua frente um mar de gente.

Na esperança de entender a razão de todo aquele alarido, o homem subiu para cima de uns caixotes próximos, erguendo-se acima da multidão. O seu olhar estendeu-se até ao horizonte, mas depressa se focou no centro da praça e na mulher presa à estrutura de madeira ali erguida.

Os seus olhares cruzaram-se e ela deixou que um sorriso sentido se desenhasse nos seus lábios ensanguentados. Aquela reação não passou despercebida aos olhos dos aldeões que, ao tomar o seu gesto por desafio, se encheram de injustificada fúria.

Ignorando o calor e a dor crescentes, a mulher olhou fundo nos olhos do ferreiro por entre os cabelos cor de fogo que caiam sobre a face suada. Em seguida, olhou para o seu próprio corpo, erguendo a cabeça instantes depois. Ao encontrar de novo as íris verdes brilhantes do seu amado, não viu mais nada para além de compreensão.

Foi com lágrimas nos olhos que o homem de cabelos cor de ébano entendeu que a única peça de roupa no corpo da sua amante mortal era a camisola de cambraia. Sem costuras ou marcas de agulha.

A ruiva era mesmo o seu verdadeiro amor.

O coração acelerado da donzela falhou uma batida ao ver o que escorregava lentamente das mãos do seu amante, petrificado pelo choque no topo dos caixotes: o ramo de pimentas unidas pela corda de urze. Ela não podia estar mais feliz. O seu instinto jamais se enganara.

O guerreiro, ainda que petrificado, fervia numa raiva crescente e mais intensa que as chamas que beijavam os pés da ruiva. A sua mão esquerda, envolta num estranho brilho invisível aos olhos das pessoas mais próximas, doía no pedaço de pele marcado com uma estrela.

A multidão atiçou o fogo, que trepou pelo corpo da donzela a uma velocidade sobrenatural. Se ao menos ela não se tivesse esquecido da palavra que extinguiria as chamas como se estas nunca tivesse existido, talvez tivesse conseguido desfrutar de mais um século ou dois na Terra, desta vez com a companhia da sua outra metade. No entanto, a sua memória falhou-lhe. Ao menos, quando perdeu os sentidos, ia mergulhada numa intensa onda de felicidade.

Como que em resposta ao desmaio da sua amada, os olhos do ferreiro mudaram de cor e a sua metade obscura eclipsou a humana, extinguindo a pouca humanidade que lhe restava. 

Se os humanos à sua volta tivessem percebido quem era o verdadeiro demónio naquela praça, hoje as suas almas não andariam a vaguear pelos escombros do que antes fora uma pacata cidade, em busca dos litros de sangue que serviram de bebida às criaturas das trevas que habitam o Submundo e das carcaças usadas como sacrifício num feitiço proibido, que trouxe da terra dos mortos uma bruxa beijada pelo fogo.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top