Capítulo 23

Ele é um completo imbecil. Não acho que poderia ter tido mais sorte na vida. Por anos tentei descobrir uma forma para me livrar de Kya, mas a garota simplesmente não largava o Reino de mão. O trono devia ser meu. Devia ser meu por direito. Esse Reino, todos os Reinos, deviam ser meus. E agora vão ser, graças à completa falta de inteligência política do Príncipe do Sul. Pessoas que se acham inteligentes sem ter nenhum motivo para isso são as mais fáceis de manipular. Normalmente essa certeza de si vem acompanhada por um ego frágil que precisa ser afagado. E qual a melhor forma de afagar o ego de um homem que foi criado para acreditar que era o mais poderoso dos Herdeiros do que uma bela Princesa entregue de presente em casamento?
Layla sempre foi muito mais útil aos meus propósitos do que Kya jamais poderia ter sido. Já estava pensando em uma forma de provocar sua morte sem que as suspeitas recaíssem sobre mim por muito tempo antes de sua coroação. Finalmente, havia encontrado a forma perfeita. Mas a Profecia dos Deuses foi uma solução muito melhor do que eu jamais poderia ter planejado. Se ela morrer no caminho, lágrimas não cairão de meus olhos. E se, por uma infelicidade do destino, ela voltar com vida, bom, não importa. Até lá o Reino já vai estar irremediavelmente em minhas mãos, e não vai ter nada que ela possa fazer. E se tiver, bom, a morte dela já estava planejada de qualquer forma.
O casamento vai acontecer dentro de uma semana e meia. A Rainha e a Princesa do Sul já estão devidamente acomodadas, com todo o conforto que pode ser oferecido. Apenas estranho a demora de Elthano, ele deveria ter chegado noite passada. Percorro rapidamente os olhos pela mesa, conferindo se há algo mais a ser feito por hoje. Posso sentir o sol se pôr nas minhas costas, o brilho alaranjado começa a invadir a sala. Preciso de uma bebida. Uma boa taça de vinho parece apropriada para celebrar a ocasião.
Saio do escritório fechando as pesadas portas de madeira em um ruído estrondoso. Dois guardas estão na entrada, parados feito estátuas em seus uniformes perfeitamente alinhados como deve ser. Ordem. Esse lugar precisa de ordem, e não há ninguém mais capacitado para tal do que eu.
- Ministro. – um dos soldados chama quando cruzo por seu caminho e paro, aborrecidamente e virando a cabeça em sua direção. Com um aceno e cabeça silencioso, ele estende a mão e me entrega um envelope, dizendo se tratar de uma carta enviada pelo Rei do Reino de Fora. Congelo. O papel arroxeado pertence ao Norte e não às terras das plantações. Esse envelope deveria ser verde. Saio sem agradecer e me dirijo diretamente aos meus aposentos.
Não evito que a primeira coisa feita seja servir-me um gole generoso do líquilo alcóolico adocicado. Levo a taça comigo quando sento-me na beirada do colchão macio revestido por uma manta grossa que sedutoramente me convida para uma noite de sono como há muito não tenho. Quebro o lacre e, cautelosamente, retiro o papel fino de dentro do envelope. Engasgo com a bebida quando reconheço a caligrafia. Kya.
Ministro,
Como vai? Confortável? Aproveitando a estadia? Acredito que a pergunta mais importante nesse momento seja: como está o MEU Reino? Ainda de pé? Me pergunto qual o seu plano no momento. Me pergunto de que artimanha está se valendo na tentativa de governar o que nunca lhe pertenceu. Entendo que a Monarquia possa parecer injusta para muitos, afinal, que mérito tenho eu em clamar ser detentora do direito de governar o Norte quando tudo o que fiz foi nascer na família certa, e nascer alguns segundos antes de minha irmã. Sinto muito se for esse o caso, se for esse o motivo de tanto ódio e desprezo que você sente por mim. Mas isso não é problema meu.
A verdade é que esse é o meu Reino, o meu povo, o meu trono e minha coroa. E se você está recebendo essa carta, significa que, como previsto, você está envolvido em algum estratagema torpe para tomar o que é meu por direito, por herança, por vontade dos Deuses e para o que eu fui treinada minha vida inteira.
Veja, esta carta está sendo escrita hoje, logo após a Cerimônia de coroação. Você acabou de ler a Profecia enviada pelos Deuses, e saiu. Estou sozinha em meu escritório, planejando o futuro do meu povo. Acredite em mim quando digo que cada passo está sendo planejado nos mínimos detalhes. Meus planos de contingência têm planos de contingência desenhados. Nada me escapa.
Confesso que até o presente momento não tenho certeza do que vai acontecer. Mas tenho certeza de uma coisa. Me ver longe deste Castelo é a oportunidade exata que você estava esperando para tomar o que não lhe pertence.
Esta carta será entregue a Adaliz, juntamente com instruções detalhadas de como proceder na minha ausência. Você sempre disse que eu traria desgraça ao Reino por instigar uma guerra que não necessitaria existir e, pois bem, você estava certo. Não me importo em começar uma guerra, e é exatamente isso que estou lhe avisando. Vou garantir que os quatro Reinos estejam debaixo de chamas e transformados em Ruínas antes de permitir que você tome o meu lugar.
O fato de você estar lendo essas palavras nesse instante prova o quão previsível sua ambição é. Então te darei um aviso, e um único aviso: desista. O que quer que você esteja armando, desista. Ou você sequer vai saber o que te atingiu.
Não me tome por tola, Ministro. Arrogante, prepotente e impulsiva foram adjetivos que saíram da sua boca para se referir a mim. Imprudente, estúpida e fraca, não. Lembre disso.
Envie meu amor à Layla.
E a você, sugiro que corra rápido.
Kyara,
Rainha do Reino do Norte.
Releio a carta incontáveis vezes tentando colocar senso naquelas palavras. Uma ameaça genérica. Então Kya estava preparada para que eu tentasse roubar o trono, grande novidade. Qualquer idiota saberia disso. Palavras vazias em uma carta longa demais que não diz nada. Uma mosca em minha sopa; pois bem. Tudo que preciso fazer é jogar a sopa fora e fingir que nada aconteceu. Levanto da cama e caminho em direção à lareira para queimar a folha de papel fino, e é quando percebo uma segunda folha dentro do envelope. Apoio-me contra a parede enquanto desdobro a página que revela uma caligrafia desconhecida.
O timbre do Reino de Fora atinge meus olhos e, antes mesmo de começar a ler o conteúdo daquela mensagem, tudo começa a fazer sentido. Maldita! Como? Como é possível que ela tenha planejado qualquer coisa, como é possível que tenha pensado tanto tempo à frente? Quantos cenários ela cobriu para que se chegasse a isso? E, pelos Deuses, Samantha e Lorenzo perderam o juízo? Sequestrar o Rei do Sul? Quebrar os acordos do Pacto? Isso é... irreal.
Fecho os olhos e permito que uma risada depressiva escape pela minha garganta. Boa jogada, Kya. Meu erro foi subestimar o quão longe a impetuosa Rainha do Norte iria pelo seu tão adorado Reino. Não imaginei que seria capaz de convencer um Reino inteiro a se virar contra os outros baseado apenas em um casamento político que sequer foi consumado, e isso faz com que eu me pergunte o que exatamente foi dito aos pais do Príncipe Tobiah. Eles estão comprando uma briga muito maior do que imaginam.
E Adaliz? Pateticamente depreciada pelos seus próprios, talvez Kya tenha sido capaz de comprar seus serviços, mas não acredito que toda a forma militar esteja com ela. Arthuro é um homem sensato e jamais concordaria com essa sandice.
Então eles estão mantendo reféns o pai de Hadaward. Que seja. Que matem o velho; isso só significa que o príncipe vai ter acesso ao comando das Minas e do governo mais cedo. E, uma vez que ele esteja casado com Layla, bom, isso significa que eu vou ter acesso a tudo isso.
Tudo que preciso fazer é apressar esse casamento. Não tenho dez dias. Preciso que seja feito na metade do tempo. Jogo na lareira todos os papéis, menos o bilhete de Lorenzo confessando o sequestro descabido. Caminho até a porta e com um único movimento brusco a abro. Vejo o soldado de guarda dar um pulo, surpreso. Patético.
- Quero Layla aqui. Agora. Vá busca-a.

- Não faz sentido. – Layla sussurra, os belos olhos claros perdidos vagando pelo quarto. Como sempre. Nada faz sentido para ela. Como pode ser tão lenta? – Por que eles fariam isso?
- Acredito que seja uma jogada desesperada, querida. – respondo, segurando suas mãos e a encarando como se ela fosse a coisa mais importante do mundo e não só um peão tolo e manipulável. – O Príncipe Tobiah e sua irmã vão se casar assim que retornaram, se retornarem. Acredito que a ganância tenha subido à cabeça dos governantes do Reino de Fora e eles estão tentando a todo custo impedir que esse casamento aconteça para que eles não percam poder sobre o Norte.
Ela balança a cabeça positivamente e me encara, as sobrancelhas franzidas como se tentasse encontrar uma solução. Pelos Deuses, Layla. Não é hora de tentar fazer sua cabeça servir para alguma coisa além de segurar seus cabelos. Tento controlar minha irritação, mas a urgência que a situação exige faz com que minha voz saia um pouco mais ríspida do que deveria.
- Entendo que você esteja preocupada com seu futuro sogro, ele vai ser parte da sua família também, mas não temos tempo para isso. Você precisa casar com Hadaward o quanto antes. O Norte está exposto. Não temos um governante. Eu posso cuidar de todos os assuntos oficiais para você, querida, mas não tenho o título. O Reino precisa de um governante. E você sabe que não pode ser você; Kya é a única herdeira por direito, a coroa pertence a ela. Você não tem poder nenhum no trono.
Ela balança a cabeça mais uma vez, em silêncio. Respiro fundo e me esforço para não chacoalhá-la até colocar senso nessa cabeça desmiolada.
- O Norte está vulnerável. Podemos ser atacados a qualquer momento. É isso que você quer? Que o Reino que seu pai lutou tanto para fazer crescer seja perdido no meio de uma batalha sem sentido porque sua irmã decidiu se comprometer com pessoas gananciosas e sem escrúpulos e depois sumiu, nos deixando expostos e fracos?
Consigo sua atenção e vejo uma fagulha queimar em seus olhos, como acontece toda vez que trago Kya à conversa. Finalmente!
- Ela não teve escolha, Ministro. Os Deuses a levaram. – Ela diz e me lembro que ela ainda está acreditando nessa baboseira de que os Deuses tiveram alguma coisa a ver com o sumiço repentino da irmã. Fico em silêncio e espero suas próximas palavras. Ela suspira. – Está bem. Comece os preparativos para a Cerimônia. Avisarei eu mesma os convidados que a data foi alterada. Espero que consigam chegar a tempo. – ela divaga, e concordo. É necessário um quórum mínimo em todo casamento de governantes dos Reinos, atestando que o compromisso é de conhecimento do povo e é abençoado pelos Deuses. De nada vai adiantar tudo que estou fazendo que essa união não for validada.
Layla deixa o quarto incumbida da missão de enviar os convites atualizados, e eu me dirijo diretamente à mesa localizada no canto esquerdo do cômodo.
Alcançando uma caneta, começo a redigir uma carta à Arthuro. O Primeiro Comandante do Reino de Dentro precisa ser informado do ato de Traição de sua subordinada e o disparate dos pais de Tobiah.
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