Capítulo 22

Não me lembro qual foi a última vez que vi meu marido nesse estado, pobre homem. Parece a ponto de ter uma síncope e cair duro, no chão. Permaneço sentada nessa poltrona, como tenho feito pelos últimos minutos, observando enquanto ele lê atentamente a carta que está em suas mãos. Adaliz me olha de soslaio e faço o que posso para não olhar em sua direção. Semanas já se passaram desde que meu filho saiu nessa aventura desvairada com a Rainha do Norte, e imploro aos Deuses, todos os dias, para que ele esteja bem, para que nada de ruim tenha lhe acontecido. Não conseguiria viver sem meu Tobiah aqui comigo. Lorenzo me encara por entre os cílios e sei que nada de bom vai vir de sua cara emburrada.
- Essa é a maior estupidez que já ouvi em todos esses anos de Governo. – Ele anuncia, o papel levemente amassado em suas mãos pela força com a qual o segura. – Será que a tão conhecida sensatez do Norte morreu com o antigo Rei? O que essa menina está pedindo é uma insanidade!
Vejo Adaliz, de pé, recostada na estante milimetricamente organizada, se mover em direção à mesa e sei que ela está a ponto de falar alguma coisa, então me adianto.
- Querido, por favor. É o futuro de nosso filho também, não se esqueça. – Pondero – De nada adianta o compromisso que ele assumiu com ela se o governo do Reino for parar nas mãos de outra pessoa.
Ele levanta em um movimento só, bruscamente, amaldiçoando tudo e todos com sua voz grave e autoritária. Impaciente, começa a se mover pelo grande salão onde em algumas horas vamos receber o Rei e a Rainha do Sul. Olho ao redor pela sala decorada em tons pastéis, apenas a cortina de um verde profundo destoando das outras cores monótonas. Aguardo em silêncio, observando-o nervoso como um animal preso que quer fugir, mas não sabe para onde ir.
- Ora, maldição! – Brada, e eu pulo da cadeira, assustada. – Isso é suicídio, você sabe? Se isso der errado, estamos todos condenados! – Ele berra, e vejo um dos guardas que está vigiando a porta discretamente inclinar a cabeça em direção ao cômodo, conferindo que há necessidade de intervenção.
- Eu lhe garanto, Majestade, que tudo sairá como o planejado. – Adaliz, esticando o corpo para parecer mais alta, diz, tentando a todo custo manter a serenidade em sua voz.
- E o que é que você sabe, Comandante? Porque o que eu sei é que os outros do seu Reino não te levam a sério. Tenho certeza que se eu contatar Athuro agora ele vai me dizer que você não sabe o que está fazendo. – Meu marido pergunta e posso ver a frustração em seus olhos. Trinta anos de casamento fazem com que você conheça alguém como a palma de sua mão e eu sei, sei com todo meu coração, que Lorenzo é um homem bom e sensato, mas a cautela que todos esses anos de trabalho lhe impuseram faz com que seja difícil para ele ver além do óbvio. Ele tem medo, e com razão. Sua preocupação não é infundada, ele está certo: se alguma coisa der errado, estamos condenados. Nem mesmo os Deuses serão capazes de nos ajudar.
- O Comandante Arthuro é um homem... rigoroso. – Adaliz responde, escolhendo bem as palavras. Ela é inteligente, tenho certeza que está pensando com cuidado no que dizer. Ou assim espero. – Mas tenho certeza que quando entender a extensão dos acontecimentos, vai ser capaz de enxergar que-
- O Comandante Arthuro - Lorenzo diz com desdenho – é um idiota, sem meias palavras. Um grandessíssimo idiota. É capaz de condenar todos nós à morte apenas para manter a rigidez do seu sistema perfeito. Eu sei disso, você sabe disso, todo mundo sabe disso. É só mais uma das coisas que ninguém fala em voz alta. Então, vou perguntar mais uma vez, Comandante. Como você pode me garantir que tudo sairá como o planejado?
O silêncio é a única coisa que recebemos como resposta. Ela o encara, mantém os olhos firmes sobre ele. Ela me lembra a mulher que eu gostaria de ter sido. Não posso sequer imaginar o que ela passa sendo a única mulher, cercada por tantos homens autoritários que não escondem seu descontentamento por ter que suportar sua presença. E, mesmo assim, ela não fraqueja. Mantém o olhar firme sob a acusação de meu marido.
- Não posso. Mas é a nossa melhor chance. – Ela admite e eu a encaro, surpresa. Não acho que essa tenha sido a melhor resposta. Mentir as vezes é a melhor solução.
Lorenzo parece compartilhar da minha surpresa, porque olha para ela por longos minutos, intermináveis segundos que passam devagar, em silêncio, sem dizer uma palavra, nem mesmo sua respiração é audível. Ele está boquiaberto e se limita a chacoalhar a cabeça negativamente e soltar um grunhido de reprovação.
- A melhor chance é deixar as coisas como estão. – Ele responde, pragmático, caminhando em direção à saída. Adaliz fecha os olhos e balança a cabeça, suspirando.
O motivo pelo qual ela me lembra da mulher que eu gostaria de ser é porque fui criada cercada por homens e agora, durante toda minha vida adulta, estou cercada pelo meu marido e meu filho. Não há espaço para mulheres nas decisões governamentais, foi assim que fui ensinada, e Adaliz é a prova viva de que esse pensamento ainda é perpetuado. Então, ao longo dos anos assisti, apenas assisti calada enquanto outros controlavam o meu Reino. É meu Reino, afinal sou eu a filha do antigo Rei. Lorenzo apenas governa porque é meu marido, casou-se com a futura rainha e, por isso, entende e incentiva tanto Tobiah a seguir o mesmo caminho com Kya. Há uma parte de mim, contudo, que duvida que as motivações de meu filho sejam as mesmas de meu marido. Não duvido do afeto de Lorenzo por mim, mas isso sempre ficou em segundo plano; nossa união foi estratégica para ele e para meu pai, que não admitiria uma mulher destruindo o trabalho de sua vida. Palavras dele. E assim foi, e assim tem sido, já que nunca me impus. Nunca achei que pudesse. E agora Layla está sendo forçada em um casamento com o herdeiro do Sul pelo mesmo motivo, já que aparentemente a única mulher dos quatro Reinos que é capaz de se impor perante todos os homens comandantes que nos cercam está perdida em algum lugar. A verdade é que a Profecia dos Deuses foi extremamente conveniente para todos os que ficaram quando ela partiu em sua missão. As cartas que ela enviou por Adaliz fazem completo sentido quando vistas por esse ângulo; é uma mulher inteligente essa, a noiva de meu filho.
- Querido. – Digo, antes que perca a coragem. Ele para e me olha por sobre o ombro. – Precisamos fazer isso. – O choque em seu rosto deixa claro que ele não esperava nenhuma intromissão de minha parte. E ele está certo, eu também não esperaria. Com um longo suspiro, ele acena positivamente com a cabeça.
- E o que exatamente vamos dizer para nossos convidados quando eles chegarem?

Posso ver a ansiedade nos gestos de Lorenzo. Ele batuca o chão com o pé direito e impacientemente tenta manter a postura de Rei despreocupado, e falha. Preciso segurar um sorriso. Há tempo não via tanta insegurança em meu marido e confesso que é bom ter o vislumbre de que ainda existe uma pessoa, um coração, por debaixo de toda sua autoridade.
O dia está agradável, como sempre. Uma brisa leve penetra no salão pelas amplas janelas. Sentada no trono ao lado dele, posso ver o céu azul sem nuvens e ouvir o canto de animais diversos pela ilha. É época de reprodução dos peixes que cercam essa parte do mar, então a pesca está temporariamente proibida, e a ausência de grandes navios e pequenas embarcações pesqueiras adiciona uma nota extra de silêncio aos arredores da ilha onde o castelo está localizado. A calmaria é agradável e convidativa e pouco revela sobre o banho de sangue esses os tapetes alaranjados felpudos estão prestes a testemunhar.
O primeiro soldado entra pela porta, anunciando a chegada dele. Elthano, Rei do reino do Sul, em toda sua imponência e oitenta anos nas costas, cruza o alto portal de entrada. A distância entre onde ele está e o par de tronos onde estamos sentados é apenas de alguns metros e eu desejo que fosse maior. Esse homem me embrulha o estômago; o sistema inteiro do Sul me deixa doente. Não confiaria em deixar este homem sozinho com minhas filhas, se tivesse alguma. Dois guardas vestidos em dourado e branco, as cores do Sul, o acompanham, como sua escolta particular. Ele veio sozinho e me pergunto o que se fez de sua esposa e de Maryam.
- Majestade. Belíssima Rainha – Elthano nos saúda no que posso ver ser uma formalidade forçada. Mal acena com a cabeça, não vou prender minha respiração esperando por uma reverência. – Fico honrado com vosso convite, embora curioso acerca do motivo? – Questiona, pomposo. Lorenzo respira fundo ao meu lado.
- Gostaria de ir até a sala de reuniões para conversarmos mais à vontade? – Ele pergunta no que sei que é uma tentativa de adiar a conversa o máximo possível. Elthano balança a cabeça negativamente, colocando as duas mãos nas costas, e espera. Seus cabelos grisalhos e fartos estão bem penteados e a verruga na ponta de seu nariz distrai minha atenção. É um homem baixo e barrigudo, não muito imponente em estatura, mas que me causa calafrios por seu olhar sempre malicioso e falsa educação que esconde uma alma doentia. Sua fama o precede.
- Minha esposa e filha seguiram para o Norte sem pausas, para auxiliar Hadaward e a princesa Layla com os últimos preparativos para o casamento. – Elthano explicou, justificando sua presença solitária em nossas terras. – Coisas de mulher. – Ele acrescenta com um sorriso falso para amenizar o clima, ao que eu e meu marido respondemos sorrindo de volta. – Apreciaria se essa conversa não se alongasse além do necessário, Majestade. Gostaria de me unir ao restante de minha família antes que as comemorações oficiais tenham início.
- Vou direto ao ponto, sendo assim. – Lorenzo começa, com um suspiro. – O casamento entre o seu filho e a segunda filha do Norte deve ser cancelado. – Ele diz sem rodeios, para minha surpresa. E posso ver essa incredulidade se estender aos olhos de Elthano, apenas por um segundo antes que ele voltasse a sorrir seu sorriso político.
- Acredito que seja óbvio que vosso pedido não será atendido, Majestade. Permite-me perguntar o motivo para essa insanidade? – Elthano pergunta, se esforçando para não revelar o quão intrigado ficou com o pedido, mas posso ver. Lorenzo se limita a estender o envelope que pegou da mesinha ao seu lado e entregar a um soldado que estava parado ao seu lado, que anda até o outro homem e o entrega.
- O que é isso? – Ele pergunta ao receber a carta e analisar o envelope arroxeado sem inscrições. Também gostaria de saber, penso, curiosa acerca do conteúdo dentro do envelope lacrado.
- Uma carta da Rainha do Norte. – Lorenzo responde e Elthano ergue uma sobrancelha.
- Layla não precisaria do intermédio de Vossas Majestades para se comunicar comigo. – Ele atesta, confuso.
- A princesa Layla não é, nem nunca será, a Rainha do Norte. – Repreendo, e vejo a compreensão atingir seus olhos. Ele abre o envelope em um rasgo só, o decoro sendo deixado de lado instantaneamente. Ele desdobra o papel fino e percorre os olhos rapidamente, sua expressão facial alterando diversas vezes em questão de segundos.
- Isso... isso é um disparate! – Elthano se exalta, amassando as bordas do papel por entre seus dedos enrugados, os olhos arregalados indo de meu marido para mim. Com uma bufada, virou-se de costas para caminhar em direção à saída, apenas para ser bloqueado por dois de nossos guardas. Quando se virou de novo em nossa direção, era medo que brilhava em suas pupilas azuladas.
- Receio que não podemos deixa-lo partir, Majestade. – Digo, tentando manter minha voz firme e convencer a mim mesma que manter aprisionado uma das quatro pessoas mais importantes dos quatro Reinos é a coisa certa a se fazer.
- Soldados não podem se envolver em questões políticas. – Ele salienta. – Um guarda não tem permissão para atacar um governante. Está no Pacto! – Ele berra, se referindo ao tratado de paz estabelecido entre os Reinos após a última grande guerra, milênios atrás.
- Parece que o Pacto não mais tem validade. – Lorenzo responde, uma carranca em seu rosto e não posso culpa-lo. É um caminho sem volta. Não sei que proporções tudo isso vai tomar, e imploro aos Deuses para que Kya volte logo e traga meu filho em segurança. Tento convencer a mim mesma que estou fazendo o que devo, que estou seguindo as vontades daquela que Tobiah acredita ser a melhor escolha para todos os Reinos. Mas a verdade é que só quero meu filho em casa, onde posso vê-lo. Estamos começando uma guerra, talvez pelo motivo correto, mas minha motivação é errada.
- Vocês vão começar uma guerra. – Ele reverbera, como se lesse meus pensamentos, perdendo completamente a compostura pomposa que tinha quando chegou. – Por causa de uma Rainha que sequer sabem se está viva?
- Ela está viva. – praticamente grito, a emoção tomando conta de mim em um momento que não deveria. Ela tem que estar. Espero que Kya tenha pensado bem em todas as consequências desse plano que bolou sem que estivesse aqui para garantir sua execução correta. Rezo aos Deuses, em uma oração silenciosa, para que a traga de volta rápido. Posso sentir que as coisas estão prestes a sair do controle.
Vejo um soldado sair pela porta do Castelo e se dirigir a um barco que o espera. Ele leva consigo outra carta da Rainha, essa endereçada ao Ministro.
Que os Deuses tenham piedade de nossas almas quando aquele homem receber esse envelope.
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